Calhaus com olhos

Os bravos que destruíram à pedrada o impacto da greve geral foram o que de melhor poderia ter acontecido à direita decadente que ocupa Belém e S. Bento. Por um lado, permitem ter o Presidente da República e o Primeiro-Ministro unidos na defesa da segurança pública, assim anulando a dimensão política do evento. Por outro lado, os efeitos da carga policial deixaram os cidadãos combatendo-se entre si, divididos entre os indignados com a brutalidade da ordem e os indignados com a naturalidade da desordem. Em suma, pior era impossível para os interesses da CGTP e da população.

Vamos admitir que foram apenas meia dúzia aqueles que causaram os desacatos, pegando na expressão metonímica do ministro Macedo. Vamos admitir como gostam de admitir aqueles que colocam toda a responsabilidade nos bastões da polícia. Ora, pensemos: meia dúzia. Meia dúzia, pelos melhores cálculos, corresponde a seis indivíduos, mais coisa menos coisa. Ora, pensemos: seis valentes estiveram hora e meia a desmontar um passeio público e a fazer pontaria ao boneco. A primeira pergunta que ocorre é esta: porque demorou a polícia nas escadarias tanto tempo a reagir? A segunda pergunta é esta: porque não agiram os agentes infiltrados? Ou mesmo um GNR de folga e bigode farfalhudo? São boas e legítimas perguntas, posto que meia dúzia de rapazolas não deveria conseguir assustar o Corpo de Intervenção mais os seus ferozes colegas em cima da festa, por isso gente muito boa as coloca com toda a legitimidade. Só é de lamentar, então, que não se chegue à terceira pergunta: porque deixaram os restantes cinco mil pacíficos e inocentes manifestantes que seis galfarros tivessem tomado conta dos acontecimentos e estivessem a atacar agentes da autoridade que defendiam a Assembleia da República, não se sabendo o porquê e muito menos o para quê desse ataque?

O PCP e a CGTP orgulham-se da férrea disciplina que conseguem impor nas suas manifestações, algo que gera admiração e até agradecimentos em todo o espectro político democrático. Mesmo o lado perverso, as anedotas relativas à coerção que os seguranças vermelhos exercem sobre os espúrios, é visto como folclore sem gravidade. Contudo, CGTP e PCP dependem de uma retórica bélica que promove a radicalização das divergências políticas e a estigmatização dos adversários. Este é um caldo ideológico onde parte da violência urbana encontra alimento, senão mesmo génese. E não são só os putos que alinham, como se pode constatar lendo esta reportagem: Quem é que atirou a primeira pedra?

Pelos vistos, foi mais interessante para as cinco mil vítimas das animalescas rotinas policiais estarem solidariamente ao lado dos pedreiros do que terem-nos mandado para casa com uns higiénicos e pedagógicos calduços. O que nos leva a concluir ter o número de calhaus com olhos presentes na ocasião ultrapassado manifestamente a meia dúzia.

9 thoughts on “Calhaus com olhos”

  1. Ola,

    O nucleo “abolição do principio da não-contradição” do laboratorio de logica da universidade de Harvard agradece que desenvolvas mais um bocadito o elo que te permite passar do segundo ao terceiro paragrafos do teu post.

    Admitindo que estamos todos de acordo que os aprendizes de Che Guevara que tomam a responsabilidade de fazer descambar uma manifestação, são uma praga dificil de se evitar, o que propões, afinal ? Que à cautela acabem as manifestações e que sejam substituidas por intervenções de protesto firme na Assembleia da Republica pelo A.J. Seguro em horario marcado pelo partido que venceu as eleições ?

    E também gostei do oximoro sobre a anulação da dimensão politica do evento. Ia falar nisso, mas estou como dificuldades para encontrar nos teus posts recentes, informações sobre a razão de ser da manifestação e da greve…

    Ja que o pão esta quase a acabar, todos rumo ao circo !

    Boas

  2. é mesmo isso.
    e aprendi uma palavra que nunca tinha ouvido: calduços. é fora do normal, tenho de fazer uma coisa diferente com os lábios para conseguir dizê-la em alta voz.

  3. Houve manifestantes que pediram aos atiradores de calhaus para que parassem e que o seu intento estaria a “ofuscar” a greve e a fazer o jogo do governo. Outros, que se colocaram entre a polícia e os atiradores de pedra, levando, estes, com algumas. Por fim, os restantes afastaram-se deixando uma pequena clareira com os atiradores no meio. A polícia não agiu porque não quis.

    Outro apontamento, o menino Val quer justiça popular? Queria que os outros, que até tentarm para aquilo, agissem brutal e justiceiramente sobre os “putos” (que bem podiam ser outras coisas)? Impressão minha ou está a culpar que esteve lá?

  4. oh zé! pelo menos um dos pedreiros é sindicalista da cgtp, há mais dois que são estivas e durante a semana que vem vais ter tempo para reclamar a inocência de mais uns 30 que entretanto devem ir dentro. o cinismo do bófia macedo promete regresso do miguel angelo à lista dos mais vendidos.

    http://www.youtube.com/watch?v=xdDspjHkIWU

  5. Maior prejuizo que as pedras da calçada são os meninos que brincam quadrianualmente aos aviõezinhos, barquinhos e comboizinhos dentro da garagem.

    Não temos conserto.

  6. contra factos não há argumentos, ontem, na cornadura do circulo, o pacheco pereira, apoucando os jovens radicais apedrejadores (sempre tive simpatia pelos anarquistas), ridicularizou as vestimentas pretas, os lenços palestinianos, e as mascaras Guy Fawkes ou Guido Fawkes, ora, nem este claro elemento identificativo dos “perigosos desordeiros/apedrejadores e destruidores da ordem e da ordem pública”, facilitou a identificação e actuação da gestapo e impediu que a “exemplar acção policial”, assim definida e elogiada por toda a “isenta imprensa nacional” (já um perigoso efeito da galopante compra dos órgãos de comunicação social pela mafia angolana) impediu que as vítimas fossem sobretudos transeuntes que nada tinham a ver com o assunto (alguns deles porventura moradores na zona e em transito na via pública, outros esperando transportes públicos em paragens no local) na galeria do jornal Expresso existe pelo menos uma foto que mostra uma perigosa jovem dos seus tardios sessenta, setenta anos, com o nariz partido e a sangrar abundantemente da face, eis um claro exemplo de uma perigosíssima jovem apedrejadora/anarquista …

    E onde estão as muitas outras fotos que, decerto, devem ter sido feitas por repórteres de outros jornais?.

    Na mesma linha, o sinistro aristocrata reaccionário lobo xavier, para corroborar o apoucamento de pacheco pereira, lançou o bitaite, ” tanta pomba assassinada “, com efeito, deram às dezenas os cadáveres dos polícias no chão, mortos à pedrada …

  7. acontecimentos muito virtuosos para a economia nacional, deste modo, já não existirão muitas razões para reduzir o pessoal da CM de Lisboa (mais de 10.000 funcionários!) e os calceteiros da mesma – dizia um deles, referindo-se ao desencalcedamento, “nem merecem os ar que respiram …” – já têm que fazer, em vez de ficarem pela câmara a ler os jornais ou a frequentar os tascos próximos. Por outro lado, fornece uma boa razão para aumentos salariais à polícia da castanha (no dizer deles, vamos ter muito que fazer) o cara de esgazeado ministro macedo já prometeu um reforço orçamental de 10 por cento % …

  8. parece que os vândalos das manifestações estão mais bem cotados junto do governo, do que os vândalos do futebol. Neste último não valem nada, até passa a ser dispensada a obrigatoriedade de presença policial nos jogos. Portanto, a ordem pública e a defesa do estado democrático só faz sentido se os atacantes disserem mal do governo; se fizerem a catarse contra o clube adversário, vale tudo menos tirar olhos. Menos ficam. Fica também demonstrado de que forma este governo fascista (democrático my ass), entende a forma como deve utilizar a segurança: como força de repressão política. Bonito.

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