Vou fugir de casa porque está muito calor

“É difícil, por isso, não admitir a hipótese de ter havido uma falha da protecção civil. Não se previu o risco de incêndio florestal, não se pôs a população em alerta para a possibilidade do fogo, não se prepararam meios para uma eventualidade, e quando o incêndio rebentou, não se tomaram todas as providências, como, por exemplo, controlar a circulação automóvel. Ao contrário do que disse o Presidente da República, não parece ter-se feito tudo o que se pôde.”

Rui Ramos, no site «Observador»

A quantidade de imbecis que resolve pronunciar-se sobre o drama de Pedrógão culpabilizando o Governo e a Protecção Civil não é surpresa, mas lá que revolta, revolta. Para além do descontrolo inédito do Nicolau Santos, que resolveu acusar a ministra, não se fizeram esperar os disparos vindos de uma das grandes concentrações de biltres que habita, como se sabe, o site «Observador». Rui Ramos, por exemplo, compara este incêndio ao da torre Grenfell, em Londres, onde se pediram imediatamente responsabilidades políticas (este o aspecto da tragédia que mais lhe interessa), e alvitra que, por cá, se deve fazer o mesmo – como se ele precisasse de pretextos para exigir demissões ao actual governo -, pois, como toda a gente vê, apesar do fumo, as duas situações são absolutamente idênticas, iguaizinhas. Um edifício de habitação social cuja manutenção está a cargo de uma autarquia ou dos serviços sociais (sujeitos da e à austeridade), mas sobre cujas obras os próprios moradores também se pronunciam, muitas vezes em seu próprio desfavor, é em tudo comparável a florestas imensas cuja propriedade se encontra dividida por um sem número de particulares obviamente avessos a delas fazerem doação ao Estado. Igual.

Mas igual mesmo só a austeridade de que o Rui Ramos foi grande defensor. E essa é claramente um obstáculo às intervenções do Estado, que Ramos repudia.

Sendo certo que o fim dos serviços florestais e, já antes, dos guardas florestais (como diz este senhor, no Público), foi prejudicial para a prevenção dos incêndios, é evidente que será muito difícil, num regime não ditatorial, que um qualquer governo chegue e confisque toda a floresta interior pertencente a privados, a desbaste, a substitua, a reconverta ou a limpe. Difícil, impossível nestes termos e excessivamente caro. Quem paga tal empreendimento? Além de que os incêndios do Verão não deixariam de acontecer. Aliás, bastaria um primeiro para provocar a queda de tão bem intencionado governo. Por isso, calma. Há coisas a fazer, como a abertura de caminhos, a sensibilização para a diversificação florestal (eu já estou sensibilizada) ou a concessão de incentivos aos proprietários, mas é preciso ver quem paga. O Rui Ramos podia dizer-nos.

Voltando à Protecção Civil, diz-nos o escriba que a mesma devia ter avisado as pessoas para o perigo que representavam as altas temperaturas esperadas. Ah bom! Só que esse aviso foi feito, é sempre feito! Além de que as pessoas não são desprovidas de pele nem de glândulas sudoríparas, e também de raciocínio. Assim, deduzo que o que a Protecção Civil deveria ter feito era ou colocar um carro de bombeiros em cada aldeia ou organizar uma operação gigantesca de evacuação de todos os habitantes do interior do sobre-aquecido país, que assim abandonariam as suas casas, animais e pertences e viriam passar uns dias ao litoral ou à casa lisboeta do Rui Ramos. Eram apenas três ou quatro milhões. Nada de mais. Tudo exequível e muito útil.

Ainda ontem atravessei de comboio a Beira Alta. Vi paisagens lindas, planícies, montanhas, pinhais, eucaliptais, florestas de espécies variadas, muitas delas nascidas em áreas há poucos anos ardidas, e também um rio, uma albufeira, enfim, tudo exposto aos quase 50 º C que bem senti no corpo no fim de semana. Parecia estranho, mas nada ardia. Nem o comboio foi tomado de assalto pelas populações avisadas. Deveriam as pessoas das aldeias da Beira Alta ter todas abandonado as suas casas perante a forte possibilidade de incêndio e a ministra que tal ordem não deu demitir-se? Basta de imbecilidades.

31 comentários a “Vou fugir de casa porque está muito calor”

  1. ora ,por falar em fugir veio-me à ideia os , à volta , treze mil presos de papo para o ar. descontando os velhotes e doentes , essa malta não podia limpar as matas e fazer corta fogos ? é que se questão de direitos humanos , já antes eles atentaram contra os nossos , na boa. há recursos humanos com dívida à sociedade a potes , população prisional , rendimentos mínimos e tal , tomates é que não há.

  2. e fui ali e vi que andam a atropelar muçulmanos… como sempre o povo trata dos assuntos muito melhor que o Estado. haja tomates.

  3. Não sou apologista da procura de cabeças para cortar quando uma tragédia acontece (a menos, é claro, que o responsável claro seja determinada pessoa). Ainda assim há uma coisa que me preocupa bastante: as declarações do presidente, primeiro-ministro e ministra vão naquele sentido de que pronto, aconteceu; não havia nada a fazer; fez-se tudo o que se podia. Este discurso sugere que nada será feito.
    A questão que se põe: há alguma coisa que se possa fazer? Se temos mais incêndios que Espanha, Itália e Grécia juntos acho que alguma coisa se pode fazer. Eu pergunto: quantos proprietários foram notificados pela SEPNA da GNR de outubro até ao mês passado para limparem os respectivos terrenos? os terrenos que arderam eram públicos ou privados? Se eram públicos porque não foram limpos pelas autarquias? Se eram privados foram os proprietários compelidos a procederem à limpeza? A GNR tem um corpo quase exclusivamente destinado a este assunto. Que faz esse corpo no inverno? Verificou aqueles terrenos? Se os viu certamente constatou que estava mato até ao alcatrão.

    Não peço cabeças mas caramba, não me digam que não há nada que se possa fazer. Há sempre algo que se pode fazer. E neste caso algo de muito estranho se passa. Os números no nosso país são gigantescamente anormais.

    Só uma nota: este tique de se procurar cabeças não é exclusivamente lusitano. Veja-se o que está a acontecer na Inglaterra. Pede-se a demissão política quando o prédio já era de construção antiga e, ali sim, pouco se poderia ter feito. Ao contrário das matas cujo problema está à vista desarmada. Basta fazer uma viagem de Lisboa a Trás-os-Montes para se perceber que o país é um barril de pólvora.

  4. O PSD e a direita estão reduzidos a esse atestado de impotência e incompetência: ansiar por incêndios, inundações, acidentes, actos de terrorismo, quedas bolsistas, epidemias, terramotos – qualquer “má notícia” é bem-vinda na tentativa de fazer esquecer as boas e de exigir a demissão do governo.

  5. Júlio, o líder do PSD já fez alguma condenação? A única declaração do líder da oposição foi esta

    “Agora é o tempo das autoridades atuarem, não é o tempo dos políticos”, afirmou no sábado Passos Coelho, sublinhando “toda a confiança” no papel dos agentes de Proteção Civil, bombeiros e autoridades centrais e locais envolvidas no combate às chamas

    Foi isto que o escandalizou? Se vivesse na Inglaterra cortava os pulsos.
    Se não há nada para dizer deixe lá as triquinhas e tente fazer um comentário construtivo.

  6. Se passoal Coelho se mantém em silêncio eu não tenho esse dever institucional. Como tal eu questiono a ministra, o primeiro-ministro e o Presidente da República, para que expliquem quantos proprietários, daqueles que viram o seus terrenos ardidos, foram notificados pela GNR ou outra entidade desde janeiro a esta parte, compelindo-os a proceder à remoção da biomassa florestal, conforme estipulado no Decreto-Lei n.º 124/2006, de 28 de julho, com última redacção operada pelo Decreto-Lei n.º 83/2014, de 23 de maio, mais concretamente no seu art. 15.º.

    Estar décadas a falar de prevenção, essa prevenção estar estipulada em lei e depois não se materializar, não se concretizar, merece uma resposta da tutela respectiva. Se nenhum dos proprietários foi notificado (não me admirava) penso que se deve apurar a responsabilidade dessa omissão. E aqui sim, caso essa omissão se manifeste gritante, deve ter consequências políticas. Mas até lá é ver o que a ministra tem para dizer quanto à concretização do diploma legal acima referido.

  7. “Agora é o tempo das autoridades atuarem, não é o tempo dos políticos”

    o passos foi à protecção civil declarar que agora é altura da polícia investigar e depois acusar os políticos. aliás gastou o tempo todo nisso, a insinuar que não iria insinuar até ter base para insinuações.

  8. “… quantos proprietários, daqueles que viram o seus terrenos ardidos, foram notificados pela GNR ou outra entidade desde janeiro a esta parte…”

    se calhar foram mais que durante os últimos 5 anos dos pafúncios, mas tu é que deves conhecer os números.

  9. o passos foi à protecção civil declarar que agora é altura da polícia investigar e depois acusar os políticos

    Espero bem que sim. Queria o quê? Que depois de uma catástrofe onde morreram 62 pessoas não se tocasse politicamente no assunto? Isso sim seria muito estranho.

  10. se calhar foram mais que durante os últimos 5 anos dos pafúncios, mas tu é que deves conhecer os números

    Como disse em cima, eu não conheço os números. Por isso se deve questionar a ministra.
    Não sei como é nos outros anos mas algumas coisas são certas: 1) incêndios gigantescos há quase todos os anos. Com este número de mortos foi inédito. A prevenção mudou ou foi igual? 2) o prédio que ardeu no Reino Unido foi construído há anos. Hoje pede-se responsabilidades políticas a quem actualmente está no Governo. 3) Ao contrário do caso inglês, cujas (eventuais) deficiências de construção não eram visíveis, no caso português basta andarmos pelas estradas deste país fora para se ver à vista desarmada este decreto a ser simplesmente ignorado.

  11. a sorte da tia penélope é que o costa com a sua reconhecida lucidez e competência, sabe lidar com estas situações e conseguiu que aquelas descompensadas figurinhas (PR e MAI) não deitassem tudo a perder.

    esta ministra já tinha demonstrado que não tem qualquer capacidade para lidar com situações de stress emocional, o que não se compreende num ministro da AI. num dos primeiros atos públicos que lhe conheci, apareceu no funeral de dois polícias mais descomposta e transtornada que a própria família. que triste figura, é como ir ao médico e termos nós que lhe dar a consulta.

    evidentemente, o costa convidará a ministra a sair pelo seu próprio pé.

  12. Há uma situação que me incomoda. A partir de certa altura comecei a duvidar se as operações estavam a correr dentro da normalidade ou não.. E chegou a outro tipo de dúvida. Estarei a ser fortemente manipulado pelas TV’s ou não (especialmente pela RTP ) ????
    As perguntas dos jornalistas ( então o ex-correspondente nos USA é uma desgraça – passa a vida a compor o auricular e as perguntas “para entalar” em vez de informar são a sua especialidade) e só a paciência de Marcelo, Costa e Secretário de Estado da ADM Interna valeram. Houve inclusivamente uma jornalista (????) que alegou ter chegado atrasada e não saber se o que ia perguntar já tinha sido feito ou não mas perguntou ( ao Costa)…. algo relacionado com verbas para assistência….Note-se que o fogo ainda não foi extinto ….Alguém ponha cobro a isto…Até parece que estagiaram TODOS no Correio da Manha… Uma vergonha!

  13. Ó Pinto, pense lá um bocadinho. Onde é que pode haver recursos humanos e maquinários suficientes para limpar dezenas de milhar de quilómetros de bermas de estradas de montanha duas vezes por ano? Só requerendo serviço cívico obrigatório.

  14. Lucas, tire essa ideia centralizadora, monopolista, estatista, de ser o Estado a comprar máquinas e a limpar os terrenos todos por esse país fora. 97% dos terrenos são de particulares (ainda ontem na RTP, às 20:30, isso foi referido). Cada proprietário deve limpar o seu terreno. Se os proprietários não têm dinheiro para os limpar (como ontem se ouvia) então devem pensar em vender pois ter um bem implica capacidade de o manter. Mais: a lei que indiquei já tem mecanismos para eventuais omissões: “Quando se verifique que o proprietário não procedeu à remoção das árvores até ao dia 15 de Abril de cada ano, a entidade gestora do posto de vigia pode substituir-se ao proprietário, no corte e remoção, podendo dispor do material resultante do corte
    (n.º 6, do art. 32.º do Decreto-Lei n.º 124/2006, de 28 de julho).

    Os mecanismos legais existem. Devemos analisar seriamente porque é que simplesmente não são postos em prática. Falta de meios da GNR? A GNR não tem um corpo exclusivamente (ou quase) destinado aos incêndios (os GIPS, se não estou em erro) A GNR não tem uma unidade de ambiente (SEPNA)? Depoios não existem não sei quantas autoridades disto e daquilo? O Estado não tem milhares e milhares de euros para lançar água de aviões quando o mal acontece? Não tem para limpar os 3% de terrenos (ou a parte desses 3% que fica junto a estradas e edifícios) que são dele? E para limpar de eventuais omissões por parte de particulares?

  15. eu quero que o governo justifique o porquê de o ministério do tempo decretar tanto calor e trovões secos. incompetentes os que estão ao leme da caldeira e do acerto das temperaturas! demissão, já! :-) ai que riso! :-)

  16. Olinda, esses fenómenos atmosféricos não são um exclusivo nacional. A enormidade de área ardida 8maior que Espanha, Grécia e Espanha juntos) e estas mores são um exclusivo.
    Querer resumir tudo a um “aconteceu”, à natureza que foi madrasta, ao azar, é sintoma de que nada irá mudar. E alguma coisa tem de mudar. Acho que já chega de virem especialistas trás de especialistas dizerem aquilo que já se dizia há 30 anos: que a aposta deve centrar-se na prevenção. Isso é um chavão. Obviamente que se as matas estiverem limpas há muito menos incêndios. Resta saber o que está a falhar nessa limpeza. Os particulares? Há mecanismos legais para os compelira a limpar. O Estado limpa o que é seu?

    Não, não é só o azar, as condições meteorológicas adversas, o vento. Não nos podemos resignar a esse discurso. Se o nosso caso é notoriamente diferente daquele que ocorre de Badajoz para lá então há algo que podemos fazer. Então o que sucede é consequência das nossas políticas de gestão do território.

  17. Vender a quem, Pinto? Como está a propriedade florestal de minifundio é um passivo, não é um activo. O que faltava agora era acusar as principais vítimas da tragédia! Não é nenhuma ideia centralista. A execução pode ser coordenda pelas juntas de freguesia. Mandem é gente para trabalhar. Em grande parte do território não há.

  18. Não sei se o Estado limpa tudo, mas em mais de 40 anos que vivo em Leiria, se não estou em erro houve um incêndio no pinhal, talvez há 30 anos…

  19. Qualquer um, o pinhal de Leiria é de fácil gestão, é uma área plana e o terreno arenoso não cria muito mato. Experimente utilizar os mesmos recursos nos cabeços e barrocas de Pedrogão.

  20. “Não sei se o Estado limpa tudo, mas em mais de 40 anos que vivo em Leiria, se não estou em erro houve um incêndio no pinhal, talvez há 30 anos…”

    deverias ter googlado “incêndios pinhal de leiria” antes de bolsares esse disparate, poupavas-nos o disparate e não fazias figura de parvo.

  21. O SIRESP que o Tó Chamuças adjudicou por 600M€ quando era MAI do 44 continua a dar boa conta de si. Os helicópteros Kamov onde o amigo do peito do bosta. o Lamerda Machado foi júri, continuam parados. Abençoados socialistas.

  22. ainda não tinha reparado na ministra , vi-a hoje. devia demitir-se pois , aos abraços e a chorar ? mas tem noção do cargo? a chorar ? é doida ? controlo-se , mulher.

  23. ministros, e homens, não choram, yo? a emoção não cabe no poder, é? que enormidade de disparate, cáspite!

  24. Vender a quem, Pinto? Como está a propriedade florestal de minifundio é um passivo, não é um activo

    Lucas, a intenção dessa norma não é que o produto da limpeza dê lucro mas que minimize os prejuízos de quem procede à limpeza (neste caso o Estado).
    Se desse lucro as florestas estavam mais limpas que o meu jardim.

  25. não cabe , não , Olinda , enquanto durar a emergência . depois de resolvido o problema chore lá à vontade. estou a imaginar o general a chorar no meio da guerra e tal.

  26. mas se não estás a imaginar será pela tua insuficiência – e não pela abundância de lágrimas que, estou certa, ele derrama. as lágrimas são libertação e força: um abastecimento.

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