A construção de uma “percepção social” contra um arguido parece-me crime

No que representa mais um tijolo na construção de uma percepção social negativa sobre o arguido, com base na qual e invocando-a muitos juízes decidem, o Ministério Público dá outra vez notícia, na revista Sábado, das suas suspeitas e teorias sobre José Sócrates. Apesar de o artigo começar com uma referência ao último interrogatório e de nos ser dito que Sócrates esteve nada menos do que cinco horas e meia a “contrariar de forma contundente” as acusações dos procuradores, o que é facto é que nenhuma dessa contra-argumentação nos é transmitida. E foram cinco horas e meia. Segundo o jornalista/porta-voz, o documento do MP, para além do pormenor de nunca mencionar valores definidos para as transacções de dinheiro vivo, refere apenas (da parte do arguido) a negação peremptória das teses do MP, a negação de intervenções em operações de adjudicação, a queixa de falta de provas e o “pedido de realização de novas diligências” por parte  de Sócrates, mas sem que “o resumo do depoimento identifique do que se trata“. Pois é, não interessa o que disse nem o que propôs. Não interessa, claro, ao Ministério Público para efeitos de criação da tal percepção. De quando em vez, o jornalista lá vai dizendo, por exemplo a propósito do caso PT: “O problema é que Hélder Bataglia e Joaquim Barroca, dois dos delatores do MP, desmentem que este negócio abortado fosse um esquema para transferir dinheiro para José Sócrates“. E eram delatores, note-se. Ao longo do artigo há outros pequenos problemas como este. Mas é tudo.

Confrontados assim, avassaladoramente, com a perspectiva do Ministério Público, afigura-se-nos uma lacuna grave, porque propositada, a ausência da contra-argumentação. É bizarro. No fundo, convidam-nos para um julgamento e mandam-nos sair antes do contraditório. Por outro lado, qualquer pessoa informada e com juízo defenderá que as teses das partes não são para andar a ser esgrimidas em revistas. Há locais próprios para o efeito e chamam-se tribunais.

Quanto à seriedade dos jornalistas que deveriam exigir as respostas concretas do arguido nos interrogatórios como condição para a divulgação das teses do MP, infelizmente passo. O jogo é sujo mas envolve receitas chorudas para a Cofina. E se são as próprias autoridades judiciais a convidarem a empresa para o festim… e para o crime, com que argumentos se recusa e se vai ser decente? Seria preciso haver ética. Está à vista que não há.

A mim, que fico sempre sem saber o que têm a dizer os visados pelas operações do MP, este tipo de artigos, sempre iguais, provoca-me nojo e revolta. Por que razão estas técnicas de denegrimento não são consideradas crime? Um indivíduo é obrigado a ler na comunicação social o que o MP entende divulgar sobre a sua suposta malvadez, no fundo o seu julgamento, e não tem o direito de contra-argumentar, nem pode, porque o julgamento não pode ser feito assim na praça pública! Será isto o Estado de direito? A Procuradora-Geral incentiva esta prática? O Presidente da República entende que tudo está bem e nos conformes ou tem medo?

22 comentários a “A construção de uma “percepção social” contra um arguido parece-me crime”

  1. mas qual técnica de denegrimento????qual crime??

    Esta gente critica a trampa —sim, a cofina é-o —mas depois faz o mesmo, pelo lado do arguido.

    Diga lá: qual é o denegrimento? não quer utilizar outra expressão? É que seguindo a sua teoria, temos que constituír um cidadão como arguido já é denegrimento…E isso? Mas então, temos o legislador na fonte da coisa…na verdade,o verdadeiro responsável é a COMUNIDADE, aquela de onde você faz parte…representada pelos seus eleitos…não é?

    Portanto, qual é o crime????

    Já agora, o interrogatório judicial pode ir até oito horas diárias…Dói? Claro…sobretudo quando as salas são pequenas e com luz artificial…porém, o arguido não é obrigado a prestar declarações. No caso, o seu ídolo devia ter ficado calado, mas ele preferiu ajudar ao trabalho do MP, o mesmo que vocês criticam…e este aproveitou…

  2. havendo provas de que o primo de José Socrates herdaria o dinheiro do senhor do grupo Lena na bela da offshore da belino foundation , só mesmo gente a receber pode continuar a defender qie o José emprenhou do arcanjo Gabriel e que as férias de 74 mil euros ) eh lecas , a política dá bués de dinheiro) não são pagas pelo espírito santo , :)

  3. ainda não percebi também , se querem tanto saber o que respondeu o arguido , porque não lhe perguntam….daaaaa. ou têm medo que as respostas dadas agora não coincidam com as dadas antes ? se tiver falhas de menória pode ser problemático , é certo :)

  4. já estou a imaginar o MRS, vestido a preceito, na fiscalização das inconstitucionalidades. :-) relaxa, Penélope, deixa fluir o processo, muita água vai rolar ainda sobre essa presunção de inocência.

  5. O despacho de acusação deverá estar pronto lá para 26 de Setembro se … forem
    encontradas as provas que confirmem, até ver, a teoria do M. Público e, o esquema
    desenhado pelo inspector tributário que, segue as pistas do dinheiro, possa ser va-
    lidado em Tribunal! Como professor de Direito Constitucional o Presidente da Re-
    pública, tem obrigação de exigir mais decoro por parte dos juízes que julgam fora
    do indicado pela Lei com objectivo de dar “satisfação” a alguma populaça manipu-
    lada pelos pasquins das grandes tiragens, com dívidas à S.Social e Finanças!
    Veremos se Dias Loureiro avança com queixa para o Tribunal Europeu para ser in-
    dminizado pelos prejuízos da devassa que sofreu durante oito anos, a pagar pelos
    fundos do Ministério Público … que dizem ser nossos e escassos!!!

  6. Miguel Sousa Tavares: “Vivemos tempos ameaçadores para a liberdade. Para a liberdade que começa na porta da minha casa ou na fronteira do meu país – que é onde a liberdade verdadeiramente começa. Prende-se um ex-primeiro-ministro na porta de um avião, com a televisão convocada para as primeiras imagens; sem pudor algum, faz-se a acusação pública dos processos ditos mediáticos na imprensa para tal disponível, assim promovendo pré-julgamentos populares definitivos; vive-se em tamanho regabofe de escutas telefónicas que até os serviços secretos fazem escutas a um jornalista a pedido de uma empresa e as escutas judiciais, mesmo depois de arquivados os processos ou absolvidos os suspeitos são disponibilizadas para uso público; pode manter-se suspeitos em prisão preventiva, sem culpa formada, até um ano (ou mais quatro meses, havendo instrução); o Sindicato do Ministério Público, cuja magistratura já funciona em roda livre, quer ser totalmente independente e ainda juntar sob o seu mando a PJ; os dados pessoais de cada um de nós são livremente “cruzados” e circulam por todas as autoridades e serviços, mesmo a propósito de uma simples infracção de trânsito; e agora, sob a capa da transparência, defende-se abertamente a violação do sigilo fiscal de quem tenha o azar de ser classificado como figura pública. Passo a passo, a ‘democracia de café’ triunfa sobre o Estado de direito. E o seu triunfo prenuncia tempos cinzentos e perigosos.”
    21 de março de 2015

  7. Penélope
    7 DE ABRIL DE 2017 ÀS 12:12
    soistrampa: Tens a noção de que o teu nome é um insulto e que, não fosse só por isso, jamais merecerias uma resposta?”

    Minha cara,
    Se o que eu escrevi não a tivesse, de facto, atingido, por certo se dignaria responder-me. Note, porém, que o nickname é propositadamente expressivo, relata o que há e muito em Portugal. Ora, esperava eu que respondesse inteligentemente. Não o fez, escorando-se, à boa maneira portuguesa no desvio ao fulcral. Você não sabe! E, porque não sabe, deve quedar-se e APRENDER com quem sabe! Por isso, novamente lhe pergunto: qual denegrimento? Qual crime? etc, etc….
    Não faça, pelo lado do arguido, o que você aponta à Cofina pelo lado da magistratura…Percebeu?

    Agora, se quiser falar de música clássica ou outra, disponha…quanto ao demais deixe-se de crap…e APRENDA.

  8. E, já agora, se pensa que insultou…com o meu nick…devolvo-lhe o “engraçadismo”…que se lhe aplica que nem luva…

  9. Claro que é crime Penélope, e aqueles que agora defendem o crime ainda um dia podem vir a ser vítimas dos esbirros que agora aplaudem, mas não se dão conta.
    E sim, o Presidente da República tem medo.
    Têm todos MEDO.
    No fundo, aquilo a que se assiste é a uma corporação, que usa métodos mafiosos, a avançar para derrubar o estado de direito democrático e tomar o poder. E como em todos os golpes de estado há vítimas, há heróis, e há colaboracionistas.

  10. e depois há the fallen madonna with the Big Boobies et la Resistence !!!! que gente más rara , um testamento que nem é preciso as células do poirot para perceber de que se trata e continuam a solfejar do re mi tipo autistas. o golpe de estado iniciou-se com o ali baba nariz de batata e os 40 ladrões. defraudou um país , depauperou-o , faliu-o enquanto esbanjava milhares em tretas de pobre de espírito . não há pachorra para calimeros hipócritas.

  11. Esta ( ou este, não sei ) Penélope, mete dó ( e ré e mí e fá e só, e por aí fora ).

    E continuam estes e estas otárias a papaguear sobre a formulação de Blackstone, é melhor que um culpado escape, do que um inocente, etc. .
    Mas é melhor para quem ???

    Ex-primeiros ministros, ministros e banqueiros inocentes ?
    Não há !
    O ex-ministro, ex-banqueiro, e agora, queijeiro, Dê Éle, ou é tonto, ou é um tratante de primeira água. Só pode haver esta constatação !
    Ademais, é um insolente . Lembro-me de como botava faladura e in(explicava) : eu sei lá, já não me lembro . Então eu dizia ao dótor Oliveira Gasta, ó sr. dótor, nem eu nem o senhor percebemos nada disto, não será melhor vir alguém conosco que saiba ?
    Palavras para quê ? Quem lhe deu a licença de banqueiro ? Constancio ?
    Mas para abichar os lautos honorários, inerentes ao cargo e à posição, aí sabia .
    Enfim …
    Está muito bem demonstrada em vários comentários no post anterior, a cumplicidade e a teia de interesses entre diversas figuras, figurinhas e figurões do presente regime, é gente do arco do poder ( PPD, PS, e CDS ) tudo gente testada e de confiança .
    As coisas não acontecem por acaso …

  12. O jornalista de voz grossa e ar agressivo de staring at goats ( mata cabras com o olhar ) envelheceu mal .

  13. Bom argumento Penélope. Nem por acaso ontem ocorreram dois casos distintos de venda interna através de construção de percepçoes. O ataque americano na Síria e a ofensiva do tomahawk Mourinho a Dieselboom. Tanto um como outro foram actos gratuitos que visavam mais a construção de uma percepçao junto da opinião publica interna e internacional do que a resolução de qualquer problema. No caso americano com uma produção de luxo cheia de efeitos especiais e dramatismo ( e com mortes, sempre a lamentar), no caso português a produção foi mais home movie, notando-se a falta de naturalidade de Mourinho, o overacting, sabendo q a camara estava lá para o filmar, a q se juntou a reles captação de som. Percepçoes, sensações, emoções.Pop till you drop.

    “O Presidente da República entende que tudo está bem e nos conformes ou tem medo?”
    O Presidente da República?!Ahahah Claro. Então e o governo e a AR? Não tem nada a ver? Ou este questionamento sofre do mesmo mal do que se pretende criticar? Um PM que mete um membro do MP no governo e não tem nada a ver??!!

  14. A interiorização do absurdo leva a criação de dogmas, tanto no discurso religioso como no político. Em ambos a recusa em lidar com a realidade resolve-se através do silêncio, Lucia foi engavetada, os geringonços fingem que Costa está cá para nos salvar e optam pelo silêncio em tudo o q envolva o lider. A culpa é sempre dos infieis.

    Paralelamente parece existir um reflexo deste tipo de discurso religioso na sociedade, não por acaso o representante português na Eurovisão é o Salvador, o Eder branco. É preciso é fezada.

  15. […]

    Já a apreciação dos eleitores
    sobre o desempenho de líderes e órgãos de soberania é
    unânime: todos (a começar no
    Presidente da República — que
    prossegue, imparável, a sua ascensão aos píncaros da popularidade) têm mais apreciações
    positivas do que há um mês.
    Um dado curioso: apesar de
    muito criticado por ter prolongado o prazo para a conclusão
    da acusação a José Sócrates, o
    Ministério Público é o que mais
    sobe em relação a março.

    Expresso, 8.4.2017, p. 15.

  16. Para o “Pimpampum” inocentes mesmo só os senhores procuradores que procuram e nada encontram e os senhores meretíssimos sem mérito. Para todo o restante mundo que os rodeia o veredito é: Culpados.
    Com cabecinhas destas na “justiça” está tudo dito.

  17. Joe Strummer, ganha um pouco de tino (e descansa um bocado esses cornos que andam bastante confusos pois que a toda a hora contemplam uma graça qualquer, que só tu vês).

    Nota. Ser iconoclasta é um dom, mas no teu caso até dói.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *