A oposição que somos

Quando o PS pediu reuniões com a oposição parlamentar para tentar um compromisso que desse estabilidade à acção governativa, ocorridas em Outubro de 2009, nenhum partido aceitou qualquer tipo de acordo, por mínimo que fosse. O Executivo teria de governar em minoria, sujeito ao capricho dos líderes que perderam as eleições. De imediato se constatou a disfuncionalidade de tal situação, ficando o PSD como penhor da viabilidade do Governo PS. Nessa altura, Ferreira Leite garantiu que iria deixar passar o Orçamento para 2010, só abandonaria o barco após concluir essa missão. Cavaco aceitou e aplaudiu. Chegados ao Orçamento para 2011, já com Passos a marcar passo, alimentou-se um drama apenas resolvido por força das circunstâncias: havia que assegurar a reeleição do Presidente da República. Assim que Cavaco fechou esse ciclo, e logo na noite da vitória eleitoral, começou a lançar fogo para cima do Governo. O que se seguiu em Belém depois do fel e desvario emocional de 23 de Janeiro, para espanto de toda a gente incluindo os seus apoiantes, tem vindo num crescendo de irresponsabilidade e violência institucionais.

É sintomático que não nos lembremos de uma única condição invocada por algum partido da oposição para a partilha da responsabilidade governativa. O PCP não pediu uma nova reforma agrária ou o aumento da produção à sua moda, o BE não disse que governava se pudesse sacar o dinheiro aos bancos e aos ricos, o PSD não reclamou a expulsão de Sócrates do Largo do Rato e o CDS não exigiu o recrutamento de um milhão de polícias. Nada de nada propuseram, estavam unidos no asco aos socialistas. À esquerda, porque precisam de inimigos impossíveis de vencer, logo permitindo uma luta que nunca poderá acabar. À direita, porque os fidalgotes falhos de inteligência e coragem estão condenados a serem vazadouros dos ódios nascidos da sua impotência.

A oposição continuou até esta quarta-feira a tentar boicotar a governação de todas as formas disponíveis, indiferente às consequências que são evidentes. Atingiu nessa irracional tarde o cúmulo da negatividade ao impedir Portugal de continuar a resistir à tempestade financeira internacional, sem se ter dado sequer ao trabalho de apresentar um esboço de alternativa para a defesa do interesse nacional.

Que grande lição, e não só de política.

28 thoughts on “A oposição que somos”

  1. Se mais alguma coisa fosse necessária para classificar a “oposição que temos” (ao fim e ao cabo, pelo menos durante mais alguns meses, ainda teremos de suportar as suas “canalhices”) nada mais seria necessário do que aquilo que acabo de ouvir, enquanto conduzia, na “nossa” Antena1!

    Impante de orgulho e cheio de incontida alegria, o locutor anunciava que todos os partidos se tinham unido para pôr termo à célebre “avaliação de desempenho” dos professores!

    Isto é, ainda não tinham decorrido 24 horas após a dramática demissão de José Sócrates e já a miserável oposição que temos, da extrema-esquerda à extrema- direita, iniciava a mais despudorada e infame caça ao voto!

    Que se lixe o gravíssimo momento que o país atravessa. Agora do que se trata é de não perder os votos que possam se ganhos. Estão à mão os professores que tanto barulho fizeram contra uma medida que mais não visava do que distinguir o que deve ser distinguido?! Vamos a eles! Para começar, tomem lá este rebuçadito e não se esqueçam de nós quando chegar o momento de pôr na urna o vosso votozito.

    Pobres e indignos professores serão os desta pobre terra se nem sequer forem capazes de perceber o alcançe desta miserável e porca jogada. Pior que isso, pobres dos nossos filhos e netos que tiverem a adesgraça de cauir nas mão de tal gente!

  2. Amigo Val, hoje o cheiro que a porqueira do Crespo costuma exalar foi anulado. Eu já tinha aqui a Pharmácia em grande consideração…mas agora…

  3. primeiro apeamos o socrates, a seguir o coelho e depois tomamos o poder, cada etapa sua fragrância, mas o cheiro a filhadaputice é o mesmo. o saloio do crespo ainda não percebeu que está ao serviço da presidência e quem colabora tamém.

  4. “À esquerda, porque precisam de inimigos impossíveis de vencer, logo permitindo uma luta que nunca poderá acabar.”

    Fez-me lembrar a resposta do Gel, Homens da Luta, em entrevista:
    P. O que é que acha da crise?
    R. A crise é fixe, sem crise não há luta.

  5. z, sim, o bpn foi uma patada na poça colossal. mas também a especulação imobiliária em torno da venda de património do estado e… …

  6. A sabujice desse partido das “setinhas apontadas para Deus” – que heresia! – ganha a cada dia novos contornos de comédia bufa – só que quem sofre com a ventania somos todos nós!
    Ao ler a revista “Visão” de hoje, somos “mimoseados” com a frase: “Vais ter eleições, se não forem legislativas, serão internas…” (cito de cor). O autor desta lapidar frase, em tom imperativo, é o “talentoso” Marco António Costa, Vice-quase tudo que existe… (Câmara de Gaia… do PSD… e não sei que mais…) e era dirigida ao PPC.
    Deve ter chegado algum telefonema de Cascais para Vila Nova de Gaia, pois doutra forma não se entende a sofreguidão.
    Esperemos os novos capítulos. Julgo que muitos dos que hoje correram com o José Sócrates, não tardarão a lembrá-lo em algumas das boas reformas que criou. Não tenhamos dúvidas, se o novo Governo for dessa direita ranhosa (como tem sido brilhantemente apelidada neste fórum) não tardarão as manifestações de desagrado pelas “altas políticas” desse grupo de salteadores (tendo em conta o acto de ontem e de toda a panóplia de antecedentes ligados a este facto).

  7. Até custa a acreditar ver pessoas com tamanha ganancia pelo poder.

    Cheira-me que os negócios dos amiguinhos do PSD devem andar pelas ruas da amargura.

    Que se mantenham serenos os espíritos mais agitados. As laranjas ainda não são nada e da noite para o dia começaram a falar em aumento de impostos. Creio que na próxima semana vamos ouvir que a terceira travessia do Tejo é absolutamente imprescindível, e por aí fora.

  8. Anónimo,
    tudo o que comprar votos serve. A curiosidade da situação: tudo o que era impopular e indefensável por iniciativa do governo, é agora apresentado como solução genial e aplaudida, à esquerda e à direita. Oposição mais esquizofrénica do que esta? Difícil.

  9. Estamos num buraco, mas confesso que estou bem mais optimista do que ontem.

    8:15 – Enquanto levo o filho à escola, ouço na TSF que a primeira – a primeira – medida que o PSD propõe é o aumento do IVA. O Partido do “sempre pela despesa, nunca pela receita” propõe, no primeiro dia de pré-campanha, aumentar impostos. Gargalhada matinal, para espanto do miúdo.

    11:00 – Em breve viagem a caminho de uma reunião, o patrão, que nunca fala de politica senão um ocasional “todos iguais”, está tão indignado como eu, afirma que Sócrates “ao menos tem tomates” e faz gala em afirmar que vai de votar nele. Grande espanto, desta vez meu.

    13:50 – para espairar, vou a pé almoçar, caminhada de 3 kms. Muita gente à porta dos escritórios, ou em regresso, em pequenos grupos. O assunto é inevitavelmente o mesmo. Nas conversas que vou ouvindo de passagem, o tom é geral: espanto, indignação incipiente, fala-se abertamente de politica, não são propriamente simpáticos para Sócrates, mas muito menos para Passos Coelho.

    Tenho a sensação, apenas pelo dia de ontem, que este não está bem a ver no que se meteu. Vamos ver as primeiras sondagens. Se forem más para os laranjas, entram em pânico. And the fun begins.

  10. “Problema do PEC não está nas medidas mas na credibilidade do Governo” diz Ferreira Leite

    Voltamos à verdade e à mentira. O mote está dado para a próxima campanha eleitoral … com uma variante: agora as medidas são boas … é preciso não hostilizar a Sra Merkel, com quem a senhora fez questão de tirar uma foto, há algum tempo atrás. Lembram-se?

  11. Pingback: V9 at Aspirina B
  12. Um dos aspectos mais espantosos desta farsa foi o pretexto utilizado: não se tratou, propriamente, de discutir as medidas, mas, antes, do facto de o Governo as ter apresentado em Bruxelas ser ter previamente dado cavaco a Cavaco e à restante oposição. Mas vejamos: tendo Cavaco e a restante oposição plena consciência de que o (provável) sucesso do Governo na cimeira de Bruxelas, de 24 e 25 de Março, iria tornar mais difícil a tarefa de mandá-lo abaixo, a que Cavaco e a restante oposição se vinham entregando de alma e coração, alguém acredita que com anúncio prévio a Cavaco e à restante oposição Sócrates conseguiria levar para Bruxelas um vislumbre que fosse das medidas, por mais essenciais que elas fossem para a aprovação de um esquema de auxílio menos gravoso para o país?

  13. Entretanto, leio no i:
    “Foi visível o desconforto dos deputados do PSD, que apontaram que admitir a possibilidade de aumentar o IVA para 25% foi um “erro estratégico” de Passos Coelho, exactamente um dia depois da demissão do governo. Para os deputados contactados pelo i, tratou–se mesmo do “primeiro tiro no pé” do presidente do partido com o governo demissionário, uma vez que a questão do aumento do IVA criou ruído quando o país devia estar a falar da demissão de José Sócrates, e não do PSD. Um erro também de comunicação. A imprudência do discurso foi assinalada por outro deputado. Mesmo dentro do partido laranja a ideia foi recebida com muita resistência e, garante outra fonte, “vai ter de ser revista”.”

    Os deputados do PSD contam os tiros no pé do seu líder partidário, distinguindo-os entre “antes de governo demissionário” e “depois de governo demissionário”. Sendo que nesta categoria, ainda não tinham passado 12 horas quando inaugurou a contagem.
    Os que me preocupam são os que ele dá com bazuca, e pior ainda, os de míssil, por causa dos danos colaterais.

  14. Enquanto existir pelo menos um dos quatro vergonhosos Partidos protagonistas do 23 de Março, os portugueses de bem nunca mais irão esquecer o degradante e obsceno espectáculo de ver os Deputados do PSD e o CDS levantarem-se dos seus assentos ao mesmo tempo que os camaradas do Bloco e do PCP. Um momento de rara beleza, como diria o outro, para ver e rever, mentalmente, em todos e cada um dos dias que vão seguir-se, até à esperada SONDAGEM DAS URNAS, que há-de ditar a sorte de todos os canalhas. Assim espero.

  15. O laranjal devia era suspender a democracia durante alguns semestres e, paralelamente, semear umas cargas repressivas sobre numerosos reclamantes pedestres na Avenida, exceptuando, naturalmente, os masoquistas. Depois era sugerir um espaço de exclusão aérea, marítima, terrestre e espacial, devidamente norteado pela OTAN e correspondente bombardeamento do burgo. Na ressaca da festa exigiríamos umas injecções Marshall para reconstruir a estrutura produtiva, do Minho às Selvagens e outras dependências limítrofes, passando pelo Rossio e Chiado. Em poucas décadas já estaríamos a emprestar dinheiro aos alemães e seríamos o exemplar paradigma de todo o norte do hemisfério ocidental.
    First we take Manhattan, then we take Berlin…

  16. Leopard,
    Hoje, a oposição ranhosa e imbecil arrasou o modelo de avaliação do desempenho docente, a meio do ano lectivo, destruindo tudo aquilo que foi construído para credibilizar a escola pública. Depois disto, não auguro nada de bom para as escolas e para o país. A bestialidade aproxima-se e, depois do bombardeamento do burgo, não sei se haverá “plano Marshall” que nos possa valer. Palavra de KIKI docente.

  17. Kiki,

    confirmas um “feeling” que eu tenho, muitos professores não querem a revogação do modelo, querem continuar a trabalhar com ele?

  18. E o Pacheco? Está a preparar alguma.
    Ontem, na Quadratura do Círculo, deu tareia que ferveu no Passos – foi curioso ver os três comentadores tão alinhados (verdade, PS, PSD e CDS).
    Hoje foi o único deputado do PSD a não aprovar a revogação da avaliação de desempenho dos professores. Hum…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.