A circularidade do quadrado

Na última edição da Quadratura do Círculo o grande tema foi a crise dos transportadores. Foi uma edição onde se riu muito, um riso de alívio. Lobo Xavier, figura que devia ser substituída por nada acrescentar que valha a pena conhecer, e Pacheco Pereira, reduzido à má-fé da superficialidade e enviesamento, foram de uma previsibilidade bovina: só falaram da suposta falta de autoridade do Estado. António Costa não precisou de suar a camisola e ficou no registo pachola. Carlos Andrade estava com uma curiosidade infantil, deslumbrado com a solução pacifista e querendo saber se ela se iria repetir nos próximos conflitos. Nenhum se lembrou de citar Tucídides.

Colhe juntar-se a edição de As Escolhas de Marcelo deste domingo. Marcelo foi pelo mesmo caminho: atacou Sócrates fenomenologicamente, falando de efeitos e não de causas. E pior, imitou o bufão Portas na expressão do desejo de futuras, e ainda mais graves, perturbações da ordem. À sua frente, Maria Flor Pedroso deu uma lição magistral de controlo e domínio do subtexto a partir da escolha das perguntas e, acima de tudo, dos enfáticos silêncios. De tal maneira que Marcelo se foi abaixo em segundos, acabando com a voz esganiçada, agastado.

Pacheco e Marcelo são duas putas velhas que vivem da política como espectáculo, pejadinhos dos vícios que consistem em tentar que nada se altere de fundamental na política portuguesa. Ficaram banzos com a gestão e desenlace da crise dos transportadores. Nunca tal tinham visto cá na terrinha, sabendo perfeitamente que eles próprios não saberiam lidar com a situação — e não amam Portugal o suficiente para reconhecerem que o Governo assumiu profissionalmente uma situação que era nova e imprevisível. Os que nada perceberam e gritaram por cargas policiais, os que anseiam por novas perturbações sociais descontroladas para tirar dividendos do caos, e até aqueles que ficaram e estão calados como se a política não lhes dissesse respeito, são iguais a este par de jarras. Uns trastes que já esgotaram o prazo de validade, e que só pretendem continuar a circular sem terem de pensar fora do quadrado.

16 thoughts on “A circularidade do quadrado”

  1. Mas está aí, acima, a ligação para que se possa ver as Escolhas de Marcelo, infelizmente o serviço de Internet da SIC é uma bosta, pelo que não tem dado para ver a Quadratura online. Está lá o link mas não funcemina.

    Tucídides diria aquilo que Colin Powell escolheu para ter em cima da sua secretária, ao tempo em que exercia funções militares de topo. E outras coisas, claro, que o Tucídides era dado a dizer coisas, muitas.

  2. só tu V, para descascar nesses jurássicos parasitas. Eu já não consigo ver nada disso, só fiquei curioso por causa da Maria Flor, nome bonito. Mas porque será que essa gente não vai fazer férias, com todo o dinheiro que têm, prisioneiros do espelho, pobretanas do espírito.

    O marcelo continua frenético bombado backwards, não?

    Olha aquilo do Universo sempre é porque às tantas expandir-se-á mais depressa que a luz e perde o seu próprio rastro, admitindo que os únicos que conseguem rastreá-lo são estes sapiens brutalhões.

  3. Valupi,

    Nunca vi chamar tantos nomes a tantas pessoas com tantas palavras esolhidas a dedo para intimidar os acusados. Conclusão: o Sócrates é a única jóia com brilho na coroa da Democracia a oeste de Valência del Milho. Já é a quadragésima nona vez que nos informas disso com reconhecimento de notário lacrado. Hold your fire, soldier, will you?

  4. z, não conheces a Maria Flor Pedroso?

    Quanto ao Universo, se ele conseguiu criar uns seres tão curiosos como nós, talvez haja boas razões para ter esperança…
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    claudia, e como funcemina a tua irritação? Sempre te digo, porém, que nunca conheci ninguém com dois dedos de testa.
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    SUBSTANTIA, se nunca viste tantas dessas coisas é porque andas distraído com algum malmequer primaveril. Quanto ao Sócrates, alguém tem de defender o miúdo, coitado, sempre a levar bordoadas de todo o lado.

  5. Um malmequer primaveril, Valupi? No meu traseiro residencial, “quintal”, como diz o nobre linguísta deste blogue, o Sr. JP Costa, tenho centenas de malmequeres e nenhum é meu favorito nem digno das minhas distrações, daí não teres acertado. Shame on you! Mas persiste, meu caro, tens muito por onde escolher no reino floral, florista, flórico, firênzico, etc…

  6. Valupi, tens razão no reconhecimento do mérito do acordo alcançado antes que houvesse porrada a sério. Mas eu acho que bastava ter levantado um braço, que os gajos acagaçavam-se. E negociavam à mesma, como negociaram. O governo espanhol mostrou mais autoridade. Ela justificava-se, porque o exemplo dos transportadores pode ser seguido amanhã por outra máfia qualquer. Quem imaginava que uma paralisação de camiões conseguia pôr o país à beira da ruptura total de transportes e abastecimentos tão depressa? Só um terramoto ou um conflito armado poderia ter efeito pior, mas numa parte delimitada do território. Aqui não. A brincadeira, em poucos dias, quase fechou todos os postos de combustível de Norte a Sul e os supermercados iam seguir o mesmo caminho. Nenhum país pode permitir brincadeiras e ilegalidades destas, neste caso duplamente ilegais, porque, além da violência dos piquetes, o próprio lock-out é ilegal em Portugal.

  7. SUBSTANTIA, aposto no firênzico. De caras.
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    z, claro. Com ela, é mais o que não diz…
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    Nik, talvez. Isso é como discutir futebol (mas não só) e depois dizer que em certo lance teria sido fácil ter feito de outra forma. Discussão que esquece as circunstâncias de que se compõe a realidade.

    Não saber que dependemos do constante fluxo dos transportes é como não saber que basta faltar a água em casa para se comprometer a sua habitabilidade quase que por completo (segundo os actuais padrões de higiene e conforto).

    Também contou para o aumento dos efeitos o comportamento irracional dos consumidores, que, numa atitude defensiva e de pânico, quiseram açambarcar.

    Mas a verdade é só uma: durante todo o tempo houve negociações, e desde o princípio houve sinas de abertura do Governo. Em 3 dias ficou tudo resolvido, e não há ninguém que consiga dizer que teria feito melhor. Muitos que criticam fazem-no por terem sentido medo e por serem de outro clube, ou as duas coisas.

    E mais: a contenção do Governo fica como poderoso aviso. Creio que a consequência não é a multiplicação do abuso, antes o contrário. Mas veremos, pois que tudo é imprevisível.

  8. Val, eu não disse que alguém poderia ter conseguido melhor acordo ou mais depressa. Não era esse o meu ponto. Fazes sempre estas rábulas. O que eu disse foi que aquilo que tu chamas contenção – e eu chamo cedências à ilegalidade e à violência – abriu um precedente para outras quadrilhas tentarem semelhantes golpes de baú, com este governo ou com outro. E a avaliação dos danos, já foi feita?

    Folgo saber que, na tua opinião, criticar o modo como as coisas foram feitas, mesmo com um razoável acordo conseguido, é tentar discutir futebol e ceder à facilidade do ‘podia ter sido melhor’. Mais uma rábula que não te fica bem. Dizes defender a liberdade e queres melhor democracia, mas depois desprezas a crítica. Espero que o Sócrates não seja da tua opinião e faça o devido balanço do modo como o governo geriu a crise. E com isto não dou razão a marcelos e pachecos, penso pela minha tola.

  9. Tens razão, Nik, pode levar a réplicas. Mas isso é, ao mesmo tempo, um tremendo simplismo. Não por acaso, foi onde se refugiou a crítica à direita, porque à esquerda ninguém podia aparecer a reclamar mais autoridade e polícia na rua, mesmo tendo estado a pedir porrada naquele pessoal durante a tarde e noite de quarta-feira passada.

    Eu sei que pensas pela tua tola. É por isso que me surpreende que não o estejas a fazer neste caso. Achas que não valeu a pena o ministro ter estado reunido durante a tarde de quarta e ter esperado pelo plenário, fora tudo o resto que aconteceu no âmbito de um processo negocial “sui generis”? Que se teria ganho com a porrada? Talvez estivéssemos agora a ter as bombas de gasolina a ser servidas por militares quando o rei fizesse anos, os supermercados às moscas e tudo o resto encalhado na maior confusão. Repara que até o Pulido Valente deu razão à opção do Governo…

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