À volta da bonita frase «O que interessa é a qualidade»

Na minha missão de descoberta do Portugal desconhecido, ouvi hoje mais uma Helena, a Garrido, na Antena 1, pouco antes das 9h00, a opinar sobre a questão dos contratos de associação. Não gritem. Impus-me esta missão, pronto. A teoria da nossa Helena de hoje é a seguinte: não interessa que haja, numa dada escola pública, capacidade para receber mais alunos, que essa capacidade esteja desaproveitada, apesar do investimento público efetuado, e que o Estado financie a escola privada ao lado para esta acolher os alunos que poderiam estar a rentabilizar o investimento feito na escola pública, poupando dinheiro aos contribuintes. Isso não interessa. O que interessa (e deve ser esse o critério para decidir o fim do contrato) é a qualidade do ensino ministrado na escola privada financiada. Se é boa (e devemos em absoluto abstrair da possibilidade de seleção, das instalações, etc.), o Estado deve continuar a financiar as turmas (e a fazer exposições nas salas vazias do outro lado da rua). Se é má, não deve e as crianças passarão então para o que será, para Helena, um mal menor, mas ainda assim um mal, que é a dita escola pública.

Inevitável será concluir que, para esta opinadora, a escola pública, se por acaso é má, não pode, nem deve, melhorar a qualidade do seu ensino, as suas instalações, etc. A escola pública parou no tempo e assim é que deve ser. Os tempos são outros para Helena: há que dar lugar aos privados. Gastámos acima das nossas possibilidades, não há dinheiro para escolas públicas. Os cidadãos não têm que reivindicar e exigir melhorias nas escolas públicas. O Governo não pode querê-lo. Deixem isso aos privados. À Igreja, sei lá. As públicas estarão para todo o sempre condenadas à degradação e à mediocridade.

Acontece que, localmente, pode calhar a escola pública ter qualidade. Pode calhar, oxalá, vir a ter qualidade! E se calha os professores do colégio ao lado serem tão bons que o sistema público os acolha? Investir na qualidade não interessa, se for o público, Helena?

Ora, meus caros, sem surpresa, HG passa rapidamente para a Parque Escolar. E que diz ela? Diz, literalmente, que o que a Parque Escolar fez nunca devia ter sido feito, isto é, investir milhares de euros na melhoria das instalações de ensino público. Para ela, isso foi deitar dinheiro ao lixo. E sabem porquê? Ela responde: porque o que interessa é a qualidade do ensino. Lá está. Perceberam? As paredes estão a cair, chove lá dentro, não há ginásio, o material pedagógico está obsoleto, o mobiliário velho, alunos e professores desmotivados, mas o que interessa é a qualidade do ensino. A Parque Escolar devia ter respeitado a qualidade do ensino!

Ainda me estou a rir.

Por aqui, a minha missão está cumprida.

25 thoughts on “À volta da bonita frase «O que interessa é a qualidade»”

  1. Também ouvi.

    Vazia e redonda, meteu os pés pelas mãos. Como ela não é propriamente destituída de um mínimo de entendimento, cada um tire as suas conclusões.

    Esteve bem o Macedo a ‘lembrar-lhe’ que pagamos os nossos impostos também para o ensino público universal. Garrido, porém, não parece importar-se com a alocação de parte desses impostos para o bolso de privados, mesmo que o Estado, no cumprimento da sua missão constitucional, tenha uma escola ao lado.

    Ouvir Garrido, ouvir o mentiroso do Passos sobre este assunto, mostra, mais uma vez, o que são e do que são capazes (ou estão dispostos a caucionar).

  2. a garrida trabalha para a cofina, uma esquemódepente que vive acima das suas possibilidades e cujo estado de falência se tornou mais visível com a queda do império cavacoiso. é deixá-los esbracejar e afogar lentamente na paz do senhor, jornalecos, têbês, colégios, bancos e demais instituições do sucesso cavacal. a cricas descobriu ontem que o partido socialista é de esquerda http://www.rtp.pt/noticias/politica/cristas-acusa-ministerio-da-educacao-de-estar-refem-da-agenda-de-esquerda_v917705?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter

  3. Penélope ri porquê ? Acha que o discurso de Garrido não tem o seu público ? Faz ideia de quantos professores que leccionam em escolas públicas têm os filhos em escolas privadas ?

  4. JRodrigues, mas esses professores têm posse para pagar aos filhos essas escolas privadas? se sim na paz do senhor, cada um é livre de fazer o que quer.

  5. Ferra, tenham ou não posses a questão não é essa. O ponto é que a ideia de que a “qualidade” está no privado, está instalada dentro da própria escola publica. Em parte talvez isso se deva ao facto de boa parte dos que nela exercem a docência terem algum tipo de consciência do que têm andado a fazer.

  6. JRodrigues: De que modo é que a intenção do Governo acaba com essa possibilidade? Há cerca de 2600 colégios privados sem contratos de associação disponíveis.

  7. Penélope, eu apoio incondicionalmente a intenção do Governo. E é como defensor da Escola Pública que me preocupa o que se passa lá dentro, partindo do principio de que não será só por snobismo ou por virtude das homilias da Garrido que a escola privada tem tido a atracção que se conhece.

    Dou-lhe um exemplo.

    Ontem calhou marcar presença num congresso para professores bibliotecários que se realizou na UAlgarve. Questionados os pouco participantes sobre a razão de tão fraca afluência ( cerca de 10% dos profs bibliotecários da região ), os presentes foram rápidos e unânimes na explicação: “este congresso não dá pontos” !
    De resto, a questão dos “pontos” e as estratégias para os obter ( de forma a garantir a perpetuação no lugar ) , acabou por ser muito mais debatida do que o problema da desertificação das bibliotecas, que vão sendo muito mais usadas como local de destino para alunos castigados ( “vais limpar o pó aos livros …”) do que como local de promoção da leitura e da literacia.

  8. “As paredes estão a cair, chove lá dentro, não há ginásio, o material pedagógico está obsoleto, o mobiliário velho, alunos e professores desmotivados, mas o que interessa é a qualidade do ensino. A Parque Escolar devia ter respeitado a qualidade do ensino!”
    Então , e depois onde haveria assunto para protestar ???? A HG desde que passou a diretora assinou uma avença … com os privados. Já lá vão alguns anos mas notou-se logo…. nem sequer foi devagarinho!

  9. penélope,alem de escrever bem é uma mulher educada.se a mim me dissesse o que escreveu,só tinha uma coisa a fazer : mandá-la para a puta que a pariu!

  10. jogatana,alem de bruxo é desonesto.está a “jogar” com o agravamento da situaçao economica a nivel mundial.que fez até agora costa , para o levar a essa conclusaõ? diga se tiver tomates!

  11. À margem do tema: persona grata a este blogue vem hoje a público considerar ” no minimo éticamente reprovável” a relação pecuniária entre dois amigos. E deixou-me uma perplexidade que gostava de partilhar: qual será o normativo ético aplicável ?!

  12. «O que interessa é a qualidade»

    a garrida a cantar folcore dos tóinos privados que se avaliam a eles próprios e praticam admissões reservadas.

  13. tozé, o Costa e o açoreano, de tanto abrirem as pernas aos caprichos das duas manhosas esquerdas mais o do cão com direito a entrar no restaurante, quando o PS quiser parar com a bagunça o país vai cair na maior rebaldaria de todos os tempos.

  14. “o que interessa é a qualidade”
    a geringonça desmonta a qualidade da treta privada:

    “As escolas privadas inflacionam as notas favorecendo os seus alunos nos concursos para o Ensino Superior até um valor. As conclusões são de um estudo de investigadores do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Universidade do Porto, tendo por base os exames nacionais de 2003 a 2013.

    Os investigadores avaliaram ainda o impacto na seriação dos candidatos ao Ensino Superior. Foi estimado que no acesso, por exemplo, a um curso de Medicina como o da Universidade do Porto este aumento na nota pode representar subidas na seriação que variam entre os 64% e os 93%.

    Recorde-se que um outro estudo, também, da Universidade do Porto tinha apontado para uma melhor preparação para a Universidade dada pela Escola Pública. Segundo este outro estudo o desempenho de alunos provenientes da Escola Pública é superior ao de alunos vindos dos colégios privados.”

    ver + aqui: http://geringonca.com/2016/05/11/estudo-mostra-que-colegios-privados-sao-menos-exigentes/

  15. MRocha, também não percebi.
    Uma das pessoas que mais denunciou, e bem, a devassa e publicidade da vida privada de figuras públicas vem agora com feixe de lenha à cabeça para colocar na fogueira que arde na praça.
    Um dos erros de José Sócrates foi ter-se enleado na agenda fracturante da sua companheira. Distraiu-se e distraiu o país, no auge da crise financeira global, e trouxe uma crispação e azedume, estranhos, até então, ao debate político quotidiano. Estava na cara que, para a maior parte dos que, nessa altura, se aproveitaram da sua boa vontade, a lealdade é uma palavra vã.

  16. Galuxo, como ainda não li a entrevista, apenas vi algumas sinteses dela, não faço ideia da medida em que junta ou não lenha à fogueira. Embora te acompanhe no reparo sobre a incoerência que aparenta, tb sei que em condições excepcionais mesmo as pessoas excepcionais tendem a fazer coisas bizarras. Por isso não julgo. Apenas chamei a atenção para a questão da censura “ética” porque ela tem sido frequentemente abordada, nomeadamente pelo Valupi e neste espaço, sem que ninguém esclareça a que suposto normativo se refere.

  17. MRocha das 14:35, a Visão custa 3 euros. Surpreendente, …? Sim para ti, ou não porque não se percebe bem, mas é imprudente escreveres a quente, intencionalmente e, sequer, sem teres lido a Visão até porque andas na blogosfera por onde os/as amigas da Fernanda Câncio andam. Ela é do melhor que há nos jornais portugueses, na nossa vida colectiva portanto, e o que me parece é que fechou um portão.

    Nota, ainda. Sobre isso do “estilo de vida” e dos dinheiros alheios até o Valupi já escreveu, ou parecido, se bem me lembro citando o Pedro Adão e Silva.

  18. Estamos sempre a voltar ao mesmo. Não há muitos negócios dentro da legalidade tão apetecíveis como o Ensino. E eram estes liberaizinhos – que nem gostam nada das tetas do Estado – que não olhavam para uma oportunidade destas. Eles até a Misericórdia mercantilizaram. Portugal tem uma Constituição!

  19. E faz bem em rir, se ler os resultados dos últimos 30 anos e a descida nos inúteis rankings, perceberá porque se preocupam tanto, alguns com a qualidade da escola, e pouco se é publica .
    As pessoas contam mais que as “crenças”, na escola publica “nossa”, deles claro!!!

  20. Colégios Privados pagos pelo Estado deixa-me atónita.
    Afinal não querem mais Privado e menos Estado os que gritam agora que o Estado afinal dá jeito no Privado?

    S. João de Brito, Colégio Moderno, Colégio Académico, Vasco da Gama, Maristas e tantos outros de qualidade e de renome do ensino privado são subsidiados pelo Estado?

    Que raio de privados são esses que, reclamando liberdade de escolha e exigem ser orçamento-de-estado-ó-dependentes?
    A garrido é uma tonta que não diz nada de jeito e falaza o que a mandam.

    Este é um assunto em que desejo o Governo do Dr. Costa vá até ao fim.
    Com coerência sem se deixar enredar por esta onde amarela orquestrada por professores e directores de escolas subsidio-dependentes colocando alunos a berrar coisas que nem entendem o que são.

    Que ricas escolas devem ser estas onde as crianças são escudo para os interesses duns, que sem competência de gestão querem o dinheiro dos contribuintes para fazer um negócio que dizem Privado?

    A Escola Pública e O Serviço Nacional de Saúde tem que parar de resvalar para o fosso do apetite de quem aí vê um grande negócio Privado à custa do Estado í.é. à custa dos Contribuintes.
    Vamos mas é às Reformas a sério e, secar as gorduras que untam as beiçolas dos gulosos.

  21. Concordo plenamente consigo primaveraverao, não concordo com algumas medida deste governo, mas com esta estou a cem por cento! Depois fecham as escolas públicas e dizem que não há alunos… podera eles vão para os privados e dão-lhes um chequezinho… ao ponto a que chegámos, este país está rico!!!! Se é privado, vai quem pode… eu andei no público e andei muito bem, hoje sou professora. Já tive alunos do privado, e vinham mal preparados, outros com dificuldades de aprendizagem, que foram convidados a sair…. por isso o ensimo público é bom não me venham dizer o contrário! !!! Agora o dinheiro que andam a dar ao privado, faz falta ao público, pois temos é más condições, que eles não têm! ELES têm boas salas, aquecimento, portanto boas instalações, professores mais bem pagos, verdade!! , mais funcionarios para vigiar as crianças. … portanto o estado também esa a promever issi tudo, estão a ver????!!!! Portanto interessa lhes que o estado lhes continue a pagar, correto? E nós o público, quem luta por nós.? Pelas nossas crianças, pelo seu bem estar?? Quando chove na sala, os aquecedores avariam, salas frias…. isto e uma VERGONHA meus senhores. E UTILIZAM CRIANCAS PARA FAZER POLITICA??? QUE VERGOLHA!!!

  22. Ó PrimaveraVerão, a cantilena, ” menos Estado “, recorrentemente entoada pelos chulos, ou seja, os privados, é quando toca a pagar impostos e a subordinar-se a regras e a cumprir obrigações, quando toca a mamar subsídios e a colocar os prejuízos em cima das costas do Estado, aí já passa a ser, mais Estado …
    Enfim, conseguiram o sonho de sempre : o capitalismo sem o risco inerente à actividade de desenvolver uma actividade ou fazer negócio, ou, por outras palavras, o lucro garantido …
    A maneira como se faz a marosca, pode assumir várias formas, e, geralmente, o argumento é, ” desempenhar actividades e funções, que o Estado deveria garantir e suportar, mas que não faz, ou que faz de forma deficiente ” .
    Eu costumo dizer, ” não há nada que o Estado faça mal, que o privado não possa fazer pior ” .

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