A rebuscada teoria de que a subida dos salários é uma descida – Helena Garrido «vintage»

Ler os colunistas do Observador é sempre edificante e emocionante. Pode por vezes ser uma aventura inesquecível.

Helena Garrido, por exemplo. Helena Garrido discorda, como sempre discordou, dos aumentos do salário mínimo, na linha da discordância da direita passista, ou seja, com base na ideia de que o aumento dos salários prejudica os empregadores e, logo, as empresas e, por conseguinte, o investimento, a competitividade, a criação de emprego, etc. Por isso, haverá que manter os salários ao nível mais baixo possível, de preferência – embora nunca o dizendo em voz alta – eliminando o salário mínimo (ou mesmo o salário, já agora, porque não?). No entanto, como nenhum dos prejuízos enumerados se verifica normalmente nem se verificou depois do último aumento do SMS, para continuar a discordar de toda e qualquer medida do actual governo, HG lembrou-se de conjecturar que o mais recente aumento do salário mínimo é um factor de manutenção dos baixos salários porque … e vejam bem porquê… porque, por exemplo, as pessoas que já ganhavam 557 euros (portanto, mais do que o salário mínimo) continuarão a ganhar o mesmo, pois os patrões terão um benefício de um vírgula tal por cento na taxa para a segurança social se pagarem esse salário mínimo, não tendo um incentivo para outros.

Bom, não sei se os trabalhadores que já ganhavam 557 euros – e muito me admiraria que alguém ganhasse exactamente este montante – contarão para efeitos da prevista redução da TSU. Se o mundo fosse justo, não deveriam contar, nem que, para isso, fosse obrigatório passarem a ganhar 560 euros (terá este item feito parte das negociações da “feira de gado”? Enquadrar-se-ia lá bem). Mas o que decorre normalmente do aumento do salário mínimo é precisamente o aumento correspondente dos restantes salários, pois dificilmente um trabalhador que não ganhasse o salário mínimo iria aceitar que os colegas que ganhavam menos fossem aumentados e ele não. Também não é de crer que os patrões despeçam pessoas que ganham, por exemplo, 600 euros para as substituir por outras, com menos experiência, que possam ser remuneradas com o novo salário mínimo, quarenta euros mais barato. Altamente improvável. E mais uma vez, se o mundo fosse justo, os tribunais fossem céleres e a inspecção do trabalho funcionasse, tal não poderia acontecer. Além de que não me parece que seja do interesse de nenhum patrão este tipo de substituições altamente ostensivas.

Porém, pode dar-se o caso de estar enganada. Se assim for, corrijam-me, pois não sou economista. Pode até acontecer que os patrões baixem os salários todos dos seus trabalhadores para os 557 euros de modo a pagarem menos TSU, como parece antever Helena Garrido. Mas uma tal hipótese afigura-se-me como próxima do absurdo. Além de que deve ter sido ponderada e consequentemente desvalorizada há muito tempo e em muitos lugares.

Ora bem, para se divertirem como eu, deixo aqui dois excertos finais do artigo:

É impossível não recordar o caso da TSU na era da troika e que caiu pela força de uma manifestação de dimensão histórica dia 15 de Setembro de 2012 sob o lema “Que se lixe a troika”. A medida passava pela redução da TSU a cargo dos patrões e o seu agravamento na parcela suportada pelos trabalhadores – cada um pagava 18%. Era neutra em relação ao nível salarial – aplicava-se de igual forma a todos os salários – mas reduzia os custos salariais à custa do poder de compra dos trabalhadores. Uma medida politicamente impossível mas que, reduzindo o poder de compra, não criava incentivos para baixar salários.[…]

[…]Neste caso teríamos de pensar o que aconteceria se este prémio para salários baixos não estivesse a ser aplicado – e o que aconteceria seria seguramente mais poder de compra, mas a prazo. E o que interessa, na política que garante votos, é o que acontece aqui e agora. Assim se perpetua uma estrutura de produção de baixos salários.”

Portanto, é isto: o que convém é não aumentar salário nenhum (talvez com excepção do da própria). Em suma, Madame Garrido, segundo a senhora, se uma subida dos salários é na prática uma descida (que mais ninguém constata), uma descida é que era bom, pois acabaria por ser uma subida. Já desconfiávamos.

Beijinhos.

5 comentários a “A rebuscada teoria de que a subida dos salários é uma descida – Helena Garrido «vintage»”

  1. Já ando a gastar por conta há mais de um ano, e ainda não vi nada.
    Que lata do sacana do Costa! Bem me tem lixado!

  2. ” dificilmente um trabalhador que não ganhasse o salário mínimo iria aceitar que os colegas que ganhavam menos fossem aumentados e ele não”.

    os trabalhadores com estes salários têm poder para aceitar ou deixar de aceitar semelhante movimento? Não.

  3. ai que riso! :-) bem visto, o salário mínimo nos mínimos já é o máximo que o povão merece; ser assalariado é um rebuçado e há que dar valor a isso: bem vindos ao Estado de Direito Minimalista.

  4. fantástico , o fim do mundo vem mesmo aí : as mulheres na árabia saudita lançaram um manifesto das scum à valerie solanas em vídeo . eh , mulheres valentes .)

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