Vermes

Acabei de percorrer a A25 desde uma das zonas mais críticas dos fogos de ontem – Nelas, Mangualde, Gouveia – em direcção a Aveiro. Isto porque me foi impossível fazer o trajecto habitual, que inclui o IP3 na zona da barragem da Aguieira, Penacova e Souselas em direcção à A1. Estava há muito cortada esta estrada. Pois toda a A25, ao meio-dia, estava envolta numa escuridão imensa (consta que já desde a Guarda, ou seja, de lés a lés), parecendo quase que o sol não tinha nascido, havendo ainda, nomeadamente na serra do Caramulo, pequenos focos moribundos no meio da desolação total.

Antes, passara a noite com a casa envolta numa nuvem densa de fumo, um ar irrespirável, um vento quente fortíssimo que fazia bater com estrondo tudo o que era porta e janela entreabertas. Nas mesas, em volta dos candeeiros acesos, uma névoa de fumo. De manhã, os carros estavam cobertos de fagulhas. O chão, as varandas, tudo sujo. Falando com vários habitantes locais, entre os quais o dono da oficina onde deixara o meu carro para uma pequena reparação de pintura, constatei a ansiedade, a consternação e, desculpem o termo, o “aparvalhamento” com o que estava a acontecer (“ardeu lá em cima a mata do Conde! “- diziam-me, referindo-se à propriedade de Paes do Amaral – que afinal escapou por pouco) e ouvi relatos de pessoas que se apresentaram ao trabalho e as instalações já não existiam – pequenas e médias empresas, oficinas como aquela, etc., outras que não puderam sequer sair para o trabalho. Pessoas sem dormir.

Este era o panorama. De um pouco mais longe, tivémos notícia de que todos os pinhais da família, na região de Tondela, arderam. Não sobrou nada nas margens do Dão e do Dinha. Cinzas.

Pois não ouvi da boca de ninguém a mais ligeira referência à culpa do Governo, ou da ministra, ou dos comandantes dos bombeiros, ou da Protecção Civil. Nada. Todos têm consciência de que o fenómeno foi demasiado avassalador e incontrolável para se poder apontar o dedo a este ou àquele dirigente (mas não aos incendiários, claro, que garantem ser a causa) e que, neste caso concreto de quase bombardeamento, seria difícil uma organização melhor ter evitado tais tragédias. O presidente da câmara de Oliveira do Hospital dizia, na rádio, que nem que dispusessem de 2000 bombeiros teriam conseguido controlar aquelas chamas, tamanha era a rapidez da propagação. Enfim, para apoteose final de uma extraordinária e longa “época de incêndios”, este 16 de Outubro esteve, infelizmente, à altura.

E no entanto, os jornalistas, ouvidos também na rádio, dirigindo-se à ministra Constança, apenas queriam saber se a senhora se demitia ou quando é que se demitia e o que queria dizer António Costa com as consequências políticas do relatório de Pedrógão. Pergunto-me se estas bestas de jornalistas têm sequer a noção do ridículo ou da sua condição de vermes.

18 comentários a “Vermes”

  1. a mim só me interessava que alguém me explicasse porque passamos de fogos “normais” a fogos “homicidas” . sempre houve fogos , fogos dantescos , mas assim com tanta vitimas mortal civil não tenho memória. e a ministra não tem culpa ,pois não , mas lá que é uma parve , é : ora chora , ora diz baboseiras.

  2. Tenho um “feeling” de que se esta desgraça tem acontecidos há um par de anos, já havia uns professores universitários, provavelmente de Coimbra (gente com pinhais, não é cá o merceeiro que vota no PSD, ou um ganhão do PCP), que, com as TVs a filmar, tinham ido apresentar uma queixa-crime no MP contra o Estado Português e os ministros “direitolas” “Era a troika a matar”, teria dito o saudoso Dr. Soares, aquele bispo da tropa, e todas as senhoras do BE. Assim, estando as coisas entregues a quem estão, trata-se, naturalmente, de obra do acaso . É certo que houve aquela ideia de meter uma pazada de militantes licenciados (ou, no espírito do ex-querido líder e do Relvas, “licenciados”) onde antes havia bombeiros. Ainda assim, foi um azar. Uma fatalidade (um acto de Deus não digo, para respeitar a laicidade). Para que conste, até acho que foi (ou “mau karma”, para compensar os “milagres económicos”), mas deste “feeling” ninguém me livra .

  3. as alterações climáticas por que portugal passa desde 2011 são dramáticas e bizarras: consulte-se no site do IPMA os gráficos mensais de precipitação desde 2000 agravado com aumento da temperatura média do ar.
    há muito, muito tempo que os cientistas falam na desertificação do sul da europa. acham que eles são loucos? e quando dizem que a água potável vai ser um problema também cada vez mais sério? também estarão com ataques de loucura?
    agora não há nada a fazer, vai arder muito mais e não vale a pena lutar contra a natureza, o interior ficará quase todo desflorestado em menos de 15 anos, porque não há nem haverá água, seja qual for o ministro que ocupe o MAI.
    os eucaliptos e os sobreiros sobreviverão por mais umas décadas devido à indústria que suporta o ordenamento dessas zonas até que se esgotem os nutrientes da terra quanto aos primeiros e for seca a mais para os segundos.
    uma das utilidades para cada vez mais território inevitavelmente desflorestado poderá ser o potencial da energia solar e repensar grande parte do ordenamento em torno desse potencial/indústria.
    comece-se a pensar nisso rapidamente, porque não nos vai restar muito mais tempo e toda a zona da estremadura, com milhões – não 35, que descansem em paz – de pessoas dependentes de água e alimentos pode estar seriamente em risco.

  4. JPT: Acertaste. A Troica, abraçada por Passos Coelho, deixou um rasto de destruição e escassez a vários níveis. Quanto ao resto, que sugeres que façam os bombeiros quando se dirigem a um foco para, poucos minutos depois, serem alertados para outro a uns quilómetros mais ao lado, e logo outro mais além e com as rajadas de vento a mudar constantemente as expectativas? Na zona onde estive foi isso que aconteceu. Além de estarem os terrenos completamente secos. Secos, mesmo secos, pois não chove há mais de três meses.

  5. Isto é no que dá PRIVATIZAR o combate aos fogos … porque os privados é que são eficientes, e tudo o que é público é incapaz. Está aqui o resultado. Parabéns à ideologia neoliberal.
    Suspeito que anda muita gente a atear os fogos para depois os ir apagar … e facturar com isso.
    Ele são as horas extraordinárias dos bombeiros, ele é o aluguer dos aviões, ele são as fábricas e lojas de material de combate aos fogos (que são detidas por chefes de bombeiros), ele são os sistemas de prevenção e telecomunicações, viaturas e … câmaras de TV, espetáculo garantido ao vivo e a côres. Est circo de horrores dá de comer a muita gente.
    Querem procurar os culpados. Vejam primeiro a quem aproveita o crime.
    Portugal corrupto até às entranhas.

  6. O Costa abandonou a ministra à sua sorte, desamparou-a, não a ajudou…o Costa queima quem se encoste a ele, vai-nos queimar a todos.

  7. Obrigado! Onde é que eu tinha a cabeça? Claro! o Passos e a Troika (ou melhor, os sacrifícios que todos tivemos de fazer “por causa deles”) a única coisa com que não tiveram foi a ver, foi com tapar o buraco sobre o qual se está a abrir, para alegria geral, o próximo buraco. Quais bombas ao retardador, ainda são esses crápulas que fazem com que, 2 (dois) anos depois de terem abalado, continuem a faltar barcos, comboios, metros e autocarros, e que ardam os pinhais dos nossos proletários. PS: quanto aos incêndios, não sugiro nada, nem imputo culpas, porque não percebo absolutamente nada do assunto . Vá lá que, felizmente para todos, como não sou militante de nada, não corro o risco de ser nomeado para um cargo na protecção civil.

  8. Pois eu acho que se o governo fosse de direita tinha apagado os fogos, e não se passava nada!
    Até porque esse governo teria falado atempadamente com o S. Pedro para não nos mandar clima tão adverso…
    Na California morreram uns 50, e houve centenas de casas ardidas, na França foram deslocadas 22.000 pessoas e arderam dezenas de casas.
    Não sei como esses países ainda não mandaram engavetar o comunista que provocou tudo isso. Aquele que caiu na asneira de ameaçar ir criar um departamento de combate aéreo a fogos florestais na Força Aérea Portuguesa. Aí o homem foi ingénuo…
    A iniciativa privada entrou em pânico com os milhões que deixaria de faturar nas célebres “épocas dos fogos”.
    É como se o Costa tivesse ameaçado privatizar os coelhos e as perdizes do país, destruindo assim a “época de caça” a tantos milhares de aficionados…

  9. na califórnia os fogos começaram domingo , 9 de outubro ,e ontem , 15 de outubro , ainda ardia. morrerram , por agora , 40 pessoas. convém prestar a informação correcta ,se o objectivo é fazer comparações…
    se as mortes fossem ao ritmo de portugal já tinham morrido umas 250 pessoas.

  10. Costa e o ajuntamento dos ministros para Sábado.
    Sábado?
    E nessa eternidade daqui até lá, essa cambada consegue dormir?
    Inúteis, irresponsáveis…Esse Costa vai enganar até quando?
    Os sócios da geringonça, para estas merdas, não são achados?
    E a oposição está aí para quê?
    Vou em peregrinação a Santa Comba…pedir desculpa!

  11. não sei é porque as tvs organizam novas mesas redondas e debates. não me parece que digam alguma coisa de novo . bastava passarem as cassetes das de pedrogão e poupavam recursos.

  12. YO das 21:43 (16/10)

    Tens razão mas falhas num “pequeno” pormenor. Falta acrescentar que na Califórnia estão “desaparecidas” mais de 200 pessoas.

  13. Mapa dos fogos ibéricos de 15-16 Outubro (NY Times): aqui.

    Apesar de não gostar de brincar com coisas sérias, a exposição prolongada às tentativas de explicação do fenómeno dos fogos, leva-me a enumerar quatro teses básicas:

    I) Limiares conjunturais de ignição de fogos ultrapassados: secas prolongadas + temperaturas + ventos de 100 km (hipótese naturalista).

    II) Pirómanos influenciados uns pelos outros e pelas chamas que produzem (hipótese patológica).

    III) Plano metódico de fogo-posto (hipótese conspirativa).

    IV) Obra de Deus ou do Demo (hipótese do dedo sobrenatural).

    Pessoalmente, adopto a primeira (note-se que a quarta é questão de fé, legítima à luz das falsas fés, como os alegados milagres do Sol ou do Golo do Eder, mas não debatível em termos racionais, i.e. à luz da verdadeira fé), até porque a segunda me parece insuficiente (naturalmente, a primeira não exclui instâncias ocasionais de piromania ou interesse criminoso localizado, mas considera-as apenas residuais), e a terceira não me parece convincente, nem pelos riscos que acarretaria, nem pela dificuldade em levar a cabo operações de tamanha magnitude e dispersão, durante tanto tempo, sem deixar rastos que pudessem conduzir, de uma maneira ou outra, através de tantos soldados alcoólicos ou alucinados, mas com pegadas materiais, a alguns dos cérebros responsáveis, o que até agora não aconteceu.

    No entanto, admitindo que a terceira está no domínio do improvável-mas-possível, de onde poderiam partir as eventuais actividades conspirativas criminais de fogo-posto organizado? O Ministério Público dos Indícios e Palpites Consolidados distingue as seguintes sub-hipóteses para a fascinante tese III (conspirativa):

    A) Madeireiros.
    B) Extintores de fogos.
    C) Políticos:
        1) Terroristas islamistas (al-Andaluzistas, Isis e/ou al-Qaeda etc.).
        2) Desesperados anti-situacionistas (partidos ressabiados, PSD e/ou CDS etc.).
    3) Terroristas esotéricos (satélite incendiário, mãozinha de Blofeld etc.) [*].

    A minha inclinação, como disse, vai para a hipótese naturalista que me parece, de longe, a mais verosímil, e não exclui casos ocasionais de piromania e/ou interesse criminal não-organizado.
    _______________________________________________

    [*] Proposta pelo grupo cívico «Costa Culpado!», segundo o qual a distância da Geringonça ao SPECTRE é menos que  mínima, se de todo alguma.

  14. Nem ridículos, nem vermes:

    M O N S T R O S !

    Mas cá os esperamos no próximo ato eleitoral. Não pensem que nos enganam mais alguma vez, FILHOS DUMA PUTA!

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