Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Uma senhora foi à escola falar sobre ciência. A Ciência Brilhante, contou-me o meu filho, valeu bem os dois euros que paguei, porque aprenderam muitas coisas. Aprenderam, por exemplo, que não é a poluição o que destrói a camada do outono; antes torna-a mais espessa. E depois é mau, porque a luz do sol vem e dobra para ali. Mas também não se sabe tudo sobre a camada do outono, porque ela não se vê. Parece que só se consegue ver por dentro a partir de um foguetão. O pior é se o foguetão acerta num sítio onde ela está muito grossa e forte, e faz barreira invisível e tau, o foguetão bate e cai para trás. O foguetão, filho, o foguetão não passa?! Ai, não ligues, pois, os aviões é que não conseguem passar, não é?
Conheço uma criança da idade do meu pequeno cuja mãe tinha um excelente método. O miúdo tinha dois anos e fazia muitas perguntas. Ela respondia o que é que achas que é? ou não sei, diz-me tu porquê. E ele congeminava qualquer coisa, quase sempre efabulações com sentido lógico.
Uma das coisas boas da aprendizagem é tudo ser ainda possível. Aviões a embater nas camadas do outono e a fazerem ricochete. Ou a descoberta de um intestino doce e outro salgado, pela filha de uma amiga. Do filho de outra chegou-me a poesia da água com gás, num sabor a pés dormentes. Quando lhes falta, completam os espaços em branco. A imaginação permite atribuição de sentido e, nela, o encontro de metáforas. A minha mãe sempre me disse, e com toda a razão: filha, quando não souberes, não fiques calada. Inventa.


  1. 1 Daniel de Sá

    Susana
    Esta tarde passei uma hora inesperadamente deliciosa com crianças da pré-primária e do 1º ciclo. Uma educadora de infância convidara-me para ir lá, a um lugarinho chamado Ribeira Funda, que passa por ser dos mais problemáticos da ilha. E é-o, de facto, pois o conheço muito bem. Nunca imaginei que pudesse ter quarenta e tal crianças daquelas idades, durante uma hora em silêncio absoluto, ou fazendo perguntas espontâneas cheias de sentido. Como se maravilharam a ouvir falar dos brinquedos e brincadeiras de antigamente, das viagens entre as ilhas no limite do risco em pequenos barcos, e, maravilha das maravilhas, o “quadro” (foi assim que lhe chamaram) pequenino que lhes mostrei, a velha ardósia, que dizíamos “pedra”, e que valia por todos os cadernos e sebentas deste mundo. Ou aquelas professoras (elas mesmas interessadas em histórias que não são do seu tempo) têm feito milagres, ou nós é que não nos apercebemos de que eles estão à nossa disposição, seja na camada do ozono ou do outono. Tanto faz.
    Bonito, meu Lírio.

  2. 2 Emiéle

    Magnífico, Susana.
    E, adorei o conselho da tua mãe!!! O oposto ao politicamente correcto. Que maravilha!

  3. 3 sem-se-ver

    é o que eu digo sempre… aos meus alunos! (lol)

    espaços em branco? só se estivermos perante seres abúlicos…

  4. 4 dina

    Também adoro o momento da pergunta porque eles adoram esse momento de experimentar perguntar. Não estão sempre incomodados em passar para o momento da resposta mas em ver como são as perguntas dos outros, ver se têm as mesmas perguntas dos outros, fazer perguntas e ver como os outros reajem a estas.

    E gosto do lançar para inventar soluções, respostas. Mas também gosto muito de marcar os momentos em que não se sabe. às vezes um menino depois de pensar responde: “não sei.” e eu digo: “boa, é dificil saber que não se sabe”. A primeira vez que faço isso eles ficam espantados. Não há momentos não sei nas escolas (!?!? como é possivel). Esses momentos são do privado, do silencioso.

    E acima de tudo: adoro visitas às escolas: sabes que as há, que outros vivem que eles adoram ter visitas. Sim: viva as visitas às escolas!

  5. 5 Valupi

    Uma camada do outono espessa é parte integrante da minha ecologia interior. Como é que os putos já andam a discutir isto nas escolas?…

  6. 6 z
  7. 7 z
  8. 8 susana

    daniel, o que contas lembra outra coisa: essas são as idades ideais para a promoção do encontro entre gerações. em que a curiosidade está no máximo e o preconceito no mínimo. encontro precioso, porque lhes dá a noção de História, além do fascínio das histórias. e já reparaste que mostram, eles, um interesse bem maior por aquilo que foi o passado dos avós do que essas idades exibem relativamente ao universo das crianças?

    emiele, o conselho é delicioso, sim. era-nos dado no contexto escolar, no pressuposto de que uma tentativa inventiva poderia conter algum acerto, ou pelo menos revelar a capacidade de procurar.

    sem-se-ver, e se os há - ou quase, pois talvez haja brancas sem espaços completamente vazados. o branco sempre é alguma coisa, nem que seja uma espera.

    dina, o teu prazer e os teus relatos são sempre uma frescura sadia.

    valupi, faz todo o sentido: não te esqueças do relevo dado à protecção ambiental…

    z, um óbito com vida eterna e um renascimento. sobre darwin deve ser dito que deveríamos distribuir os louros entre ele e wallace, no que toca à descoberta da selecção natural. o primeiro documento científico sobre o assunto era, aliás, em co-autoria. o próprio darwin respondia que ao dizer-se darwinismo poderia bem dizer-se também wallacismo.

  1. 1 Gafanha das Tenazes

Leave a Reply





Aspirina box

Arquivos mensais

Pharmácias

As Ruínas Circulares
afixe (RIP)
BdE I (RIP)
BdE II (RIP)
de vagares...(RIP)
A invenção de Morel
Sociedade Anónima (RIP)

 

Farmácias de Serviço

 

100 nada
31 da Armada
A aba de Heisenberg
Abrupto
O Acidental (RIP)
Adufe.pt
A Gaveta do Paulo
Agridoce
Alexandre Soares Silva
Almocreve das Petas
Amor e Ócio
António Sousa Homem
Arrastão
As Ruínas Circulares
Atlântico
Avatares de um desejo
O Avesso do Avesso
Babilônia
Babugem
Bada Bing!
Bandeira ao Vento
Barnabé (RIP)
a barriga de um arquitecto
Beco das Imagens
Blasfémias
Bomba Inteligente
Bombyx mori
Bonfim
Blogue dos Marretas
Blogo Social Português
Cabra de Serviço
Caderno de Verão
Caixa de Costura
Canhões de Navarone
Cão de Guarda
Casa de Cacela
Casmurro (RIP)
A causa foi modificada
Causa Nossa
O céu sobre Lisboa
Charquinho
Cibertulia
cinco dias
Cocanha
A Coluna Infame (RIP)
Complexidade e Contradição
Confissão do Silêncio
Conta Natura
Contra a Corrente
Coroas de Pinho
Crítico Musical
Crónicas Matinais
Cruzes Canhoto (RIP)
Daedalus
Daily Make-up
Da literatura
Desesperada Esperança
A Destreza das Dúvidas
Diário Ateísta
É a Cultura, Estúpido!
Em Busca da Límpida Medida
Enresinados
Epicentro
A Ervilha Cor de Rosa
Esplanar
Esquerda Republicana
Estado Civil
a.estrada:
Estrangeiros no Momento
Eternuridade
Floresta do Sul
Fora do Mundo (RIP)
FotoBen
Frangos para fora
french kissin'
Fuga para a Vitória
Fumaças
O funcionamento de certas coisas
garedelest
Gato Fedorento
Geração Rasca
Glória Fácil
Grande Loja do Queijo Limiano
Grupo do Pato
Hipatia
Homem a Dias
:Ilhas
O Insurgente
Intermitências da Corte
A Invenção de Morel
Janela Indiscreta (RIP)
Janela Para o Rio
João Pereira Coutinho
Klepsy´dra
A Lâmpada Mágica
Laranja Amarga
Last Tapes
letra minúscula
Letratura
Malfadado
Mar Salgado
Margens de Erro
Mas certamente que sim!
Meditação na Pastelaria
melancómico
A Memória Inventada
Memória Virtual
A Metamorfose
Miniscente
Modus Vivendi
Muro Sem Vergonha (RIP)
A montanha mágica
Nada Niente
A Natureza do Mal
O Observador
Ó Faxavor...
A Origem do Amor
A Origem das Espécies
Palombella rossa
O Pastelinho
Pastoral Portuguesa
Pedro Chagas Freitas
pequeno blogue do Grande Terramoto
Periférica
pesadelo sem ar condicionado
Pólis & Etc.
Ponto e Vírgula (RIP)
Ponto Media
Pópulo
Portal Galego da Língua
A Praia
Quartzo, Feldspato & Mica (RIP)
Quase Famosos
read me very carefully
Renas e Veados
Rimbaud Warrior
Rititi
Rua da Judiaria
Ruialme
seta despedida
Silêncio
Solvstäg
Sound + Vision
Tempo Contado
Os Tempos que Correm
Tomara-que-caia
Três Pastelinhos
True Lies
Um blog sobre Kleist
O verso dos versos
Vício de Forma
Vidro Duplo
Vistalegre
Voz do Deserto
what do you represent
The world as we know it


© 2006/07 Aspirina B | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Wordpress | afinado por Paulo Querido | Topo