Dissertação sobre uma pequena baleia azul

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João Camilo

Pego num livro de João Camilo. O título é bonito, apelativo e revelador – Nunca mais se apagam as imagens. A editora tem um nome curioso – «Fenda». Descubro então um marcador assinalando um poema que começa assim:

Os poemas deles falam de poetas e de pintores
das cidades que outra arte tornou inesquecíveis.
Com títulos ingleses e palavras estrangeiras
tentam escapar ao tédio e adoram o bezerro já idolatrado.
Literatura que celebra a literatura, arte que comemora a arte
não nos resta como projecto de futuro senão a aventura alheia?

Para além do poema e das suas perguntas pertinentes, fiquei a pensar no marcador. Trata-se de uma sorridente baleia que atira para o ar a água azul que acompanha a sua respiração. Mas é tudo artesanato. A minha filha Ana Maria tinha ao tempo o saudável hábito de não deitar nada fora e por isso, em vez de comprar marcadores na Papelaria Fernandes, fazia ela própria os marcadores com aquilo que sobejava dos seus trabalhos de estudante de arquitectura.

Digo ao tempo, pois presumo que o marcador foi feito em 1996; ainda não era conhecido em Lisboa o Café Peter que só apareceu com a EXPO 98. Esta ideia de manter, poupar e reutilizar tem muito a ver com aquilo que ela aprendeu com a avó Olímpia. A minha mãe tinha uma máquina de costura e já na minha infância fazia muitas vezes para mim camisas novas com camisas velhas do meu pai e calções novos com calças velhas do meu avô que, por ser carpinteiro, as tinha mais poupadas.

Hoje a Ana veste ao meu neto Thomas em Londres jardineiras feitas pela costureira D. Armanda a partir de calças velhas do meu filho Filipe ou da minha filha Marta. Não me canso de olhar este marcador com a pequena baleia azul.

José do Carmo Francisco

7 thoughts on “Dissertação sobre uma pequena baleia azul”

  1. em minha casa também era assim. a minha mãe fazia os nossos pijamas de bebé com camisolas interiores usadas e fez para os meus filhos pijamas e um roupão com camisas que foram do meu pai. havia os vestidos da minha tia, que davam vestidos para duas meninas. fazia-nos brinquedos com embalagens vazias, tampinhas bonitas, carrinhos de linha, botões e lã. agora já ninguém tem tempo, paciência, destreza…

  2. É uma ideia cujo tecido afectivo é ainda mais forte do que o material, isso de se fazer passar as roupas de geração em geração.

  3. e havia também uma outra prática, essa ainda chegou até mim: a de desfazer camisolas de lã e aproveitar o fio para tricotar outras. sempre me deu satisfacção desmanchá-las, por ser o desfazer de um trabalho moroso cujo resultado se tornou menos necessário do que a matéria-prima.

  4. Outro bom apontamento literário, curto, ou melhor, sóbrio, mas focando o essencial, directo ao coração de quem lê. Com o tema e com o estilo me senti agradado. Como me acontecia na «Estrada de Macadame».

  5. Ainda hoje o meu filho veste as «camisas do Avô». Restam apenas duas (brancas, já velhotas), daquelas de punho dobrado, para levarem botões de punho. Quando o Avô faleceu, as camisas (compradas pelo meu Pai nas camisarias «marcantes» do Rossio) foram disputadas pelos meus dois filhos, ainda muito jovens: o Luís Miguel e a Maria João (que mais tarde, depois de as usar, deu as dela ao irmão). Naturalmente, um pouco gastas, o meu filho ainda as veste, mesmo quando vai a reuniões e coisas dessas. A figura do Avô olha o neto quando este se vê ao espelho. Há aqui um laço que teima em não se desatar. Há muito amor, muita saudade, muito respeito…
    Lembro-me também de umas sandálias feitas de sarja branca, que a minha Tia Maria Eduarda fazia na perfeição para calçar, no Verão, os pés da filha e dos sobrinhos (os meus e os dos meus primos). Entrançadas, laváveis, leves, frescas…Um abraço muito carinhoso e muitos beijinhos por fazer hoje 98 anos! Pilar da Família, que conte muitos, querida Tia…E obrigada!

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