Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Constipation

Não consigo. O dia foi mesquinhamente reduzido a 24 horas, decisão tão arbitrária como essoutra que faz com que os rios corram para o mar. Que raio vai fazer um rio para o mar? Adiante. Só 24 horas, em que o homem comum passa dezasseis a dormir. A mulher incomum é diferente, duas vezes oito horas a sonhar. Por isso, não consigo. Há blogues a mais. Cada blogue tem posts a mais. Um post tem palavras a mais. As palavras têm silêncios a menos. Em soma, é-me igual. Porque não consigo. Preciso de tempo para ler a Odisseia traduzida pelo Frederico Lourenço. Em voz alta, devagar. Devagar não, quedo. Preciso de tempo para olhar o Bad Boy do Eric Fischl nos olhos, ele que está de costas. Quanto tempo se leva para descobrir o rosto de uma figura que está de costas? Pouco, nada. Mas o nada demora. Preciso de tempo para escrever a biografia de uma erva daninha, para ouvir o Carl Dreyer, para abraçar uma árvore, para chegar ao fim do Half-Life 2 e começar o Civilization IV, para arrumar os livros por ordem analfabética, para ajudar uma velhinha a atravessar a vida, para reencontrar os amigos que vejo todos os dias, para dançar ao som da Nona de Beethoven, para me fechar numa praia deserta em manhã fria de Inverno.

Há blogues a mais.

Obrigado, gracias

Nem preciso de consultar os restantes para saber que estamos todos gratos às menções que por aí vão fazendo ao nosso pequeno recanto farmacêutico. Mas há uma que me deixa mesmo surpreendido: José Luis Orihuela, no seu eCuaderno, recomenda-nos na categoria de blogues grupales. Não fazia ideia de isto era uma cena “grupal”. Nem que poderíamos merecer o interesse de um simpático professor de Navarra. Mas olhem que o agrado é recíproco: o eCuaderno merece mesmo uma visita demorada.

Bem-vindo Professor Silva

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Há um filme com Peter Sellers , passou pelo burgo como “Bem-vindo Mister Chance”, em que um jardineiro levemente atrasado, que vive a ver televisão e a dizer frases pueris do tipo: “a seguir ao Inverno vem sempre a Primavera”, chega a Presidente dos Estados Unidos da América. Todas as pessoas que o ouvem atribuem-lhe uma inteligência e profundidade que ele não tem. Falam-lhe da crise económica e ele, distraído com o Outono, responde algo do tipo: “as folhas caídas, serão sementes e dessas sementes vão nascer frutos”. E tudo reage como se uma profunda sabedoria económica estivesse subjacente. Com as devidas distâncias (Sellers treme pouco e não costuma fazer aqueles esgares húmidos ao canto da boca) o Professor Aníbal Cavaco Silva faz lembrar a personagem: as suas receitas optimistas, a sua ideia de que o consenso utilitário entre quaisquer duas pessoas com a mesma informação, desde que bem intencionadas, chegam às mesmas conclusões é enternecedora. É genial como há alguém que depois ler as formulações do utilitarismo, aplicado à Microeconomia, acredita nelas. Como é possível resumir a sociedade a formulações do tipo: “um consumidor, com toda a informação, tenderá a maximizar a sua satisfação gastando as suas unidades de compra até que a utilidade marginal, conseguida com o dispêndio de mais uma unidade equivalha ao seu gasto…”.
O ar basbaque dos comentadores ouvindo as generalidades do professor é notável. Graças a Deus, o professor, ao contrário do jardineiro do filme, não é tão inocente. E todos sabemos que por detrás das formulações consensuais está um programa político e económico, que é uma escolha determinada que favorece determinados critérios, em prejuízo de outros.
Ao contrário do que a vulgata, e o professor, nos pretendem fazer acreditar, não há uma “Economia”, mas várias políticas económicas.

Utilizador? Pagador?

Depois do regresso em força das hostes a reclamar pela aplicação do famoso princípio do “utilizador/pagador”, sempre a propósito das SCUTs, lembrei-me de uma modesta proposta: porque não inventamos o princípio do Pagador/Utilizador?
Aplicada ao ramo das vias de comunicação, a coisa funcionaria assim: cada euro apurado com o Imposto sobre Combustíveis, com o IVVA e demais alcavalas que já atacam os automobilistas seria usado exclusivamente no financiamento de estruturas e serviços que lhes facilitassem a vida. Ao diabo com as escolas, com o fundo florestal, com os doentes e outros deserdados da vida moderna. A partir de agora seria assim: pagou, desfrutou. E mais nada.
Disparatado, não é? Mas não mais do que este súbito fervor justiceiro contra o tal “utilizador”; a seguirmos por aí, no limite, cada um poderá vir a exigir que os seus impostos sirvam unicamente para melhorar a sua vidinha.

PS: Já uma vez solicitei que me isentassem de pagar impostos destinados a financiar as incontáveis obras públicas da Madeira, sempre levadas a cabo por amigalhaços do Alberto João. Até à data, ainda não deram provimento à minha justa pretensão.

Ápice

Imaginem que, sem aviso, vos acontece algo que acende um candeeiro inesperado sobre um canto escuro da existência. Só por um segundo. Vocês piscam, assombrados pela luz e pela breve visão. E lembram-se de já terem imaginado, talvez enquanto crianças, que o mundo poderia incluir aqueles quartos secretos, resistentes às plantas mais precisas e fiáveis.
Horas depois, esse pequeno mas inegável episódio ainda anda a berrar, lá do fundo da memória, que talvez, afinal, haja mesmo mais coisas entre o céu e a terra. Mas de que adianta ficar a matutar, se amanhã, ou depois de amanhã, a anomalia já vai estar armazenada na arrecadação da tralha inexplicável e por isso inútil, na gaveta das aberrações que por certo a estatística esclareceria?
E para quê escrever sobre o indizível, se vos falta o golpe de asa para as palavras certas?

Garantem-me que não, mas às vezes ter Fé deve dar imenso jeito. E paz de espírito.

Pequenos Sísifos

Quando miro, ao fim da noite, todo o labor diurno dos Riapas, sinto-me quase como quando reparo num heróico e persistente escaravelho que me tenha rastejado pela casa adentro, rebolando o seu tesouro de cocó. O bicho, mais a sua carga repugnante, tem mesmo de ser removido. Mas até faz pena. Carregar tanta merda, ou acumular tanto comentário merdoso, só pode ser tarefa árdua, ainda que incompreensível.
Deve ser um esforço insano, juntar e guardar bolas de excrementos, todo o santo dia… quase me sinto mal a estragar-lhes essa dura labuta, apenas com um golpe de rato. Ou de vassoura.

Foucault e os fundamentalistas

“O Acidental” vem lembrar-nos que Foucault cometeu o erro de apoiar a revolução iraniana. Com efeito, em 1978 ele escreveu, como correspondente do Corriere della Sera, artigos em que dava conta do seu entusiasmo com a subida ao poder de Khomeini. Manifestando a sua fé total nas garantias do clero triunfante no que tocava aos direitos das minorias e das mulheres. Asneira.
Henrique Raposo, depois de esclarecer a situação de Foucault como “guru de Negri”, não resiste a uma semi-generalização já banal: “talvez seja por isso que muitos ficaram satisfeitos com o 9/11”. Esquece-se é de reconhecer que o autor da “História da Sexualidade” esteve sozinho naquela sua posição. E que um historiador marxista como Maxime Rodinson não teve então problemas em discordar publicamente dele, afirmando que o Irão se encaminhava para um “fascismo semi-arcaico”.
Mas, mesmo no engano, Foucault foi presciente em alguns aspectos. Escreveu ele: “o movimento islâmico pode pegar fogo a toda a região, derrubar os regimes mais instáveis e perturbar os mais sólidos. O Islão — que não é simplesmente uma religião, mas sim toda uma forma de vida, uma aderência a uma história e uma civilização — tem boas hipóteses de se tornar num gigantesco barril de pólvora, ao nível de centenas de milhões de homens” (mais sobre este affaire aqui).
Tomara que muitos do que ainda há pouco se equivocaram no apoio à invasão do Iraque tivessem acertado em qualquer coisa. Ou ao menos que já tivessem tido a honestidade de reconhecer o erro.

Zé Povinho: o mau da fita?

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O Fernando Venâncio chamou-nos há pouco a atenção para um texto de João Camilo onde se ressuscita uma polémica antiga e sem desenlace à vista.
“O filósofo José Gil há tempos, Eduardo Prado Coelho recentemente, encontraram o culpado de todos os males portugueses: sem surpresa, o culpado é o português”, arranca ele, para depois analisar um outro dado conhecido: o excelente desempenho laboral dos nosssos emigrantes, “pelo menos iguais no talento, nos empreendimentos, no sentido das responsabilidades e no carácter” aos naturais dos seus países de adopção. “Conclusão: os nossos políticos, os nossos intelectuais ou educadores, as nossas instituições são de facto responsáveis pela situação em que vivemos e temos vivido.”
Eis um excelente argumento. Tome-se como exemplo o Luxemburgo, cuja força laboral inclui 14% de portugueses. Trata-se de um dos países com maior produtividade e maior PNB per capita de todo o mundo. Que milagre se opera nestas almas lusas mal chegam ao Luxemburgo? Se calhar, coisa pouca. Soubémos, aquando da recente visita de Jorge Sampaio àquele país, que a “nossa” comunidade ali se destaca das outras pelo fortíssimo insucesso escolar. Será que, como sugere o Fernando, o português é mais adepto do uso dos músculos e menos empenhado em exercícios do pensamento?
Uma das poucas explicações razoáveis para o nosso embrutecido atraso remete para a bondade do nosso clima. A tese é simples: países com meteorologia mais inclemente criam personalidades e instituições habituadas a lutar contra a adversidade. Ao invés, climas amenos apenas encorajam a preguiça, a irresponsabilidade e a acédia. Mas não me parece que a Califórnia — apenas para referir a que seria a 6ª maior economia mundial, caso fosse independente — sofra de tais maleitas…
Não é problema fácil. Mas deve ter algures uma solução iluminadora. Só espero que esta não tenha nada a ver com a Teoria da Evolução, decretando que a nossa nação é simplesmente uma experiência evolutiva falhada, a que deveria ser dado (e bem depressa, para encurtar o sofrimento dos nativos) um golpe de misericórdia.

Cuidado com o Natal!

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Em Santiago do Cacém, foi hoje preso um assaltante que usava uma técnica no mínimo original. Ele estava disfarçado de Pai Natal; mas não de um Pai Natal comum, em carne, osso e barbas. O meliante conseguiu, durante horas, passar por um daqueles bonecos em tamanho humano que agora todos pregam às suas paredes e nas chaminés. Sempre que via a rua desimpedida, o inventivo ladrão subia mais um pouco, até alcançar uma varanda. Quando passavam transeuntes, imobilizava-se na melhor tradição dos homens-estátuas.
Este esquema genial só falhou porque uma patrulha da GNR não se deixou convencer pela quietude da festiva figura com um televisor já meio enfiado no seu carro. A perseguição que se seguiu terminou apenas quando os soldados chegaram a um consenso entre si: não é pecado disparar sobre os pneus do Pai Natal. Ao ser por fim caçado, já ele tinha a mala cheio de electrodomésticos de porte médio, artigos de ourivesaria e whiskies de boa marca.
Ainda mais estranho que o modus operandi empregue foi a reacção de uma testemunha, que nem depois de observar de sua casa uma escalada de meia-hora deste falso adereço natalício achou aquilo estranho: “pensei que era uma modernice dos vizinhos. Eles têm sempre a mania que são mais que os outros… se calhar, tinham comprado um Pai Natal automático”.
Já sabem: se virem um deste bonecos agarrado à parede do vosso prédio, tranquem as portas. E não se esqueçam de avisar os vossos amigos.

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Está encontrado o Kim-Jong-Il português!

“Na sua mais incisiva prestação televisiva, Cavaco acabou também por ser, ontem à noite, uma verdadeira «esfinge». Prodigiosa e imperturbável, como deve ser a Democracia.”
Segundo a propaganda da Coreia do Norte, a chegada do seu Grande Homem a este mundo fez-se acompanhar do nascimento de uma nova estrela; aqui, o Sagrado Líder é apresentado como uma prodigosa esfinge, personificação perfeita da Democracia, nem mais.

Rescaldo

Na SIC-Notícias, a inenarrável editora de política da estação e o seráfico Nuno Rogeiro analisam o debate. Resumo da coisa: elogios e mais elogios à «inteligência» de Cavaco, por se ter recusado a responder aos reptos e argumentos de Louçã. Referências às gaffes e inconsistências do candidato da direita: nenhuma.
Ou eu estou louco, ou eles estão cegos e surdos, ou simplesmente não assistimos ao mesmo debate.