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extra_o meu mandato

Votei Alegre, como poderia ter votado Louçã ou Jerónimo – mas nunca Cavaco ou Soares. Votei Alegre, apenas para bater Soares – mas talvez Alegre viesse a derrotar Cavaco numa 2ª volta, como os números permitem supor. Votei Alegre, só para não votar em branco – mas votaria em Freitas do Amaral, Adriano Moreira, Helena Roseta, Pacheco Pereira, António Barreto, Vasco Pulido Valente, João Benard da Costa, Agustina Bessa Luís e Manuel João Vieira.

A pecha da república consiste em não se ter ainda assimilado que está em causa ter sucessivas, limitadas e sufragadas monarquias. A vantagem da monarquia está em transubstanciar a política em identidade. Os que insistem com a dicotomia Esquerda/Direita esquecem que o poder é sempre um eixo vertical.

Então, o Cavaco é agora o meu Presidente. Não o escolhi, fui escolhido pelos meus conterrâneos para o ter na presidência do meu país. Os meus conterrâneos, concidadãos maiores de idade e na posse das faculdades mentais mínimas para exercerem o direito de voto, votaram em mim para um mandato de 5 anos como súbdito do Presidente Cavaco. Aceito a vontade popular e espero cumprir o meu mandato com dignidade.

Bravo!

Trinta e um anos depois, com a esquerda dividida em cinco candidatos e com o seu próprio candidato caladinho que nem um rato, a direita lá ganhou umas presidenciais. Agora só precisam de desembalsamar o homem antes da cerimónia de posse.

RUI TAVARES

Uma vitória é uma vitória é uma vitória

O triunfo de Cavaco não se discute. Entra em Belém à primeira volta e com a direita às costas (uma coisa nunca vista), enquanto a esquerda perde em toda a linha e por culpa própria (uma coisa vista demais).
Convém, no entanto, sublinhar o óbvio: vencer com 50,6% não é a mesma coisa que ganhar com 56%. Na primeira quinta-feira de “cooperação estratégica”, José Sócrates recordará decerto ao novo Presidente esta evidência.

Em resumo

Como previsto, Cavaco ganhou mesmo à primeira volta. Mas nem assim deixa de ser uma nulidade política, incapaz de começar um discurso de vitória sem falar nas “lições de civismo” que damos não sei bem a quem (estaria à espera de tiros ou coisa que o valha?). Alegre provou o que queria: o PS fez a escolha errada. Soares afundou-se.
Francisco Louçã e Jerónimo conseguiram aguentar-se, ganhando algumas (poucas) dezenas de milhares de votos face às últimas votações nacionais dos seus partidos.
Duas alegrias pessoais: Alegre venceu claramente o antigo “pai da pátria” e Cavaco não logrou a hiper-validação do seu mandato que me deu maus sonhos durante três meses; desse fado, lá nos salvámos.
Enfim; podia ser pior. Mas não muito.

PS: Podia ser pior, podia. Talvez por ter a visão enublada por lágrimas irreprimíveis, tresli os números da CNE. Louçã desceu e muito.

A primeira volta do resto das nossas vidas

Até há uns minutos, continuava indeciso. Indeciso sobre se escreveria qualquer coisa mais sobre as eleições, claro está. Mas, depois de ver a malta do costume aos berros por uma vitória “à primeira” do seu candidato (sugerindo um discreto desespero: se não for à primeira volta, quem sabe o que poderá acontecer?) porque não poderia eu falar do meu voto?
Até podia lá ter chegado por eliminação de hipóteses. Não iria por certo votar num ancião amargo com a ingratidão do mundo. Nem noutro que tem como grande ideal de tranformação enchê-lo com resmas de estátuas a eternizar a sua figura lírica e corajosa.
Fora de cogitação ficou logo o ecrã em branco onde foram projectadas vagas e desfocadas legendas — mas em letras de tamanho impressionante — a berrar “competência”, “seriedade” e “experiência”, para alegria de uma plateia que fingia apreciar a profundidade da obra enquanto esfregava as mãos apenas por se sentir na iminência de “lá ter” um dos seus. Um candidato que nos foi vendido como sendo de “valores” e “personalidade”, mas que à primeira curva apertada da campanha mentiu, negou palavras suas e ainda atribuiu a culpa a inexistentes mentiras dos seus adversários.
O candidato que se assume como mera emanação de uma máquina partidária — despótica, divorciada do mundo e retrógrada, aliás — também só se arrisca a convencer os convertidos.
O candidato que sobra, ainda por cima, parece-me o único a merecer a eleição: pelo intelecto, pela personalidade, pela energia, pelo pensamento: informado, pragmático e idealista. E, acima de tudo, por ter o futuro pela frente. O seu partido não é certamente perfeito; até pode nem ser ainda uma organização homogénea e estável. Mas é um embrião de qualquer coisa que promete vir, nem que seja só no tempo dos meus filhos, a protagonizar novas ideias, novos sonhos, novas formas de fazer política.
É que a divisa de Aron que estes senhores adoptaram como lema — “Il faut gagner en politique, ou bien il ne faut pas en faire” — não me parece fazer qualquer sentido nas presentes circunstâncias (e quero ver com que cara estarão eles daqui a uns minutos…). Perderei hoje de certeza. Mas a história não acaba aqui.

Notícias dos dias que estão mesmo a chegar

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A BlackBerry, famosa pelos seus terminais móveis de e-mail, acaba de lançar um revolucionário leitor de e-books, capaz de bibliotropismo: o BookBerry. À primeira vista, o aparelho não tem nada de espantoso. Mas promete revolucionar a forma como nos relacionamos com a Literatura.
Baseando-se em inquéritos que são actualizados semanalmente pelo utilizador de cada BookBerry, e também no conteúdo das mensagens que ele recebe e emite, o dispositivo trata de introduzir nos textos pequenas mas úteis alterações. O vocabulário e mesmo a estrutura de cada obra é adaptada ao gosto e à literacia do usuário: maior ou menor variação lexical, vocábulos mais ou menos longos, enredo de complexidade variável, etc. No limite, até o género de cada obra pode ser adaptado. Na experiência feita, ao vivo, no lançamento do BookBerry, “O Monte dos Vendavais” foi transformado num drama homoerótico e “A Cartuxa de Parma” passou a uma intrincada Space Opera. Tudo de forma 100% user-friendly e sem prejudicar a legibilidade ou a fluidez da prosa (a Poesia está, até ver, fora das capacidades do sistema).
Por enquanto, a tecnologia inclui um bloqueio que restringe a sua acção a obras no domínio público. Mas é sabido que a BlackBerry está em negociações com alguns colossos editoriais para que nomes contemporâneos também possam beneficiar desta tecnologia espantosa. Quando chegar a Portugal, que maravilhas irá ela fazer pelos tomos de Saramago ou de Agustina, por exemplo?

Sem emoções para os espanhóis

El País, 21.01.2006

“La larga campaña electoral (portuguesa) no ha sido nada vibrante, aunque tenía todos los ingredientes para serlo, ya que se enfrentaban dos de los pesos pesados de la política portuguesa de los últimos 30 años, Aníbal Cavaco Silva y Mario Soares. Los secundarios también eran interesantes, el representante del partido de izquierdas que más subió en las últimas legislativas, Francisco Loua (???); el secretario general del Partido Comunista que mejor resiste al paso del tiempo en la Unión Europea, Jerónimo de Sousa, y uno de los políticos más carismáticos de la historia de la democracia en Portugal, el poeta Manuel Alegre, que no cuenta con el apoyo de su partido.”

Mais uma vedeta internacional

Depois do mercado espanhol, fomos até à Holanda buscar nova estrela. Fernando Venâncio passa a exibir os seus exímios dotes literários no Aspirina B, para nosso deleite e aprendizagem. Já lho disse pessoalmente, mas anuncio-o ao mundo: lê-lo faz-me bem.

Fernando, estás em casa.