Anéis de Saturno

1 minuto antes das 21h, ontem, cruzei-me com César das Neves (se me estás a ler, eu era aquele tipo com cara de mau, tão ou mais matulão do que tu, que passou em direcção ao jardim, ias em direcção da papelaria ou por aí). Somos vizinhos. 1 minuto depois das 21h — isto é, 1 minuto depois de Mário Crespo ter anunciado compungido que Portugal estava a caminho da falência — voltei a encontrar o César. Desta vez falou-me. Disse-me que dentro de poucos anos, por causa deste Governo, não ia haver dinheiro para nada nem para ninguém. Depois apareceu o João Ferreira do Amaral, mas como não puseram legendas fiquei sem perceber corno. Seguiram-se imagens do Medina Carreira, de perfil, mais a Ferreira Leite, mais malta em manifestações. Muita. Gráficos com as contas do Medina, que provavam com números o que diziam as autoridades. Voltou o César. Disse que isto de Portugal falir teria como consequência o fim da União Europeia. Numa outra parte, a seguir ao segmento onde Sócrates aparecia a confirmar que ia mesmo fazer investimentos públicos, eis a prova, César foi ainda mais intenso. Declarou que a política de Sócrates era criminosa, e nesse entusiasmo saltou-lhe o braço esquerdo para a frente com o dedo indicador espetado, ao mesmo tempo que, num movimento interrompido, quase levantou da cadeira as generosas carnes adjacentes ao fim das costas. Tive a certeza de que a vontade dele era avançar em direcção à câmara e entrar por ela adentro na esperança de apanhar um, alguém. A peça terminou com o aviso de um jornalista: para que em 2013 ainda seja possível salvar o pouco que nos resta, temos de tratar do assunto já nestas eleições, ou será tarde demais.

Quando acabou esta coisa que em tudo, até nos códigos de montagem, seguiu as regras de construção de um tempo de antena, Mário Crespo fez a transição para uma notícia sobre Obama. O seu rosto estava agastado, e disse que íamos para um assunto bem diferente; repetindo que era mesmo bem diferente, na esperança de que todos entendessem que estávamos a sair da choldra em direcção à civilização. E eu gostei disso, porque temos de gostar de um jornalista, ou de uma estação TV, que se julga com a missão de derrubar o Governo. Não é que seja ético ou faça sentido, mas é engraçado. Do que não gostei foi de recordar as sábias palavras do meu vizinho. De repente, percebia tudo, tudinho. Sócrates ia levar o País à falência com o fito de acabar com a União Europeia, e assim pôr no desemprego Barroso e acólitos, estava na cara. Mas, para um mariola como eu, ainda era pouco, porque é sabido que Sócrates não se contenta só com o espaço europeu, vide política comercial. Assim, estava cada vez mais claro que a falência de Portugal ia arruinar o Planeta, talvez também a Lua. E foi então que desceu sobre mim a mais ignominiosa das ameaças: era desta que teríamos de pôr no prego os anéis de Saturno.

26 thoughts on “Anéis de Saturno”

  1. Eu estou do teu lado, Valupi. Essa multidão Crespo, Neves e Companhia não sabe o que está a dizer. O Sócrates quer mesmo acabar com a Union Bruxelloise? Mas como, se a maior parte do carapau em aquicultura é importado da Grécia? Do que eu não gosto é das importações de trigo de paises com muito cancro, como a França, por exemplo, e da Espanha, mamadores de adubos do Mar Morto, o teu lago favorito logo a seguir ao Como, mas de que raramente te lembras quando comes.

    Não te esqueças, no tempo do senhor António, Portugal era o pais com menos cancro do Ocidente. Por extrapolação, toma isso como válido também para outras das grandes enfermidades.

    Não te deves “encrespar” por dá cá aquela palha, filho. Faz como eu, menos dum fardo não é nada. Essa malta anda toda doente, já reparaste? Basta olhares para a cara da Leite: um bronzeado de lua que não escapa ao olho dum bom semiólogo!

  2. Mário Crespo julga-se um jornalista de excelência, julga ele que por ter “apresentado” aquele programa “30 minutos”..com o tic-toc como efeito especial, julga ele que isso o tornou um célebre jornalista! Desde essa altura este artista perdeu toda a compostura, tomou partido e faz oposição aberta ao Governo.
    O auge deste jornalista-fascista foi quando entrevistou o Ministro Pedro Silva Pereira, em que nessa inesquecível entrevista (de 30 minutinhos!) ele não refreia todo o seu ódio ao Governo e mete as mão pelo pés, desdiz-se constantemente, interrompe o entrevistado, faz-lhe um cento de perguntas ao mesmo tempo e mal o entrevistado começa a responder ele imediatamente o interrompe e lhe corta a palavra! Fez um autêntico papel ridículo a todos os níveis, patético de tanta falta de isenção descarada e insinuações gratuítas.
    Quando um jornalista convida alguém para ser entrevistado e age por má-fé e perfídia, entáo essa pessoa não é um jornalista, é um monte de m…
    Para quem quiser assistir e julgar por si próprio deixo aqui o link:
    http://www.ps.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=1110&Itemid=26

  3. «Mário Crespo» foi o nome que dei a um cagalhão que há bocado caguei e quase entupiu a cagadeira.
    Puxei três vezes o autoclismo, mas o gajo não tugiu nem mugiu.
    -Márito, pisga-te – disse eu, tentando incutir-lhe confiança, porque há cagalhões que precisam de ser encorajados.
    Sem resultado.
    -Vai-te embora, cagalhoto. Já não preciso mais de ti. A minha tripa despediu-te com justa causa.
    Mas o gajo nada.
    -Oláááá – pensei. Que fazer com este monte de merda?
    -Crespo, pira-te! – berrei, acentuando a minha rejeição e franzindo o sobrolho, fazendo pairar terríveis represálias.
    Mas o gajo nada.
    Aquele cagalhão estava simplesmente a cagar pra mim e para todos nós.
    Aí tive que recorrer a uma solução de emergência: peguei no comando e mudei de canal.
    Grande ideia!
    O Mário Crespo desfez-se numa núvem de merda líquefeita e passei a ver uma novela brasileira.
    Antes isso, carapiço.

  4. Boa malha, Val. É demencial o que esses filhos da puta da SIC/TVI andam a tentar servir-nos depois do jantar, à laia de digestivo. Propaganda eleitoral non-stop. A Manela Leite está em contacto permanente com o Crespo e o asqueroso da TVI.

    Aqui o Felisberto é que tem razão: zap!

    Mas o ideal, mesmo, era as televisões virem equipadas de fábrica com um eficaz autoclismo.

  5. tem essa coisa aqui do ‘mais’ no Aspirina que não funcemina, né?

    pois isso é tudo um enjôo e o Neves ia de saco ao menos?

  6. ESTACA, grande verdade: anda tudo doente. Aliás, creio ser essa a única explicação para tanto desvario.
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    Carlos Santos, não paras de malhar nesses amigos, o que fica como um exemplo da capacidade produtiva do português.
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    Dorean Paxorales, muito obrigado pela questão. E resume-se a isto: um canal noticioso, no seu serviço noticioso, não deve (pode?) fazer propaganda política não assumida. Ora, a peça em causa está retoricamente construída para transmitir um sentimento, já em nada se relacionando com a noção de jornalismo, seja qual for a sua definição e enquadramento deontológico.
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    Jnascimento, ah, saber o que merecemos…
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    Jim Morrison, também falámos dessa entrevista por cá, ao tempo. Mas é sempre bem lembrada.
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    Felisberto, essa merda de mudar de canal não falha.
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    Nik, a SIC e a TVI, mais a imprensa, fazem o que querem e lhes apetece. Daqui a uns anos este período virá a ser conhecido como o mais libertino da História da comunicação social.
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    Z, o Neves pareceu-me ir de fato de treino, mãos a abanar. Mas posso estar enganado.

  7. Obrigado pela resposta.
    Isto é, na sua opinião houve confusão propositada entre formatos e a linha editorial pretendida (que é legítima desde que indicada) foi misturada com o corpo da notícia.

    Já agora, acha que houve propaganda ‘positiva’ (em favor de terceiros), como na Fox News?
    Esclareço que não assisti à emissão em causa, apenas faço presunções a partir da sua descrição. Estou descaradamente a discutir algo que desconheço…

  8. Dorean, exactamente ao melhor estilo da Fox, ou talvez pior (só apanho fragmentos da Fox, não tenho experiência continuada e completa dos seus conteúdos). Bem lembrado. Mas com esta diferença, chama-se SIC. Ou seja, a SIC não assumiu uma linha editorial politicamente definida, enquanto a Fox tem essa mesma lógica logo à nascença.

    A SIC continua a vender o ideal da missão jornalística independente, e daí o curto-circuito ético.

  9. Com justiça, não se pode dizer que não há Morales in Paxorales. O Valupi está a fugir à justificação, isto é, a ser muito tele-Foxy.

    Mas já é tarde para desprogamar a cassette e além disso já guilhotinámos com prazer uns quantos SICranos. Passemos então ao próximo lote, se todos estiverem de acordo, incluindo o Carlos Santos e o resto dos estrangeiros.

    Anybody else in mind, Valupi? Estaca, the impaler, loves rivers of blood. Chorizo is not enough.

  10. Hoje há mais revelações mas eu penso uma coisa – o tal indivíduo tentou que eu fosse despedido de um jornal e não conseguiu sendo eu uma fraca figura, logo não vai conseguir despedir o PM. Esta é a minha ideia.

  11. O mistério adensa-se com este baldo de água fria de “última hora” do Zé. Ainda há muito sangue para espremer nesta rodilha, é o que é! Amolemos os gumes às facas para defendermos o país e o caudilho contra a contra-revolução. Os banqueiros em Londres (daqui a uma semana sem chapeus de coco e de jeans para não levarem padrada) e Nova Iorque, cogitabundos, agitam bundas nervosas em cadeirões de couro: quem será esse indivíduo que quiz pôr a fraca figura do Zé no olho da rua mas não conseguiu?

    Não perca na próxima semana: De como o Zé finalmente irá revelar que o tal indivíduo nunca poderia ser vizinho do Valupi, porque para se chegar à papelaria ninguém precisa de atravessar o jardim. Ninguém conhece Lisboa melhor que ele.

  12. Caro Valupi,

    Permita-me que discorde num ponto: independência, não significa neutralidade. Apesar disso, sei bem onde pára a primeira e, infelizmente, a SIC está muito bem acompanhada.
    Onde creio que se poderia falar de falta de ética, é na quebra do primeiro artigo do código deontológico: “(…) A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público”. Fazendo boa-fé da sua descrição, foi isto o que não aconteceu.

    Cumprimentos,
    DP

  13. Carlos, tens-te divertido à grande e à americana com esses meninos. Quem sabe, ainda acabas a converter algum.
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    ESTACA, estou a fugir? A realidade, vista do fundo do Mar Morto, parece toda que foge, já devias estar habituado.
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    jcfrancisco, quem é o tal indivíduo?
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    Dorean, bom, mas é disso que falo, a confusão dos géneros. E isto num contexto onde a SIC define institucionalmente a sua independência através da “neutralidade”. Já ouviste ou leste qualquer responsável da SIC a anunciar que tinham entrado para a oposição?…
    __

    Z, voltarei a esse assunto, sim.

  14. Chama-se Zeferino e telefonou para o jornal do Sporting por alturas das eleições em Alcochete quando o presidente ainda era da CDU. Tentou reverter contra mim um simples assunto de agenda. Eu só fui afastado do jornal muitos anos depois em Novembro de 2006.

  15. Pingback: jar.io

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