Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Espada em Madrid

nesstanley.jpg

Decorreu esta semana em Madrid, por iniciativa do Professor Eduardo Nolta e da FAES (Fundacion para al Analisis y los Estudos Sociais), instituição que para além de tudo é conhecida pelo o uso de gravatas garridas italianas e a confecção de excelente scones, uma conferência comemorativa do bicentenário do nascimento de Sir Alexis de Tocqueville. O Hotel, que me arranjaram, era muito em conta e estava situado na Calle Mayor, no atrío polulavam os fellows em alegres concílios, sempre com a dignidade que se exige, a excelência que se procura, e claro, fatos a condizer: você já repararam o ar distinto das casacas, mesmo quando não usadas em Wimbledon?
Entre os temas abordados esteve a concepção de liberdade em Tocqueville, que deve ser distinguida claramente de Rosseau e, ainda que menos vincadamente ( a mim as pregas não me ficam muito bem), da de John Stuart Mill. Como por coincidência, recordei aqui no sábado passado, Rousseau (embora não tenha conseguido falar-lhe ao telefone) não aceitava o indivíduo enraizado em qualquer particularismo – dizia-me com muita graça Sir Karl Popper: “Spading (ele tratava-me assim) isso são sinais e faça o favor de me ir buscar o carro” –, como os seus interesses privados, a sua família, o seu negócio ou a sua igreja ( em Messajana há uma particularmente conseguida). Esta hostilidade contra todos os “attachments” particulares (em mails e fora deles), para usar da expressão de Michael Oakeshott, que carteia no bridge como poucos, esteve na origem do jacobinismo e do comunismo, que como todos sabemos não sabem fazer o nó da gravata e não apreciam a Zara e a liberdade.

(Qualquer parecença com a crónica do professor João Carlos Espada, de hoje e de sempre, é casual)

Sempre o Mal

De quando em vez, lemos mais qualquer coisa sobre o Mal; assim como se se tratasse de uma quantidade — melhor, de uma personalidade — viva e independente do nosso arbítrio. Era bom, não era? Podermos repartir culpas com uma entidade simbiótica que tem por destino desviar-nos dos bons e justos caminhos. Também poderíamos fazer como os Cátaros e outros dualistas, que acreditavam na maldade intrínseca de todo universo material e na inevitável contaminação que as nossas almas sofrem mal cá entram. O resultado é a mesma litania: nós somos bons, nós somos puros, nós estamos isentos de mácula. O Mal é-nos exterior. Claro: se fomos feitos à imagem de Deus, nem poderia ser de outra forma.
Como já deu para reparar, o genocídio do Ruanda é o espelho nigérrimo a que acabo sempre por voltar, quando tento não me esquecer da verdadeira face do bicho homem. E, inevitavelmente, o Holocausto continua a esmagar as nossas memórias como o mais gigantesco monumento ao Mal que conseguimos construir (e olhem que nos temos esforçado muito).
É fácil encontrar semelhanças entre estes dois buracos negros da nossa história recente. A Alemanha nazi e os milicianos Hutus seguiram a mesma estratégia base: começar por retirar a humanidade aos inimigos, classificando-os como “untermensch” e “baratas”, respectivamente. Depois, atirar para cima destas criaturas desprezíveis e sem direito à vida todas as culpas, todas as vilezas. Por fim, escolher os mais desalmados para tomar conta das primeiras matanças; estes exemplos frutificam sempre e não tardará até que os matadores sejam legião.

Continuar a lerSempre o Mal

Um quadro

nu.jpg

Quando era pequeno, ir a casa dos meus avós era uma aventura fantástica: passava pelas salas, em que a lareira crepitava, e em que se sentia também o cheiro do couro dos livros. Abria as portas e subia umas escadas em que os quadros se amontoavam. No cimo de tudo, antes da enorme vista para o Tejo, estavam dois quadros de Mário Eloy: este e um outro em que a mesma mulher surge na mesma posição, mas vestida. Uma espécie de exercício de Goya, entre Maya vestida e Maya desnuda.
O meu avô, que era ateu graças a deus (reparem na minúscula), não comemorava o Natal, apenas assinalava o ano novo.
Infelizmente, nenhum dos meus avós é vivo: talvez por isso, mais do que pela indiscritível musiquinha, esta época me irrite tanto.

Um Natal Acidental

Dado que me dirigi ao festim natalício do “Acidental” já depois de um ágape bem regado, guardo memória algo lacunar do mesmo. Estou assim a ver umas imagens tremidas de inúmeros jovens em alegre e são contubérnio, lembro-me de trocar saudações com gente bem simpática e de sofrer a forte decepção de não ter conhecido a Ana Albergaria.
Hoje, o PPM teve a caridade de escrever que eu fui “o melhor convidado”. Segue-se a explicação deste destaque: eu terei sido “o único que trouxe presente”.
Já desconfiava: os neocons apossaram-se do “Acidental”. Verdadeiros conservadores nunca perderiam de vista as tradições do Natal; todos chegariam carregadinhos de ouro, incenso e mirra. No mínimo.

Ipsis verbis

Subscrevo, uma a uma, as palavras de João Miguel Tavares, no DN de hoje, sobre o caso sórdido e trágico, para lá de todos os limites, da bebé que está em coma há vários dias devido aos maus tratos e abusos sexuais que lhe infligiram os próprios progenitores:

«Há uma névoa que nos impede sequer de compreender como é possível que um pai e uma mãe agridam e abusem sexualmente de uma filha de 50 dias até a deixarem em estado de coma, com convulsões, fracturas cranianas, lesões por todo o corpo e cega de um olho. O que aconteceu a Fátima Letícia não tem explicação – é um daqueles terríveis momentos em que a brutalidade do mal cai a pique sobre nós, atingindo aquilo que nos é mais sagrado e que temos por inviolável: o amor que une um pai e uma mãe a um filho.
Mas se o que aconteceu a Fátima Letícia não tem explicação, alguém deverá ser obrigado a explicar como é que um bebé de apenas 50 dias, e já com uma longa história de passagens pelo Hospital de Viseu com indícios de maus tratos, foi deixado junto dos seus pais por uma comissão de protecção de menores que existe precisamente para impedir que tal aconteça. O hospital detectou o risco, a comissão foi alertada, a criança foi confiada aos cuidados da avó. Só que – pequeno detalhe que parece ter escapado às autoridades – a avó e os pais viviam debaixo do mesmo tecto. Como é que ninguém reparou?
Tendo isto em conta, afirmar, num caso com tamanha gravidade, que “o sistema funcionou” e que “não houve negligência nem omissão de ninguém” – como garantiu há dois dias o presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco – é uma atitude despudorada e absolutamente inadmissível. Não, o sistema não funcionou. Sim, alguém foi negligente. Sim, alguém omitiu. Sim, alguém se esforçou menos do que deveria. Nos últimos anos assistimos a um desfile imperdoável de casos de violência sobre crianças em famílias que estavam devidamente assinaladas pelas autoridades. Neste momento, apurar todas as responsabilidades e repensar todo o sistema de protecção de menores é o mínimo que o Estado português pode fazer. É o mínimo que devemos a um bebé a quem tudo foi tirado, aos 50 dias de vida.»

Pacheco Pior Tsé-Tung

FCAP-p071002.jpg

O texto de José Pacheco Pereira sobre Francisco Louçã, saído no Público de hoje, é um escrito bem interessante, tanto no que revela, como no que esconde. Feito à imagem e semelhança de outro sobre como entrevistar Cunhal, que Pacheco Pereira escreveu, há mais de dez anos, no Semanário, baseia-se em alguns pontos habituais na escrita do político/ensaísta e escamoteia outros.
O primeiro e recorrente é que, para Pacheco Pereira, os jornalistas – mais do que os políticos, e muito mais do que o candidato Presidencial que ele apoia (Cavaco Silva conhecido, entre outras coisas, por ter dito estar a ler a “Utopia” de Thomas Mann) – são ignorantes. Os jornalistas não sabem que Louçã é trotskista da IV Internacional, nem são capazes de desmontar a “linguagem de pau” (tradução directa do francês de “langue de bois”, em português usam-se os substantivos “chavão” ou “gíria”) e perceber o que esconde para além do que diz. Exemplificando: quando Louçã afirma que há uma outra política económica: que é necessário combater a evasão fiscal, taxar o capital financeiro e reformar a segurança social, ele não quer verdadeiramente dizer isso. Estaríamos perante, apenas, demagogia eleitoral que escamoteia o facto de Louçã apenas acreditar que seja possível alterar a política económica depois de uma tomada de poder revolucionária, uma espécie de assalto ao “Palácio de Inverno”.
Esta interpretação “cínica” da política, é muito comum em Pacheco Pereira (como na maior parte dos ex-maoistas): ele não acredita no que dizem as pessoas e embora tenha mudado de fé (substituiu o “grande líder” pelo mercado), ele não entende que as pessoas e as correntes políticas possam ter evoluído. No fundo mudou as coordenadas políticas mas não mudou de estrutura mental: tudo nele são certezas. Em vez da profissão de fé na capacidade de mudar o universo do “grande timoneiro” temos a constante reafirmação ideológica da impossibilidade de oposição ao estado actual do mundo.
Uma vez numa entrevista, salvo erro à Grande Reportagem, Pacheco Pereira afirmou só ler livros de ficção com mais de 50 anos. Justificava que só tinha tempo a perder com “clássicos” burilados pelo tempo. E que a maior parte das coisas que se publicavam hoje não tinham valor. Talvez esta posição o tenha impedido de ler muitos autores, que opondo-se ao capitalismo, procuram caminhos que melhorem o planeta: é bastante difícil esgrimir com Zizek tendo lido com afinco Jdanov, e ignorando o primeiro.
Não são os jornalistas, por mais ignorantes que sejam, que desconhecem os termos da discussão, é pelo contrário Pacheco Pereira que, em vez de ouvir Louçã, está a combater moinhos de vento com nomes do passado. E, nessa fuga para trás, o arguto pensador aproveita para não discutir nenhuma das ideias do homem que critica. Ganha os tiques esfíngicos do seu candidato: não respondendo a nenhuma questão política, social e económica concreta, transforma a eleição presidencial numa espécie de escolha da Miss Universo, em que as candidatas são escolhidas pelo menear da anca e pela invocação mágica da crença na paz do mundo e, certamente, na sacrossanta “liberdade” do mercado.
Era importante que ele fizesse também o balanço das suas posições e que dissesse com clareza que se enganou quando afiançou – ao contrário de muitos – que abundavam armas de destruição maciça no Iraque e que persiste no erro quando nos quer convencer de que a invasão do Iraque e a política de guerra permanente trouxeram menos terrorismo e mais segurança.
Por estranho que pareça, Pacheco Pereira está a tornar-se num dos últimos Estalinistas, capaz de relativizar qualquer crime do seu lado (guerras, torturas, aviões da CIA, etc..) e de cultivar a grande herança de Estaline e Mao: a verdade instrumental.

Anjos de mãos sujas

Há uns dias, vi uns segundos de imagens de uma guerra hoje já extinta e quase esquecida: um jovem árabe sorridente dialogava com homens armados, enquanto empurrava dois desgraçados de olhos baixos e mãos amarradas. De acordo com a voz-off o jovem estava a solicitar aos outros que o deixassem matar os prisioneiros. Por fim, fizeram-lhe a vontade. Ele abriu um grande sorriso e dirigiu os condenados para a mata. Claro que nunca mais ninguém os viu.
Estas imagens perseguem-me. Menos pela brutalidade implícita da situação, nem pelo olhar resignado dos condenados, mais pelo sorriso daquele miúdo em busca de sangue. Era um combatente da Jihad. Não da Grande Jihad, al-jihad al-akbar, a luta pela iluminação que os crentes devem travar, mas sim de mais uma rasteira guerra supostamente santa, naquele caso na Bósnia.
Beatitude. Eis o que li naquele sorriso. Ele estava em paz; não era um monstro agitado por paixões subterrâneas nem um ogre incompreeensível, movido por uma qualquer sede de Mal. Ele não conhecia aquele país, e talvez nem soubesse ao certo quem eram os prisioneiros. Mas tudo lhe devia ser indiferente. Limitava-se a deixar-se ir numa corrente de destino que já o tinha trazido de tão longe, mero instrumento passivo da vontade do seu Deus. E isso dava-lhe a felicidade suprema dos bem-aventurados. Desde que pudesse matar.
A Morte não tem de ser a criatura feia e nauseabunda que aprendemos a recear. Ela também tem rostos bonitos, olhos sinceros, sorrisos juvenis de alegria impoluta.
Outros anjos letais aterraram neste mundo em África, no Ruanda. Sob a forma de bons cristãos. A rádio não deixava de os empurrar para o massacre com santos cânticos e a promessa reconfortante de que a mão de Deus iria empunhar as machetes em uníssono com os seus músculos. E berrava-lhes coisas como “não os matem com uma bala; cortem-nos às fatias”, “não esqueçam os bebés”, “Deus está connosco!”
Outra guerra santa, portanto. Para os milhares que saíam de casa todas as manhãs para retalhar a golpes de catana os seus vizinhos e os colegas dos seus filhos, aquela tarefa de matadouro só permitia descanso ao domingo; esse dia era dedicado a Deus. Também imagino muitos dos milicianos Interahamwe a sorrir o sorriso que agora não se descola das minhas retinas. O sorriso de quem se sabe mais perto de Deus. E mais longe dos homens.
É por estas e por outras que a religião sempre me pareceu coisa desumana.