Chama-se a isto saudade?

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Marrocos. Entre Merzouga e Zagora

Dou a volta costumeira pelo Abrupto. E, de repente, na excelente série fotográfica «Espaços onde se pode respirar», esta foto, feita por MARTA PINHO. No blog de JPP, pode ampliá-la.

Marrocos é em grande parte – já o escrevi alhures – bem mais verde do que o nosso (o meu) Alentejo. E Alcácer-Quibir, amigos compatriotas, fica no meio duma planície verdejante, onde crescem frutos e legumes. Qual deserto, senhor cineasta Oliveira! Mas, é verdade: lá muito longe, para Sul, a coisa põe-se realmente assim.

Há-de haver, por ali, pegadas minhas. E eu partiria, esta tarde ainda, para lá. Mas – aí está – as prioridades…

18 thoughts on “Chama-se a isto saudade?”

  1. que maravilha. a melhor recordação que tenho de viagem é um trecking em marrocos. por onde passei dei com paisagens muito diversas: “lunares”, verdes (até luxuriantes), como refere, áridas, agrestes. isso que aí mostra só vi lá de cima, mas essa experiência ainda me está reservada; uma razão forte para voltar. olhe, agora até me aqueceu.

  2. Abriste o Atlas na folha que tem o meu mapa predilecto – SAHARA!

    Não posso deixar de recordar que…eu também estive entre Merzouga e Zagora.
    Partimos às 7h da manhã de Merzouga.
    Lá estavam, o Hassan e o Assou, para o último abraço antes da partida.
    À la prochaine, In- Shallah!
    Sim, Oxalá – pensei.

    Entrámos pista fora. A pista é um trilho que se detecta pelas pequenas pedras que foram cuidadosamente colocadas como marcadores e também pela paisagem. Sabem que têm que passar por aqui e não por ali. É magia!
    Tínhamos tido uma tempestade de areia no dia anterior pelo que as marcas dos pneus, que também ajudam a certificar-nos da pista, eram inexistentes. Passadas umas três horas passámos em Taouz, pequena aldeia militar e nosso último posto de abastecimento alimentar até ao cair da noite.
    Parámos no único boteco que havia. Lembro-me, como se fosse hoje, do pacote de caramelos que comprei para dar a todas às crianças que cercaram o jipe. Por e simplesmente volatilizou-se naquelas pequenas mãos ávidas por um docinho.
    O Abdel estava um pouco mais preocupado do que nós. Os indicadores da pista não estavam no seu lugar habitual. Após uns 10 minutos de conversa, explicou-me que aquela palmeira lá ao fundo era o nosso ponto de viragem a Poente para apanharmos a pista, limpa e segura.
    A Micho ainda bebeu uma Coca-cola não fosse o calor apertar muito. Bora!
    Passámos a palmeira e virámos. Pista = zero!
    Duas horas de viagem e eu tinha a certeza que não era por ali, o nosso caminho.
    Parámos e, silenciosos, almoçamos, com os montes pretos, na linha de horizonte, que pareciam rostos sisudos a observarem-nos e a conversarem entre eles.

    Alors Abdel, qu’est-ce qu’on fait? T’as une idée?
    Plus une heure et on retourne.

    A hora passou e de repente, como por magia, no meio daqueles montes de lava preta e mate, abriu-se uma porta e vimos surgir, à nossa frente, a estrada mais incrível que jamais viramos. Pedras e pedras e mais pedras, pretas e luzidias, no perigoso calor do zénite.
    Foi quando aconteceu o mais inesperado. Puf! Furo no pneu!
    Toda aquela caminhada estava perdida. Era preciso mudar o pneu e voltar para trás.
    Trop risqué! Ninguém pára para nos ajudar. E a estrada daqui para a frente está cheia de serpentes, acrescentava o Abdel.
    Vamos dormir novamente a Merzouga e amanhã vamos por estrada para Zagora.

    Era a minha segunda investida em Marrocos sempre com aquele sagrado objectivo: fazer aquela pista e chegar ao mercado de Mhamid na segunda-feira!
    Refugiei-me no meu cheche e nos meus óculos escuros, com as lágrimas nos olhos: Fica para a próxima! Está prometido!

    Voltámos. Mas a pista que não tinha aparecido à ida também não se quis revelar desta vez. Após uns intermináveis quilómetros em zig-zag aconteceu… o segundo furo!
    Á nossa volta areia, vegetação rasteira e, sempre no horizonte, os montes secos e escuros.
    Et maintenant? On marche!
    Sim andamos, mas em que direcção?
    É um momento de lucidez absoluto – nada importa senão viver!
    Levámos os passaportes, os bilhetes de avião, uma boa camisola e água. Quantas horas de caminhada?
    Usando, como referência, as montanhas que fazem fronteira com a Argélia iniciámos a marcha.
    Não sei quantas horas de filme da minha vida caminhei, em silêncio, a marcar o trilho com pedaços de cheche (sendo o objectivo do Abdel recuperar o jipe e as nossas coisas).
    Sim o cheche não protege só a cabeça do calor, também marca trilhos!
    Chegámos ao entardecer a Taouz onde fomos recebidos como fazendo parte da grande família de Allah. E fazíamos mesmo!
    Enquanto uma equipa foi buscar o jipe e trocar pneus, nós refastelámo-nos no chão de terra e areia, brindados com a melhor das refeições: uma omellete à la marroquaine com pão de farinha de sarraceno e chá verde!
    Assisti, extasiada, ao mais original jogo de Damas: Desenhado na areia, o tabuleiro. Dum lado, pauzinhos e do outro, caca de camelo.

    Cerca das dez da noite estávamos prontos para regressar a Merzouga. Connosco, mais um passageiro, um guia. Um rapaz vestido com uma djellaba branca e um cheche branco ao pescoço.
    É que ele conhecia o caminho à noite, tarefa SÓ para iluminados!
    Nesta aventura de viação, que durou um pequeno dia, cruzámos apenas um carro.

    E lá estavam o Hassan e o Assou, sempre sorridentes, à nossa espera.
    E Mhamid? Está prometido!

    Obrigada, Fernando, por me teres proporcionado esta viagem.

  3. Py,

    Encontrei o teu mail. Penso colocar aqui, um destes dias, mais fotos (essas, minhas) de Marrocos. Porei também uma das tuas. Entretanto, tentarei desvendar o mistério das três coroas.

  4. Bem Fernando, vcs é que são os donos do blog portanto vcs é que decidem. Quando eu mandei as fotos, só interessa realmente a da placa, as outras são para contextualizar, mas a idéia era porem-na aqui e o pessoal vai à caça juntos…

    Creio que por debaixo da coroa central só pode estar escrito Allah, mas não tenho a certeza.

  5. Eu também já pus amigos meus em campo. Inclusivamente para lerem uma inscrição que a densidade da máquina do py (sans blague) permite ampliar, não sei se até à decifração. Amanhã espero saber mais.

  6. Dizia o poeta Adalberto Alves que esta irresistível e desatinada atracção que sentimos por Marrocos se deve ao sangue mouro que corre nas nossas veias:
    “Ao iniciarmos as descobertas traziamos no sangue e na alma mais de oito séculos de arabidade e, com ela, milhares de livros de poesia e de canções mouriscas.
    “Com a projecção africana no Algarve de além-mar, Portugal persegue-se a si próprio ou melhor, busca o outro que desde há séculos tinha dentro de si, antes de emergir da História.”
    É por estas e por outras que muitos de nós se sentem exilados nesta Europa normalizada e acinzentada…
    É talvez por isso que a visão dos palmares a perder de vista, as aldeias escondidas nos wadis floridos e o encontro das imensas ondas de areia do Sahara om as vagas do Oceano tem o sabor dum regresso a casa…
    Ah… quando voltarem, avisem-me…

  7. Pois é Fernanda, quando o Adalberto fala, nós, vibramos. Como ele, eu também acho que “O meu coração é árabe”.
    Num excerto desse seu livro (que, por sua vez, é um excerto de Zlimane Zeghidur, A poesia Árabe Moderna e o Brasil, pag.13) ele escreve:
    Compreende-se que, no cenário das areias, «a única arte que os nómadas podem desenvolver é de facto a língua – que se torna assim o que Heidegger disse: a morada do ser. A frase do filósofo é tão verdadeira que o verso poético árabe chama-se bayt (literalmente casa) e palavra diz-se mufrad (de fard, ou seja, indivíduo)»

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