Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Os mistérios de Luciano Amaral

Não sei se é da altura do ano, se é qualquer coisa no DN, talvez pós estranhos no ar condicionado. Depois do espampanantes delírios de César das Neves, vemos agora Luciano Amaral declarar a sua beatitude natalícia.
Aqui segue a competente amostra para vos aguçar o apetite: “mesmo na Europa adivinha-se uma porta de regresso que (pelo que vai dizendo) Bento XVI parece querer explorar. É que a inverosimilhança da história de Cristo pouco fica a dever a certas inverosimilhanças opostas. Quem recusa militantemente a existência de Deus, fá-lo por fé. Não porque, de acordo com os critérios de veracidade de que se reivindica, tenha demonstrado que Deus não existe ou que é falsa a sua materialização em Jesus.”
Assim, para que um ateu possa ser visto como mais razoável do que uma pessoa religiosa, tem de tentar provar a não-existência de Deus, da Grande Abóbora, ou seja lá do que for. Passagens destas fazem-me recordar a graçola de Ambrose Bierce: “a fé é crer sem provas no que nos é dito por alguém que fala sem conhecimento de coisas sem paralelo.”
E já se está a ver onde vai desaguar o sermão: “o ateu ocidental, sem o saber, herdou do cristão a noção de salvação e de fim da História (o ‘Reino de Deus’). Mas incapaz da fé em Deus transfere-a para ídolos, como a ciência, a economia ou a política.” ; “Daqui nasce a crendice. É no Ocidente super-racionalista que assistimos a uma verdadeira explosão das mais folclóricas superstições, desde a astrologia à psicanálise. Não surpreenderá, por exemplo, vermos um físico nuclear acreditar na reencarnação ou no poder das actividades mediúnicas.”
Muita atenção, gentes sem fé: a psicanálise é uma superstição (não apenas a impostura científica que aparenta ser); a reencarnação é folclore e um físico nuclear que acredite nela só pode ser maluco, mesmo que seja hindu ou que se chame Subrahmanyan Chandrasekhar ou Jagadish Chandra Bose.

Por mais Natais que passem, não há forma desta malta comprar um disco novo. A crença deles é que está obviamente certa; quem acredita em coisas que lhes parecem estranhas, como a reencarnação ou a comunicação com mortos (que até podem voltar a este mundo, garante-nos a Bíblia) é adepto de superstições grotescas e risíveis.
A novidade deprimente desta crónica é que até os poucos que vão conseguindo manter a alma livre de semelhantes tralhas, os ateus, são agora acusados de acalentarem, por invisível herança e “sem o saberem”, essa tal “Fé”.
Irra.

Mistérios avulso

Conta-nos o DN que foi detectado “material cancerígeno” no Palácio da Justiça. Mas a notícia não explica se tal descoberta coincidiu com uma visita de Souto Moura.
Em simultâneo, a sede do PND foi vítima de um misterioso assalto, em que só foi roubado um monitor de computador, pormenor “curioso”, nas palavras de um dirigente do patusco partido, pois havia por ali “dinheiro” e outros bens. Terão os assaltantes fugido em pânico, ao deparar com os muitos retratos de Manuel Monteiro que por certo guarnecem o interior da sua agremiação?

O Insurgente e o seu Guru

O Insurgente acaba de descobrir o seu Grande Educador nos domínios sempre traiçoeiros da Política Internacional: Ribeiro e Castro.
Aparentemente, este “considerou ontem ‘preocupante’ que haja jovens que têm como ícone Che Guevara, ‘um dos grandes assassinos do final do século XX’. O líder do CDS defendeu que ‘é importante que a esquerda se saiba libertar dessas suas referências tremendas de violência, crueldade e intolerância’.”
É claro que o bom Ernesto não foi o anjinho que a hagiografia oficial pinta. Mas, assim de repente, parece-me que talvez fosse mais importante e relevante para os dias que correm reconhecer erros recentes e ainda emendáveis. Coisas como apoiar uma invasão que nos foi “vendida” com argumentos falsificados e que já causou a morte a milhares e milhares de inocentes. Mas talvez só no século seguinte ao dos acontecimentos sábios do calibre de um Ribeiro e Castro consigam mesmo abrir os olhos.
Atenção, que ainda há mais sabedoria a derramar-se deste crânio privilegiado. Ele tem a Grande Teoria para explicar “o terrorismo contemporâneo”. Preparem-se: esse flagelo “tem origem numa deriva totalitária do pensamento marxista-leninista” e isso “tem que estar presente no consenso do combate ao terrorismo”.
Quem andava convencido de que Osama foi treinado e armado por uma certa super-potência, na altura cheia de vontade de incomodar a outra, está a leste. Quem alimentava delírios sobre fortunas sauditas (mais malta de esquerda, suponho) a financiar redes de terroristas islâmicos faria melhor em acordar para a realidade: os terroristas de hoje são sim fãs de Marx e Lenin.
Mas, pensando bem, professar admiração por esta espécie de “pensamento” fica bem a um blogue que ainda há pouco denunciou a condição de milionário de Fidel Castro. Citando um resumo de um artigo mas esquecendo-se (ai, estas cabeças…) de ler como é que a isenta Forbes calculou a suposta fortuna do ditador cubano: “In the past, we have relied on a percentage of Cuba’s gross domestic product to estimate Fidel Castro’s fortune (coisa bem científica, portanto). This year we have used more traditional valuation methods, comparing state-owned assets Castro is assumed to control with comparable publicly traded companies.” Pois. Aquele delicioso e mui rigoroso “is assumed” diz tudo; menos, claro está, a quem nada quer ouvir.

A equidistância, essa arisca virtude

Por uma vez, consegui assistir a um debate em que não nutria mais ou menos simpatia por um dos candidatos. Vejo sim com tristeza que a escolha para nosso próximo presidente se resuma a estas figuras: Cavaco e Soares. Ontem, não encontrei no primeiro qualquer qualidade que o recomende para o cargo; no segundo vi combatividade mas pouca ponderação e nula elegância.
No Pulo-do-Lobo bem que se esforçam por esconder a fraca imagem que o seu candidato deixou: defensivo, banal, sem chama. Mas há sempre formas originais de enfiar a cabeça na areia quando é preciso.
Dos Super-Mários, apenas o lúcido Vital Moreira destoa da euforia geral (embora escolha o Causa Nossa para a dissidência), relembrando um dos péssimos deslizes de Soares, a propósito do que se dizia de Cavaco por essa Europa fora. E tem razão em fazê-lo: a má educação pode parecer coisa pouca no reino da dura política, mas muitas vezes é nestes pequenos nadas que se ancoram os juízos definitivos.

Belas artes para feios tempos (6)

A nova arte chinesa é inconfundível. Partindo de uma posição exterior a qualquer campo artístico familiar, esmera-se no que por vezes aparenta ser uma busca incessante do inusitado, do chocante, do repugnante. Por isso, até há bem poucos anos artistas como Sun Yuan e Pen Yu eram vistos pelas autoridades chinesas como lixo incómodo a fechar a sete chaves no armário do underground. Mas também aqui a atracção do mercado foi irresistível: quando a cotação de alguns destes proscritos subiu em flecha no Ocidente, não tardou até que muitos deles se vissem promovidos a artistas oficiais.
A peça aqui ilustrada, Soul Killing, de 2000, é um exemplo extremo do incómodo quase físico que muitas obras chinesas contemporâneas conseguem causar. O seu elemento central é um cão, que foi esfolado e desprovido da parte superior do seu crânio. Exposto ao calor brutal de um projector de cinema, o cérebro do animal vai sendo cozinhado face aos espectadores, que têm de suportar um odor intenso para poder admirar a obra. Trata-se de uma óbvia crítica à nossa sociedade do espectáculo, onde todos se sujeitam às leis da exposição mediática por interesse ou mero exibicionismo. Mesmo que o processo frite os seus miolos ou acabe por “matar” as suas almas.
Sun Yuan e Pen Yu são autores de obras ainda mais radicais, como “Link of Body” onde são usados fetos humanos. Aliás, um outro artista chinês, Zhu Yu, originou um mito urbano que correu mundo sob a forma de emails a denunciar a prática de canibalismo em restaurantes de Taiwan; uma sua performance em que comia um feto abortado causou choque por todo o lado e justificou mesmo uma nota do governo de Taiwan…
Temas como o corpo enquanto local de transcendência e abjecção, a fugacidade das coisas humanas e também uma estranha fixação com a comida, frequente em artistas como Chen Wenbo, são alguns dos traços genéticos deste novo produto de exportação chinês. Estranhos gostos a pedir estômagos fortes.

Diálogos presidenciais

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– Você não é um homem dialogante.
– Eu sou uma pessoa que toda a gente diz que é de palavra.
– Você não é simpático: todos os meus amigos europeus o dizem.
– Já li muitas memórias de líderes, em que eles escrevem que eu sou o máximo.
– Você só sabe de aritmética.
– Eu tenho um sinal que, a uma determinada luz, me dá muito charme.
– Você recusa-se a falar do futuro.
– Você só quer falar do passado.

O fatal minuto final

Na declaração com que Cavaco Silva fechou o debate desta noite, dirigida aos eleitores indecisos, aconteceu um daqueles lapsos que nem a mais bem oleada campanha consegue evitar. De repente, Cavaco saiu-se com qualquer coisa como isto: «dirijo-me aos portugueses que ainda não decidiram votar em mim, provavelmente por terem a sua vida organizada e não se preocuparem com o futuro» — ideia reforçada, mais à frente, com o apelo para que esses eleitores ainda-não-convencidos-a-votar-em-Cavaco pensem nos filhos e no futuro desses filhos. Por uma vez, a essência do pensamento cavaquista, sempre tão blindado e escondido atrás de frases feitas, veio à superfície com uma nitidez assustadora. Os outros, os que não pensam votar nele, os que não viram a luz que o há-de conduzir a Belém, estão confortavelmente instalados na vida (presume-se) e não querem saber do futuro do país e da prole. Extraordinário.
Vindo de quem antevê o cenário de uma invasão de pelo menos dez milhões de imigrantes ou de quem considera que duas pessoas sérias e informadas têm que ter a mesma opinião sobre um mesmo assunto, a atoarda não espanta. Mas deve servir de reflexão justamente aos indecisos que Cavaco, desta forma canhestra, pretendia convencer.

O último debate*

Aconteceu o que se previa: Soares ao ataque, por vezes devastador, com a brutalidade e o desprendimento de quem não tem nada a perder; Cavaco à defesa, titubeante, nervosíssimo, a pedir aos jornalistas, com os olhos, o fim daquele martírio. Soares seguiu a estratégia do boxeur sabido, acumulando golpes e mais golpes nos pontos sensíveis do adversário. Foi para estúdio com um único objectivo: reduzir Cavaco à sua insignificância política de tecnocrata que governou «em tempo de vacas gordas». E conseguiu. Cavaco tartamudeou, encolheu-se, deu mostras de fraqueza e aflição. Quando Soares lembrou que a esfera de interesses do outro não vai além da Economia, ao mesmo tempo que o apelidava de economista apenas “razoável”, foi mortal. A partir daí, Cavaco repetiu as mesmas frases uma e outra vez («eu estou aqui para falar do futuro», «o dr. Soares ainda não defendeu as suas ideias», etc) e limitou-se a conter os estragos, sem luta, sem garra, sem capacidade de resistência à adversidade. O seu escudo, adivinha-se na pose e no estilo, é o falso unanimismo e a vantagem nas sondagens. Resta saber como se aguentará esse escudo nos 32 dias que ainda faltam para a verdade das urnas.
Resumindo (como fez o Luis): é evidente que a derrota expressiva de Cavaco, mesmo se apenas num debate televisivo, não deixa de ser recompensadora. Mas confesso que houve momentos em que desviei o olhar do ecrã. Não gosto, nunca gostei, de assistir a vitórias por KO.

* Último debate até 22 de Janeiro (porque é evidente que Cavaco não vai querer desgastar-se mais do que já se desgastou). Mas na segunda volta, para mal dos pecados dele, a estória vai ser outra.

Lá me enganei…

Por muito que me desagrade Mário Soares (e sobretudo a sua peculiar visão da ética política) há que dar o braço a torcer. O homem deu um banho a Cavaco Silva. Este, às tantas, só se refugiava em tíbias recomendações de leitura do que sobre ele se escreveu, ou de algo que Delors sobre ele disse, sei lá; quase fazia pena, sobretudo depois de Soares ter lançado o remoque “o senhor fala da sua autobiografia como se fosse a Bíblia”.
Mas Soares esteve, para usar uma fórmula de reality shows, “igual a si próprio”, também com tudo o que isso implica de mau, de péssimo. Insinuou que os seus pares europeus viam Cavaco como um homem distante e que “não tem conversa” mas depois recusou-se, para “não ser deselegante”, a revelar ao certo o que se dizia. Perguntou se Cavaco escreveu “sobre as mudanças do mundo”, apenas para acrescentar a patética e gabarolas continuação: “eu escrevi vários volumes” (coisas boas, presume-se).
Depois de muito acicatado, Cavaco lá saiu da concha com uma resposta tremenda: “ai quer que eu fale de globalização? A globalização é uma realidade que está aí.” Minutos passados, o responsável por um terço da governação de Portugal em Democracia teve o desplante de perguntar porque é que a Espanha está a crescer mais do que nós! Nos entrementes, Soares lá ia lançando as suas farpas: “o senhor não lê livros, lê dossiês”, aqui sem dar mostras de perceber que o bom povo também não os lê e olha de soslaio essa malta que anda sempre por aí de livro em punho.

Resumindo: Cavaco Silva é um provinciano de vistas estreitas, um saco de vento cheio de coisa nenhuma, preocupado apenas, como George Bush há uns tempos, em não dar bronca da grossa. Soares é mesmo um velho leão, de unhas rombas mas ainda capaz de dar cabo de um palonço atrevido. Pena é que nada mais tenha a oferecer ao Portugal de 2005 do que alguns garbosos rugidos.
Pobre país que se vê confrontado com semelhante escolha.

PS: a coisa correu de tal forma mal ao economista de Boliqueime que Dias Loureiro, depois de vaguear por alguns minutos, só conseguiu atrever-se a dizer que a “estratégia de Cavaco Silva foi melhor”; não que ele tinha ganho o debate.

Post 2 em 1

Hoje, acordei assim

Constipado, febril, ranhoso, miserável. Nem o ben-u-ron nem generosas doses de Favaios me valem. Ainda por cima, as sondagens continuam assim.

Amanhã, muitos fãs de Soares vão acordar assim

Quando confirmarem que a Cavaco basta permanecer mais ou menos calado sobre temas importantes e resistir às armadilhas do adversário para manter a sua vantagem, amanhã já nem vão andar a exigir mais debates.

Serviço Público: A melhor crónica do grande arquitecto

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(Foto roubada ao “no meu umbigo”)

Esta crónica ao inconfundível estilo Saraiva, foi retirada de um blog infelizmente finado, chamado Umbigo.

Como diria EPC, que em breve esperamos contemplar, os textos do Grande Arquitecto são marcados por uma lógica discursiva desarmante na sua linearidade binária. Para escrever um texto como o Grande Arquitecto, precisa apenas de misturar com água, com muita água, os seguintes ingredientes:
1º – maniqueísmo: contrapor, a golpes de frase curta (e uma frase/um parágrafo), duas realidades, de preferência inesperadas (o locus classicus nesta matéria é a inesquecível crónica de António Pinto Leite no «Semanário» dos anos 80 com o título «Eanes e Stéphanie», ainda hoje analisada, sem sucesso, nas melhores escolas monegascas de ciência política e de jornalismo);
2º – umbigo: tropo literário que se caracteriza pelo uso frequente de expressões do tipo «como já escrevemos nesta coluna…», «há dois meses, dizia…» (= «é triste ter razão antes do tempo» ou «oh, o que custa, rapazes, ser um visionário neste adormecido Portugal!» ou ainda «tenho este ar permanentemente chateado não por causa de ser hirsuto que nem um cacheiro e possuir sobrancelha única, mas porque ninguém dá ouvidos à clarividência dos meus avisos»);
3º – remate – o texto deve terminar com uma frase que dê o ar que se está perante um esmagador tratado de lógica, ou seja, que não se trata de uma opinião pessoal do Grande Arquitecto mas antes de uma conclusão extraída através de processos dedutivos usados nas mais selectas escolas austríacas e inglesas de filosofia analítica. Uma conclusão que, modesto, o Grande Arquitecto se limita a anunciar urbi et orbi.

Um exemplo prático. Exercício nº 1:

Siameses

A semana que passou foi marcada por dois grandes acontecimentos.
Em Singapura, a operação de separação das gémeas iranianas fracassou.
Em Portugal, continuou a falar-se da possível candidatura a Belém de Mário Soares e Cavaco Silva.
Ora, como tenho defendido nesta coluna, considero que Soares e Cavaco são gémeos falsos.
Não são gémeos siameses.
Cavaco é filho de um gasolineiro de Boliqueime.
Soares é filho de um ministro da I República que se converteu em pedagogo e fez um Atlas Geográfico Universal que teve, pelo menos, 23 edições.
Cavaco estudou em Inglaterra.
Soares ensinou em França.
Cavaco gosta de trepar em coqueiros.
Soares gosta de montar tartarugas.
Cavaco é um asceta.
Soares é um sibarita.
Cavaco é um cara-de-pau.
Soares é um cara-de-bolacha.
Cavaco gosta de bolo-rei.
Soares gosta de ser o rei do bolo.
Cavaco escreveu a sua própria biografia (e saiu uma bela merda).
Soares preferiu escrevê-la através de uma idiota útil que meteu perguntas simuladas pelo meio e no final assinou o nome.
Cavaco é magro.
Soares é gordo.
É por isso que, como tenho sustentado nesta coluna, Cavaco Silva e Mário Soares não são irmãos siameses. E, como não são siameses, não precisam de ir a Singapura.
¶ 1:24 AM