Pândegos e amofinados em simultâneo

Asfixia, claustrofobia e, ainda há pouco, manipulação democrática. Estas pessoas da oposição, e quando na oposição, fazem questão de dizer que se sentem asfixiadas, enclausuradas e até manipuladas à mínima contrariedade. Não tenho pena da maneira como dizem que se sentem, até porque se trata de teatro, mas o vocabulário arrisca-se a escassear. Como não estão no governo, queixam-se desta maneira algo infantil. Quando tudo decidiam a seu bel-prazer, invocando a Tróica, e todos nós nos sentíamos verdadeiramente asfixiados e impotentes, a ponto de até o PCP ter desistido da agitação e ter assumido uma espécie de síndrome de Estocolmo (mas podiam ser resquícios da aliança tácita do passado), eles sentiam-se livres e eram felizes. Agora amofinam-se.

Têm, porém, reconhecido que todo o sufoco que sentem acontece em democracia. Menos mal. Amenizam a acusação, têm pruridos. Hoje, perante o brandimento da palavra «ditadura» na Assembleia, aguardo com expectativa se o agravamento da situação de mal-estar no sentido de uma mudança de regime – para uma ditadura (que mais ninguém vê) – os levará a manter o qualificativo «democrática». É uma curiosidade minha.

Vem isto a propósito do episódio de abandono da Comissão de Orçamento e Finanças pelo PSD, ocorrido hoje, devido à exigência de «simultaneidade» para dois cálculos da UTAO, e noticiado aqui (segundo a jornalista, com base nos relatos das partes envolvidas).

“Os deputados reuniram para debater o requerimento do PSD que, na sequência do anúncio da venda do Novo Banco à Lone Star, pedia à UTAO um cálculo dos custos para o Estado do alargamento dos prazos do empréstimo até 2046 ao Fundo de Resolução. Mas esse é um cálculo que, por si só, para os partidos da esquerda “não fazia sentido”, disseram aos jornalistas os deputados do PS João Galamba e do PCP Paulo Sá. E foi aqui que todos pareciam de acordo que era necessário fazer um acrescento ao requerimento do PSD, para clarificar o que era pedido.

De acordo com os presentes, foi o deputado Paulo Sá a apresentar uma solução: acrescentar ao requerimento do PSD um pedido de cálculo (também) das alternativas. Ou seja, se o PSD queria apenas avaliar os custos da decisão do actual Governo, o PCP propôs que se requeresse também uma avaliação do que seria se essa opção não tivesse sido tomada, uma vez que as condições, como estavam, previam que os bancos tivessem de pagar até ao final deste ano o valor dos 3900 milhões de euros.

O PSD acusa o PS de tentar “boicotar” a verdade, disse aos jornalistas o deputado Leitão Amaro, e de por isso ter provocado a discussão que culminou com a proposta do PCP. Na versão da esquerda, depois de o PCP apresentar a sua proposta, houve um “entendimento” que os dois pedidos se complementavam e que os dois seriam votados favoravelmente por todos, para que a UTAO pudesse fazer as duas contas em “simultâneo”. E foi esta a palavra que levou os partidos a trocarem acusações.

6 comentários a “Pândegos e amofinados em simultâneo”

  1. Espantoso, Penélope.

    Eu que li a notícia na hora, assinada pela Liliana Valente, pura e simplesmente não a entendi e até a critiquei pela sua forma singela. Lá está, se calhar porque se aprende que o lead e o título, num artigo qualquer que ele seja, têm de resultar do texto (e assim acontece com a legenda que resulta da fotografia, e esta resulta nomeadamente do texto e por aí fora). Objectivo: tornar a coisa inteligível mas deve ser problema meu.

    Ora, onde é que se fala de ditadura que fez o «caldo entornar»?

    A versão dos sociais democratas?

    ou, aqui,

    A versão do PCP e do PS?

    Onde?

    Em conclusão, parece-me ser inteligente dizer-se que aquele tipo de artigo ambiciona apenas alimentar a estratégia de vitimização do PSD/CDS que, por falta da dita mas política, grita a plenos pulmões através dos seus mais jovens talibãs (é o caso) que a AR se transformou num antro anti-democrático onde, conluiados, os mauzões dos partidos radicais mandam no PS e eles todos, ao mesmo tempo, mandam no Ferro Rodrigues e no PS…

    Nesse aspecto, pois, a autora faz o seu trabalho de sapa que é para isso que lhe pagam no P. observadado. Agora, que tu caias assim tão facilmente e te apresses a exibir essas pueris curiosidades no Aspirina B… isso sim dá que pensar, apesar dos pesares.

    Nota, um. Entretanto, se descobrires onde está a “ditadura” que fez o PSD entornar-se desta vez faz uma adenda a explicar o aeiou aqui aos terráqueos. Eu falo por mim, que estou sempre ávido por te ler.

    Nota, dois (e cultural q.b. como o sal na panela). Para não ficar tudo em águas de bacalhau, lá está!, segue mais um copy sobre o Bordallo. Aconteceu em Novembro/Dezembro de 2014, aquilo. Nada de sexismos, mas estas metáforas domésticas me encantán…

    […]

    A exposição BORDALO À MESA incide na obra multifacetada de Rafael Bordalo Pinheiro, espelhando o seu gosto por estar à mesa e apreciar a boa gastronomia. Mas também regista a dieta alimentar, a culinária, os espaços de consumo e a etiqueta à mesa, do último quartel de Oitocentos.

    No desenho, pintura e cerâmica de Rafael Bordalo, estão representados os alimentos e as bebidas que se compravam, do tradicional mercado de rua até aos armazéns de víveres. O artista concebeu rótulos, embalagens e, sobretudo, anúncios que publicava nos seus jornais. Registou hábitos alfacinhas de “ida às hortas” provar petiscos e, também, à mesa do café ou do restaurante de chef, homenageando João da Mata. Não esqueceu os espaços domésticos, a cozinha e o seu fogareiro, ou a mesa da casa de jantar.
    A gastronomia serviu para inúmeras metáforas de crítica política. Expressões como “castanha da boa”, “caldo entornado”, “desaguisado”, “escamado” são reforçadas pelo desenho, resultando num humor hilariante. Caso à parte é o prato de “carneiro com batatas”, apontando estratégias eleitorais. A metáfora social está na denúncia dos excessos alimentares, em particular do bêbado, ou é sintetizada nos figurinos para teatro, paradigmaticamente no efeminado “pêssego” e na cocotte “ceia”.

    Aqui: http://0.fotos.web.sapo.io/i/Na413a8e2/17769941_GmNzb.jpeg

  2. Em tempo, para clarificar o que quis dizer alterei o fim deste parágrafo.

    Em conclusão, parece-me ser inteligente dizer-se que aquele tipo de artigo ambiciona apenas alimentar a estratégia de vitimização do PSD/CDS que, por falta da dita mas política, grita a plenos pulmões através dos seus mais jovens talibãs (é o caso) que a AR se transformou num antro anti-democrático onde, conluiados, os mauzões dos partidos radicais mandam no PS e eles todos, ao mesmo tempo, mandam no Ferro Rodrigues [e no governo do António Costa]…

    [Assim, sim.]

  3. O PCP aparece metido a martelo no tempo em que Seguro era Secretário Geral do PS, o Seguro das abstenções violentas e que só não formou governo com o PSD/CDS ou celebrou um acordo de regime apadrinhados por Cavaco porque Soares se manifestou contra impedindo assim a pasokisação do PS ?

  4. [Em duplex aqui, sorry que vi agora que ficou no sítio errado.]

    Penélope, repara bem que até a legenda é por si em parte enganadora. Na excelente fotografia pode ver-se o talibã Leitão Amaro, é certo, mas num segundo plano evidenciam-se o ex-assessor político de Pedro Passos Coelho e ora deputado Miguel Morgado (com um apelido a fazer recordar Natália Correia, já foi dito) e o grunho do Hugo Soares ex-JSD e o primeiro vice do Luís Montenegro. No fundo, acho eu que nem precisa de actualização o que alguém disse no Aspirina B em 2016. A iconografia do PSD perante o país é isto, ponto.

    Legenda:
    Leitão Amaro acusa o PS de tentar “boicotar” a verdade. Fot. RUI GAUDENCIO
    https://imagens.publicocdn.com/imagens.aspx/1122156?tp=UH&db=IMAGENS&w=823

    _______

    Eric
    4 DE FEVEREIRO DE 2016 ÀS 16:42
    Diz-nos bastante sobre o PSD actual, pelo menos. Há uns dias, vi claramente visto que as televisões mostravam uma imagem fugaz de uma porta de elevador que reuniria excelentes qualidades para ser icónica deste ano da graça de 2016 e do tempo que há-de vir. Pensei eu que, perante aquela porta de um elevador que espera, subindo ou descendo, os portugueses ficariam uns momentos a olhar e veriam que, depois de fechada a porta e iniciado um movimento até então desconhecido, ele só poderia descer. Lá dentro estava o Pedro Passos Coelho, o Marco António Costa, alguém que não me ocorre e que de certeza nem é importante nesta estória e o Duarte Marques. Isto é o actual PSD português e, parafraseando alguém, é de fugir.

    Vamos lá a saber
    4 FEVEREIRO 2016 ÀS 15:33 POR VALUPI 25 COMENTÁRIOS
    Aqui: http://aspirinab.com/valupi/vamos-la-a-saber-70/ .

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