O marketing é tudo

Para efeitos práticos, a revelação que a secretária de Estado da modernização administrativa decidiu fazer da sua orientação sexual é irrelevante, com tendência negativa. Podendo ter sido um desabafo ditado por razões interiores que só ela conhecerá, desabafo que tem ombro amigo numa jornalista que há anos faz da defesa dos homossexuais a sua grande causa, pode também ter sido, como a própria diz, embora por outras palavras, um imperativo político (embora tal obrigação moral escape ao comum dos mortais). Mas pode também ter sido uma resposta à pressão de uma certa esquerda (de que a dita jornalista faz parte), que defende que os políticos homossexuais devem assumir a sua orientação publicamente, satisfazendo assim um anseio antigo da comunidade LGBT. Apontam-se como exemplos os primeiros-ministros actuais da Irlanda e do Luxemburgo ou a ex-primeira-ministra da Islândia, todos eles homossexuais assumidos, com cargos de alta exposição mediática e em que se torna impossível manter a curiosidade ao largo e também o segredo, se fosse esse o desejo. Ora, não tendo Graça Fonseca que esconder nem que revelar nada se não quiser, ela não desempenha, porém, uma função com grande visibilidade. A sua discrição tem mesmo sido tal que aposto que a maioria dos portugueses nem saberia, até anteontem, quem era. Por isso, e não me chamem homofóbica por favor, não me surpreendem nem me chocam os comentários que vão no sentido de questionar se alguém estaria interessado em saber da novidade e se alguém lhe perguntou alguma coisa. Tal como outras pessoas, também achei bizarro que se desse uma entrevista para esse fim (sim, falou de outros assuntos, poucos, mas este foi sem dúvida o principal). Não tenho, no entanto, nada contra a necessidade que ela sentiu de o dizer. É uma decisão pessoal. Terá com certeza ponderado a razoabilidade de se arriscar a que agora a olhem como a secretária de Estado lésbica e não tanto como a secretária de Estado que ajudou a introduzir esta ou aquela melhoria genial na máquina estatal. Só espero é que, vingando o primeiro olhar, a própria não se considere vítima dos preconceitos homofóbicos. Dir-me-ão que uma coisa (ser lésbica)  não impede a outra (ser competente). Claro que não, mas repito que pouca gente a conhecia e que agora ficou a conhecê-la, não por aquilo que tem feito profissionalmente, mas apenas por um pormenor da sua vida privada que, por muito que lhe chame assunção de identidade, não interessa por aí além aos governados. Há tantas figuras públicas, bem mais públicas do que Graça Fonseca, que assumiram a sua homossexualidade! O Goucha, o Malato, o professor Quintanilha, para só mencionar alguns.

Dito isto, do pouco que tenho visto de Graça Fonseca, gosto. Tem uma presença serena e educada (vi-a como comentadora na televisão durante uns tempos) e acredito nela quando nos diz que gosta de fazer coisas, de estar no terreno, de melhorar o que pode e deve ser melhorado. Foi pena que na entrevista não lhe tenha sido perguntado o que anda a fazer de concreto.

Prova de que tinha razão em gostar dela foi quando, na primeira parte da entrevista, resistiu ao ataque cerrado da jornalista para que reconhecesse que os portugueses são violentamente racistas, a nível institucional como individual. Que as prisões estão cheias de “negros” porque os portugueses, os juízes, a polícia e sei lá quem mais são preconceituosos em relação às pessoas de pele escura e cabelo crespo que têm o azar de residir em Portugal. Com grande espírito de resistência, Graça não foi por aí. E teria sido fácil. Só por isso, 20 valores. Já a “grande revelação” me suscita algumas reservas. Ainda mais quando se assiste ao marketing pós-venda (neste caso pós-entrevista, mas também pode ser visto como controlo de danos) que está a ser feito com base em que foi a primeira vez que um político no activo se assumiu, blá, blá, blá, blá, blá, blá. Um feito, uma vitória! Mas para quem, senhores? Terá sido muito mais do que um “furo” jornalístico? Efémero, tão à moda dos tempos que correm?

10 comentários a “O marketing é tudo”

  1. Ao contrário do que diz, não me parece que tenha sido esse o assunto principal. Propositamente, nem título foi. O uso desta questão vem de outros sítios.

  2. Claro que foi propositado não ser título. Mas também não devia ser título. Mas não acho que tenha sido o assunto principal, embora todos soubessem o que a coisa ia dar.

  3. os maricones da bola é que era :) .) ronaldo , assume-te pá , vende a saída do armário , juntamente com as fotos dos meninos brinquedo comprados. , fazes uns valentes milhoes , aposto !!!

  4. Estou me bem a c….. para saber se os e as politicas gostam de peixe ou de carne.. Que tenho eu a ver com a vida dos outros ? Nao sou cusco felizmente mas pelo que vejo ha por ai muitos,

  5. Este texto da Penélope é bem mais interessante do que a entrevista de atira foguetes e apanha as canas.

  6. A revelação da orientação sexual dessa membro do governo Costa pode ter sido uma estupidez resultante da vontade de ser notícia, tão em voga na sociedade do espetáculo em que vivemos. Se assim for, essa revelação será apenas um ato exibicionista. Ela terá feito, então, sozinha, a parada do seu orgulho gay, exibindo sem pudor, a zona mais protegida da sua intimidade. Mas, tudo o que fizer ou não fizer a partir de agora será politicamente medido por esse facto, isto é, pela sua orientação sexual que ela voluntariamente trouxe para a praça pública.
    Mas pode ter sido também uma ato inteligente, se foi uma jogada de antecipação às previsíveis consequências políticas da sua obnubilada ação governativa. Quem ousar, no futuro, tocar nessa heroína do lóbi LBGTI terá de ter e de apresentar publicamente razões muito fortes para isso, senão arderá rapidamente nas fogueiras que queimam os hereges homofóbicos.

  7. por outras razões , daquelas da moda , até era interessante conhecer o género das mulheres na política. tenho ideia que muitas , daquelas que não chegam lá por quotas para encher chouriços , são do género masculino . pela apetência pelo poder.. as malucas floridas gay hão-de ter o equivalente em lesbos , mulheres de masculinidade aberrante . digo eu ,porque não há dados.

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