Diz que a luta vai ser dura*

Neste momento, olhando para o único candidato que se propõe liderar o PSD, Rui Rio, não se vislumbra ninguém – nem Montenegro, nem Marco António, nem Rangel, nem Poiares Maduro – que avance como candidato para dar seguimento às “ideias” de Passos. E quais são essas ideias? Convém recordar.

1) Redução/degradação dos serviços públicos, entre os quais a saúde e a educação, de modo a abrir portas à actividade de privados que, ironia, estabeleceriam acordos altamente lucrativos com o Estado para receberem os cidadãos descontentes. A isto chamam “diminuição do peso do Estado”. Como é óbvio, tal não diminuiria, porém, o peso financeiro para este mesmo Estado e, no que respeita à educação, poria seriamente em causa a igualdade de acesso e a laicidade do ensino e deixaria o Estado com o papel de garantir os serviços mínimos para os pobrezinhos.

2) Privatização de tudo o que é empresa pública – as que ainda restam: TAP, transportes públicos, vertentes da Justiça e da segurança, etc. Nem que seja a empresas estatais estrangeiras.

3) Redução acentuada dos impostos para as empresas, alegando que se criariam mais empresas e mais empregos (de preferência mal pagos e não qualificados).

4) Redução concomitante da TSU para os patrões e concomitante privatização dos fundos de pensões, alegando que o fundo da segurança social está depauperado (claro que nada, para eles, teria a ver com o mau desempenho da economia).

5) Desregulamentação das leis do trabalho, fim do salário mínimo, fim dos contratos colectivos, liberalização dos despedimentos.

6) Entrega dos “casos sociais” e dos casos de pobreza a organizações de caridade, de preferência católicas.

7) Indiferença total pela ciência e a investigação financiadas pelo Estado. Idem aspas para a cultura. E por aí adiante.

Bom, o programa da Troica acolhia e acolheu mais do que bem todas estas ideias, como vimos, embora no início não fosse tão longe. Foi por isso que Passos não só não viu qualquer obrigação, fardo ou contrariedade no cumprimento daquilo que apelida agora, com gigantesco descaramento, de “imposições”, como também fez questão de ir ainda mais longe.

Não sei, nem ninguém sabe, qual o programa de Rui Rio. Assim como não sei se chegará sequer a ser candidato – não é de excluir que se desculpe com a falta de adversários e desista também, dando oportunidade a Passos de viver o seu momento “irrevogável”. Ao contrário do Pacheco Pereira, não me parece que, com excepção do André Ventura, os passistas estejam desesperados por barrar o caminho a Rio, que representa, pelo menos para ele, Pacheco, a social-democracia. Pensarão que o próximo líder é para queimar. Acresce que, de Passos, não se pode dizer que tenha sido um caso de sucesso perante os portugueses. Depois do que se viu nas últimas autárquicas (e durante) e dos afastamentos que provocou, a sua mediocridade já não deixa dúvidas. O que aconteceu foi que ele e o seu staff conseguiram convencer boa parte do eleitorado, em 2011, mentindo como nunca dantes se vira, a votarem neles e, posteriormente, de que não havia alternativa ao que andavam a fazer. Mas havia, é claro. E que alternativa! Será, por isso, difícil alguém que não tenha a “lábia” do André Ventura (mas esse é tão ligeiro que dificilmente poderia ser levado a sério para uma função de responsabilidade), apresentar-se com um programa do género do lá acima referido. A não ser que minta, mas aí penso que já pouca gente estará desprevenida.

Portanto, não sei que luta dura será essa que se prevê para o PSD. Rui Rio sozinho? Não há luta nenhuma. Rio contra Santana? Uma luta de salamaleques, logo, uma não luta. E, a bem do respeito pela política e por si próprio, espero que Santana tenha juízo e continue na Santa Casa. Só mesmo se o Passos voltar atrás para desafiar Rio. Não é de todo impossível, atendendo ao choro convulsivo que vai pelo Observador e atendendo a que ninguém mais aparece. Além de que era essa a intenção inicial de Passos. A não ser assim, digam-me qual a luta dura, por favor, que eu não vejo lutador nenhum.

 

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*Ouvi e li, nos dois últimos dias, vários comentadores referirem-se assim à corrida para a liderança do PSD

2 thoughts on “Diz que a luta vai ser dura*”

  1. Passos já passou, agora esperemos quais as cores que o camaleão Costa vai escolher para se disfarçar.
    O espectáculo da geringonça já está a prometer…a euforia parlamentar do bloco e a correia de transmissão do pcp estão muito nervosas…cuidado! não distraia o povo Penépope, com o que já passou.

  2. os pensamentos são como as cerejas… o puigmerdoso agora alembra-me o zézito e o pedido de resgate ( e o teixeira , coitado: por amor de deus , pede , pede !!) , daí passei para : se não tivessem pedido o resgate não haveria , provavelmente , preso 44 . será que a teimosia vinha toda de aí ? salvar a pele e lixar o povo todo ? na volta.

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