ontem foram as cerejas, hoje bom vento de frente, é só coisas benfazejas a alegrar a vida à gente

À distância de vários quarteirões, em zona urbana, nada nos chega no meio do barulho. A igreja fica num núcleo desenhado por Cristino da Silva sem fazer parte desta arquitectura. É pena. Trata-se duma daquelas igrejas que não convidam o rezador relutante: luzes fluorescentes, excessivas, e arestas finas nos detalhes das superfícies polidas. Não há recortes sombrios, sequer penumbras, nem gradações cromáticas a simularem uma glória luminosa mais clara que o branco.
O padre é um velho rijo que ensinou teologia. Esteve em missões diplomáticas, operações de algum risco ou melindre, e cobranças de promessas terrenas da igreja, relativas à ética de freis-tomás proverbiais. Conversador compulsivo que mistura a cada passo o espírito com a matéria, o sagrado com o pragmático, quase evidencia para o ouvinte distraído das suas dúvidas a existência natural de Deus. Baptizou o meu filho mais novo e por pouco não conseguiu atrair toda a família para as suas homilias.
Era de lá, hoje, que vinha o som. Devem ter usado amplificadores, mas o vento terá ajudado a trazê-lo até à minha janela. Numa tonalidade ancestral, como a melopeia dos amoladores, ou as toadas dos nómadas do deserto a medir as distâncias percorridas, ouço cânticos religiosos. A voz de homem sobe e curva, inflecte e sobe mais um pouco, pausa e declina, mais e mais grave.
As últimas palavras sobressaíram, estranha nitidez. Foi talvez milagre de Fátima a lembrar a primavera. Uma voz de homem ter vindo cantar aos meus ouvidos, baixinho. E a acabar por dizer, no fim de tudo, o nosso amor.

30 comentários a “ontem foram as cerejas, hoje bom vento de frente, é só coisas benfazejas a alegrar a vida à gente”

  1. Excelente prosa. Tenho quase a certeza que conheço essa igreja. Julgo que foi nela que fiz a reportagem do funeral de Vítor Damas. O mundo é pequeno e somos todos primos.

  2. Susana,

    Lovely piece, although some may have no noticed that the priest you portray seems more prepared for the Masonic first sacraments than anything else connected with his official embassy. Also, were I a princess of the beaux Portuguese letters like you, I would have written freis-tomases, shunning whoever felt critical or purist about it.

    Sô zé,

    A man who strolled happily on grounds covering skulls and tibias from the London black death and with an established practice at reporting sad funerals, wouldn’t have any problems writing poetry about footballers, would he? Now we all know. Keep unfolding to us the great professional secrets of your life.

  3. (mas aqui ainda não chegaram as cerejas, estive ontem a perguntar ao meu merceeiro e ele diz que as chuvadas deram cabo de muita, só para a semana)

  4. Recebeste a mensagem de Fátima assoprada pelo vento? Ou chegaram-te uns avés pela televisão do vizinho?

    Pela probabilidade das obras respectivas, acredito mais no diabo do que em deuses. Fátima é apenas um centro comercial.

  5. O vento de frente, aquela suave brisa que passa por nós como um afago, tem dessas coisas: aquecer-nos o coração e levar-nos os nossos pensamentos numa serena bolina, descontraídos, sem cuidados com a retranca, ouvindo as amorosas mensagens que nos vão chegando… Bonita evocação, susana, que neste 13 de Maio nos ofereceste.

  6. Tás muito pródigo,JCFrancisco. Logo três comentários à patroa! Fizeste então a reportagem do funeral do Vitor Damas na tal igreja. Mais uma oportunidade, não perdes nenhuma, para te armares em carapau de corrida,«Zézinho nº1». Quero dizer para arrotares outra postita de pescada das tuas. Olaré,pá! A gente auguenta.

  7. Também com um «nome» destes não se pode esperar grande coisa. Eu escrevi que «julgo» ter feito a reportagem do funeral de Vítor Damas «naquela» igreja mas obviamente não tenho a certeza. É uma intuição; coisa que não te deve dizer nada. Nunca escrevas «a gente» porque não representas ninguém. Esse plural é um exagero além de ser um erro crasso.

  8. Pelo Damas, tenho. Só não tenho é para tipos género José do Carmo Francisco, que nos atormentam com as postas de pescada que nos atiram a toda a hora. Se não tinha a certeza se havia feito a reportagem do funeral, nem se aquela teria sido a igreja, para quê, então, falar nisso!?
    E olha lá, ó João/Joni, «erro crasso» são os poemas que o Zézinho nª1 nos impinge constantemente. O erro crasso é dele, por pensar que sabe escrever poemas, pá!
    Não, filho, não é “popularucho” (tens alguma coisa contra o que é popular, és, por acaso de sangue azul, meu?): é mesmo Poesia Porno!
    E mais outra coisa: onde é que diabo viste no meu comentário desrespeito à memória do Vitor Damas, pá? Ou estás a sonhar, ou precisas de óculos! Eu até sou do Sporting!

  9. Pois, também podes chamar-me Pontos nos II, se preferires. Talvez seja menos «popularucho». É o resultado de usar dois pseudónimos, tá-se mesmo a ver, ó João/Joni!

  10. Pontos nos «iis» não finjas que não percebes que eu fiz de facto a reportagem do funeral do Vítor Damas mas não tenho a certeza de que a igreja é a mesma que surge no texto da Susana. Comversas da treta são para o Toni e para o Zezé.

  11. joni, obrigada.

    jcfrancisco, dado que até sabes a minha morada, não vale pores-te com artes divinatórias (mas, por favor, não a reveles…!).

    nik, não creio que tenha recebido uma mensagem de fátima. quem?

    zé, obrigada. e dizes bem desses ventos.

    joão, wind-o.

    noveetal, és uma querida. um beijo também para ti.

    poesia porno, não sou patroa.

    rodalivro, todos os caminhos são bons, quando são nossos.

  12. Oh PiPi…os cavalos..de raça fazem ihihih…o som sai nasalado…..iiiii sou eu a rir-me
    ou será o contrário. Não importa….
    Digo-te que me estou a rir………..rsrsrsr
    Olha… e saudações leoninas… e o Vitor Damas merece-nos todo o respeito

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