Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

O momento zen

Perto do fim, as mãos de Cavaco, visivelmente acossado, começaram a tremer. E os papéis que tinha sobre a mesa, até então impecavelmente alinhados e muito quietos, ameaçaram levantar voo. Num candidato tão mecânico, tão previsível, tão pré-programado, foi quase comovente ver uma centelha de humanidade naquelas folhas A4 rebeldes.
A esta hora, porém, os assessores cavaquistas já devem ter resolvido a inoportuna falha do sistema.

Algumas breves notas finais sobre o debate desta noite

Se ao intervalo já era possível detectar um claro ascendente de Louçã, que por várias vezes interpelou Cavaco a olhar para ele (assim contornando a rigidez do modelo destes debates e provocando no adversário uma sucessão de fugas atabalhoadas), na segunda parte o domínio acentuou-se. Sem ser excessivamente ríspido, radical ou agressivo (como contra Portas), Louçã foi encostando Cavaco à parede e terminou o debate em crescendo, enquanto o candidato da direita revelava, pela primeira vez nesta pré-campanha, sinais de desorientação e nervosismo.
Depois de todas as protecções, resguardos, filtros mediáticos e silêncios ostensivos, quando finalmente o obrigaram a falar e a dizer o que pensa sobre os temas mais importantes da vida política portuguesa actual (do desemprego ao desempenho do procurador-geral da República, dos défices acumulados ao futuro da Segurança Social, ou mesmo às questões “fracturantes”, como o casamento dos homossexuais e a posição em relação à guerra do Iraque), Cavaco foi vago, impreciso, dúbio e ainda mais redondo, em termos de retórica, do que Jorge Sampaio. Para quem anda a preparar esta candidatura há dez anos, ou perto disso, é pouco. É muito pouco. É surpreendentemente pouco.
Como se isto não bastasse, houve alguns momentos em que Cavaco meteu os pés pelas mãos:

– na discussão sobre o passado económico dos governos que chefiou, ao tentar omitir as suas responsabilidades (aliás nunca assumidas) no descalabro em que o país se encontra

– na gaffe, inadmissível num candidato que lidera as sondagens com tanto avanço, de ignorar os estudos sobre a sustentabilidade da Segurança Social, discutidos há pouco tempo na Assembleia da República

– no patético exemplo que deu quando se discutia o problema da imigração, ao imaginar um cenário em que os imigrantes entrariam em tal catadupa que ultrapassariam o número dos cidadãos nascidos em Portugal («o momento de humor do debate», como logo comentou Francisco Louçã)

– e na forma como tentou explicar que esteve contra o modo como os americanos lidaram com a questão iraquiana, então defendida com unhas e dentes pelo seu delfim Durão Barroso, embora na prática nunca tenha assumido uma posição clara a esse respeito. Quando Louçã lhe atirou à cara que os grandes políticos vêem-se no modo como se comportam nos grandes momentos históricos, ficou-se. E depois, a fechar o debate, limitou-se a exibir um sorriso forçado e uma nota de optimismo bacoco, namorando pela enésima vez os jovens, os jovens, os jovens, ao melhor estilo IPJ.

Placard final (à la Luís Delgado): Louçã – 4; Cavaco – 0.

No intervalo do debate Louçã-Cavaco

Alguém devia explicar ao Prof. Cavaco Silva, conhecido por não perceber de literatura mas ser muito bom em números, que mil milhões só é um bilião nos Estados Unidos. Em Portugal, mil milhões são mil milhões. E é de Portugal que ele quer ser presidente.
Quanto ao debate, é bom constatar que nem todos os candidatos se ajoelham perante o putativo futuro inquilino do Palácio de Belém. Ao contrário de Alegre, Louçã tem atacado o seu adversário de todos os ângulos possíveis, desmontando o mito da prosperidade cavaquista, e está a vencer folgadamente um debate centrado (o que não deixa de ser irónico) naquele que é o ponto forte de Cavaco: a Economia.

Os Bichos Carpinteiros roeram as janelas aos comentários

Com uma tocante declaração de repúdio aos insultos (realmente atrozes) que se andavam a disseminar pelas suas caixas de comentários, os soaristíssimos Bichos Carpinteiros lá encerraram as ditas cujas. Espero é que tal não fique associado ao desagradável episódio em que Joana Amaral Dias acusou, apoiada numa manchete do “24 Horas”, a sua homóloga cavaquista de mentir ao apresentar o seu currículo. É que logo surgiram comentadores a inventar que a Joana também já se deixara anunciar como “professora universitária” quando apenas é assistente, e num Instituto dirigido pelo pai, o único e inconfundível Carlos Amaral Dias.
Tricas rasteiras à parte, feio mesmo é que a ex-deputada do BE continue a espalhar pelo DN colunas deste quilate sem voltar a avisar das suas funções na campanha de Soares. Ainda fica alguém a acreditar que tantos ataques a Alegre e a Cavaco são objectivos e desinteressados…

Soares, a idade e o tabu (2)

Margarida Marante faz parte do interminável rol de celebridades actuais e de has beens que saltaram para o comboio de uma candidatura presidencial; integra a Comissão de Honra de Soares. Mas tal não parece bastante para a impedir de entrevistar os candidatos, na TSF. Atirando-lhes à cara, sem qualquer rebuço, frases destas: “Acho indecente, vergonhoso, que se utilize a idade do Dr. Mário Soares para o denegrir. Não acha o mesmo? Vai usar esse argumento?” Não sei o que o pobre Jerónimo Sousa respondeu. Mas sei bem com que força reforcei a péssima ideia que já tinha desta “jornalista”. Afinal, o tal tabu também é alimentado às claras.

PS: diz-me uma das minhas fontes do post anterior que não houve “reprimenda”; apenas dúvidas e inquietações do próprio e dos colegas. Fica anotado o meu exagero. Mas mantém-se o fundamental.

Só para irritar um pouco os fãs incondicionais dos EUA

Aqui fica o discurso de aceitação do Nobel da Literatura. De Harold Pinter, claro está. Quem mais se lembraria de falar assim à augusta Academia? “Direct invasion of a sovereign state has never in fact been America’s favoured method. In the main, it has preferred what it has described as ‘low intensity conflict’. Low intensity conflict means that thousands of people die but slower than if you dropped a bomb on them in one fell swoop. It means that you infect the heart of the country, that you establish a malignant growth and watch the gangrene bloom. When the populace has been subdued – or beaten to death – the same thing – and your own friends, the military and the great corporations, sit comfortably in power, you go before the camera and say that democracy has prevailed”.
Mas não é só de política que Pinter fala. Vão lá ler que vale a pena.

Soares, a idade e o tabu

Há em torno destas presidenciais um interdito absoluto: a idade de Mário Soares. Qualquer alma incauta que vagueie pela zona proibida adentro está logo sujeita a ser apelidada de “canalha”, “crápula” e coisas ainda bem piores. Quem quer que escreva uma linha sobre a campanha sabe bem qual a zona do mapa onde o mundo acaba e começa a barbárie. Temos todos de fazer de conta que não existe qualquer diferença etária entre candidatos. Pior: temos todos de ignorar qualquer atitude (ou deslize) de Soares que possa ser ligada à sua idade.
Exagero? Olhem que não: o tabu já infectou há muito os jornalistas que cobrem a campanha. Muitos sentem-se sobre brasas cada vez que relatam o dia-a-dia da caravana eleitoral soarista. O decreto não-dito e não-escrito é, mesmo assim, cristalino: nada de alusões, referências ou insinuações que possam ser lidas como estando apontadas à idade de Soares. Exemplo? Ao que me contaram, um jornalista que comparou o entusiasmo de crianças em torno do candidato com o que demonstrariam se fossem visitadas pelo Pai Natal foi logo alvo de uma reprimenda da sua hierarquia.
Assim, de gentil preocupação politicamente correcta, o tabu passou a auto-censura. Ninguém se arrisca a fazer eco de gaffes de Mário Soares. Quando ele há pouco explicava a alunos universitários a sua luta por essa Europa fora, em prol do “Não” ao projecto de constituição europeia, foi corrigido por um insistente coro de “Sins” da assistência. Um deslize inofensivo que tem alguma graça, como teve o de Valentim Loureiro há uns anos, quando desatou a berrar por Guterres num comício do PSD. Mas todos vimos imagens deste último episódio; do primeiro ninguém ouviu sequer falar.
De repente, o que parecia uma demanda de um decoro mínimo, começa a interpor-se como um ecrã translúcido entre os eleitores e as cenas da campanha. Esta louvável e doce intenção não clarifica, antes obscurece e enubla. Temos agora mais um mediador entre os espectadores e a “realidade” política: o pudor dos jornalistas.

Mas será esta uma estratégia viável? Ou arrisca-se, como grande parte das estratégias impensadas, a disparar pela culatra? José Gil apontou o inesperado peso que uma ausência pode transportar consigo. E a idade de Soares é o grande não-tema, o omnipresente mas invisível fantasma de toda a campanha presidencial. Se o filósofo tem razão, a sua invisibilidade não lhe vai tirar importância e premência. Antes pelo contrário.

Continuar a lerSoares, a idade e o tabu

Cineterapia

126703.jpg
The Sun Shines Bright_John Ford

É um filme que mereceu, à data em que escrevo, seis comentários no IMDB. Se cruzarmos esse epifenómeno com a informação de estarmos perante o filme preferido de John Ford, percebemos que uma parte fundamental da História do cinema repousa esquecida nesta hora e meia de pretos e brancos.

Tinha 120 filmes de idade. 59 anos de casmurrice e insolência. Tratava mal todo e qualquer que deixasse entrar na sua intimidade. E por isso cuidava deles. Orson Welles declarava-se discípulo. Truffaut e Godard ainda só rabiscavam em cadernos. Onde grafavam a palavra “auteur”. O mundo vivia a única década feliz do século XX. Hollywood preparava-se para fechar a fábrica de estrelas. E Ford fez um fracasso comercial que não tem ponta por onde se lhe pegue, por ser um todo indivisível. Estamos em 1953.

O que é uma pessoa? É aquele agregado molecular que sobrepõe a comunidade à lei, que escolhe o ideal em vez da comunidade, que elege o sentimento em prejuízo do ideal. É inevitavelmente um ser paradoxal, cadinho de contradições, aberração da lógica binária. Porque a vida não é lógica, nem sensata, nem piedosa. A vida é uma merda, e são as pessoas que a limpam.

Este filme ensina-nos a nunca confiar na palavra de um cão. Só por isso, estava justificada a invenção do cinema.

Isto já parece a TVI

São mais os intervalos para publicidade do que a programação propriamente dita. Agora, sou eu a deixar aqui um pequeno anúncio: hoje, a partir das 18:30, a minha micro-editora vai levar a cabo um distinto lançamento na Tv. da Praia, n.º1, Lisboa.
O livro a entregar aos apetites do mercado é, de acordo com o inspirado paleio da contra-capa, “uma viagem de descoberta, por um País que resiste e renasce através de produtos únicos: industriais por vezes, artesanais noutros casos, todos nascidos de uma forte ligação à Natureza. Do Licor de Poejo ao Arroz, do Linho ao Mel.
Em 12 capítulos iluminados pelas magistrais fotografias de Rui Vasco, Paulo Caetano traça-nos a História e as mil histórias por detrás de cada tradição, de cada processo arcaico. Desvendando um outro Portugal, arredado dos media mas pujante e surpreendente; onde o passado é também fonte de renovação. Provando que se pode conciliar modernidade e consciência. Que se pode continuar a ser português num mundo global.”
Pronto: se lá aparecerem, conhecem os autores, bebem um belo vinho e ainda provam os queijos da Serra que agora tenho aqui à minha frente a empestar o escritório…