Os graffiti são tão perenes que incomodam populações e autarquias. Embora após Basquiat mais nenhum artista saído da rua tenha podido contar com roubos de paredes inteiras por potenciais coleccionadores sem dinheiro, os graffiti ascenderam ao estatuto polémico de obras de arte, para os que os vêem neles uma curte de expressão cultural street, grunge, ou pop. Outros, ainda, encontram nesta actividade uma terapia ocupacional para prospectivos meliantes. A cultura de massas na sociologia de arte ou a arte em acção social. A maioria considera-os uma violação do espaço público, uma porcaria, uma praga.
Certo é que a banalização da tomada de paredes alheias como suporte traz muitas vezes experiências felizes. Uma animação produzida em Buenos Aires apaga, por acréscimo, o tagging que prolifera pelas ruas. O autor usa as paredes e o chão para os desenhos que somam as frames filmadas. Como isto acontece num espaço exterior, em luz diurna, e os desenhos são executados sobre as superfícies dos muros e pavimentos, o tempo acaba também fixado na acção, variando as sombras e as horas do dia à velocidade impressa pela animação. Deixa de ser fundo, para ser movimento. O filme parece fazer-se a si próprio, como se o organicismo dos desenhos tomasse conta dos eventos e se estendesse ao cenário, engolido e regurgitado. Uma experiência háptica num filme de animação, que aposto até o Valupi irá gostar.
MUTO a wall-painted animation by BLU from blu on Vimeo.
Descoberto aqui.


é tão fascinante esta interface do mundo entre o real e o imaginário…
(graffitando: portanto ó Tubaroso, mostra lá que tens tomates e manda um aleph de euros ao dragão, perdidos no fundo)
(espero que dê igual a petróleo ou diamantes ou assim)
Gosto, confirmo. O problema, para mim, não é a mera intervenção gráfica em espaços públicos, é a sua usual fealdade. No caso do filme, que vale por si, e se eles assim limparam muita sujidade grafiteira, ainda melhor o resultado final.
Esqueci-me de perguntar: em que sentido estás a usar a palavra “áptica”?
no sentido de haptic, em inglês (e que vem do grego, claro). ou será háptica? há palavras que usamos em áreas específicas e que não aparecem em alguns dicionários, ainda, como inuendo, elusivo, etc (ou pelo menos não as encontro nos meus). traduzi livremente, i.e.: à balda.
enfim, tem um sentido táctil, ou relativo ao toque. mas é habitual esta distinção (entre táctil e (h)áptico) para separar uma experiência que comummente se reporta ao toque da mão de outra que se reporta ao corpo sensorial como um todo (por isso se usa tanto a falar de arquitectura), com um lado acústico importante (no sentido em que retiras conclusões, a partir de dados auditivos, acerca do toque, temperatura e textura, escala, espessura, etc.) e uma possibilidade evocativa e não directamente experienciada (como a expressão de um material sentida a partir do olhar conjugado com a memória táctil) à qual se liga a propriocepção, a consciência das partes e posições do corpo, do movimento, etc.
innuendo = indirecta, alusão indirecta, insinuação
elusive = furtivo, escorregadio, fluido, fugaz, esquivo, evasivo, arisco, subtil, imperceptível, indefinível
Este dicionário
http://www.workpedia.com.br/
tem uma entrada ELUSIVO, com o mesmo sentido da palavra inglesa. Os dicionários brasileiros têm muito mais anglicismos e americanismos do que os nossos.
haptic = táctil
O dicionário brasileiro de português atrás citado também tem uma entrada HÁPTICO, com o sentido de referente ao tacto (tato, provavelmente, pela nova grafia do Acordo, uma vez que o c é mudo, embora também exista no português tato sem c com o sentido de gago).
Já agora, FRAME em portugês é FOTOGRAMA
“Prospectivos meliantes” em português será MELIANTES POTENCIAIS
tens razão, nik, não me lembrei do fotograma. mas frame é suficientemente usado, por ser linguagem técnica. quanto a prospectivos, não há problema, a palavra existe até no priberam, de certeza.
e sim, haptic é táctil. no entanto usa-se a palavra com um sentido mais amplo em vários contextos. se o disseres relativamente a um filme faz sentido porque é «relativo ao toque, ou ao tacto», pelo que pode contemplar a evocação da experiência, desde que acorde o corpo.
é verdade, valupi, concordo contigo acerca da usual fealdade desses registos. tanta parede e tão mal usada. daí o «arte» em itálico, no texto. neste filme, e pela sua natureza, fica-me a possibilidade de imaginar que todos aqueles desenhos são conservados ao longo do muro, apetecia ver os fotogramas todos sobrepostos com o todo dos muros e pavimentos, qual o efeito.
nik, entretanto constato que na mordebe aparecem as duas formas: áptico e háptico. no entanto a segunda surge no google em contextos com o significado pretendido, enquanto a primeira nadinha. por isso vou corrigir o texto…
Dicionário Houaiss
Háptico
adjectivo
relativo ao tacto; táctil
gr. haptikós,ê,ón ‘próprio para tocar, sensível ao tacto’, der. do v. háptó ‘ajustar, ligar, prender, tocar’; ver hapt(i/o)-
hapt(i/o)-
elemento de composição
antepositivo, do v.gr. háptó ‘atar, prender, ligar, tocar’; ocorre em voc. formado no próprio gr., como háptico (haptikós), e em cultismos da terminologia científica, do sXIX em diante: haptena, hapténico, hapteno, háptero, hapterono, haptina, haptocarpo, haptófase, haptofásico, haptofícea, haptofíceo, haptofórico, haptóforo, haptogéneo, haptógeno, haptoglobina, haptoglobínico, haptotatismo, haptotrópico, haptotropismo
O filme é bom
grafitti?
http://5dias.net/2008/05/17/conforme-original/
zeca, pois. pela parte do «relativo ao tacto» pode chegar-se a muita coisa.
joni, pois é.
graffiti, z.
lembro-me desse texto, o rogério já o tinha posto no aspirina.