Aposta

Pessoa amiga sugeriu-me publicar o seguinte excerto de uma conversa:

Nunca o irás amar porque nunca saberás se ele te ama. Quando escondemos a nossa verdade do outro, não podemos saber se somos amados. Jamais.

Disse-me que iria ter muitos comentários. Apostei que não.

56 thoughts on “Aposta”

  1. upi,
    Ia a passar, fiquei preocupado e entrei por ti. Não, por ti e entrei, assim é que é. Mas olha, deixa. Quando escondemos a nossa verdade do outro não podemos saber se somos amados, seja, mas quando expomos a nossa verdade ao outro ficamos a saber o que não queríamos, e às vezes sem o outro. É uma porra, diz lá à pessoa tua amiga que fui eu que disse. E quando puderes aparece para uma batota, vem perder uns cobres no meu casino.
    Toma lá um cheirinho.

    ‘Um casino sem nada a esconder é uma ideia imenso interessante, como um bordel de virgens, imenso peculiar, inovadora, imenso sei lá. Não é minha, credo!, claro que não, sou lírico mas não tanto. E depois não tenho essa lata toda, para ser franco, há um limite para as figuras tristes que sou capaz de fazer (mesmo que por vezes não pareça). Não, eu não seria capaz de chegar aqui e sair-me com esse copito a mais, essa fantasia a cores cujo único cenário possível seria um qualquer salão paroquial de província, talvez, com as velhinhas da freguesia a darem as cartas, o senhor pároco a cantar os números da roleta e os velhotes a venderem rifas para o sorteio do porco, a um chouriço cada uma. Maria Amélia, a divorciada, venderia os ‘Kentuckys’ no bufete, com vestido de decote. E aos sábados haveria acordeão para todos balharem. Talvez pudesse ser isto mais ou menos, se existisse, um casino sem nada a esconder. Ainda assim, como de resto se pode ver pelo custo das rifas, até neste casino paroquial as pessoas só dão um chouriço a quem lhes der um porco, pelo menos, e acho que nem o senhor pároco acredita em milagres. Pelo menos desses.’

    http://setevidascomoosgatos.blogs.sapo.pt/1646121.html

    P.S.: Se continuares com problemas amorosos, diz-me: sei de um tal Professor Bambo que dizem que é tiro e queda, nunca mais sofres. De nada. Anima-te, homem: amores há muitos, como palermas e chapéus. Abraço-te, solidário.

  2. eu não me interrogo nada sobre isso, amo e pronto, mas já percebi que isto é mas é astral, senão não se percebe tanta coincidência

    bem, há que trabalhar um pouco, deixa cá ver o quê

  3. Não sendo tão radical como a do Aviador, a minha perspectiva também passa por aí.
    Se um gajo começa com tretas e a esconder o jogo acaba por minar a confiança e aí já não há amor que resista. Por outro lado, de que serve um amor baseado em falsos pressupostos e que pelos silêncios acaba por limitar as decisões de uma das partes envolvidas.
    Claro que isto é conversa da treta, só para perderes a aposta. Eu de política, já disse: não percebo boi…

  4. Valupi,

    Não esmoreças, meu loiro. Tenho a certeza que irás conseguir a média de fregueses nos teus últimos posts. Do que precisas é dum empurrãozito de gajos como o Nik (versão legal, quasi-académica, do Bigornas, copiosa cornucópia de flores murchas e ideias num estado ainda mais mirradito) e duma ou outra rapariga que tenha tido um desgosto de amor recentemente. Mas nada te garanto. Infelizmente, desde que o Nuno Ramos de Almeida partiu, não temos russas sinceras e abertas (as tais Pravdaniovnas) que nos visitem para um batepapo e mesmo que as tivéssemos seriam sem dúvida mais dadas a discussões sobre as colecções do Prada.

    Comendador,

    “Mas, aqui para nós, você ama-o, ou não?…”

    Only bastard can say such thing cheeky! Um dos seus primos bancais dos anos 50, isso sim, é que andou metido em orgias de baile e marcha à ré com homicídio na linha de Cascais! Bronca antiga que eu, em retrospectiva politicamente animada, considero ter sido um esforço bonito do regime Salazarista para preparar as suas crianças para a futura democracia das retaguardas revolucionárias. Há que ter olho vivo para topar estes pequenos pormenores de concordância subtil entre sistemas politicos opostos na aparência.

  5. Falhou-me um ponto de interrogação a seguir às partes envolvidas…
    Um pretexto tão bom como outro qualquer para te lixar na cena dos “poucos comentários”.
    Já agora, e para jogarmos limpo, define “poucos”.

  6. z,
    deixaste-me inseguro e à toa, com a notícia desse link. O que se passa é que também eu gosto de fazer vida de noite e sim, também eu me perco por um bom par de mamas (passe a rudeza da expressão, evidentemente) e sempre que posso, e a coisa se proporciona, é lá mesmo que eu encosto e passo a noite. Quererá isto dizer que … sabes, aquilo? … hum … será que?… mas eu?!!
    Hum…

  7. lá isso agora num sei pá, sei que o morceguinho foi bem esperto e que eu tenho que ir dar umas voltas, mesmo com golpe de sol

  8. por mim, perdes a aposta. disponho-me a vir aqui discordar da afirmação supra as vezes que o quiseres rebater. começa por haver um nexo entre as duas primeiras frases muito pouco conexo. podes explicar melhor isso?

  9. Rui, a pessoa minha amiga pensa como tu. É uma porra, como dizes.

    O teu casino está do baril. Repara que já ninguém diz “está do baril”, pelo que a raridade da expressão deve ser entendida como acrescento de valor.

    E tens a casa muito bem composta, aproveito para dizer e recomendar. O Daniel foi uma excelente aquisição para o gatil.
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    Comendador, amo-o, claro. Mas com ele é um caso especial, esclareço, pois não preciso de lhe contar nada. Afinal, já sabe tudo.
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    z, se não te interrogas, não tens dúvidas. Vai na volta, és feliz.
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    aviador, é isso mesmo.
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    Grande shark, por “poucos” deve-se entender qualquer quantidade, seja ela qual for. Creio que mais honesto do que isto não se pode ser.
    __

    SUBSTANTIA, esqueci-me de te dizer que o Garoupa, no final do seu artigo, mostra que não é cherne nem pargo de Sesimbra. Já carapau de corrida, era o que dava jeito descobrir.

    Quanto à magna questão supra, conto contigo para manter as aparências.
    __

    claudia, discordo de ti. Ninguém merece ser amado se não amar a Cidade.
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    susana, o nexo pouco conexo é plexo. Sem entregar a nossa verdade ao outro, ele não nos pode amar. E se não podemos saber se o outro nos ama, porque o privamos das condições em que nos poderia amar, então nunca o poderemos amar. Isto porque o amor não é um estado mental individual, sentimento ou afecto, mas um acontecimento unitivo.

  10. Eu também discordo da frase. Uma vez disseram-me que não se pode amar o que não se conhece mas, para mim, amar é (um sempre) descobrir.

  11. E o amor platónico, que até vem nos livros e tudo? Querem lá ver que agora eu não amo perdidamente o meu vizinho de cima e o george clooney? E o Comendador, tão platónicamente amado? (e só não meto também aqui o shark que ele depois chamava-me logo atrevida…)

  12. E aumentemos então o número de comentários. Com umas citações de quem percebe destas coisas do amor (e as voltas que dei para encontrar o livro….)

    “Procedei de maneira (como é fácil)
    que nos julguemos loucamente amados:
    Fácilmente deixa-se a paixão
    persuadir do que deseja;”

    “Mil jogos deves praticar.
    Envergonhe-se aquela que não sabe jogar.”

    “Faze promessas! fazê-las não te custa.
    Com promessas enriquece muita gente.
    Faze promessas! a esperança é duradoura
    desde que um grão de fé se lhe acrescente.
    És, Esperança, uma deusa enganadora
    mas os enganos teces ùtilmente.”
    Ovídeo – Arte de Amar

    Ou, mais prosaicamente, há coisas que não se dizem nem sob tortura!

  13. Há pessoas que amam a verdade e outras que a odeiam.

    O amor e a verdade ora se destroem, ora se alimentam mutuamente.

    Amor verdadeiro pode assentar numa mentira.

    Uma mentira pode salvar o amor, uma verdade pode matá-lo.

    Há maneiras de dizer a verdade que são mentiras.

    Para se ser amado, a regra é amar. Essa é a maior verdade.

    P.S. O que é a “nossa verdade”, caraças?

  14. um cigarro, aliás dois…

    o verdadeiro amor é incondicional, portanto coisas práticas:

    a casa já está à venda online, não ponho aqui porque tenho vergonha

    vai-se agora o meu pégaso vermelho de faróis rebatíveis, ainda o namoro pela janela e de mangueira, mas já parou há muito, minha punição, crime de Bellerofonte, bonito foi que nasceu uma nascente a sério ali

    contactos post doc em Geografia tropicalóide activados, respostas a chegar, dois ou três meses ainda para cá estar

    e estudar e escrever sobre as gravuras de Foz Coa, bonito presente que me chegou nos anos

    e isto meu irmão, porque és mais inteligente que eu mas não fico descansado, tenho que te abrir um algures, se vais usar ou não, já não é comigo. Ao morderes as ínguas do systema como só tu sabes os aliens despertaram – vi o Predador II anteontem para ver como anda o meu treino de lasers

    mas há tempo para ter calma, calma de aço, disciplina de bronze

    e logo eu que gosto é de ronronar,

    ‘té

  15. vanus, amar é um sempre descobrir. Sim. Mas só quando se descobre a verdade. Lapalissada oblige.
    __

    teresa, amas o Clooney? Mentirosa. Esse amor de Ovídeo dizer é para quem está com falta de apetite. Quão mais vale passar pela tortura que acaba com as torturas.
    __

    Nik, a “nossa verdade” é aquilo que em nós for o mais frágil ou onde nos soubermos mais frágeis.

    Não, uma mentira não pode salvar o amor, nem uma verdade o pode matar. É ao contrário. O que a mentira pode salvar, e a verdade matar, é a mentira. É simples, e não tem nada que enganar.
    __

    Grande z, podes mandar para cá o anúncio da casa que o pomos na montra.

  16. Valupi;

    li o teu fragmento de um discurso amoroso e pensei de imediato que isto é conversa de filósofos, ou não misturasse ele a verdade (sabedoria) e o amor. comecei por discordar, pois o teu raciocínio pressupõe uma reciprocidade ontológica que fica bem na casa da razão, mas não sabe como bater à porta do coração (pelo menos do meu, pois acredito que o amor é mais um sentir do que um saber, quando muito é um saber sentir, sem que alguma vez se saiba realmente porquê)). mas acabei a concordar, porque a lógica tem sempre razão. quando escondemos a nossa verdade do outro, o mais provável é ele amar um outro. um outro que ele inventou, talvez por não ter amor à nossa verdade ou porque gostou da nossa mentira. mas esta não é a história toda. quanto à verdade do outro, atrevo-me a pensar que mesmo a ilusão ou a não-verdade podem ser uma das suas faces, pelo que revelam. um documento do século XIII que falsifica um documento do séxulo XII é um falso documento do século XII, mas um verdadeiro documento do século XIII. uma ilusão esconde muitas verdades. talvez esta seja a maior delas: amar é acreditar que se ama.

  17. que é plexo é lógico, pelo encadeamento. mas e o plexo do amplexo? como abraçar alguém escondendo-lhe a tua verdade pode ser amoroso é o que não compreendo. concordo que o amor seja um acontecimento unitivo. a haver, é uma terceira entidade, como um espírito santo quase palpável. pelo menos inequívoco. (a outra parte será a paixão. essa sim, pode ser unilateral.)
    só que o primeiro passo do amor, ou de quem se dispõe a amar, é uma abertura. volição e transparência. que isto aconteça a dois seres num mesmo instante é uma sorte do caralho.
    o nexo que me escapou foi o da relevância da primeira frase. a segunda diz-nos que alguém esconde a sua verdade do outro, i.e. não se dispõe a amar. que importa a quem não se predispõe ao amor saber se é, ou não, amado? sobretudo se já sabe de antemão que não o poderá ser nessas circunstâncias? não sabemos o que o outro sabe de nós, nem nunca poderemos saber. o amor do outro é nós no outro, é o que cativamos inexplicavelmente. a primeira frase é uma redundância antecipada. mas é também uma insinuação de um temor de que o amor do outro seja mero narcisismo. que o outro se apaixone pelo amor que crê lhe seja dedicado. uma desconfiança. o amor entrega-se, arrisca, cria.
    todavia, pode ser nada disso. a proposição é sobre o medo, não sobre o amor. e se calhar quem escondeu, escondeu por saber que o amor estava ali, só para si, mesmo à mão de semear. mas a mão tolheu-se, receio de não ter unhas.
    esse amor de que se fala é condicional, como bem dizes. e discordo inteiramente da salomé quando fala numa crença. construir uma ilusão que dura enquanto nela se acreditar é a compulsão mental de fuga à solidão. começa-se precisamente por não acreditar no amor, e ele cai-nos em cima. continuamos a não acreditar em tal ventura, mesmo sabendo convictamente que existe, perante essa verdade imarcescível, tão verdadeira que de repente está ali sem ambiguidades, e sem termos feito um corno para merecê-lo.

    (olá vanus maria.) :)

  18. É uma frase interessante.

    (só mesmo pelo prazer de contribuir para o Valupi perder uma aposta)

  19. Valupi, quando um outro nos entrega a sua verdade, é preciso amá-lo já, ou então não reconheceremos essa verdade como tal. E aqui só vejo uma hipótese dentro desta tua frase para que isto possa acontecer: só nós próprios nos amamos a nós antes de amarmos.

    Depois, mais difícil, é entregar a nossa verdade a um outro. Ninguém consegue entregar a sua verdade a um outro a não ser a si próprio. E aqueles que o conseguem fazer para si, são considerados pelos outros como loucos.

    Logo, o corolário desta frase é que só podemos amar (amor) a nós próprios. O que na verdade nem discordo.

    Mas, o amor é mais do que a sua substância, ou não?
    Amor e amar não são a mesma coisa; toda a prática é uma falsa essência. Aqui não há novidade.

    Por isso, acho que o teu post fala de amor, não de amar. Por isso também a minha resposta tão chavão tirado do bolso para reforçar a acção.
    Por outro lado, não é o amor que é um acontecimento unitivo: amar é um acontecimento unitivo.

    (olá susan :) )

  20. Não gosto nada desse teu conceito de “a nossa verdade”.

    Porque raio haveria de ser aquilo que em nós é “o mais frágil”? Isso pode ser ou é só uma pequenina parte da história, e a menos interessante. A verdade como calcanhar de Aquiles? A “verdade” como mentira ou omissão que cada um de nós constrói? Bof… Um conceito que pressupõe que andamos todos a esconder coisas e a enganarmo-nos aos outros, que somos todos maus, fracos e mesquinhos.

    Mais interessante é a força secreta que há em nós, a dedicação, a humanidade, a heroicidade, o génio secretos, coisas que estão em cada um (quando estão…), mas que só se revelam quando somos realmente postos à prova, fora da rotina achatada da vida. Essa é que é a “nossa verdade” interessante.

  21. não ponho não Valupi que tenho vergonha. Ainda me faz muita confusão esta coisa de vender coisas, não por largá-las, tomara eu que estivesse despachado, mas por causa das negociações e dos impasses. E no entanto negociei muitos milhões em nome de outros, de um conceito de bem comum, mas como não cobro percentagem sou muito eficaz e prático. O gratuito tem uma potência enorme, eleva-se acima de tudo como o oxigénio que respiramos e a luz do Sol,

    Olha lá tenho estado a ser atacado no email por casinos e lotarias, prémios ganhos, e eu nunca acredito em nada disso, dantes era as princesas da Nigéria, mas depois pus-me a pensar que se os deuses me quisessem apoiar era assim com uma coisa. Ai Deus Pá, que complicadinho me saíste.

    Eu sobre o Amor calo-me, o Banquete de Platão e depois a réplica do Kierkegard vão muito longe

  22. Valupi, acho que confundiste os classicos. Isto seria um amor de Sóvideo… (mas que o clooney é todo ele muito amável, não tenho dúvidas nenhumas. e se quisesse ficar caladinho e não contar verdades nenhumas, continuava a ser amável na mesma!)

  23. ARibeiro, aposto que o Alentejo é capaz de um bocadinho melhor.
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    Salomé, que a ilusão, a mentira, é um inevitável reflexo, ou aparência, da verdade, é inerente à linguagem humana e à cognição. Só um bronco (como eu, tantas vezes, esclareço) deixará escapar a cascata de verdades que se encontra nos mitos, por exemplo. Freud não disse outra coisa, e ainda cobrava pelas consultas. E cada um de nós convive com os limites da expressão verbal desde que aprendemos a falar e não conseguimos ofender com justiça aqueles fulanos que nos obrigaram a deixar os brinquedos para ir jantar, dormir ou, horror, entrar numa escola. É com as sobras do que não se consegue dizer que se escavam paraíso e inferno interiores.

    Erras. Saber sentir é corpo. Sentir saber é comunhão. O amor, como a rosa, pode não ter porquê. Mas tem sempre para quê, e pelos frutos o conhecerás. Então, se amar for acreditar, amar é querer. (isto, sei bem, não se compreende sem ascese, voluntária ou pela Graça)
    __

    susana, o amor de que falas é o mental. Nesse, e de facto, uma sincronia de aberturas é ocasional, rara – e, afinal, irrelevante. Mas mesmo a noção de abertura implica um referente comunicacional que se deixa quantificar ou regular (a abertura maior ou menor, o fluxo, etc.); implica, pois, uma materialização, uma vontade de poder. Estamos num território desgraçado, amoroso por analogia, espelho.

    A primeira frase é uma profecia, ou maldição, eis como deve ser entendida. A segunda é revelação, sabedoria sem a qual a primeira não se poderia cumprir. E as duas são dialécticas, empurram-se e puxam-se. Ficam ali a rodar, repetindo o estribilho: se queres amar, despe-te, larga, dá.
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    anónimo (d.v.), muito obrigado. São contributos como o teu que fazem toda a diferença.
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    vanus, não podes entregar a tua verdade a ti própria, pois não tens espaço onde a colocar. És pequena demais para ti, para o que em ti é semente e espera, e é por isso que precisamos dos outros, precisamos de amar. No amor, tu e o amado usam as suas chaves, cada um entregando ao outro a sua, para abrir os portões do palácio. Lá dentro, há muitas moradas, muita arrumação. E como poderás encontrar a tua chave se não procurares fundo?
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    Nik, creio-te ingénuo, em especial porque citas Homero. Pois se o mais forte e heróico dos guerreiros tem um calcanhar frágil, então a lição é a de que a fragilidade não é um defeito, mas uma condição. E mais: o sentido da sua vida só se compreende na relação directa com a sua fraqueza, sinal do destino.

    Não há força mais poderosa do que aquela que nasce de aceitares ser fraco. E repito: aceitar. Pode ser difícil de alcançar, isso de entregar a fragilidade ao outro, mas não há confiança sem essa coragem. E sem confiança, não se ama.
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    claudia, estás certa. Perdi a aposta logo com o primeiro comentário.
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    z, tu é que sabes. Mas se quiseres, dispõe.
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    teresa, estou curioso: que imaginas/antecipas ser, para ti, o maior prazer num convívio “amoroso” com o Clooney?

  24. Valupi – na minha modesta opinião («não o ponha tão alto que ele nem é licenciado!») o amor começa por ser uma vontade, um movimento, uma atenção. Se depois não houver encontro, o amor continua no coração de quem o iniciou. Quando Angra do Heroísmo caiu aos bocados, um amigo meu escreveu estes dois versos magníficos: «Não perecerás / ó destruída!» Com o amor é a mesma coisa – mesmo destruído nunca morre.

  25. Valupi, olha só o grande post que isso não dava… e aposto que com muitos comentários….

    mas agora, falando sério, não sei o que é isso da “nossa verdade” que o outro tem de conhecer. Só o facto de lhe colocares um artigo possessivo antes desvirtua logo qualquer verdade que seja. Falas em fragilidades, como o calcanhar do outro, mas essas muitas vezes só as conhecemos quando a seta lá se enterra, que mesmo o Aquiles teria pedido uma armadura mais composta se soubesse que aquele bocadinho estava tão exposto.

  26. hum, bonita multiresposta aqui em cima a tua, Valupi, diria mesmo: brilhante. Mas rapaz não sei como isto há-de ser mas tu também precisarás de férias, que os deuses te cuidem e aconselhem a esse propósito que eu sou suspeito, cá para mim isto era uma estadia no Paraíso, e para todos, e ainda não desisti da idéia, mas parece que o Zeus se chateia. Hoje fui ouvir os astros, tenho aí uma coisa vermelha a chegar, Saturno em quadratura, conclusão: tenho que escrever o mais rigoroso possível, ai, ai, lá vamos nós, com uma chuvinha de mistura em cima da quimera.

    ando a ver se atino nos amores entre Endovélico e Brigantia, deu-me uma comichão com os celtiberos

  27. não, não é o mental. como disse, e tu concluis,«despe-te, larga, dá», se queres amar. e para quem te despes, largas, dás? é aqui que a vanus tem razão – e eu também – o amor é primeiro, a tua entrega é electiva. depois cresce e reconhece-se. o amor acontece quando há escolha recíproca e vontade síncrona de entrega mútua. basta que estejas longe de te reconheceres no outro para saberes que não é espelho. reconheceres no outro o caminho e não a ti. esse o erro, pensares que vais conhecer por mimesis, ao invés de conheceres por diferença e, sobretudo, por vontade.
    concordo com o nik: a nossa verdade relevante para o amor é a nossa força. havendo amor a nossa fraqueza transparece e salva-se pelo outro. no amor sobressai a força de cada, exponencia-se no casal. tanta força arrasa as fraquezas.

  28. Esticando um nadita a imagem (já verão porquê) os blogues são como as ostras, já nascem é abertos. Lá por dentro há de tudo, na montra e nos comentários. E em alguns, de vez em quando (cá está a razão!) encontram-se pérolas destas:
    «Salomé, que a ilusão, a mentira, é um inevitável reflexo, ou aparência, da verdade, é inerente à linguagem humana e à cognição. Só um bronco (como eu, tantas vezes, esclareço) deixará escapar a cascata de verdades que se encontra nos mitos, por exemplo. Freud não disse outra coisa, e ainda cobrava pelas consultas. E cada um de nós convive com os limites da expressão verbal desde que aprendemos a falar e não conseguimos ofender com justiça aqueles fulanos que nos obrigaram a deixar os brinquedos para ir jantar, dormir ou, horror, entrar numa escola. É com as sobras do que não se consegue dizer que se escavam paraíso e inferno interiores.»
    Nos outros é mais piadas com ostras e coisas assim…

  29. jcfrancisco, amor que continua apenas no coração de um, é desejo ou compaixão. Prefiro o amor como vontade, pois se liga ao outro, faz acontecer.
    __

    teresa, talvez desse um poste muito ofegante e a escorrer comentários, claro. Mas, e concordando contigo, o que mais importa é descobrir a nossa “verdade”. Onde vês falta de virtude, no possessivo, eu vejo a realidade. A verdade ou é nossa ou nada é. Que seria isso de uma verdade fora de nós, inacessível, estranha? A tua verdade é preciosa por ser única, e é única por ser tua.

    Quem falou em fragilidades como fraquezas foi o Nik. Eu falo em fragilidades como verdades. E, por isso, como forças, pois é delas que vem o amor.

    Aquiles não teria sido forte e bravo sem o seu tão frágil calcanhar exposto. Quem quererá um destino por cumprir?
    __

    z, andas sempre bem acompanhado.
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    susana, falas de um amor material, físico, natural. Um amor de volumes e densidades, os quais se dobram ou multiplicam juntos, quais fios de água procurando ser rio. Daí a sincronia, a entrega; isto é, a reunião, a soma, a energia.

    O amor é primeiro, seja, mas não o amor que ainda não escolheu. Porque esse, pré-electivo, não tem sentido, é magma anónimo ou miniatura egóica. Não será, pois, amoroso. Como poderia ser se ele começa por não ser de ninguém? É apenas amor plástico, que tanto se pode dar a um como a outro, bastando as tais sincronias; isto é, acontecendo no fortuito. Este tipo de amor não pode esperar, pois é fome. Não pode falar, porque é sede. Não pode tocar, apenas sonha.
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    Rui, estragas-me com mimos, ó pá.

  30. mas, valupi, precisamente: falo do amor unitivo, e portanto pós-electivo. como acontece a eleição, o que pergunto; não será esse passo o primeiro gesto do amor? e se cada um dá a chave ao outro, evidencias o requisito de sintonia.
    o amor de que falo não é o que descreves, não tem fome, nem sede. tem paz. espera porque tem tempo, é sem urgência. é como flutuar na água sem precisar de a beber.

  31. olha: bagauda, não conhecia

    hoje fui ali a um cerro que deve ter sido um santuário e necrópole, amanhã faço o report para as autoridades supervenientes

    gosto mais de matemática do que de pedras, as formas puras não erodem nem enganam

    espero que não te refiras à ‘boa companhia’ do Chronos que ele vai puxar da factura, deve ser para eu pedir chuva

  32. a lição que aprendi nestes anos de tombo, será trivial para uns tantos, mas não foi para mim: a minha vida não é minha

  33. z,
    «a lição que aprendi nestes anos de tombo, será trivial para uns tantos, mas não foi para mim: a minha vida não é minha»

    assino por baixo.

  34. Nik, esqueci-me de ti. Dizes que a nossa verdade não é a nossa fraqueza, antes a nossa força. O que implica teres de excluir da tua verdade tudo aquilo que não consegues transformar em força. Isso vai diminuir muito aquilo a que poderás chamar verdade. E, já sabes, uma verdade diminuida pode dar azo às maiores mentiras.
    __

    susana, a troca de chaves não pede sintonia, mas reciprocidade. A procura da sintonia é tarefa vã, porque não significa. Há sintonias em todo o lado, a toda a hora.
    __

    z, Chronos é um bom companheiro.

  35. é disso que estou a falar, de reciprocidade. concedo que a palavra foi mal escolhida, porque se pensa em afinidades, em empatias intelectuais, em gostos comuns, etc., até em semelhanças. mas sim, era de reciprocidade que falava. por só haver amor se forem dois a caminho um do outro. essa é outra lapalissada…

    bom, e também não pressupunha “procura”, mas um acontecer.

  36. O amor…
    comenta-se com cor
    sem cor ninguém vê
    sem língua ninguém mente
    com dor…
    toda a alma é crente
    sem alma ninguém se acalma
    com ela se vive o torpor
    de amar por desamor

  37. gosto mais do kairos, Valupi. Aliás quando se vive uma história de amor anda-se no Kairos, o Chronos fica uma referência externa,

    Rui, então somos compinchas pá, eu não bebo, mas podemos rir juntos. Saber que a minha vida não é minha ao princípio deixa-nos desnorteados, mas afinal é uma enorme libertação

  38. malditas palavras. nunca estamos certos do efeito que produzem.
    talvez por isso, alguém tenha escrito um dia (e como se trata da citação de uma citação, é melhor duplicar as aspas): ” ” a perfeição do amor consiste em estar juntos em silêncio ” “. quem guarda a palavra final?

  39. Val, eu não disse o que me atribuis. Nem se infere do que eu disse o que tu achas nele implicado.

    Não aceito é a tua definição do que seja “a nossa verdade”: fragilidades, “aquilo em que formos ou nos soubermos mais frágeis”. Também não aceito a tua definição “fragilidades como verdades”. No mínimo, muito incompleta e parcial. Focada no “menos interessante” da nossa verdade, foi o que eu disse. Também não me agrada a filosofia implícita em “o sentido da sua vida só se compreende na relação directa com a sua fraqueza”.

    Desculpa, mas contigo tem de ser tudo com citações em aspas, se não deturpas o que um gajo diz. Ou negas ter falado de “fraqueza”, apesar de teres falado.

    Eu disse: a nossa verdade mais interessante SERIA MAIS a nossa força, aquela que temos dentro de nós e por vezes só revelamos quando somos postos à prova.

    O lado frágil do humano pode tocar-me e comover-me. Sei perdoar e perdoar-me, pois estou bem certo das fraquezas próprias e alheias.

    Errar é humano. O problema está em que o inverso já não é verdade. Não aceito: “Humano é errar”. Prefiro o lado forte do Homem, vencedor sobre o caos, a ignorância, o infortúnio e a inércia.

  40. quanto a isso que dizes, nik, a nossa força é precisamente essa que se relaciona com a nossa fraqueza. não por sobreposição, mas por resolução. falas em «postos à prova», é aí que as fraquezas e as forças se unem. e no amor a força de dois é muito mais possante que a fraqueza de cada um, porque a fraqueza de cada um é assunto dos dois. a fraqueza tem ainda a virtude de atestar a imperfeição. a perfeição é incómoda, excessiva responsabilidade. perfeita pode ser a relação entre dois seres imperfeitos.
    agora voltando ao princípio, ao que comecei por dizer, não há amor sem reciprocidade e sem abertura ao outro. não pode. por isso as frases citadas no post têm um quê de absurdo. porque estão a dizer que o outro só pode saber que não é amado e está impedido de amar. é o que acontece quando alguém não confia e fecha os portões.

    não que isto seja alguma novidade, mas gosto muito de apostas que sei ganhas à partida, valupi. :p

    p.s. grilo falante, para mim esse é um critério importante, a comunicação no silêncio. falo nisso amiúde, como factor determinante, mas agora que penso, e retrospectivamente, creio que é mesmo um dos sinais a confiar – pressupondo que a comunicação verbal seja funcional, claro. mas porque ela não é suficiente.

  41. o Valupi por dentro apostou que sim quando escreveu que não, e anda lá com um sorriso ganhador. Eu não me importo nada de te amar mas ficas já a saber que vou ladrar sempre contra as taxas de juro, nem é em mim que penso mas numa geração agrilhoada numa promessa por cumprir: enredaram-se naquilo porque lhes disseram que a prazo os juros iriam baixar, e depois trairam-nos

    eu estou fora, com isso não me enganaram, enganaram-me de outra maneira

    mesmo bom é dormir juntos dois em um, uma só respiração, um sopro síncrono do universo

    mas eu agora é Chronos com uns gatos de permeio e uma almofada redentora

    tipo/tupos/topos

  42. porra, nunca mais ponho o Publico pdf, não vai parar ao que quero – era uma notícia a dizer que um líder da Al Qaeda tinha renunciado ao terrorismo

  43. Somos sempre livres de amar o outro. É com esse amor que descobrimos o outro. E o amor que o outro sente por nós.

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