A crise da imprensa também é isto

Paulo Baldaia veio defender a entrevista de Paulo Tavares e Anselmo Crespo – os quais fizeram um mau trabalho jornalístico para conseguirem um eficaz trabalho mediático, no sentido em que gerou barulheira e reacções do corporativismo militar e das lideranças políticas (à excepção do PS, até ao momento em que escrevo e no meu conhecimento). Importa começar pelo princípio para apurar o que aconteceu neste episódio: não foi o ministro da Defesa que sentiu uma urgente necessidade de vir repetir, muito menos defender, a tal hipótese legítima de que se fala logo desde a tomada de conhecimento da suposta falta de um conjunto de armamento; foram os entrevistadores que tomaram a decisão de inventarem, entre o tudo e apesar do tudo que Azeredo explanou em diferentes respostas, um título que é intelectualmente desonesto, deontologicamente duvidoso e politicamente incendiário. Baldaia quer afundar-se com eles no mau serviço aos históricos pergaminhos do DN e da TSF, numa atitude endémica ao tribalismo e aos laços pessoais. Seja.

Analisemos, parágrafo a parágrafo, os disparates que não se importou de assinar:

«A entrevista de Azeredo Lopes ao DN e à TSF não se resume ao título que os jornalistas escolheram, mas ele reflete exatamente o que disse o ministro da Defesa. O ministro não faz a mínima ideia do que aconteceu em Tancos. Ora, acontece que o comandante supremo das Forças Amadas está cansado de pedir conclusões o mais rapidamente possível para que se definam responsabilidades e se punam os responsáveis.»

Acaso o Baldaia faz alguma ideia do que aconteceu em Tancos? Se faz, é favor colaborar com as autoridades e ir a correr dar uma ajuda à rapaziada. Se não faz, tem alguma ideia sobre quem é que terá alguma ideia do que aconteceu em Tancos? Achará que só o ministro da Defesa é que deve ter ideias para divulgar ao público mesmo que mais ninguém de que o Baldaia se lembre as tenha? Mas se o ministro da Defesa só puder fazer alguma ideia depois de se concluírem as investigações em curso (vamos admitir que o Baldaia concede nesta evidência), qual o sentido de colocar no mesmo parágrafo o pintado cansaço do comandante supremo das Forças Armadas? O único nexo possível, diz-nos a lógica e a gramática, é este: o Baldaia achar que ainda não chegámos a conclusões porque, de alguma forma misteriosa, Azeredo Lopes está a atrasar a investigação.

«Foi por causa do assalto aos paóis de Tancos (que só teoricamente pode não ter acontecido) que o Presidente da República nos disse que tinha ido até ao limite dos seus poderes. Não esquecer que o comandante supremo, levando o ministro atrás, foi a Tancos para se inteirar das investigações que de imediato se começaram a fazer. O poder político foi conhecer o local do crime num momento em que a Polícia Judiciária (militar e civil) iniciava a investigação que continua a ser feita com total autonomia. Leva o seu tempo.»

O assalto aos paióis de Tancos só teoricamente pode não ter acontecido, diz. Teoricamente. De certeza que era esta a palavra que querias usar, Baldaia? Ou não passará de um psitacismo de caserna? Seja como for, a versão do ministro parece muito mais radical, e muito mais clara, só admitindo que o assalto não tenha acontecido por “absurdo”. O que se passa é que, na prática, as investigações levam o seu tempo, como o director do DN nos ajuda a compreender. E este torna-se o ponto mais interessante do seu raciocínio, o de que não devemos ficar atrapalhados com o tempo que isto leva. Toca a aproveitar a espera para enforcarmos uns quantos.

«A questão é que não é preciso esperar pela investigação criminal e pela prisão dos culpados, que pode aliás nunca acontecer, para apurar responsabilidades políticas e operacionais. Já passaram quase três meses, é tempo mais do que suficiente para se saber onde se falhou e quem falhou. A leveza com que o ministro da Defesa fala sobre este caso grave contrasta muito com a assertividade com que o Presidente da República o faz. Para o Chefe do Estado, não há como não considerar grave aquele assalto, para ele não faz sentido jogar com o tempo à espera de que a vergonha se perca com o tempo. Por tudo o que tem dito e feito a propósito do assalto a Tancos, Marcelo Rebelo de Sousa deve estar a perder a paciência com o ministro.»

Este parágrafo é uma mixórdia de boçalidades. Pelos vistos, 3 meses chegam e sobram para “saber onde se falhou e quem falhou” porque… porque o Baldaia assim o determina. Lembrou-se dos 3 meses, podia ter-lhe dado para 2, 1, uma semana e meia ou 48 horas. Tanto faz. E tanto faz porque ele mandou a lógica para o galheiro e agora quer que o ministro vá meter-se em Tancos de lupa na mão à procura de impressões digitais e a interrogar sargentos e praças. Ou então, e ainda mais estouvado, está a pedir que o ministro comece a disparar medidas e declarações de “responsabilidade” mesmo sem perceber patavina do que terá ou não terá realmente acontecido dado as investigações ainda estarem a decorrer. Quanto ao que diz acerca de Marcelo, ficamos com a certeza de que o director do DN não conhece o trabalho de um dos jornalistas da casa, Manuel Carlos Freire, o qual no dia 5 do corrente descreveu com exactidão o que fez e disse Marcelo a respeito desta questão – Tempo da investigação a Tancos preocupa Marcelo. O que lá se pode ler deixa o Baldaia como alguém a precisar de ajuda nesta história:

Não só é importante apurar factos e eventuais responsabilidades como apurar num tempo que seja o mais curto possível, por um lado para o prestígio da instituição militar e por outro lado também para a própria atuação interna da instituição militar”, declarou o comandante supremo das Forças Armadas, citado pela Lusa.

“Estou atento, acompanho o que se passa e preocupa-me o tempo”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa, durante a visita à associação Acreditar (de apoio a crianças e jovens com cancro). “O que considero hoje que há que dizer é que o tempo do apuramento, respeitando naturalmente a iniciativa das entidades de investigação criminal, é um tempo importante. É isso o que eu tenho a dizer neste momento, passados dois meses e uma semana”, reforçou, escusando-se a falar “sobre dados concretos” deste caso.

Neste caso, o título da notícia é jornalismo do bom, porque faz a síntese objectiva sobre o que está em causa. Marcelo não está a pedir qualquer medida, posição, declaração ao ministro da Defesa. Não o está a pedir porque, para repetir um termo feliz nesta chachada de polémica, isso seria absurdo. Ele está é a pedir celeridade na investigação. Na investigação. Na investigação. Por causa do “prestígio da instituição militar”. Para a “própria actuação interna da instituição militar”. Porque este é “o tempo do apuramento”. Um tempo onde seria errado, absurdo, vir falar, ou pedir a alguém no Governo que falasse, “sobre dados concretos.” Nestas declarações consegue o Baldaia topar com a perda de paciência do Presidente para com o ministro? Se não aqui, terá tropeçado nela a sonhar ou receberá mensagens telepáticas com origem no Palácio de Belém? Há uma palavra para descrever a pavoneada pretensão a interprete autêntico do marcelismo presidencial, “absurdo”. E também outra, “mentira”.

«Na verdade, Azeredo Lopes não precisa do apoio político de Marcelo para continuar no governo mas, quando António Costa fizer uma remodelação, e haverá de fazê-la, o ministro da Defesa estará na linha da frente. É até possível que o próprio já esteja cansado da pasta que lhe calhou. Se não está, disfarça muito bem, porque na entrevista que concedeu ao DN e à TSF há muito pouca coisa que ele assuma como responsabilidade direta sua.»

Ena, os Governos fazem remodelações! Incrível! Que ciência, presciência e sapiência neste profeta jornaleiro que até sabe quais são os alvos a abater nessa varridela e tem diagnósticos psicológicos sobre os mesmos para apresentar. Vivam as remodelações, é disso que o povo gosta. E, calhando nem ligar, pelo menos as redacções dos jornais “de referência” pelam-se por essas festividades catárticas. É que dá muito jeito ter caras novas, renovar o ambiente, voltar a fazer entrevistas e despachar muita opinião. Isto das remodelações, do ponto de vista do interesse da comunicação social com secções de política e da oposição que não consiga subir acima da chicana, devia ser uma obrigação a cada 6 meses. É que mal não fazia, bastando garantir a permanência dos secretários de Estado e seus assessores, e para os jornais e partidos do arco da desgovernação era uma festa. Dois ou três ministros mandados ao ar a cada semestre, e podendo mesmo ser por sorteio televisionado. Maravilha, pá.

Quanto ao que serão as responsabilidades do ministro da Defesa, o tópico que se transformou no combustível da hipocrisia generalizada nas reacções ao título da entrevista, Baldaia nada nos diz de objectivo. Não sabemos qual é a sua interpretação do texto constitucional e como ele se pode aplicar no contexto de declarações avulsas para uma entrevista. Há nisto – na intencional confusão entre os actos governativos do ministro e a forma e o conteúdo de uma peça jornalística onde o seu discurso é manipulado – um vendaval de irracionalidade que tomou conta de algumas das melhores inteligências do comentário político. É que ter adversários políticos a tentarem explorar qualquer ocasião, qualquer aparente brecha, para desgastar o Governo é uma coisa. E coisa triste, porque miserável. Mas ter personalidades públicas, com o dever da independência funcional, a comportarem-se como fogareiros na taberna é outra coisa. Desoladora e abjecta.

A crise da imprensa também passa por aqui, por este pacóvio reino da estupidez.

4 thoughts on “A crise da imprensa também é isto”

  1. “psitacismo de caserna” Eheh

    Antigamente havia uma taberna no MMoniz que tinha um papagaio que quando o pipol vinha a sair “psitacitava”, “Oh cabrao paga o que deves!”Eheh
    O Baldaia é a actualizaçao mal enjorcada e menos canora da espécie.
    Em boa verdade não trocava os meus agapornis (https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Agapornis_roseicollis)
    por esse papagaio mal lavado.

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