Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Se as pessoas que passam pelas salas de aula portuguesas chegassem ao fim dos 12 primeiros anos de escolaridade a saber quem é Sequeira Costa, a conhecer a sua importância para a cultura em Portugal, ainda, ou só então, haveria esperança para este antro de imbecis. Sim, Sequeira Costa é apenas um exemplo para dar conteúdo à provocação, poderia usar o nome de outros ilustres patrícios. Mas o facto é que 12 anos, ou mesmo 21, de estudos não garantem que se descubra a existência deste português por parte de cada português. Português que celebra em 2007 o cinquentenário da fundação do Concurso Vianna da Motta. A esse propósito, e de propósito por causa da realização da actual edição, o pianista esteve na manhã da Antena 2, na passada quinta-feira, onde contou a seguinte anedota:

Tendo ganho o Concurso de Piano de Paris, assim como outros certames internacionais, amealhou a, ao tempo, substancial maquia de trinta contos. Em 1953, essa verba daria para grandes e estouvados deboches consumistas. O que ocorreu ao nosso Costa, meu primo, foi uma ideia peregrina: criar um concurso de piano em Portugal que se tornasse uma referência internacional pela sua excelência. Para tal, foi falar com uma Sua Excelência, Leite Pinto, o Ministro da Educação. Levou a esposa para a audiência ministerial e apresentou a ideia. Entusiasticamente, e do alto do seu prestígio e juventude, realçou a pique as vantagens para a Nação em albergar tal iniciativa, prestando-se ele a entregar todo o dinheiro ganho até então de modo a financiar a iniciativa. O ministro ouviu atento e composto. Silêncio mais tarde, olha decidido para a estrela do teclado e diz-lhe: Ó homem, mas porque é que você não pega nesse dinheiro todo e compra antes uns cachuchos para a sua mulher?!…

Que me perdoem as vítimas da PIDE e da Guerra Colonial, mas este episódio é o mais fiel retrato do salazarismo que conheço. Se alguém ainda tiver dúvidas sobre o que deve ser a acção política futura, que faça a si mesmo a pergunta: qual dos dois protagonistas pertence ao escol da Pátria? A resposta transformará a anedota numa parábola.


  1. 1 susana

    ouvi sequeira costa creio que em londres, há muitos anos. tocou rachmaninov extraordinariamente bem e um solista romântico, já não recordo se schumann ou chopin, com um pouco menos de verve. do leite pinto nunca ouvi falar.

  2. 2 Fernando Venâncio

    Valupi,

    A pergunta já transformou a anedota em parábola. Como agradecer-to?

  3. 3 Amigo Secreto

    Recebi mesmo agora um telegrama duma vítima do colonialismo, um tal António Quibongo, que perdeu um calcanhar num ataque de paraquedistas fascistas salazaristas à sua aldeia na área dos petróleos diamantíferos. Só diz isto: Está perdoado Valupi, mas onde é que foi parar o dinheiro dos inúmeros primeiros prémios de piano ou violino que nunca foram atribuídos? Teriam comprado cachuchos culturais com ele?

    Nem sei o que é que hei-de responder ao pobre homem. Ajude-me.

  4. 4 Valupi

    Amigo, diz ao homem para não gastar dinheiro em telegramas quando agora já pode mandar emails à borla.

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