Calma, Jerónimo. Acabou a autocrítica?

Quem irá compreender que o PCP “solte os cães” por ter obtido resultados decepcionantes nas autárquicas? O comité central não vê nenhum ridículo, ou pior, um enorme risco nessa hipótese de trabalho?

Jerónimo de Sousa, justificando a perda significativa de autarquias, está a enganar-se a si próprio e aos seus ouvintes, se acredita nisto que diz, e passo a citar (ver DN):

“Não se pode omitir o quadro de hostilização que acompanhou a intervenção do PCP e da CDU ao longo dos últimos meses e a sua negativa influência na afirmação do nosso trabalho, da nossa obra, da nossa intervenção e do nosso próprio projeto” .

Assim em retrospectiva, não dei por tamanha hostilização. Pelo contrário. António Costa trata o PCP com mais respeito do que a sua expressão eleitoral faria esperar. A não ser que Jerónimo se refira à Autoeuropa, onde, na ausência de comissão de trabalhadores, a influência do sindicato afecto à CGTP criou realmente um problema maior do que seria desejável. E toda a gente o percebeu. Embora só alguns comentadores o tenham dito. Acaso o PCP pretende convencer o pagode que não faz um feroz jogo político de auto-afirmação?.

«O líder comunista falou ainda de uma “campanha sistemática de ataque anticomunista que, com pretextos diversos, procurou avivar preconceitos, atribuir ao PCP posicionamentos e valores que não são seus” e de uma “ação persistente de desvalorização do papel do PCP na vida política nacional, silenciando a sua atividade e iniciativas, incluindo dando a terceiros e projetando noutros o que era o resultado da sua iniciativa e trabalho”.

Qual campanha, Jerónimo? Qual silenciamento? O que é que foi atribuído a outros, quando devia tê-lo sido ao PCP?

Mas há que concretizar os autores. É aqui, e não é bonito:

«Jerónimo de Sousa salientou que nesta “ação geral de ataque” e “desvalorização” do partido houve um “papel assumido pelos outros principais partidos”, nomeadamente PS e BE.

“Vimos uma intervenção do PS a desenvolver uma ação a partir dos seus candidatos e alguns dirigentes partidários, particularmente concentrada em municípios de maioria da CDU, de ataque à gestão da CDU baseada em argumentos falsos e muitas vezes ofensivos”, atirou o secretário-geral, criticando também a “opção do BE de fazer da redução da influência da CDU o seu objetivo principal, não olhando a meios para, por via da falsificação e mesmo da calúnia, denegrir a CDU e o poder local”.»

Bem, vamos por partes. Então, foram os candidatos. Foi durante a campanha. Jerónimo pretende que, em disputa eleitoral, os candidatos não procurem vencer apontando os erros e fraquezas dos adversários. Os candidatos do PCP não o fazem? Ou Jerónimo quer que acreditemos que em Beja, ou em Almada, ou em Castro Verde, os candidatos comunistas trataram os seus adversários com a delicadeza de um mordomo, nunca os acusando de nada, nem de “políticas de direita” e outras invenções convenientes que fazem parte do seu habitual vocabulário? Ou talvez devesse o PS não concorrer a câmaras “do PCP” para não “hostilizar”?

E que dizer do argumento de que o BE foi o culpado da perda de câmaras do PCP? Tenho reservas quanto ao Bloco, mas haja sentido da medida, camarada.

«Já sobre a derrota em 10 autarquias — nove municípios para o PS e uma para um movimento de independentes — o secretário-geral reiterou ser esta uma “perda, sobretudo para as populações, para o serviço público, para os direitos dos trabalhadores das autarquias”.

Paternalismo. O PCP arroga-se o exclusivo de defender “as populações” e “os trabalhadores”, pois mais ninguém o faz. Nem os eleitores o veem! Logo, quem não votou na CDU é burro. Empáfia.

«Ainda em análise aos resultados da noite de domingo, Jerónimo de Sousa assinalou o “falacioso argumento de combate a ‘maiorias absolutas’ concebido para retirar votos à CDU e que merecia uma mais ampla denúncia”. »

Eh, lá! Falácias? Como se o PCP nunca argumentasse contra as maiorias absolutas dos outros.

«Denunciou ainda como “muitas pessoas que dirigiam palavras de reconhecimento” pelo papel do PCP na derrota do governo de direita e que não “tinham tomado a consciência de que a possibilidade de assegurar que esse caminho prosseguisse, e se ampliasse, residia no reforço do PCP e do PEV, e não no PS”.

“E isso pesou no resultado eleitoral e ampliou-se à medida que o PS anunciava que precisava de mais força para prosseguir a sua ação governativa. Em certa medida, e para uma parte da população, as eleições locais foram transformadas em eleições de natureza nacional”, criticou.»

O PCP incompreendido. Jerónimo esquece o seu papel no derrube do governo PS em 2011 e a entrega do poder ao Passos. Jerónimo acha que o seu partido foi o grande autor das medidas do actual governo e que isso mereceria um reconhecimento, através do reforço do número de votantes. Não percebo. Está Jerónimo a dizer que o PS não queria melhorar a vida das pessoas? É que esse foi mesmo o ponto de partida para o entendimento a três! Ó Jerónimo, foram eleições locais, onde os dinossauros já estão fora de moda, homem. Mesmo os do PCP. Vai na volta, os candidatos do PS deveriam apelar ao voto no PCP. Era isso?

“aqueles que fazem o aproveitamento negativo dos resultados eleitorais contra o PCP, só podem esperar a nossa ainda mais decidida determinação na dinamização da ação política e do reforço do PCP para as batalhas futuras que aí estão”.

Não sei a quem se está a referir ou a que batalhas. Porém, se acha que é o PS que vai fazer “o aproveitamento negativo dos resultados eleitorais” e o PCP lhe faz uma declaração de guerra com os sindicatos, é melhor preparar-se para novas derrotas ainda piores. É que tudo estará clarinho como a água. «PCP furioso com derrota autárquica solta os sindicatos contra o Governo» dava um belo título de jornal. E verdadeiro. Para recuperar o eleitorado, não há melhor. Ou haverá?

12 thoughts on “Calma, Jerónimo. Acabou a autocrítica?”

  1. O Jerónimo vai lançar a cgtp às canelas do Costa e do PS.
    E já começou de uma maneira um tanto dissimulada.
    Lançou os professores disfarçadamente sem dirigentes sindicais, em pleno 5 de Outubro com Marcelo e bandeira da República e hino nacional.
    Quando chegar aos comboios e metro e barcos, vão ver como é.
    Lá vão os lucros pró galheiro.

  2. . O primeiro sinal veio logo no dia seguinte às eleições quando a Ana Aivola veio marcar terreno com ameça de greve.
    Pior ainda, Jerónimo parece não ter percebido o porquê dos resultados. Eu resido num dos municipios perdidos, talvez aquele em que o PS mais facilidades deu à CDU para gahnar, não só pela candidata que apresentou como pelo empenhamento real na sua eleição ( na minha caixa de correio recebi propaganda de todas as força a concorrer, exceto do PS…). Ora a analise do Jerónimo deveria debruçar-se porque motivo os 4 anos do candidato, que era de primeiro mandato, não resultou. Provavelmente encontrá indicadores mais do que suficientes para explicar porque perdeu Almada. Basta ver a azia com que o candidato perdedor se expressou sobre quem ganhou…
    Quase apetece dizer “ volta Maria Emilia , que o pessoal perdoa a Ecalma e o metro “.
    Agora vir dizer que foi tramado pelo BE e PS, na campanha eleitoral, é certamente porque está cansado e provavelmente muito preocupado com as comemorações dos 100 aqnos da revolução de Outubro …

  3. Aos comunas resta-lhe a cgtp que não é pouco.
    Ajudaram a destruir todas as pequenas e médias industrias nacionais que havia neste pobre país.

  4. se o pcp se “aproximou do ps ,dando lugar à geringonça de bons resultados para o pais, e para os trabalhadores, é perfeitamente normal que os seus militantes tenham tomado igual atitude. em alguns casos pode ter funcionado como o voto útil. é melhor votar no ps a ver a camara ir para as mão da direita.por último, o jerónimo que tenha calma ,pois mais cedo do que tarde a sua politica vai dar frutos para o seu partido.

  5. A Aivola voltou a atacar!. Marcou greve para dia 27…. e o governo tem que fazer o que ela quer “e o dinheiro não é desculpa”, disse….
    E logo a seguir o Jerónimo mostrou que ainda não fez a autocritica… Na realidade, embora falando de assuntos diferentes (do da Aivola), o que ele quis dizer é que soltou , já, a CGTP,
    Já se esqueceram quando deram o poder, com o BE, ao Passos Coelho.
    A autocritica é só para os outros!

  6. num partido onde tanto lutam pela reforma aos 60 mantêm-se até aos 100 no comando. talvez com apoio mais declarado a angola e outros que tais consigam reaver o território perdido.

  7. Esse velho tonto culpou as alegadas falsidades espalhadas pelo PS e pelo BE pelos maus resultados que o PCP teve, como se os eleitores fossem todos atrasados mentais. E até repreendeu os eleitores enganados, que não tardarão a arrepender-se do erro que cometeram…!

    O PCP nunca acreditou em eleições democráticas nem em democracias parlamentares. Apenas as toleram, bastante contrariados, 1) porque não conseguem implantar uma ditadura comunista, 2) porque a democracia também os tolera a eles e 3) porque conseguem ter uns tantos deputados e autarcas a quem depois dão ordens (como se eles não tivessem sido eleitos pelo voto popular) e a quem extorquem parte do ordenado que ganham (chama-se extorsão).

    Os comunistas partem do princípio que há concelhos que são legítima propriedade do PCP. Se os perdem em eleições democráticas, é porque há marosca. Só faltou dizer que houve chapelada ou que foi a CIA que falseou as eleições.

    Achará o PCP que António Costa deveria ter aconselhado os candidatos socialistas a desistir de concorrer nos concelhos com câmaras comunistas? Por que raio? Houve algum acordo pré eleitoral entre o PS e o PCP nesse sentido?

    Os comunistas desistiram em algum concelho a favor do PS? Deixaram de fazer campanha contra o PS em algum concelho? Deixaram ou deixarão algum dia de dizer mentiras sobre o PS?

    Ninguém notou, durante a campanha eleitoral, qualquer cabala socialista contra o PCP, apenas a habitual e legítima luta política.

    O “anti-comunismo” foi sempre a desculpa do PC para os maus resultados que obtém, desde as primeiras eleições nos anos 70.

    Quando ganham câmaras, os comunistas não falam de anti-comunismo. Quando as perdem, lá vem o fantasma do anti-comunismo.

  8. O Costa pegou o “touro” de caras, e a Catarina pegou-o de cernelha.
    Mas o maior desgosto de Jerónimo deve ser aquelas aprovações parlamentares, ambisexuais e adoções bloquistas.
    Jerónimo, se não for a cgtp a salvá-lo, está feito!

  9. Portugal não pode correr o risco de ver esvaziar a importância do PCP pois ele é um partido que foi feito para defender, e defende, as ideias e a bolsa de uma percentagem considerável dos cidadãos eleitores.
    O mesmo se pode dizer para o CDS ou para o PSD. E do PAN também…
    Qual é a dúvida?
    Quem não quer ser lobo que não lhe visya a pele, ou então que a dispa assim que os transeuntes derem mostrar de que acreditam tratar-se de um lobo… é isso que o PCP está a fazer, a tirar a pelo do lobo colaboracionista do Capital.

  10. manolo, o pcp, por muito que lhe custe e que gostasse que fosse diferente, está sujeito ao voto livre e democrático.
    manolo, o pcp é esvaziado ou insuflado na sua importância consoante o sentido do voto livre e democrático.
    manolo, os maus fígados do pcp revelam a problemática relação que o pcp tem com o sentido do voto livre e democrático – melhor dizendo, constituem um tique autoritaresco de que padece qualquer ideologia transpersonalista.
    manolo, e já chega de te ensinar por hoje, senão entras em overbooking e e em overload de caganeira. hoje tresanso a alho, foi uma cabeça inteira ao almoço.

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