Das fragilidades da nossa vida

Não sou pessoa para andar por aí com uma mala cheia de angústias. Já paguei a última prestação da minha casa no mês de Setembro de 2005. Não tenho, portanto, um problema de habitação. Em termos financeiros tenho feito os possíveis para equilibrar as contas sem grandes angústias e com o recurso sistemático à conta ordenado. Em termos de saúde vou aguentando o barco tentando queimar os açúcares em excesso com longas caminhadas pelas ruas de Lisboa. Os meus filhos não me dão problemas de nenhuma espécie. Todos empurram a sua própria vida com responsabilidade e com equilíbrio: a mais velha é arquitecta e trabalha em Londres, o do meio está a fazer um mestrado em história dos descobrimentos e a mais nova frequenta o quarto ano do curso de arquitecta paisagista.

Um destes dias a minha casa sofreu uma inundação. Durante muitos anos pensei que as inundações eram só nas caves dos prédios. Esta semana descobri que se pode morar num quarto andar e sentir um calafrio terrível ao ver que os livros, as revistas e as fotografias de uma vida aparecem a boiar no meio da água. Os meus chinelos de quarto ficaram ensopados. A explicação é simples: foram os pombos que sujaram o algeroz e a água chegava das telhas e, como não tinha saída para baixo, entrava pela parede e só parava na cozinha e no meu escritório.

Tudo isto tem a ver com um sinal dos tempos: há muitas velhas solitárias nos prédios vizinhos que todos os dias atiram pão aos pombos. Estranha maneira de viver a solidão, ligando mais aos animais do que às pessoas. Os animais já têm o hábito de estar por ali à espera de quem lhes atire o pão. É por isso que sujaram tanto o algeroz do meu prédio e eu acabei por sofrer uma inesperada inundação num quarto andar.

José do Carmo Francisco

6 thoughts on “Das fragilidades da nossa vida”

  1. Ó José Francisco o mundo é curto!
    Eu tenho um filho arquitecto a trabalhar em Inglaterra na ” BARLOWS” um dos trabalhos que tem feito é a coordenação de obras no novo terminal de Weathrow.Um dia destes vamos junto ver a família.
    Quanto aos pombos são uma praga!…

  2. «Tudo isto tem a ver com um sinal dos tempos: há muitas velhas solitárias nos prédios vizinhos que todos os dias atiram pão aos pombos. Estranha maneira de viver a solidão, ligando mais aos animais do que às pessoas.(…)»

    – Talvez pq os animais sejam mais propícios à ‘interactividade’ afectiva do q…as pessoas!, ou as velhas ñ se sentiriam solitárias, ñ?!?

    «(…) É por isso que sujaram tanto o algeroz do meu prédio e eu acabei por sofrer uma inesperada inundação num quarto andar.(…)»

    – Não me parece q a culpa seja dos pombos, ou das velhas…diria antes q, talvez, seja dos condóminos q ñ acautelaram, atempadamente, a limpeza dos algerozes, ñ?!? Mas, ele há lá tempo para isso…qt mais para dar atenção a velhas solitárias…:=>

  3. Estranho dar mais atenção aos animais do que às pessoas?

    Nem por sombras.

    Quantas dessas velhas solitárias não o são porque foram sendo abandonadas a pouco e pouco pelos seus, levados pela morte ou pela vida? E que haverá de mais humano do que voltar costas a quem nos abandona, procurando nos animais a companhia que não se obtém de outro modo?

    A solidão urbana é feita precisamente dessas coisas. De cães, gatos, pombos e ausências.

  4. «E que haverá de mais humano do que voltar costas a quem nos abandona, procurando nos animais a companhia que não se obtém de outro» * Comentário de: Jorge

    Eu diria mais, ou de outro modo: por vezes nem é uma questão do q não se obtém, é antes a qualidade (ou falta dela!) do q se obtém

    Os animais nossos amigos dão-nos uma companhia feita de paz, tranquilidade e sem nos exigirem nada!…ao contrário dos humanos ‘nossos amigos’ q sempre esperam (qd ñ exigem!) algo em troca do q nos dão …vejamos um exemplo: qd quero estar comigo mesma é quase impossível pensar fazê-lo com um humano por perto…ou é pq está preocupado e nos enche de perguntas; ou é pq amando-nos, se sente posto de lado; ou é pq é meramente chato, etc,etc….com o meu gato – e tenho três, sendo q só um faz isto – q, ‘pressentindo’ esse meu estado d’alma, se instala ao meu lado e ali fica passando-me o seu calor e deixando que, ao passar-lhe a mão no pêlo, se vá diluindo a minha angústia…assim, sei q posso ‘ruminar’ pra dentro sem me sentir ‘obrigada’ a dar atenção a mais q ñ seja a mim mesma…às vezes isso faz falta e, por mais q se tente explicar, tb precisamos deste tempo/espaço de solidão…q os humanos ñ entendem…os humanos são bons a abandonar, nc a serem abandonados…e a solidão no meio do(s) outro(s) ñ é menos penosa q a outra…na outra culpamos únicamente os outros pela sua desumanidade, já a primeira faz-nos pensar, essencialmente, q somos nós os inaptos para a sociabilidade…para a humanidade…

    Bem…deixei-me levar…efeitos do ‘meio século’ q se aproxima?!:=>

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