A tragédia de um oligarca ridículo

Esta entrevista de Jardim Gonçalves – “Governo de José Sócrates precisava de dominar o BCP” – dava um filme. No mínimo, merece um documentário, uma reportagem, uma coisa qualquer que dê a ver algo mais do que apenas o nevoeiro da guerra. E até podemos despachar com um bocejo a escolha que a jornalista (suponho que tenha vindo dela, mas também poderá ter vindo do David Dinis ou sei lá de quem) fez para o título, onde Sócrates volta a servir de gancho por razões que já nada devem ao jornalismo tal como ele se ensina na academia ou se inscreve na História. A tese de que Sócrates, de mão dada a Teixeira dos Santos, organizou um plano que passava primeiro por colocar Vara no topo da CGD, o tal mesmíssimo Vara que qualquer sucateiro corrompia com trocos de acordo com a Justiça portuguesa, para depois o conseguir meter no BCP e, assim, passar a ter mais um banco dominado porque “precisavam de ter um controlo mais fino do sistema financeiro para fazerem a colocação da dívida pública” é gira. E mais nada. Nem sequer mais nada no âmbito estrito desta entrevista, supostamente com alguém que poderia contar uma história válida a respeito desse tempo e desses acontecimentos se o quisesse fazer. Infelizmente, prefere lançar teorias da conspiração que ficam bem na ralé dedicada à baixa política mas que se tornam inaceitáveis para quem não abdica de pensar por si próprio.

A entrevista é fascinante por mostrar cruelmente uma figura que foi das mais importantes na oligarquia portuguesa, desconhecendo nós o poder que ainda conserva. Que vemos? A tragédia de um oligarca ridículo. Tragédia, porque se diz atraiçoado por tudo e por todos, desde logo pelo seu delfim, Paulo Teixeira Pinto, passando pelos accionistas do BCP e do BPI que lhe fizeram maldades, e chegando ao ponto de envolver o PSD e Cavaco na grande conspiração para lhe tirar o banco das mãos. Exactissimamente: de acordo com este pio ex-banqueiro, Cavaco também queria Vara no BCP para o manipular de acordo com os interesses de Sócrates. E isto merece um filme, não por causa do tal Sócrates, mas por causa deste ridículo Gonçalves capaz de estupidificar o ambiente nesta escala.

Do que veio a público, e de acordo com o que o próprio declara, a decisão de abandonar o BCP e deixar Teixeira Pinto como sucessor foi tomada “com toda a independência”. Estávamos em 2004, governava Santana e António Mexia era seu ministro. Seguiu-se um período em que o BCP tentou, por várias vezes, adquirir o BPI, tendo fracassado de modo tão clamoroso que arrastou o antigo império financeiro da direita portuguesa para o caos, no mesmo passo expondo um conjunto de gravíssimas ilegalidades já devidamente investigadas e julgadas. Que, agora, Jardim Gonçalves prefira encontrar bodes expiatórios e manter a ilusão de impecabilidade é algo sem especial interesse. O que tem profundo interesse é o estudo do apogeu e queda dos oligarcas portugueses, pois uma parte fundamental do nosso destino comum está entrelaçada nas suas vidas.

5 thoughts on “A tragédia de um oligarca ridículo”

  1. Valupi, joga-te a eles e solta todas essas energias negativas que patologicamente te tolhem os movimentos (Jardim Gonçalves, quem?, Mira Amaral, quem?, Armando da Vara, ah!, nos costados que é o que vocês precisavam todos a ver se aprendiam!, porque, todos essa turma, são pessoas do passado onde vives e onde antigamente havia um ex-PM gourmet teu adorado para brincares à caridadezinha e que são neste momento completamente indiferentes para os portugueses, portanto).

    Tal como o teu Aspirina B, se ainda não percebeste porquê.

  2. Lembro-me de entrar numa agencia do BCP, ao tempo em que este senhor era o seu presidente, perguntar condições de um empréstimo para comprar casa. Disseram-me que baixariam a taxa de juro se comprasse acções do banco com parte desse empréstimo. Já então se podia perceber o futuro que o esperava.

  3. de facto é como dizes – a haver história terá de ser contada. e bem contada. de resto, em nada me admira que a oligarquia, como versa da vice, seja sempre alimentada pelo governo.

  4. Ai-ai, Valupi. Não convences ninguém, uns porque não perceberam nada na altura, outros há que perceberam mas só querem esquecer e, outros ainda, nem aparecem à luz do dia para não serem reconhecidos. Como diria aqui há anos o excelente MEC alguém chamar-se Jaime GAMA é todo um programa; actualiza agora para o o nome do modernaço António MEXIA e lá se vai mais um anjo terreno a caminho do quentinho do inferno (vem tudo dar ao mesmo, energias limpas, já viste?). Que não sai da EDP diz INOCENTEMENTE o tipo, pudera (com 95 milhões de euros no bolso em dez anos)! E o Manel Pinho agora anda na China, sabias?

    _______

    aeiou
    4 DE JUNHO DE 2017 ÀS 17:56
    O seu comentário aguarda moderação.

    Então e esses ossos, Valupi?

    Onde é que anda esse post do caraças sobre as cenas do António Mexia, do Manel Pinho e do seu amigo José Sócrates? É que anda toda a gente a dar porrada, até o Mira Amaral saiu do túmulo! Olha que já são quase seis da tarde de Domingo e durante todo o fim-de-semana esteve um sol quentinho e as modernaças baterias da energia eólica (ou alcoólica, já não sei…) já devem estar carregadas…

    Vá, despacha-te, que a troupe do Aspirina B não pode esperar mais
    (as dúvidas adensam-se, um-dois-três-vinte-mil)
    aeiou
    4 DE JUNHO DE 2017 ÀS 21:18
    O seu comentário aguarda moderação.

    http://ongverde.org/_media/img/small/vantagens-desvantagens-02.jpg

    Então sol ou vento ou sol e sombra, Valupi?
    Joe Strummer

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