Tema para discussão

Em comentários à peça jornalística da Fernanda Câncio, hoje no DN, que aborda (desenterra?) (a culpa foi do Marcelo) o esclavagismo, o racismo (há por vezes confusão entre os dois) e o colonialismo portugueses, a meu ver numa perspectiva indiferente a que objectivamente se acicatem ódios (onde praticamente não existem) ou que incute culpas – deslocadamente – nos humanos actuais, fazendo brotar obstáculos inúteis no já de si vulnerável terreno da relação entre países agora independentes e sim, algo miscigenados, isto tudo a pretexto de não se contar “toda a verdade” sobre Portugal nos manuais escolares, descobri uma hiperligação para o vídeo que se segue. Desconhecia o conceito de «marxismo cultural», mas a descrição soa-me a algo de familiar. O termo é uma catalogação, como outras de campos opostos podem ser. E o que se diz pode, por vezes, ser ofensivo para quem genuinamente luta contra discriminações de vária ordem. Mas não faz mal pensar no assunto e discuti-lo. Quanto ao “cancro”, pode ser obviamente, ou não, um termo abusivo. Digam vocês.

(o vídeo é curto e tem legendas)

29 comentários a “Tema para discussão”

  1. É um magnífico tema para discussão, Penélope, também por estar cheio de uma miríade de subtemas cuja importância não é menor.

    Quanto ao vídeo, trata-se de uma peça de propaganda do populismo de direita que usa as bandeiras do nacionalismo travestido de identidade europeia. Não passa, portanto, da falácia da “guerra de civilizações”. As ideias propaladas são caricaturais, umas, completamente falsas, outras, e distorcem intencionalmente a História e os valores que reconhecemos como fundadores do nosso actual ideal humanista.

    Porém, a expressão “marxismo cultural” tem mérito e pode ser usada com proveito intelectual e cívico. Para a compreendermos teremos é de conhecer um bocadinho do essencial daquilo que ficou como “marxismo”. Isto é, teremos de ler Marx e entender o seu contexto e sua evolução como pensador.

    Indo directamente para o ponto que pretendo realçar, se é verdade que a contemporaneidade ocidental é moldada por um marxismo cultural, não menos verdade seria reconhecermos que igualmente é, ou foi em variáveis graus, influenciada por um cristianismo cultural, um freudismo cultural, um darwinismo cultural, um positivismo cultural, um estruturalismo cultural, um cientismo cultural, um tecnologismo cultural, um hedonismo cultural, e por aí fora, ao gosto e capacidades de reconhecer padrões de cada um. Ou seja, nós somos o resultado de diferentes factores históricos e suas interacções. Não estamos dominados por uma das partes – no caso do vídeo, Marx ou suas variações.

    A falácia básica que percorre todo o vídeo é a do apagamento das reais disparidades, e consequências dessas disparidades, existentes nas sociedades onde há minorias maltratadas. O vídeo, portanto, pretende ser eficaz junto de públicos que não saibam donde viemos, ou que não se importam com algo tão simples de lembrar como isto: há umas décadas apenas, na Europa berço da civilização, as mulheres não podiam votar, não iam para as universidades, estavam sob a alçada moral e legal dos seus maridos. Este público, cultural e civicamente fragilizado, está pronto para engolir a ameaça da invasão dos paquistaneses.

  2. É um bom exemplo, Val. Há umas décadas as mulheres não podiam votar na Europa, nem ir para as universidades, e estavam sob alçada dos maridos. Mas agora podem. Falta saber quem deu maior contributo para isso. Se os que agora, comodamente, fazem chinfrim de direitos que outros, em condições difíceis, conquistaram, se aqueles que, actualmente, recebendo o opróbrio de passar por extremistas, denunciam que muitos desses direitos e valores conquistados estão gravemente ameaçados. É idiota pensar que se algumas minorias protegidas desse marxismo cultural ganham poder o vão exercer da mesma maneira que aqueles que consideram opressores o fazem.

  3. Sobre o video, já disse e bem o Valupi: com aquela narração de voz pseudo-neutra e delicodoce, é pura propaganda do populismo de direita.
    Talvez porque só vi metade, não percebo bem a ligação com o texto da f. câncio. Mas sobre este último, só posso concordar que, na sua superficialidade, não lhe fica atrás no populismo de esquerda (não sei se era esta a ideia, mas enfim…).
    Portanto, pressupõe-se do texto da f. c., naquele partilhado espantamento com a professora inglesa, que antes de 1441 a escravatura era desconhecida, foram os malvados dos portugueses (nós) que inventaram. E eu, não sabendo nada disto, lembro-me logo dos romanos, para já não falar das pirâmides. Ok, não conta, era muitos séculos antes. Mas então: sendo certo que os navegadores e comerciantes portugueses da época se ficavam pelas costas de África, e sempre (porque o “desbravamento” do interior foi muitíssimo depois), onde iam eles arranjar a matéria-prima para o continuado tráfico (os homens, mulheres e crianças)? Ora bem, infelizmente (para todos e para a f. câncio), a escravatura era uma prática corrente nos grandes reinos africanos- que internacionalizaram por essa altura, enquanto fornecedores da matéria-prima, esse lucrativo comércio secular (mas se calhar isto também não interessa nada nesta nova versão da história tal e qual?). De resto, se os portugueses chegaram primeiro ao reino da Guiné, ingleses, franceses, holandeses e tutti quanti não tardaram pela demora, como é evidente (mas isso aparentemente também não interessa para nada à citada professora inglesa – ou então era nas outras aulas, pode ser; como a f. só nos relata a primeira, ficamo-nos pelos primórdios e por casa, está bem).
    Já quanto ao fim da escravatura, os ingleses também não apreciam por aí além contextualizar a coisa no quadro das guerras entre potências coloniais (e o desejável enfraquecimento da concorrência). Mas, se eles não gostam, a f. câncio talvez pudesse ler umas coisitas sobre o assunto, sei lá. O debate, necessário, sim, merece.
    Fico-me por aqui, não sem antes acrescentar que, para quem se interessa por estas coisas, há um magnífico e hilariante (como sempre) texto do Eça sobre o colonialismo português vs. inglês em Uma Campanha Alegre (texto XXXIV, que começa “Andávamos completamente esquecidos da Índia!”)

  4. Que engraçado. Um video igual a milhares que existem por ai, que retratam a decadência da civilização ocidental, às mãos dos transgenders e muçulmanos, isoladamente e em conjunto, está mesmo aqui a servir de pretexto para uma conversa séria sobre a historiografia do esclavagismo e do racismo? A sério? E não devemos debater essas coisas, porque temos de nos dar todos bem e tem de haver harmonia entre os povos? Isto é a gozar? Mas a Penélope acha que os africanos não têm já a sua opinião formada sobre o assunto?

  5. Exactissimamente Valupi. As impressões digitais estão escarrapachadas na assinatura dos editores do video, “repugnante mundo novo”, uma reinterpretação da distopia de Huxley, ao gosto pop facho.

    O texto tem um alcance e perspectiva bem definidos mas este caso não será o unico, é até de esperar, dado a História nacional de um país ser quase sempre uma mitologia, uma construção ao serviço da propaganda. A sua reinterpretação pelo olhar e valores dominantes de cada época, também o é.

  6. Valupi: Já não é possível hoje em dia não ouvir o que estas correntes dizem: elas chegam ao poder e não vale a pena fingir que não sabemos como.
    A questão das minorias, por exemplo. Nem todas as minorias, como os muçulmanos, que em países como a França, a Inglaterra ou a Alemanha são de vários milhões, são maltratadas (em Portugal, é ridículo falar em problemas nesse domínio, nem se fala). Algumas dizem-se (ou certa esquerda diz que são) maltratadas, mas na verdade essas minorias não querem compreender nem admitir que são vítimas dos seus próprios valores ou do seu fechamento sobre eles. Ultimamente parecem ter orgulho neles e eu só lamento que alguma esquerda o alimente. É que daí à violência, inspirada no que se passa no Médio Oriente, é um passo. E ela está à vista. Por reacção, daí até ao extremismo de direita é outro.

    A esquerda que não governa diz que não há problema nenhum, que o multiculturalismo resolve tudo, que têm que se acolher os milhões de muçulmanos que fogem da guerra. Todos. Que a Turquia nunca jamais deveria reter nenhuns. Que o acordo com a União Europeia nessa matéria é uma vergonha. Mas há um problema, quanto mais não fosse pelo número de migrantes, e isto é demagogia. E as pessoas sentem que o problema é grave. Se os políticos democratas, centristas, republicanos, seja quem for razoável, não apresentar soluções, lá estarão as Marines deste mundo para o fazer. E da pior maneira.

    Quanto aos “marxistas culturais”, é evidentemente um rótulo que serve os seus fins de denegrimento. Mas alguns dos aspectos referidos afiguram-se-me familiares.

  7. Pedro: Precisamente por este tema do esclavagismo já estar mais do que estudado e debatido, oralmente e por escrito (há livros e livros sobre ele, o nacional e o internacional) é que me surpreendo com o seu ressurgimento nestes moldes, em que a vilania é centrada nos portugueses, e isto devido a uma imprecisão do Marcelo quanto à data da abolição da escravatura. Sou por que se discuta tudo, mas não me custa nada ver a inutilidade e falta de oportunidade de uma discussão. O salazarismo já sabemos como foi, aqui e nas colónias. Houve por cá quem lutasse contra ele e houve quem se solidarizasse com os movimentos de libertação ao ponto de operar também por cá uma mudança de regime. Está feito. Também já está dito e escrito por historiadores vários que, antes de Salazar, todas as forças políticas em Portugal eram favoráveis à manutenção das colónias e o estatuto dos indígenas era, à luz da época, quase consensual até deixar de o ser e acabar e, à luz de hoje, totalmente condenável.
    Haverá algum prazer mórbido em fazer renascer ódios? Contra os actuais portugueses?

  8. Ola,

    O video é um chorrilho de asneiras sem nexo dito por quem não se deu ao trabalho de dedicar um unico segundo que fosse a tentar perceber do que fala. Um hibrido de mexilhão com o cérebro do cunha do blasfémias seria capaz de produzir um texto mais construido.

    Saibamos compreender com rigor e inteligência as teses defendidas pelos nossos adversarios politicos (que infelizmente não são todos ignorantes e burros como os autores da peça), eis a unica lição positiva que se pode tirar desta perfeita boçalidade intelectual…

    Boas

  9. marvl: Populismo de esquerda será, pela superficialidade de que falas. Mas foi o comentador do artigo do jornal que fez a associação deste vídeo com o tema em questão, ou com outros temas da autora, vá-se-lá saber. Lá tinha as suas razões. Eu também vi algumas.

  10. isso não é marxismo cultural , é mais judaísmo cultural , praticamente eram todos judeus , a começar no marcuse. dá-lhes jeito o multicularismo , comoé óbvio , acham que assim escapam entre os pingos da chuva… vamos ver é se não acabam por levar multipancadas . eu aqui concordo completamente , mesmo pró místico , com Fernando Pessoa : é procurar os seus textos sobre maçonaria e governo dos trezentos.
    ah , e já estava esquecida , o marx também era judeu , caramba :) marxismo judaísta cultural ?

  11. A Travessa dos Inglesinhos sábia e ressábia toda de cor de há uns anos “poucos” mas muitos a esta parte, Eles, no fundo no fundo do tacho do seu KEEP CALM Habsburguiano saloio até nutrem uma TREMENDOUS Light Sympathy for de Devil, o Tio 88 sem chicote e Zyklon B até nem era mau rapaz, (que o diga o aprendiz Al-Assad), e até dava candys aos pequenotes aos pinotes, o malandrote, era tolo ele uma jóia e até pintava Anjinhos Barrocos para não ficar deprimido sem comprimidos ter de a seringas do sõ doutor:
    Vamos vez no QUISTO anal dá nesta TREMENDOUS cacofonia em modo WiFi, o:
    … Racismo, Multiculturalismo, Globalismo, Trumpismo, duPutinismo, Merkelismo, KimYongUnismo, BiBismo, Chop Suey XiJinpingismo, Erdoholiganismo, ChaveMaduroismo, Mayismo, Macronismo, LePenismo, Chamuçismo, Marcelismo/RebelodeSousismo, PopeFrancisquismo, … ,SICutismo, Futabualismo, Nubelismo…
    Senão será necessário importar mais seringas e coletes de forças.

  12. Penélope, fico a saber que para si há limites e sentidos de oportunidade para o que se pode debater e estudar. Mas atenção que essa nem é sequer uma posição original. Original é defender-se isso neste século, com essa abertura e candura. Para ser coerente, talvez deva então defender que se publique uma versão oficial e definitiva sobre a nossa História. Não sei é se ainda se vai a tempo. Já viu o que já para aí vai escrito sobre os desmandos das esquadras do Afonso de Albuquerque na India? Deviam ter parado na versão que falava somente nas trocas comerciais. E se os indianos descobrem e cortam relações connosco?

  13. “Marxismo cultural” sem marxismo eis a proposta ainda assim contestada pelos neoliberais autores deste vídeo que nunca se libertaram dos seus pecados capitais – a supremacia do homem branco e proprietário, o colonialismo, a escravatura ….

    Como se pode falar de marxismo, sem falar de classes antagônicas, da natureza do estado , da posse dos meios de produção , enfim de Marx?

    Eu sei que a leitura do “Capital” de Marx é penosa , mas vale o esforço . Está lá tudo e foi escrito há muito tempo…não há que inventar a roda .

  14. Penélope, não entendo como pejorativo o conceito de “marxismo cultural”, estando até correcta a ligação que se faz no vídeo entre diferentes correntes de pensamento que atravessam o século XX com a sua origem ou influência marxista. A verdade é a de que Marx, enquanto teórico, tornou-se um património das ciências sociais – logo, também da cultura. Outra questão, que depois o vídeo explora adentro da retórica populista de direita que verte, é a de Marx, ou do marxismo, enquanto matriz ideológica e demais filiações políticas passíveis de serem feitas invocando a sua obra. Por exemplo, basta reconhecer que a social-democracia pode ser descrita como uma forma de marxismo para entendermos a sua influência estruturante ao longo do século passado.

    Quanto ao multiculturalismo e vagas de imigrantes, a par de ciclos de crise económica e depauperamento da classe média na Europa, misturam-se aí diferentes dimensões. E depois há duas formas de lidar com a misturada: uns aproveitam-na e adensam-na, procurando obter ganhos políticos através da confusão, e outros recusam-na e esclarecem-na, procurado proteger os bens políticos da democracia e da liberdade ameaçados pela confusão que atinge os núcleos identitários dos eleitorados menos letrados, menos politizados e socialmente pressionados tanto no plano económico como cultural. Ou seja, em épocas de crise há sempre alguém que muito rapidamente arranja um bode expiatório. Essa dinâmica é inevitavelmente persecutória, violenta, tirânica.

    É por isto tudo, e muito mais, que trouxeste um tema impecável, fulcral, para discussão.

  15. em épocas de crise o keynesianismo mostra-se cheio de força a comprovar o ultrapassado e estanque marxismo. e se pensarmos na cultura com a lógica do pleno emprego – não chegaremos à conclusão de que o relativismo cultural tem muito mais que ver com a contra-cultura do que com a produção?

    (chiça-penica, agora até eu fiquei confusa com os meus pensamentos) :-)

  16. Pedro: Não se trata aqui de nenhuma investigação nova. Sem prejuízo do que se possa sempre vir a descobrir em investigações futuras, a questão do tráfico transatlântico de escravos e do papel dos portugueses está bastante bem estudado e não é escondido de ninguém em lado nenhum. Nem podia ser. O mesmo vale para políticas mais recentes como o indigenato, o salazarismo nas colónias, etc. Do que se trata aqui, nesta peça jornalística, é de querer acentuar a “culpa” (com uma descontextualização absoluta) e criar ódios onde eles não existem. Parece, felizmente, que o sucesso é nulo.

  17. Nota histórico-política.

    Esse “marxismo cultural” tem pouco do marxismo dito “clássico” pois começa logo por inverter os papeis da super-estrutura (aspectos ideológicos, sociológicos e culturais de uma sociedade) e da infra-estrutura (as relações económicas e condicionalismos materiais da sociedade) que, segundo o marxismo dito “clássico”, condicionam e moldam o tipo de super-estrutura cuja existência é viável, em determinado momento histórico.

    Assim — do ponto de vista do marxismo “clássico” — as actuais ideologias do “multiculturalismo” são um reflexo do actual momento do capitalismo. Há — é característica do capitalismo — decisões de investimento erradas, que levam à obsolescência de capital, às vezes mesmo de instalações produtivas que acabaram de ser construídas e já são obsoletas. Veja-se a estrutura da produção energética, a produção de plásticos para deitar para o lixo (e oceanos), etc. Os donos desse capital obsoleto tentam depois, pelos meios ao seu alcance, obviar às perdas através de vários truques. Um dos mais usados são as reduções da massa salarial e a socialização dos prejuízos financeiros. Como vimos, na Europa e em Portugal, à o velho recurso à socialização dos prejuízos, recurso que foi amplamente utilizado na última crise financeira.

    Mais ainda, a super-estrutura “multicultural” (ou do dito “marxismo” cultural) é instrumental, pois dá cobertura ideológica às deslocalizações e à imigração, cada vez mais necessárias ao neoliberalismo. As deslocalizações e a depressão dos custos salariais, um processo cuja insustentabilidade é evidente, vão então compensando os investimentos mal feitos, bem como a obsolescência precoce do capital produtivo.

    Em momentos de expansão do ciclo económico, contudo, a obsolescência do capital produtivo só pode ser obviada pela inflação de preços (por exemplo, reflectida nas subidas desmesuradas das cotações do petróleo, cobre, alimentação, etc).

    Por fim, a classe social dos detentores de capital, ao ser, por tais processos, premiada com mais acumulação de capital, tem aqui um enorme incentivo a voltar a investi-lo de forma irracional, prolongando o sacrifício da humanidade e do planeta. Até ao dia em que tudo isto “der o berro”, com diz o povo…

    Note-se ainda que no marxismo “clássico” nunca se diz, contudo, que a infra-estrutura determina de forma mecânica a super-estrutura. A interacção entre ambas prossegue continuamente, de forma dialéctica.

  18. Mas foi a Penélope que falou em ódios. O que eu tenho estado a dizer é que essa alegação não tem sentido. Ainda bem que finalmente reconhece que isso não provoca ódios nenhuns. Muito pelo contrário, o que pode provocar irritação (não propriamente ódios), é a mania dos paninhos quentes, o não se discutir, investigar, debater, em nome de uma suposta harmonia, porque as pessoas não gostam que as tomem por parvas.
    Passando para a questão da “culpa”, que diz então do pedido de perdão feito pelo papa João Paulo II sobre o papel da inquisição? E, em sentido contrário, que me diz da irritação que provocou em França o relativismo e menorização feita pelo Le Pen pai do holocausto? Simplesmente, como digo, as pessoas preferem que respeitem a sua inteligência.
    No caso português do esclavagismo e relações raciais, é inegável que a imagem que tem sempre passado é a de que fomos diferentes dos outros. Não é só uma ideia enraizada em grande parte do meio académico, como, por isso mesmo, sobretudo na opinião pública. Não sei o caso da penélope, mas foi assim que eu aprendi na escola. Ora, não foi. E, como sabe, reconhecer e dizer isto não provoca ódios nenhuns, muito pelo contrário.

  19. oh , e já me esquecia : nos tempos modernos traficam-se bocados de seres humanos , os seus orgão. também podem pesquisar , é fácil , quem anda a traficar no duro e para onde.

  20. Sem dúvida, yo. Hoje, o tráfico de seres humanos continua por outros processos, com outra roupagem ideológica.

    Se antes se “justificava” o esclavagismo assumido pela “superioridade” da civilização ocidental sobre as dos povos dos outros continentes, hoje o esclavagismo (disfarçado de economia neoliberal) é “justificado” pela competitividade da economia ocidental, no processo de globalização por ela dirigido. Do ponto de vista ideológico, o fenómeno do tráfico de pessoas propriamente dito, bem como dos conflitos militares motivados por pretextos fúteis que o potenciam, é escondido (e mesmo desculpabilizado) pela ênfase em noções inconsistentes com a realidade de “liberdade de escolha” (mas só para comprar/vender), democracia ocidental (cada vez menos democrática), multiculturalismo (não será, antes, aniquilação da variedade cultural da humanidade, despojada pela sociedade de consumo?) e de “marxismo” cultural.

  21. Pedro: Não, o que eu digo é que um artigo com esta temática, capaz de eventualmente ressuscitar ódios, não tem sucesso, ou seja, não tem seguimento, não tem eco, não inspira nenhum Prós e Contras, etc. Felizmente.
    Mas que “paninhos quentes”? O tema da escravatura não está estudado? O colonialismo não é debatido? Os estudos não se encontram publicados, não motivaram programas televisivos, radiofónicos e em todos os suportes possíveis? Mais, não foi feita uma revolução para correr com um governo colonialista, opressor e fascista? Não houve até soldados portugueses a confraternizar com o “inimigo”?
    Quanto à culpa e aos pedidos de desculpa por práticas de há séculos: são discutíveis, mas parece que já se transformaram numa regra diplomática. E depois o papa católico é o representante máximo de uma igreja em que a culpa e o pecado estão sempre presentes e em que o pedido de perdão é condição necessária para a entrada no paraíso. No que respeita ao colonialismo, se agrada à outra parte e não custa nada, porque não? Quanto ao holocausto, trata-se de impedir que se neguem factos. O holocausto aconteceu e não há aqui qualquer hipótese de relativização. Foi pura crueldade e num mundo já bem moderno. A escravatura também era cruel, mas os próprios povos africanos a praticavam e faziam dos escravos mercadoria e, enquanto aqui acabou há muito, não sei se acabou totalmente em África, vendo o que se passa na RDC, Ruanda e Burundi. Deveriam desculpar-se também, não?

    Li já vários livros sobre o assunto da “diferença”, alguns de autores estrangeiros. Pela nossa pequenez, demografia, outras razões e, vá lá, digo eu, o nosso famoso bom gosto (eh, eh), é um facto que nos misturámos mais, muito mais com os povos locais do que os ingleses, holandeses ou franceses. Se isso nos torna mais amigos e nos transforma em colonialistas menos arrogantes, eu penso que sim, pobres de nós. Se isso não obsta a que tenhamos sidos colonizadores e abusado desse estatuto, não, não obsta.

  22. E apesar de a Penelope dizer que isto já está suficientemente estudado e debatido, há ainda quem insista em debater e estudar e falar mais. O que é um grande topete :)

  23. @Penelope, Pedro

    Isto está estudado, mas é muito frequentemente ignorado; pois uma neoescravatura (tal como o neocolonialismo) perdura, sendo uma das maiores vergonhas da civilização ocidental.

    O holocausto, a escravatura da Idade Moderna, e a neoescravatura contemporânea, são movidos pelas mesmas necessidades do modelo económico. Por exemplo, e como todos bem sabemos, os nazis planeavam escravizar todos os povos “não arianos”, bem como aniquilar todas as pessoas que refutavam as suas teses ou que não eram escravizáveis. Era (é) um requisito da civilização industrial capitalista conjugada com a ascensão de um povo inteiro a um estatuto de excepcionalidade; e quem paga as ineficiências introduzidas por esse modelo? O escravo.

    Notem que existiu na escravatura da Idade Moderna uma dimensão de suporte de uma economia comercial e industrial que era menos visível na antiguidade clássica. Na antiguidade, os escravos eram geralmente minorias constituídas por povos derrotados em guerras; o seu estatuto social reduzido resultava da cultura guerreira — tão bem imortalizada na Ilíada — e “justificava-se” pela humilhação resultante da derrota militar. Do ponto de vista económico, a introdução da escravatura levou a acumulação de capital produtivo sem precedentes no modelo (tribal) anterior (embora essa acumulação fosse brutalmente ineficiente).

    Na Idade Moderna, a escravatura tornou-se logo um tráfico, sendo a venda do escravo a contrapartida da venda de manufacturas fabricadas na Europa, a que uma civilização pré-industrial como a africana não tinha acesso. Para “justificar” a escravatura moderna introduziram-se teses racistas, que falam do homem caucasiano como técnica e cientificamente superior ao africano. Ao africano, por isso, resta-lhe trabalhar em tarefas subalternas, com direitos reduzidos e, sempre, debaixo de supervisão.

    Como expliquei anteriormente, a neoescravatura é um dos reverso da medalha da ineficiência económica do actual modelo. (O outro é o catastrófico impacto da actividade humana no planeta).

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