Gabriel Alves já não vai pedir desculpa

500-pele.jpg

Leio no Diário de Notícias deste sábado (10-3-2007) uma notícia: «Gabriel Alves deixa a RTP em litígio». Esta situação interessa-me, não pelo assunto pessoal em si, mas porque agora, fora de RTP, Gabriel Alves já não vai pedir desculpa. E tinha desculpas a pedir. Trata-se do seguinte.

Aqui há meses, a RTP transmitiu um documentário feito por ingleses e por brasileiros no qual Gabriel Alves papagueou umas palavras mentirosas sobre o que se passou em Julho de 1966 em Inglaterra. Dizer que um defesa português «arrumou» Pelé é mentira – e uma mentira, mesmo repetida muitas vezes, não deixa de o ser. Na verdade em 19-7-66 Morais não «arrumou» Pelé porque ele já estava arrumado desde 12-7-66. Nesse dia, o búlgaro Voutsov teve uma entrada violenta sobre o avançado brasileiro. Por isso, em 15-7-66, contra a Hungria, ele não jogou e foi substituído por Tostão.

Contra Portugal, em 19-7-66 o treinador brasileiro arriscou muito, pois, além de ter colocado Pelé (ainda lesionado) em campo, fez jogar vários estreantes: Manga, Fidelis, Brito, Orlando, Rildo, Denilson, Lima, Silva e Paraná. Quase uma equipa inteira num «tudo por tudo» que, como é natural, não resultou. Daí a provocação miserável de atirarem as culpas do insucesso para as costas dum jogador português chamado Morais.

Gabriel Alves papagueou sem hesitações esta mentira e agora pelos vistos já não vai a tempo de pedir desculpa. Não só a Morais, mas a todos nós que ainda temos memória e sabemos como as coisas se passaram. É que, segundo a notícia do Diário de Notícias, Gabriel Alves tem 60 anos. O mesmo é dizer,idade para ter algum juízo e saber a diferença entre a verdade e a mentira. Se eu tenho 56 e me lembro, ele tem a obrigação de saber o mesmo que eu.

José do Carmo Francisco

8 comentários a “Gabriel Alves já não vai pedir desculpa”

  1. Vi esse documentário, e recordo-me bem que me impressionou essa “revelação” duma intencionalidade extra-desportiva no lance de Morais.

    Será, eventualmente, uma questão bizantina, à falta de um testemunho inequívoco de Morais.

  2. Não me parece nada bizantino. É mais factual: em 12 o búlgaro lesionou o brasileiro que em 15 não podia jogar contra a Hungria. Em 19 ainda não estava recuperado. Bastou um toque para dar relevo a uma lesão com seis dias. As mentiras vieram depois.

  3. Sim, mas isso não invalida – como foi a tese exposta pelo Gabriel Alves – que a lesão anterior suscitasse o intento de o atingir com a finalidade de o obrigar a sair. Precisamente, a lesão causada pelo búlgaro tornaria mais fácil (e até impune!) o propósito. É esta a dimensão bizantina.

  4. O senhor Gabriel Alves tem tantas desculpas a pedir-nos, Zé do Carmo Francisco… nós que o ouvimos, “obrigados”, nos seus relatos televisivos sem conta, ao ponto de Artur Jorge nos sugerir, vermos futebol ao som de música clássica…

  5. Tem toda a razão, neste seu oportuno apontamento. Trata-se de uma velha aleivosia, posta a correr do outro lado do Atlântico, que, nem por ter sido inventada pelos nossos irmãos no Idioma, se deve deixar perpetuar. É tempo de desmistificar a tramóia. Também não se deve esquecer que, no Rio de Janeiro, sobretudo, muitos rassabiados se lastimavam de haver perdido com os tamanqueiros, como desdenhosamente classificavam a equipa portuguesa, então num plano claramente superior ao da selecção brasileira, como observadores internacionais naturalmente reconheceram. Há supostos jornalistas desportivos portugueses que, querendo ser simpáticos com os seus colegas do Brasil, esperando com isso ganhar as suas simpatias ou deles obter algum favor, esperança frequentemente desmentida, adoptam nos seus comentários ou opiniões tons demasiado benévolos para com o Brasil, quando não abertamente favoráveis, nem que seja para afirmar a sua exacerbada isenção nacionalista. Invariavelmente, nunca colhem qualquer contrapartida da parte dos jornalistas brasileiros. Em suma : quem não se dá ao respeito, também não merece ser respeitado. Eis porque considerei oportuna esta intervenção.

  6. Para aqueles que se interessam mesmo por estas coisas, a parte mais curiosa da história é a de que, depois de ter sido definitivamente “inutilizado” (e não havia substituições), o Pelé passou o resto do tempo a tentar lesionar um jogador português. Daí que, nos minutos finais, todos os jogadores evitassem passar à beira do Pelé, porque já sabiam que vinha pontapé ou rasteira…o Alexandre Batista que o diga. ;)

    A versão inglesa dos acontecimentos “pegou”, porque tinha a vantagem de apresentar a selecção inglesa como os paladinos do bom jogo, contra os caceteiros dos portugueses…os anjinhos contra os diabinhos, os bons contra os maus, onde é que já vi isto antes. ;)

  7. Não esquecer um pormenor importante: Portugal ganhou o seu grupo em Manchester e a Inglaterra ficou em segundo no seu em Londres mas foram os portugueses que saíram de Manchester para vir jogar em Londres. Foi uma manobra miserável: o Hilário diz que pensa que houve dinheiro pelo meio.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *