De que falamos quando falamos de cultura

Bastou um rápido olhar às páginas de um jornal de Lisboa para me aperceber do estranho uso da palavra «cultura» e do adjectivo «culto» em diversos anúncios do mais diverso teor.

Na região de Setúbal procuram um casal de caseiros para uma quinta, mas exigem bons conhecimentos de língua inglesa. Alguém com uma menina deficiente para cuidar exige uma pessoa culta, jovem e livre de compromissos familiares para tomar conta da dita menina. Mais à frente é um cavalheiro (são sempre cavalheiros, não sei se já repararam…) que se proclama culto e deseja conhecer uma senhora culta com idade entre 40 e 50 anos para assunto sério. Para não haver empate há uma senhora (são sempre senhoras, não ficam atrás…) que se proclama também culta e procura um senhor entre 60 e 65 anos, igualmente culto e com vida estável para assunto sério.

Será tudo isto porque as pessoas se arrepiam com as respostas dos concursos televisivos onde a cultura é bem escassa e os resultados não mentem? Será porque a cultura, como a água potável, é um bem cada vez mais escasso na nossa sociedade? Todas as explicações terão a sua lógica. A relação das pessoas com a cultura é, em geral, complicada.

Há anos, recebendo eu convites para as diversas exposições da Biblioteca Nacional de Lisboa, questionei as pessoas do secretariado para não me tratarem por doutor, mas a resposta deixou-me sem resposta: para eles a lógica era outra. Sendo eu amigo do director da Biblioteca Nacional, não fazia sentido que não fosse também doutor. Os envelopes continuaram a conter esse título. De nada valeram os meus argumentos em sentido contrário. A lógica venceu a verdade.

Não sou doutor, mas sou tratado como tal. Afinal uma questão de cultura.

José do Carmo Francisco

10 thoughts on “De que falamos quando falamos de cultura”

  1. Meu Caro
    Passei a minha vida nisso e o mais que ia conseguindo era um “desculpe lá senhor engenheiro”
    Abraço
    Joaquim

  2. JCM,

    Don’t give up your day job for the time being, at least not before you read this from Educate-Yourself.org/

    “Dr. John Coleman is a former intelligence agent of British MI6. He rips the lid off the conspiratorial group which knows NO national boundaries, is ABOVE the law of ALL countries and controls every aspect of politics, commerce, religion, industry, banking, insurance, mining, and even the drug trade. Learn how this small elite group who are answerable to NO ONE, except its members, have pulled the strings on ALL major world events and why, until now, few people have even been aware of its existence, let alone power, in manipulating the affairs of the entire WORLD. All of these members are revealed, including all of the corporations, government agencies and various movements which “they” have developed and control to further their own aims for WORLD DOMINATION.”

  3. Isso é só espuma, FV. Como ouvi dizer a um empresário espanhol questionado sobre as «doutorices» dos portugueses, tirando a «titulação», o resto é tudo igual… Além disso, o fenómeno é global e não é só da BN… Duvido muito que a lógica do secretariado fosse a que diz o JCF e se ele tivesse insistido ter-lhe-iam tirado o título da correspondência… Além do mais, ele agora deve receber aquele tipo de correspondência sobretudo por mail…
    Pela minha parte, em muitos casos, até me dá jeito… É que, bem vê, com os salamaleques sociais a que não podemos fugir, lá tive de arriscar tratar a minha gestora de conta pelo nome, para não tratar uma catraia de vinte e poucos anos por Sr.ª D.ª… Ai que jeito me dá um dr. ;-)

  4. Politikos,

    Espuma? Talvez. Mas complica-nos a vida, que já de si nos é tão complicada no país. Vês as vezes que a gente pergunta a uma secretária, ou casual confidente: «Ele é doutor?», «Ela é doutora?».

    Eu organizava já um movimento nacional para abolição dos títulos no trato comum. (Na Dinamarca, houve, há anos, um movimento – vitorioso – para abolir «o senhor / a senhora», e tratarem-se todos por tu). Mas organizar, mesmo só essa abolição, em Portugal…

    Que pensas tu disto?

  5. Nem após contacto telefónico para retirarem o título da correspondência que me enviavam – com a programação de uma instituição cultural de projecção nacional-, o erro foi emendado. Finalmente, pedi que removessem o meu nome da lista de destinatários da referida divulgação.
    É que, num País gerido por uns 90% de doutores, e tão mal gerido, é óbvio que evito conotação tão depreciativa.
    Mas parece que é assim em todos os países do Terceiro Mundo, portanto… paciência. É o fado.

  6. Fernando, dei apenas um exemplo prático da utilidade do dr. – já agora não confundamos com o «doutor»: é que há todo um mundo a separar uns e outros :-))), como bem sabes, e o meio académico é um bom exemplo disso. Retirar apenas o dr. não adianta nada, se não se retirar tb os srs., as sr.ª, as d.ª, as sr.ªs d.ªs. Em «pacote», eu acharia muito bem. Podes contar com a minha assinatura no abaixo-assinado ;-)
    Reparaste, por certo, que já te «tuteei»: a revolução já começou…
    Abç

  7. Bem, JCF, não vou duvidar disso, mas estranho. Excesso de zelo do(a) funcionário(a), decerto! Quanto ao «dr.» dos gestores da «coisa pública» – que por acaso não é o mesmo que o «doutor» – não me parece que seja exemplo apenas característico dos países do Terceiro Mundo. Com ele ou sem ele, lembro-me bem da grossa polémica que, em Inglaterra, gerou o facto de o John Major não ser licenciado, por exemplo… Ora isso acaba por ser outra face da mesma moeda: o elitismo da formação superior, com ou sem direito a «dr.» E todos sabemos como anda a formação superior e o quão relativo é a posse dela, não é assim?!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *