encontrado ao fim da tarde sobre a mesa do café

desprezo

Jazia morto na estrada. Aproximei-me.
Ao ritmo lento da decomposição, bailava um sorriso involuntário na face já ausente de carne. Retribuí o sorriso, com desprezo. Baixei-me, tirei-lhe o dinheiro. Voltando-me esqueci-o de imediato. Os mortos não merecem memória.

eu sei que tu sabes quem sou

10 comentários a “encontrado ao fim da tarde sobre a mesa do café”

  1. Susana, isto merece uma brincadeira para animar a tertúlia. Até pode ser cantada como um fadinho com a música do Fado das Horas:

    Jazia morto na estrada
    Aproximei-me, então
    Ao bolso joguei-lhe a mão
    Dele não quero mais nada…

    Naquele dia aziago
    Eu nem sabia quem era,
    Tinha instintos de megera
    Só por falta dum afago
    Mas que acção mal parida!
    Tem destas coisas a vida…
    Hoje ainda apalermada
    É que nem estava cocada!
    Procurei por todo o lado
    E vejo que o desgraçado
    Jazia morto na estrada.

    O que fazer deste gajo
    Foi o que logo pensei
    E ainda hoje não sei
    O que vi naquele andrajo
    Com mau aspecto e mau trajo
    Nem bonito, nem gatão
    Que me levou à paixão!
    Depois do primeiro choque
    Encarei aquele escroque.
    Aproximei-me então.

    Com os anos tudo passa.
    Eram anseios ilusões
    Fazia o euromilhões
    Sempre sonhei ser ricaça
    E o que foi uma ameaça
    Passou a ser solução.
    E naquela indecisão
    Ao chegar à sua beira
    Vejo a ponta da carteira
    E ao bolso joguei-lhe a mão.

    Saquei-lha de imediato
    Tirei-lhe a chave do cofre
    E num repente, de chofre
    Como num último acto
    Tirei ali o retrato
    Àquela face cavada
    Que tenho lá pendurada.
    Qei que tu sabes quem sou
    E meu amor tudo te dou
    Dele não quero mais nada…

  2. susana,
    julgo que a expressão indicada aqui seja “Bem sacado!”. Estão muito bem sacados, ambos, que já li o outro post também.

    zé,
    perfeita, de facto, para o Fado das Horas. E não menos bem sacado, cada sacanço no seu género, evidentemente. Clap clap.

  3. os textos não são meus, claro. seria incapaz de escrever uma coisa destas. no entanto aprecio esta escrita, e intrigam-me. não sei de quem são, mas parecem ser de alguém que me conhece.

  4. hummm…

    (um dia ia com dois amigos em passo estugado carcavelos-oeiras e, perto de uma das estações de comboio, deparamo-nos com um gato morto. eu dou o imediato grito:
    – ‘olha um gato mortoooooooo!’.
    (diz um dos amigos):
    – ‘vê-llhe os bolsos e saca-lhe a carteira’.

    nunca mais olhei para um gato morto da mesma maneira: primeiro inspecciono-lhe os bolsos. e depois saco-lhes a carteira. se estiverem mortos, claro.

  5. valupi, prometo.

    noveetal, vou passar a andar mais devagar nas auto-estradas se dizes que os gatos, quando mortos, ficam de bolsos cheios.

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