Agitação institucional

Com as vacinas em dia, leiamos este artigo de Vasco Graça Moura no DN de hoje, do qual aqui transcrevo estes sugestivos parágrafos:

Os problemas imediatos da Europa e de um país falido como o nosso não se resolvem com cortejos da ideologia desfilando nas ruas e avenidas e movimentos de massas. Tão pouco se resolvem com bloqueamentos do aparelho de Estado cujos resultados só podem ser negativos.
Como a situação vai piorar, as reacções corporativas tendem a agravar-se. Se não houver autoridade, rapidamente se chegará a uma situação de desregramento e conflitualidade social de consequências imprevisíveis
.”

Não vou sequer mencionar o quão imposssível teria sido este artigo há uns meses, nem o aproveitamento que a direita fez na anterior legislatura das manifestações de rua e o quanto estas lhe convieram. Como já percebemos, essa é a desfaçatez característica de gente politicamente rasca.
Mas acontece que este governo e os seus fanáticos admiradores estão manifestamente a descontrolar-se no que respeita à agitação social. Revelam-se mais agitados do que os poenciais agitadores. Será mesmo assim?

Na Universidade de Verão do PSD, Passos decidiu introduzir o tema da potencial contestação no seu dircurso de encerramento, aparentemente a despropósito, pois, na altura, até Jerónimo e a CGTP se encontravam a banhos! De novo o brandiu em intervenções na Assembleia e noutros locais públicos. Muitos dos comentadores televisivos seus apoiantes não largam o espantalho.

Ora, em matéria de protestos, a única coisa que constatámos até agora (além das três dezenas de professores não colocados que invadiram, sem o Mário Nogueira, o ME) foi a manifestação da CGTP no sábado passado, um evento que, em termos relativos, tendeu para o pindérico.
Não sei se é burrice ou se existe algum desígnio neste aparente esforço de convocação – provocação? – das, digamos, forças do mal. A pergunta mais directa e extrema que me ocorre fazer é a seguinte: será que pretendem mesmo impor um regime de ditadura, servindo-se para isso da agitação social, desejada, mas que, pobres coitados, tarda? Gente! Mais de 50% dos eleitores votaram em vocês, ainda por cima avisados das medidas “duras”! Não devia esse dado apaziguar-vos?
O facto é que, seja inépcia, seja estratégia altamente sofisticada, esta linha de actuação deixa-me, depois de perplexa, inquieta.
Claro que há uma terceira hipótese: a de tudo não passar de um jogo com regras tacitamente combinadas. Ou seja, o PCP que, se não agita alguma coisa, perde a sua razão de existir e teme a decepção dos seus apoiantes, vai-se manifestando de vez em quando. Como ajudaram a pôr lá este governo, os seguidores não haverão de ser muitos.
O governo, por sua vez, sabendo bem a distância intransponível que separa Jerónimo de 1917, vai, mesmo assim, invocando o papão da agitação social e das suas consequências tremendas para ir impondo mais e mais auteridade, à medida que a recessão for provando que o programa de cura é um logro. E assim vamos. Iremos?

7 thoughts on “Agitação institucional”

  1. A agitação social ( a verificar-se, como é desejo deste governo ) servirá tão e somente de desculpa a um governo inepto e incompetente para não ter alcançado os resultados de redução do deficit que deveria.
    Quando o bode expiatório do Socrates deixar de pegar ( e vai deixar de pegar em breve) convém ter um backup plan na manga, não?

  2. penelope, as medidas do governo estão mal, e os cidadãos devem mostrar o seu repudio por elas.Qual é o pecado de a cgtp manifestar-se? é um direito que está consagrado na constituição portuguesa.Se as medidas do governo é que estão a erradas

  3. Pois o VGM, esse personagem que tem vivido sobretudo à custa dos dinheiros públicos que lhe alimentam o ego e os vícios privados é agora o arauto da desgraça.
    Se os professores agora reclamam são agitadores, potque os que reclamavam contra Sócrates eram sofredores; se os polícias se queixam são insubordinados porque quando o faziam do governo anterior davam apenas a conhecer as suas razões; se os desempregados saírem à rua protestando por terem menos saúde, menos educação, menos tempo de subsídio são gente violenta e corporativa, antes eram apenas portugueses cheios de razão…
    Ouvir dislates destes e continuar sereno é ter a certeza que os VGM’s deste País estão seguros de que podem continuar a mamar onde sempre mamaram e a viver à custa de quem sempre viveram.

  4. concordo com o felino vagabundo, os gajos querem dar porrada em quem os elegeu para justificarem a incompetência e a merda das medidas que tem medo de tomar. a velha queixava-se que a crise não colaborava e estes queixam-se que falta contestação preventiva.

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