Grande, Joana

Deixem-me ir contra a corrente. Não acho que o terço gigante da autoria da Joana Vasconcelos, em Fátima, seja muito feio (podia ser amarelo ou às cores) ou disparatado, visto da perspetiva do seu efeito e função. Para os frequentadores daqueles locais e das suas sessões colectivas, o dito objecto, naquelas dimensões, tem potencial para ser inspirador – seja lá do que seja – e empolgante. Em suma, parece-me eficaz no despertar do fervor e do êxtase religioso, intenção que decerto esteve na base da sua concepção ou da sua encomenda. É um símbolo grande e luminoso da devoção à chamada “Virgem Maria”, uma figura central do culto católico e no nascimento daquele lugar de romaria.

Não sei se a Joana Vasconcelos virou católica fervorosa (ou se já era) e fã de visões místicas e gostou de assinalar assim a sua nova condição, em grande, como sempre. Mas, se não virou, interpretou bem o que lhe foi pedido. Se não lhe foi pedido, então fez uma proposta ganhadora. Há-de haver muita gente, sobretudo à noite, a extasiar-se e, passada a efeméride, a agarrar nas contas do rosário caseiro com mais entusiasmo e “fé” lembrando-se daquele destaque. Objectivo cumprido, acho.

Mas para não parecer que sou boazinha, porque não sou, nos países árabes e noutros da orla do mediterrâneo, como a Grécia  ou a Albânia, há o costume – penso que mais comum entre os homens – de ir dedilhando uma espécie de rosário (sem a divisão em mistérios, só com contas, e estas um pouco maiores – na Grécia chama-se Kombolói; em árabe Masbaha) também para orações a Alá ou, mais simplesmente, na Grécia actual, para acalmar o stress ou apenas para se entreterem. Penso que estes “terços” sejam bem anteriores aos que, para os católicos, passaram a concentrar e servir de guia físico às orações mais típicas – o Credo, a Ave Maria, o Pai Nosso e a Salve Rainha, assim como para a meditação sobre a penitência do Cristo. Olhem, em vez de estarem a fazer outra coisa, as pessoas podem ir dedilhando e sibilando. Pacífico.

Há muito pouca coisa original neste mundo, em particular nas religiões. Aqui, quase nada é unifuncional ou exclusivamente místico.

17 comentários a “Grande, Joana”

  1. acho piada ao valor que dão a uma fulana que tem uma fábrica onde se produz ideias sem qualquer originalidade. são coisas feitas à escala gigante e pronto e ponto. este terço é mais uma coisa gigante e sem qualquer originalidade. ai! como eu compreendo o suicídio de soares dos reis aos 41 anos neste Portugal. É perguntar ao Papa se sabe, não quem mandou fazer o terço gigante (às tantas em um armazém com condições de trabalho completamente precárias), que fez a estátua do D. Afonso Henriques. melhor: pergunte-se, antes disso, ao PM e ao PR e ao CR e até à Joana. à Amália já não pode ser – nem ao Eusébio.

    cambada de inutilidades a que atribuem valor. ranhosos.

  2. se fosse feito de tampões , ainda vá lá , agora assim não tem gracinha nenhuma :) que parolice , essa coisa da joana o rei vai nú.

  3. «[…] Olhem, em vez de estarem a fazer outra coisa, as pessoas podem ir dedilhando e sibilando. Pacífico.

    Há muito pouca coisa original neste mundo, em particular nas religiões. Aqui, quase nada é unifuncional ou exclusivamente místico.», …?!

    Penélope, deixa de dizer bacoradas e vai bulir um bocadinho.
    («unifuncional» escrito assim parece ser castelhano, e parece também que por aqui não existe).

  4. O terço, é igual ,a tantas outras obras gigantes, de Joana Vasconcelos. Para o meu gosto, que já vi várias, ainda estou à espera, de uma que me agrade e surpreenda. Mas o defeito deve ser meu.

  5. O problema é que a senhora devia ser artista de regime mas confundiram-se as coisas e tornou-se artista do regime.

  6. Não há nada mais fraudulentamente consentâneo com Fátima do que a Joana Vasconcelos. No entanto kitsch por kitsch é bem melhor o galo de Barcelos ou o Bordalo.

    E uma abordagem religiosa a olaria das Caldas? Podia ser ali no Pragal, Cristo gay with a boner.

  7. Eheheh gajos espertos. Lucra tudo com a cena religiosa menos o gajo dos pregos, que permitiu a normalização de um instrumento de tortura (a cruz) elevando-o a ícone pop. Para quem queira aproveitar:
    ” Pregos Alcobia, dois mil anos de garantia”

  8. o Bordalo foi, e é, Joe Strummer, maravilhoso. Foi na arte da caricatura e da sátira política que Bordalo Pinheiro se distinguiu deixando, no entanto, também obra marcante no campo da cerâmica – a arte que marcou profundamente a cidade das Caldas. Para além do famoso Zé Povinho, representação do povo português perante a podridão social, moldou e pintou milhares de figuras: deu vida a canecas, jarros, bilhas, pratos e tantos outros.

    Bordalo fez da sua arte uma tradição cerâmica que assentava, e assenta, em artes populares seculares. E assim chegou aos nossos dias a sua arte, conhecida em todo o mundo, para marcar o quotidiano da cidade que por entre a azáfama da urbanidade se refresca na alegria popular.

    Faiança, o labor criativo e decorativista do Bordalo Pinheiro apaixonado e apaixonante. Terá sido em meados dos anos oitenta do século dezanove que o artista começou a trabalhar o barro – iniciando-se, assim, o ciclo da produção da louça artística nas fábricas das Caldas da Rainha em um registo criativo e decorativista.

    Muito mais do que louça ornamental, Bordalo desenhou uma baixela de prata com um faqueiro imensamente original que executou para o 3º visconde de S. João da Pesqueira. Levou a cabo dezenas de pequenas e grandes encomendas para a decoração de palacetes: azulejos, painéis, frisos, placas decorativas, floreiras, fontes-lavatório, centros de mesa, bustos, molduras, caixas, e também broches, alfinetes, perfumadores.

    Em parelha com as esculturas que modelou para as capelas do Buçaco, com a representação de cinquenta e duas figuras da Via Sacra, Bordalo apostou no que lhe seria, talvez, mais gratificante: O Zé Povinho, a Maria Paciência, a mamuda ama das Caldas, o polícia, o padre, o sacristão. E muitos mais: louça encontrada no riso de qualquer típica casa portuguesa que lhe terá valido uma medalha de ouro na Exposição Colombiana de Madrid, em 1892, em Antuérpia, 1894, novamente em Madrid,1895, em Paris, 1900, e nos Estados Unidos, em St. Louis, 1904.

    Como jornalista, e vivendo em uma época de crise económica e política, Bordalo conseguiu sempre manter uma independência face aos poderes instituídos. Nunca Bordalo Pinheiro calou a voz, pautando-se sempre pela isenção de pensamento e praticando o livre exercício de opinião.

    Semanalmente, e durante algumas décadas, os seus periódicos debruçavam-se – de forma sistemática e bastante pertinente – sobre a sociedade portuguesa nos mais diversos quadrantes.

    Bordalo Pinheiro foi – e continua a ser -, sem dúvida, uma figura marcante em toda a região oeste e no país.

    (pega lá um manguito) :-)

  9. Joe Strummer
    4 DE MAIO DE 2017 ÀS 9:09
    Eheheh gajos espertos. Lucra tudo com a cena religiosa menos o gajo dos pregos, que permitiu a normalização de um instrumento de tortura (a cruz) elevando-o a ícone pop. Para quem queira aproveitar:
    ” Pregos Alcobia, dois mil anos de garantia”

    GRANDE BESTA!

  10. “Há muito pouca coisa original neste mundo, em particular nas religiões”

    Pois é. Nem os céticos são originais, quanto mais os papagaios com pretensão de liberais originais…
    Repetem-se muito, e não alcançam que é mais fácil e útil para eles e a humanidade repetir certas contas…

  11. primaveraverão
    4 DE MAIO DE 2017 ÀS 7:43
    Plágio e ranhoso. Pecado sem perdão.”

    !!!!!! mas o terço…é sempre o mesmo….Logo, como se plagia um terço, as contas do terço…? Na verdade, se de plágio se tratasse, não adviria de tanto, mal ao mundo, que deve ver um terço grande e quem sabe meditar no que significa o mesmo….

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