A ideologia dos troika-tintas

João Pedro Henriques, jornalista do Diário de Notícias, passa por opinador ponderado e justo. Tem os seus gostos e inclinações, como humano que o supomos ser, e, por exemplo, foi notório que não gramava um tal Sócrates que andava para aí a governar a coisa pública há uns anos. Porém, essa sua discordância, que tenha reparado, não fez dele um fanático e muito menos um pulha. Os seus textos são informados e sensatos, a higiénica cama onde depois deita o seu ponto de vista. Qual a influência dos seus artigos de opinião sobre qualquer aspecto tangível, mensurável, aferível nas dimensões políticas, sociais ou tão-só mediáticas do país que somos? Não se sabe, nunca se saberá e talvez a resposta mais aproximada à verdade seja “influência nenhuma”.

Apesar da inerente irrelevância da sua produção intelectual enquanto jornalismo de opinião, no sentido em que ninguém invoca as suas ideias para justificar seja o que for nem há quem perca tempo a criticá-las (tirando aqui o pilas, et pour cause), há uma dimensão onde esta figura é absolutamente relevante: enquanto representante de um grupo maior, no caso o dos jornalistas com presença publicista em meios de comunicação social “de referência”. Por aqui, é significativo o modo como é tratado o tema Sócrates nos seus exercícios comentaristas, pois podemos inferir algo mais do que apenas a sua opinião individual. De algum modo, e seria facílimo ir buscar dezenas e mesmo centenas de exemplos em poucas horas de pesquisa, a forma como inscreve no discurso a sua ideia do que foi e é Sócrates igualmente abre um acesso ao modo como a elite jornalística usa a figura de Sócrates para a produção de uma ideologia. Trata-se não só de uma ideologia difusa, ecléctica, antes é uma ideologia que depende da superficialidade, da ambiguidade e da distorção para se manter eficaz. E é realmente eficaz como fenómeno produzido organicamente por um colectivo.

Veja-se o caso de Costa e o fantasma de Sócrates, de 23 de Maio. JPH resolveu criticar António Costa e não encontrou nada melhor para compor o argumento de que ir buscar Sócrates. Porquê e para quê? No campo do porquê, a resposta é: porque a origem da sua oposição é emocional, gerando uma cegueira cognitiva. Costa jamais poderia filiar os resultados do seu Governo num Executivo que nasceu do maior logro eleitoralista da democracia portuguesa e que assumiu sem qualquer pudor, até com vaidade e luxúria, o discurso do castigo e da humilhação sobre a classe média e os pobres. Os números a que o Governo de Passos chegou não passam disso mesmo, números, para mais obtidos num contexto de extraordinária perda de soberania. Ora, JHP talvez não ignore que em qualquer parte do mundo onde haja governos democráticos todos os números apresentados são alvo de interpretação, de disputa. Não se trata de haver à partida erros com os números, essa outra questão, mas a de ser inevitável precisarmos de um exercício de interpretação política para dar sentido aos números que os governantes apresentem. Como é óbvio, ter conseguido reduzir o défice público da maneira celerada e odienta como Passos, Portas e Gaspar optaram por alcançar comporta uma dupla ponderação, abstracta e concreta. JPH ataca Costa agarrado à dimensão abstracta, protestando por não ver o actual primeiro-ministro a fazer o branqueamento das opções pafiosas que afundaram o País logo a partir do chumbo do PEC IV e levaram à destruição insensata na economia e na vida dos cidadãos do que poderia ter sido salvado ou mitigado. Isto é simples, né?

Menos simples, mas ainda assim transparente, surge o intento. Para quê ir buscar Sócrates? Resposta: para o alimento, quiçá pulsional, da ideologia que este colectivo vai espalhando sem interrupção. Nessa ideologia simula-se um conhecimento exacto, uma verdade, acerca da história recente e não tão recente de Portugal. Parece, dizem estes arautos, que fomos obrigados a um resgate de emergência em 2011 só por causa de Sócrates, que era muito maluco e gastador. E parece que, continuam estes bravos “explicadores”, havia muita corrupção nos Governos passados, antes da Troika ter vindo pôr ordem nisto, mas que nos basta apanhar e enforcar Sócrates para que o problema possa ficar resolvido. Isto também é simples, e admite mil e uma variações sobre o mesmo tema. O colectivo de jornalistas e de “jornalistas” não precisa, adentro desta ideologia, de justificar como é que andaram décadas a conviver com tanto e tão magnífico corrupto e incompetente sem terem conseguido provar fosse o que fosse dessas monstruosas actividades. Basta-lhes ir buscar, citanto JPH, “o que foram os anos finais da governação de José Sócrates” para se poder enviar o texto e esperar pelo pagamento. Não há Europa, Mundo, crises internacionais como não se viam há 80 anos, Governos minoritários, baixa política, golpadas judicais-mediáticas, golpadas presidenciais, coligações negativas, BCE a só reagir a partir de 2012 à crise das dívidas soberanas, sectarismo da esquerda portuguesa. Não há mais nada, basta juntar “Sócrates” e está pronto a servir.

4 comentários a “A ideologia dos troika-tintas”

  1. O pafiosismo vive de espertice e jogo sujo e o jph não foge à regra. Refere o banif para fazer baixar o deficit de passos mas omite que em 2010 o deficit oficial quase duplicou porque a UE resolveu meter mas contas do Estado as empresas públicas altamente endividadas e também houve, nesse ano, correcções na metodologia de cálculo na UE em prejuízo do deficit obtido. Enfim, omissões para compor o ramalhete do pàf incompetente.
    Mas este j.gomes ferreira mais maduro e subtil e por isso mais insidioso quer insinuar mais além, via título, onde faz a ligação Sócrates-Costa. Ele repete a ideia daqueles como p.pereira, j.m.tavares, os fedorentos e muitos outros que passam o dia a opinar na tv que tentam fixar, por reflexo pavloveano, na opinião pública a ideia de uma culpa congénita automática de Sócrates que não precisa de prova. É esse truque burlesco que o magistrado chefe sindicalista também usa quando afirma que o “culpado de ter sido preso é apenas Sócrates por ter cometido os crimes que cometeu” num total desrespeito por leis e justiça.
    jph é mais um português com a doença de passos que trás um diabo no corpo. Eles precisam tirar esse diabo do corpo com figura de Sócrates por meio de um exorcismo que liberte suas consciências das pequenas e grandes corrupções que diariamente praticam face aos chefes e patrões a quem se vendem como Judas.
    Mas eles querem, sobretudo, atingir Costa e para isso servem-se do automatismo mental que tentam criar de que Sócrates=Diabo para, logo que algo corra mal a Costa, lançarem a campanha da instituição nacional da trindade pàfiosa: Sócrates=Costa=Diabo, um ente único.
    Na prática os grandes planos maquiavélicos nunca se cumprem tal qual como planeado e às vezes, força-se tanto o plano, que este solta-se da moldura e ganha vida própria. Será que , neste caso, o plano vai conseguir enganar a vida?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *