Curiosidade e perplexidade

Uma das maiores curiosidades na política nacional, aqui para o pilas, respeita à postura do PS quando for oposição. Estou, pois, a ousar presumir que o PSD poderá ser Governo num qualquer futuro, próximo ou longínquo; e isto apesar de todas as evidências em contrário, mas adiante. Para o exercício adivinhatório, uma fulcral variável aparece logo ao início: com ou sem Sócrates? O ideal, para quem gosta de política tanto como de cinema ou futebol, seria com. Ter o PS liderado por Sócrates na oposição, depois do que lhe fizeram no Governo, seria uma raríssima ocasião para se completar o retrato de um político que – e são os seus adversários e inimigos que o cultivam – é já reconhecido unanimemente como um estadista de excepção. Este atributo não diz respeito aos afectos e popularidade que desperta, que em muitos casos é puro ferruncho ou ódio, mas ao exercício do Poder em dadas circunstâncias e seus resultados eleitorais. Só que tal cenário é altamente improvável, sendo lógico que se mude de Secretário-Geral em caso de derrota nas legislativas. O que nos leva para a segunda variável, decisiva: quem se segue? Um PS de Costa será muito diferente de um PS de Seguro, um PS de Vitorino seria muito diferente de um PS de Assis. Uma única certeza: qualquer destes 4 proto-candidatos é preferível para o eleitorado a qualquer dos presidentes do PSD desde 1991.

E uma das minhas maiores perplexidades, continuando na metapolítica nacional, respeita à postura do PSD como oposição, especialmente na situação de se atravessar um ciclo de crise económica inusitadamente debilitante por força de factores externos. A preferência pelos ataques de carácter, suspeições, sensacionalismo, conspirações mediático-judiciais e boicote sistemático à Governação, que caracterizou o atarantado período de Ferreira Leite, voltou a não ser aproveitado para se acrescentar inteligência à instituição. Aparentemente, um cartesiano génio maligno persiste em levar os sociais-democratas a confirmarem a popular definição de insanidade: doing the same thing over and over again and expecting different results. Apesar de haver provas que confirmam a apetência do eleitorado por um líder da oposição focado nos interesses nacionais, assumindo a cooperação com o Governo sem o inútil folclore tribal, a trupe de Passos Coelho repete os mesmíssimos vícios que transformam o exercício opositor numa briga de pátio da escola. O resultado é a redução da esfera de influência apenas aos acólitos, aqueles que não precisam de ser convencidos por já serem fanáticos, deixando ao abandono aquela maioria não silenciosa, mas sempre à escuta, que vota após avaliar pessoas e ideias. No caso do PSD, e pelo que continuamos a ver, não consta que as suas pessoas tenham ideias – ou que as ideias sejam boas, o que é igual se não for pior – pelo que continua a não haver razão para lhes entregar o voto do centro.

Conceber a oposição como a actividade de permanente desgaste do Governo, diminuindo os seus sucessos e festejando os seus fracassos ao arrepio de qualquer critério estável e objectivo, é uma forma animalesca, perversa e supinamente estúpida de fazer política. Isto porque só pode haver um Governo de cada vez, o qual consiste numa miríade de actos de mera gestão corrente e não ideológica. O Governo não é um luxo ou uma função honorífica, é uma necessidade comunitária que pede condições óptimas para obter óptimos proveitos. Por isso, um bom Governo democrático implica uma boa oposição republicana, a qual favoreça as condições da governabilidade pela aprovação, melhoria ou correcção dos actos governativos passíveis de intervenção parlamentar. Só que esta desmiolada oposição demite-se do seu papel fiscalizador, trocando-o pela embriaguez da chicana. Aos generais sem exército que avançam pelos campos de batalha da comunicação social basta-lhes o ego trip, e suas dionisíacas delícias, de se verem reproduzidos e amplificados. Os almoços, as viagens e as compras satisfazem o resto, o futuro pode esperar.

Precisamos tanto do Governo como da oposição, constata-se sem curiosidade nem perplexidade.

6 thoughts on “Curiosidade e perplexidade”

  1. O problema é que não há uma oposição verdadeiramente política mas simplesmente uma oposição de comadres invejosas desavindas e vingativas. No PSD tudo continua igual como antes embora, por enquanto ainda não totalmente à superfície. Os grupos de opinião diferentes operam pressões diferentes: os jovens turcos querem abocanhar o poder sem ter qualquer ideia e muito menos um rumo para o país(depois logo se vê); os velhos senhores com experiência de poder cavaquista preferem conciliar e esperar o desgaste natural da governação, são mais cuidadosos face à situação sem deixarem de ser manhosos como sempre; os grupos económicos forçam mudanças constitucionais na expectativa gananciosa de se apropriarem dos lucrativos negócios por ora na esfera e controlo do Estado; os bonzos autarcas têm visões e interesses de pequenos poderes pessoais que colocam acima do país; muitos actores de intervenção comentarista e opinativa sem responsabilidades, olham para a sua auto-promoção e apelam ao quanto pior melhor, ao jeito dos revolucionários; no meio de tudo isto PPC que segundo aparenta é muito fraquinho de capacidades e nem sequer aparenta ter opinião própria, anda ao sabor do que cada grupo de pressão lhe sopra, determinando-se por aquela opinião que lhe parece mais oportuna a cada momento, que é normalmente a mais superficial, a vulgar opinião comum emocional.
    Se um dia esta gente, agrupada à volta de interesses díspares, se tornar poder, aí sim a desgovernabilidade será o dia a dia.

  2. Ter Sócrates como líder da oposição deve ser o pior pesadelo de Passos Coelho…
    Isto no caso de ele próprio acreditar que um dia chefiará um Governo (muito provavelmente, minoritário). A ver pelo comportamento que tem tido, já começo a duvidar.

  3. Val, por favor, então achas que estes indigentes do PSD teriam direito a uma oposição de luxo? Por alminha de quem? Quando tal acontecer e se acontecer, espero e desejo que Sócrates tenha mais que fazer do que aturar essa cambada. E não só essa cambada: também os ignorantes que os tenham levado ao poder. Espero que o mundo seja a sua ostra.

  4. Bom post. De facto o nível de indigência que perpassa no PSD e tão mau que deixa interrogações sobre o pais e a alternância democrática. Depois do deplorável governo do Barroso e da Manela, do Santana e da consulado da Manela, este Passos parece mais o Passos Perdidos, tal o nível de desorientação que manifesta. Que era oco, já se adivinhava agora inconstante e trapalhão já e de mais!

  5. Cada vez estou mais convencido com o ditado popular: chama-lhe antes que te chamem a ti. No toca ao PSD, os seus dirigentes, tem um sentido de oportunidade que faz inveja aos outros. Disparam logo que é mentira e outros adjectivos arranjados para qualquer momento. Dá gozo assistir às suas entrevistas e qualquer dia vão sofrer um desgosto de tanto berrarem que aí vem lobo. Quanto a Sócrates se, se candidatar e não ganhar – o que acho pouco provável é como um jogo de futebol entre Benfica e Sporting se não for para cima de três não é nada – deixava o lugar de deputado, não lhe faltava onde ser colocado, lideranças destas há poucas. O País merecia ter assim deputados mas o governo do PSD não merecia tão boa oposição, é ver a mediocridade que reina entre eles.

    Na sala de aulas o professor diz:

    — Quem se acha mentiroso fica em pé.

    Só o Joãozinho se levanta. Então o professor fala:

    — Você se acha mentiroso?

    E o garoto responde:

    — Não, é que eu fiquei com dó de o ver em pé sozinho.

    Era o que Sócrates devia responder a Passos Coelho.

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