Da excepcionalidade americana

A chegada de Trump ao posto mais alto na mais importante democracia planetária foi um momento de tristeza e aflição para quem se reveja nos valores clássicos que estruturam as noções de humanismo e liberdade na origem e desenvolvimento daquilo a que chamamos civilização liberal. Esta tradição liberal abarca todas as inovações intelectuais, políticas e sociais que estabeleceram, ou contribuíram para estabelecer, um reconhecimento universal da dignidade e direitos políticos de todos os seres humanos sem necessidade de outra qualificação. Num certo sentido, tem-se tratado de uma elaboração positiva com a intenção de reconhecer uma condição natural: se és humano, és naturalmente livre, cabendo aos restantes poderes adaptarem-se a essa tua natureza primeva. Nesse trajecto, tem-se lutado com as concepções naturalistas acerca do poder, as quais o colocaram ou ainda colocam do lado do mais forte e/ou do divino, da etnia ou da ancestralidade. E blá, blá, blá do melhor que este planeta já criou.

Ao mesmo tempo, aquilo a que temos assistido, desde uma campanha eleitoral que pulverizou todas as regras conhecidas da comunicação política até ao caos instalado na Casa Branca logo a partir do primeiro dia em que Trump lá pôs os presidenciais pés, é incrivelmente fascinante. Mais, é um privilégio, para cientistas sociais e meros curiosos, poder observar o edifício da governação e democracia norte-americana a ser levado para águas nunca dantes navegadas, pelo menos na memória dos vivos e dos que estudam os canhenhos de História. Não fosse tudo isto poder acabar horrivelmente mal, seria ocasião para gáudio inesgotável.

Mas será que devemos temer o pior ou, pelo contrário, Trump servirá para provar a robustez do sistema político norte-americano? Veja-se a actual situação que deixou centenas ou milhares de milhões em estado de choque: estamos confrontados com um presidente dos EUA que defende racistas, fascistas e nazis e que despreza as vítimas da sua violência e crimes. Nunca tal tinha acontecido e podemos apostar tudo o que tivermos no banco e nos bolsos em como não voltará a acontecer. Ao tempo em que escrevo, a ênfase mediática está concentrada na abjecção moral e civilizacional da sua atitude. Porém, a situação revela algo muito mais grave. Um presidente dos EUA que não tem a noção dos efeitos políticos, sociais e culturais do que está a dizer a respeito destes assuntos não está igualmente capacitado para tomar decisões em qualquer outra matéria de importância para o Estado e a segurança do seu país. Neste momento, no Pentágono, na CIA, no FBI, nas universidades e no mundo empresarial americano o sentimento deve ser de pânico caso se rejam pelo realismo. Essa gente toda não vai ficar de braços cruzados a ver um completo taralhouco, patologicamente narcisista, a tornar a América miserável outra vez.

6 comentários a “Da excepcionalidade americana”

  1. O assunto é muito sério e deve ser comentado com seriedade e não com graçolas. O sério é que os EUA têm actualmente um presidente racista e xenófobo legitimamente eleito. O sério é que os EUA têm actualmente um presidente eleito democraticamente por milhões de americanos dos quais faziam parte todos ou quase todos racistas e xenófobos do país, Será que a democracia nos EUA está em perigo?
    Diz-se que a História não se repete. Oxalá que não. Mas também se diz que não há bruxas.

  2. é muito fácil falar de tribuna e ser socialmene bonzinho quando se vive no céu , com umas condições de vida porreiras , sem grandes preocupações e a ombrear com outros humanos diferentes em cor e credos mas igualmente bem na vida .. os ” bem pensantes” escrevem e falam e teorizam das suas bem aventuradas circunstâncias …..
    a lição a tirar de aí é que ser o país mais multicultural do mundo a longo prazo pode dar grandes problemas…..( a não ser que toda a gente ganhe muita massa como em hong kong ) e não é só o coitado do branco que é racista , os chineses não podem com negros , os negros não podem com brancos e chineses , os sulamericanos não podem com chineses , os muçulmanos não podem com judeus , etc etc e vice versa . os índios pele vermelha não podem com esses todos , como é óbvio.

  3. e depois , o trumpetas apenas levantou o tapete para onde outros têm andado a varrer o lixo. pensam que essas ondas nasceram depois da eleição do homem ? e outro ponto essencial é perceber o que é fabricado , ampliado e fabulado pelos merdia .

  4. Trump foi eleito pelo que há de pior em comunicação social, o NEUROMARKETING.
    Quem o apoiou nisto foi a CAMBRIDGE ANALYTICS, uma empresa que nada tem a ver com a Universidade de Cambridge, mas utiliza os resultados da investigação científica lá conduzida, muito cara, usando sensores neuroniais em amostras representativas de diferentes públicos-alvo. É o que há de mais moderno.
    Quem financiou todos os métodos ‘inusitados’ de Trump, escreve um semanário britânico, foi o bilionário Robert Mercer, que domina um fundo de investimentos com a maioria votante em fábricas de armamentos.
    Teria sido esta a razão de Trump em sua primeira viagem ao estrangeiro ir vender armas à Arábia Saudita e depois à NATO? Será esta a razão de estimular conflitos, para vender mais armas à polícia americana?

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