no sábado

cartaz-7-juno-2008.jpg

Não se deixem enganar pelo Carlos. É de carols que se trata. Aquelas peças de canto coral que fazem crescer as crianças inglesas no amor à música enquanto lhes afinam a voz e a sensibilidade. Razões de cultura que permitem a revelação de fenómenos como este e que tão pouco alimento têm nas nossas imediações. Vale a dedicação de uns poucos e a atenção que lhes dermos se queremos um tanto para nós. Quando os nossos filhos vêem meninos como eles a fabricar tecido musical com instrumentos tão acessíveis como a voz, o futuro tem mais mundo. Para nós o garante de umas lágrimas comovidas; eu, pelo menos, choro sempre.

Organizem excursões familiares, convençam estranhos na rua, gritem aos quatro ventos. A Aula Magna tem de encher. O coro infantil merece-o e com a escassez crescente de apoio ao ensino da música, eis uma oportunidade de mostrarmos que estamos desse lado. Entretanto fica um perfume de outras interpretações do mesmo.

26 thoughts on “no sábado”

  1. Eu queria era ouvir o coro dos meninos delinquentes do Bairro da Boavista. Isso é que me faria chorar. Os Carols podem ir pró Carolho.

  2. substantia, acrescento que, do mesmo modo, os requiems não se cantam só em funerais.

    joni, os meninos não estão na universidade, são pequenos mesmo. mas cantam bem. :)

    nik, depois de ires lavar a boca com sabão e esfregares bem com pedra-pomes, voltas aqui e repetes comigo: fui ordinário e não tornarei. três vezes.

  3. Eu também gostava de ouvir o coro dos meninos do Bairro da Boavista. Os delinquentes, esses há em todos os bairros, uns mais disfarçados que outros e não são dados a cantigas. Os miúdos não têm culpa, nem os que nascem no Bairro da Boavista nem os que cantam no coro. Ao menos que alguns cantem, pode ser que os outros os oiçam e queiram também, que isto de cantar, nem voz é preciso, só é preciso mesmo é vontade.

  4. nik, ai-ai-ai-ai-ai! não repetiste comigo. vá: fui ordinário e não tornarei. três vezes.

    mana, bem dito.

    joni, e são. hiper-dotados de vontade e amor à beleza.

  5. Tem muita razão a senhora Dona Susana. E também não é só na Páscoa que se comem amêndoas ou sardinhas na época (começou agora) em que elas estão gordas e apetitosas. Se a ignorância permitisse discutir esta música em profundidade, impossível sem a ajuda dum organista experto em cânones e ginásticas vocais, nunca mais daqui sairíamos e acabaria inevitavelmente por vir à baila possíveis origens paganistas dos Carols (e de muito mais a ver com rituais e costumes religiosos) que também podem ser cantados em Páscoas e outras festas religiosas.

    Quanto ao Requiem (missa pro defunctis) polifónico, que praticamente se resume a uma missa musical onde as aleluias e as alegrias das missas normais são substituidas por palavras de tristeza e despedida, também se pode ouvir em qualquer altura do ano em qualquer estabelecimento, normalmente magnas cavernas de gente “entendida”, para relembrar e apreciar a obra de velhos compositores – religiosos ou não. Tudo dependia das encomendas, como deve saber.

    Reforçando a sua tese-explicação sobre a maleabilidade dos calendários dos recitais, já dei por mim carradas de vezes, ridiculamente, admito, a assobiar o Hino Nacional em situações ou locais pouco apropriados à dignidade dessa canção patriótica e republicana com subsídios da Marselhesa ou da Internacional – já nem sei, estes assobios urgentes e naturais, sem intenções políticas malévolas, não ficam muito bem gravados na minha Substantia.

    O meu reparo inicial mantem-se. Se os agricultores da cultura do país com menos indústria que no tempo do Salazar mas muito mais conversa e encanto põem meninos a cantarem em Junho caróis, é porque eles e as ideias que têm têm menos a ver com Deus que têm a ver com deuses-sóis. A tal paganada. Para uma portuguesa de pauta e flauta como a Susana, meia palavra basta.

  6. substantia, mas quem subsidia não é quem escolhe o programa. o programa foi escolhido pela maestrina. porque é uma obra complicada foi trabalhada desde o princípio do ano lectivo e vai a cena no fim. mas até podes ver a coisa como uma manobra contra os filisteus, se se celebra o nascimento de jesus em junho, altura das festas pagãs.

    mas gosto de saber que assobias, tanto faz o que assobies.

  7. Não sei se conhecem um filme francês passado nos anos 40, Les Coristes, de 2004, sobre um reformatório para miúdos bastante amalandrados, alguns delinquentes mesmo, e um professor inteligente e dedicado que lhes dá a volta e forma com eles um grupo coral. Esse filme, pungente sem lamechice, fez-me estremecer e chorar ao ouvir o tal coro, milagre de humanização e integração de rejeitados da sociedade. Depois disso, será muito difícil quaisquer meninos prodígio de países ricos, criados como flores exóticas em redomas de ouro, comoverem-me com o seu canto genial.

  8. sem-se-ver, eu sei, mas ainda não ouvi. :)

    nik, ainda não te redimiste, mas enfim, como sou generosa respondo-te.
    mas isso era filme ou documentário? é que se era filme… tás a ver, não é? a diferença disto vai no sentido inverso. e onde se passava, no bangladesh?

  9. Nik, nunca vi o filme, mas adoro a banda sonora (Vois sur ton chemin, Morhange, etc.). Tenho de colmatar esta lacuna. Quero também ver é o último vencedor de Cannes.

  10. não, em França. é um filme menor com propósitos maiores – e estes, porque conseguidos, comovem, realmente.

    (além de que o miúdo escolhido para interpretar o aluno rebelde que a música vai integrar enfim é um portento – de voz e de beleza)

    contudo, susana, a sua observação é mais do que pertinente.

    (e se é por isso dedico-lhe um dia destes uma serenata assobiada, com todo o prazer :-)

    p.s.: o filme é do barratier, que não sei como canta mas lhe reconheço dotes como músico – e que é um pão do caraças, btw.

  11. Nik, esse filme é lindo, de facto.
    O papel de protagonista é desempenhado por Jean Baptiste Maunier, este menino prodígio aqui http://www.youtube.com/watch?v=rEs1wtsw_IA De rejeitado da sociedade nada tem. Mas comove. Lá isso…

    Vá lá assistir ao concerto no Sábado. Pode ser que se comova. É que estes são a sério. Não são actores, nem meninos prodígio. Nem tão-pouco vivem num país rico.

  12. sem-se-ver, calculei que fosse, perguntei porque o nik disse que decorria num país mais pobre que o nosso (e com exagero, claro, gá ainda uns quantos intermédios…). e agradeço antecipadamente a serenata!

    mi, pronto, já vi que sou a única que não viu esse filme. :(
    a ver se recomeço a ir ao cinema…

  13. Vá, todos à uma:

    Caresse sur l’océan
    Porte l’oiseau si léger
    Revenant de terres enneigées
    Air éphémère de l’hiver
    Au loin ton écho s’éloigne
    Châteaux en Espagne
    Vire au vent tournoie déploie tes ailes
    Dans l’aube grise du levant
    Trouve un chemin vers l’arc-en-ciel
    Se découvrira le printemps

    Caresse sur l’océan
    Pose l’oiseau si léger
    Sur la pierre d’une île immergée
    Air éphémère de l’hiver
    Enfin ton souffle s’éloigne
    Loin dans les montagnes
    Vire au vent tournoie déploie tes ailes
    Dans l’aube grise du levant
    Trouve un chemin vers l’arc-en-ciel
    Se découvrira le printemps
    ———

    Com meninos angélicos entra melhor.

    “Vire au vent tournoie déploie tes ailes
    Dans l’aube grise du levant”

    Desculpem-me as meninas frágeis e impressionáveis, mas não estará esta aurora cinzenta do oriente carregada de racismo “semita” a acenar-nos com arco-irisadas discussões fáceis? I xinco so, and correct me if I am wrong (trompé). D):

  14. substantia, sabes que não gosto de macular os teus esforços em prol do aspirina (que deviam ser outros, mas tu é que sabes) no entanto devo-te um esclarecimento:
    “levant” pode, de facto, ser o Oriente, mas também é como se designa, em França, um vento de Este, muito húmido, que sopra na Provence, Côte d’Azur, no Rousillon e na Córsega, responsável por inundações devastadoras e por grandes tempestades no mar. ou seja, “aurora cinzenta do oriente” pode ser “aurora cinzenta do levante”.
    trompé, pois. não confundir o trompé do detalhe com as trompas do ensemble.

  15. … e pressurosa foste à wikipeida desencantar uma saída airosa com ramalhete. Bem, menina, não queiras convencer-me que não há terreno para dúvida, porque sem dúvida não há verdadeiro respirar. A intenção não está nunca nas flores mas sim em quem as oferece.Considera-te, para já, um peão da Europa Cantat. Não digo mais. Para boa entendedor, meia Susana basta.

  16. claro, substantia, sabia a que se deveria referir o termo, mas quis providenciar-te uma definição com outro grau de credibilidade e rigor.
    mas ainda bem que entendeste que as flores que te ofereci foram bem intencionadas…
    obrigada pela compreensão de que meia susana basta para uma boa explicação. uma inteira seria excesso de zelo, de facto.

  17. substantia, o concerto foi maravilhoso. e tenho que te ler em voz alta uma nota do programa:

    A incrível atmosfera e beleza da obra «A Ceremony of Carols» de Benjamin Britten e a sua relevância no repertório coral infantil, ultrapassam quaisquer fronteiras Natalícias: cantar ou ouvir o gelado «in Freezing Winter Night» em pela Primavera, seguido do leve »Spring Carol» – provoca tanto nos executantes como no público sensações certamente muito diferentes do que ouvir as mesmas peças em pleno Inverno; o suporte muito mais consistente que o piano confere às vozes (em vez da harpa, instrumento para o qual a obra foi originalmente escrita) permite outro tipo de interpretação e finalmente o desafio de realizar esta obra numa sala de concertos, longe da acústica ressonante de uma igreja, obriga-nos a um cuidado redobrado e a utilizar toda a nossa força expressiva para criar os ambientes requeridos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *