o balido dos inocentes

A mão pousava os dedos espalmados na beira do balcão, com o braço a sustentar o peso do corpo em fuga ligeira à ortogonalidade. Está tudo sempre a cascar nos militares, mas queria ver se viesse a guerra. Quando é a guerra, aí já nos querem. Aí é que ficam a saber o horror da guerra, não é como imaginam. Olhe, digo-lhe: o meu amigo se houvesse guerra até me confiava a sua mulher para eu dormir com ela! Nas bochechas do rapaz, de uns vinte anos, vê-se um esforço de contenção que obriga a substituição do riso por um esgar de cortesia.
O homem na reserva debruça-se para a frente, olha de esguelha para mim e levanta o tom de voz. E a corrupção? Andam todos a meter dinheiro ao bolso, mas quando são os militares cai tudo em cima. Nós que somos os primeiros a castigar os nossos, nós que temos uma ética! Agora os políticos, e as estrelas, anda tudo à solta. O único que foi dentro foi o Vale e Azevedo. É sempre assim: os grandes safam-se, quem vai dentro é a lana caprina.

8 comentários a “o balido dos inocentes”

  1. escrevi também hoje sobre a balança da justiça…

    parece que o Vale Azevedo foi escolhido para fingir que a justiça também chega aos grandes e poderosos, Susana…

  2. Qualquer portuga que vai preso, a primeira coisa que diz é que está a pagar pelos outros. E, se puder, bate no juiz.

  3. No nosso país Vale tudo, aliás, como em qualquer outro país que se preze.. os bons exemplos começam logo com a seita do paté de Bruxellas, cujos funcionários políticos eleitos podem arrecadar, se souberem espremer à teta à vaca, ao pato ou ao porco, já que é de paté que estou a falar, até perto de meio milhão de eurórios sem necessidade de apresentar recibo. Que ninguém se admire, portanto.

    De facto, quanto mais ladrão houver melhor. Quando formos todos ladrões ninguém precisa de trabalhar, não há mais desonra nem lama e acabam-se as lamúrias nos cafés e ao café. Um projecto ainda mais realista que o próprio còminismo.

    Seria interessante ter apensado a este post uma lista “curta” dos Azevedos que não foram dentro e que não precisam de viver em Londres no e$ílio.

  4. Esta história lembra-me um soldado no Hospital Militar onde estive (1972-74) que me pediu para escrever uma carta a um primo na Guiné: mandava cumprimentos para todos e pedia ao primo para «tratar bem a minha mulher mas não dormir com ela na cama, não»

  5. Zé,

    Se estiveste lá (na Estrela, não é?) de 72 a 74, das três uma: ou eras amanuense, ou enfermeiro, ou sofrias de doença grave e prolongada. Podes ter sido outra coisa qualquer, mas é tudo o que se me oferece dizer dada a minha limitada experiência de cabo da guarda aos fins de semana. Conta, para metermos na ficha. O detalhe e a variedade nas tuas futuras memórias em calhamaço de capa mole vai depender muito do que nos confessares.

    Prá geral e para a autora:

    Também sou capaz de admitir os meus erros. Afinal, o casino de Bruxelas ainda é pior (isto é, melhor)do que eu pensava em termos de “auferíveis”. Quem quizer um link, peça-mo.

  6. valupi, de facto… as evidências parecem não usufruir de grande liberdade.

    luis éme, parece que vale e azevedo não teve escapatória. como se costuma dizer: vergonha não é roubar, é roubar e não saber fugir.

    nik, tal e qual. como se os outros não pagarem fosse cumulativo nos casos individuais.

    substantia, muito bem visto. é uma visão peculiar do tema. e gostei do e$ílio, é invenção tua?

    jcfrancisco, aí está o contraditório.

  7. Por acaso não foi na Estrela; há mais hospitais militares em Portugal. A minha especialidade é contabilidade e Pagadoria. Era eu que pagava aos médicos num envelope que servia de recibo…

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