Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Deve ser da data

Estava há uns minutos uma senhora num programa da SIC Mulher (“Elas sobre Eles”, julgo) a lançar um alerta importante: “Olha, desculpa lá estar a armar-me em intelectual, mas este é um assunto sério que temos de discutir. Sabes do Iraque, não? E sabes do problema do urânio no Iraque? É. O enriquecimento de urânio no Iraque. É grave”.
Alguém diga à senhora, por favor, que anda um pouco atrasada. A história das armas de destruição em massa no Iraque já passou à História. Agora é mesmo o Irão que está na berlinda.

Mais histórias de plágios

Pronto. É sina assente: agora, tudo o que tenha a ver com o gamanço de escritos alheios tem de me vir parar ao desktop. Ainda acabo como metade da população portuguesa: processado pela Clara Pinto Correia, que gastou esta semana a justificar, no “24 Horas”, os seus tormentos e a ameaçar este e aquele com ferozes litigações, pois “agora já não vai sair barato dizer mal de mim”. Isto enquanto persiste na colocação de aspas a proteger a palavra “plágio”, quando aplicada à sua pessoa, mas enfim. (Espero que ela não descubra que escrevi há um ano que “o Jorge Listopad e a Clara Pinto Correia deviam ser banidos para a Zona Fantasma”…)
É que nossa Margarida conseguiu por fim encontrar um texto assinado por Francisco Louçã em 2001 e outro de Michel Chossudovsky, alguns dias anterior. Podem ler ambos aqui. Até me dei, não fossem acusar-me de escasso empenho analítico, ao trabalho de assinalar a vermelho as passagens literalmente comuns aos dois artigos. Mas não era preciso; eles estão obviamente irmanados e expõem os mesmos factos, o mesmo raciocínio e a mesma conclusão.
Plágio? Para ter a certeza, precisaria de verificar alguns dados: datas, notas, o texto assinado por Louçã. Mas admito que parece bastante provável.
Sei que pode soar a coisa estranha, mas é verdade, Margarida: nem todos fechamos os olhos ao que parece ser a evidência só porque esta nos desagrada.

A nossa Teofania

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Era uma vez um mundo pequeno, sombrio e assustado. As povoações onde se escondiam os habitantes desta orbe eram pequenas e esparsas. E sujeitavam-se a uma topografia abrupta que propiciava a distância e o isolamento. Ainda por cima, ali o povo era belicoso: poucas quinzenas passavam sem pelo menos meia-dúzia de escaramuças e pequenas guerras. Mas tratava-se de gente religiosa: eles conheciam bem o seu Deus, sabiam-nO de boa índole e adivinhavam-Lhe aquele desvelo paternal sem fim que habita as histórias pungentes de amor filial (e onde a traição inesperada nunca anda longe, diga-se).
O abuso, naturalmente, imperava. Se numa manhã o sol se recusasse a iluminar as planícies poeirentas do pequeno mundo, logo os fiéis acorriam em massa aos templos para orar ao Criador da insolente esfera. A diferença crucial para o nosso universo abandonado é simples mas decisiva: ali, a Divindade acorria mesmo às súplicas dos Seus súbditos. Nunca passava mais de um dia sem que os pedidos — aflitos, estapafúrdios, egoístas ou apenas justos e sensatos — fossem atendidos pelo omnipresente e sábio Taumaturgo. Com o passar dos anos, adivinhava-se algum cansaço por detrás e tanta e tão generosa solicitude; mas nem assim abrandava o ritmo dos pedidos e nem assim se ouvia uma só nódoa de rispidez a tingir de forma menos própria as divinas respostas.
Os mais assustadiços asseveravam que Ele se iria embora, por fim farto de hóspedes tão pedinchões e agressivos. E todos tremiam ante o frio e a solidão que tal ideia lhes causava. Mas logo continuavam a importunar o seu deus.
O inevitável, como é de bom tom numa história com moral, aconteceu: Ele fartou-Se. E começou a divertir-Se menos com as cabriolas dos Seus súbditos. Por fim, confessou que já poucas vezes visitava, invisível e omnisciente, os miseráveis tugúrios onde eles se acoitavam, sempre tão inchados com a sua própria importância. Ali, já não aguardava novidade, já não almejava ouvir palavras capazes de atenuar o Seu ennui. E assim o desespero caiu como um manto fúnebre sobre aldeias, montes, planícies. Com a ameaça de sufocar toda a esperança, por eras e eras.

Até ao dia em que os aldeões de um povoado não menos miserável que os demais receberam a boa nova. O Altíssimo dignara-se a conceder-lhes a graça do seu agrado. Ele falara-lhes; dirigira-lhes de novo a sua augusta e cansada Palavra!
Cantaram-se hosanas, fizeram-se sacrifícios, desfloraram-se donzelas, inauguraram-se ruas com aquela data por nome. O Querido Demiurgo voltara!

Erro de avaliação ou mudança de ponto de vista?

“Talvez seja a grande revolução que ele fez num país cansado de crispação; trazer a afectividade para a política. É, a par com a coragem, a sua arma mais eficaz. E por isso ele é, de facto, irresistível. E também imprevisto. Com o Mário, o inesperado pode sempre acontecer. Desenganem-se os que o julgam sentado sobre uma por vezes aparente lassidão. De repente ele salta. Para sacudir o marasmo e de novo forçar o destino.”
Escreveu isto Manuel Alegre, no seu infausto “Arte de Marear”. Esta passagem coroa oito páginas de panegíricos à figura de Soares. E segue-se à descrição da forma como Alegre pôs “os delegados a ferver” num congressos do PS, enquanto o chefe, na mesa da presidência, “barafustava: este gajo está-me a lixar o Congresso.” Claro que tudo se sanou com uma palmadinha no ombro e a admissão por Soares de que o seu amigo “é um tribuno temível”.

Hoje, Alegre espera que o seu ex-amigo não sacuda coisa nenhuma nem force o destino que o parece condenar à derrota sem glória nem proveito. Hoje, o exorbitante ego do poeta-candidato já não se deixará apaziguar com festinhas e elogios utilitários. Hoje, ambos surgem à luz impiedosa da atenção dos media como dois velhos de costas voltadas, tremendos no seu egoísmo, naufragados bem longe das correntes que estão já a moldar as costas de um novo mundo.

Hoje a Música, amanhã o mundo!

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Diz o psicólogo Adrian North que a omnipresença do formato mp3 está a minar os laços emocionais que nos ligam à música.
“No sec. XIX, a música era vista como um tesouro precioso, com poderes fundamentais e quase místicos de comunicação humana”, garante o cientista, depois de um estudo onde acompanhou 346 indivíduos no seu convívio diário com a arte de Orfeu. Hoje, criámos “uma geração de pessoas que não apreciam seriamente canções ou desempenhos musicais”.
Se a simples disponibilidade massificada de uma forma de arte basta para nos deixar apáticos e incapazes de avaliar a sua beleza ou complexidade, que maldades indizíveis nos terá já feito esta sociedade da comunicação? A primeira vítima a merecer sentidos obituários foi o Cinema: com a TV, os downloads e outras piratarias, também já perdeu valor, sendo por certo avaliada por muitos como mais uma mercadoria indiferenciada e desprovida de valor.
Agora, o que se seguirá? A poesia? A filosofia? O pensamento, tout court? Se calhar, e bem vistas as coisas, ainda alguém vai recensear a blogosfera como mais uma inimiga da inteligência: afinal, disponibilizar trabalho mental assim, para todos, de graça e sem mais aquelas, só pode vir a acabar mal.

E de vez em quando ele vinga-se

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Mais de 340 pessoas morreram hoje esmagadas pela multidão em Mina. No último dia da Hajj, a peregrinação que todos os muçulmanos saudáveis devem realizar pelo menos uma vez na vida.
Não é o primeiro ou sequer o mais sangrento incidente destes a ocorrer no que já é considerado o momento mais perigoso da peregrinação: o ritual de apedrejamento do diabo. Os participantes devem arremessar entre 49 e 70 pedras ao mafarrico, num espaço onde se acumulam dezenas de milhares de pessoas.
Ironia: não contentes em inventar divindades, tratamos de lhes dar oponentes e, a estes, oportunidades para nos massacrar.

Trilogia do livrinho de Natal

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(Gravura de Raoul Haussmann)

Como todos os lares burgueses, recebemos este Natal o livro de Filomena Mónica, o terceiro volume da biografia de Cunhal (de Pacheco Pereira) e o romance de Philip Roth. Os dois primeiros estão lidos em velocidade, nos intervalos da campanha, o terceiro vai demorar mais algum tempo.
Sobre o em busca do tempo perdido da socióloga não me apetece falar. Emprestei-o à minha mãe que o está a apreciar. Sobre a obra do historiador-político, acho-a muito bem elaborada. Gosto deste volume de Pacheco Pereira, parece-me o mais conseguido dos três: o número de fontes citadas e o trabalho envolvido parece-me inteligente. Ao contrário do anterior volume, em que as páginas sobre “reorganização” afiguravam-se demasiado ligadas à entrevista feita pelo o autor a Vasco Carvalho, este parece-me muito bem argumentado. Não se pede a ninguém que não tenha ideias e preconceitos. Pacheco tem-nos aos molhos, mas isso não condena esta sua obra. Pacheco Pereira não fez disto um panfleto acéfalo, mas um investimento intelectual sério, que acessoriamente (não há bela sem senão) pode servir para branquear algumas das suas posições políticas mais primárias. Mas isso não determina, nem condena obrigatoriamente o livro.
Isaac Deutscher, com quem Pacheco foi erradamente comparado por Mário Soares, dizia que a história dos comunistas era demasiado importante para ser deixada apenas aos ex-comunistas e aos anti-comunistas, infelizmente parece ser este o destino de Portugal. O PCP é pouco inteligente nessa matéria: em vez de mostrar a grandeza daqueles que resistiram, imersos na vida real, assumindo erros e falando das questões mais polémicas, tem tendência de querer apagar tudo o que não coincide com a história dos santos. Ora os santos têm muito pouca piada, o valor de gente como Álvaro Cunhal foi a sua humanidade, a sua capacidade de transcender os erros e as fraquezas. Não se faz uma história politicamente séria, nem uma política com futuro, recorrendo a verdades instrumentais. As traições de Lindolfo, a presença de Francisco Martins Rodrigues na fuga de Peniche, o assassínio de Manuel Domingues, o “caso” Carolina Loff, fazem parte da história do PCP. Podem torná-la trágica e humana, mas não a fazem menos heróica.

Agit-prop em cheio no alvo

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Boas razões tem Jerónimo para não embarcar no ataque generalizado à imprensa que Soares lançou: é que a sua candidatura prefere atacar o mal na fonte. Assim, neste preciso momento dois esforçados militantes estão às portas do edifício do “Expresso” distribuindo com assinalável diligência (e cortesia, aliás) os seus folhetos. Se a próxima edição do semanário do tio Balsemão tiver como manchete qualquer coisa saída do Mais Livre, como “a cada dia Jerónimo avança!”, já sabem porquê.

Da raiva

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(Imagem gamada ao “Da Literatura”, o texto é só para justificar).

Falta raiva à política portuguesa. Estamos num país de falinhas mansas, em que todos aceitamos os pequenos insultos e as repetidas injustiças diárias, com um ar de destino complacente. Há anos que as nossas vidas pioram, e nós incorporamos o triste fado, como se de um caminho imutável se tratasse. Somos colaboracionistas do nosso próprio falhanço, da nossa total miséria, porque não conseguimos ter a coragem de dizer não.
Vivemos, independentemente do resultado destas eleições, em pleno rotativismo sovaquista (uma espécie de Sócrates com Cavaco). O país está na merda, mas os eleitores insistem em votar nos seus carrascos. Há quem garanta, como um aventurado apoiante de Cavaco, que Portugal está à beira do abismo e que o Professor é a nossa tábua de salvação. Resta saber o que faz uma tábua junto a um precipício: prancha de saltos?

“Munique”: a polémica e o disparate

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A bronca já dá que falar: o último filme de Steven Spielberg, o muito discutido “Munique”, parece condenado a não poder ganhar qualquer prémio nos Bafta Awards, atribuídos pela academia britãnica de artes cinematográficas. Imagine-se que os DVDs entregues aos membros da dita academia foram codificados para a região norte-americana, o que impede a sua leitura nos aparelhos especiais — destinados ao visionamento de material de cópia interdita — distribuídos no Reino Unido. Pois; parece episódio português.
O filme de Spielberg, com argumento do dramaturgo Tony Kushner (Angels in America) recapitula a missão de um esquadrão de assassinos da Mossad em busca dos terroristas palestinianos que em 1972 raptaram e mataram atletas olímpicos israelitas. E já foi acusado de aceitar como equivalentes os dois actos: o ataque e a subsequente vingança. A ver vamos; o que é mais do que os membros da Bafta podem dizer.