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O castelo de Palmela e a felicidade

Uma vez, entrei em casa de uma amiga minha. Já era amiga há uns tempos, mas não lhe conhecia a casa. Era uma zona chique de Lisboa oriental, com vista para o rio, e ela vivia ali há mais de vinte anos. Cheguei-me a uma das janelas e disse, excitado: «Olha o castelo de Palmela». E era um facto: ele recortava-se, nesse fim de tarde, com uma nitidez que feria. A minha amiga veio até à janela, num desassossego: «O castelo de Palmela? Onde?»

Fiquei sem palavras, é bem de ver. A minha amiga, que não é parva, até escreve livros e assim, nunca se tinha perguntado o que pudesse ser aquele acidente, de recorte estranho, na paisagem dos seus dias. Ora, para mim, num segundo, aquilo havia-se tornado numa completa topografia, num discreto GPS a orientar-me o corpo no vasto mundo.

Sou mais feliz eu? É mais feliz ela? Eu sinto-me feliz assim. Tenho a certeza de que ela o era já também. Não entendo nada da felicidade dela. E ela não perceberá jamais o que o castelo de Palmela, a vinte quilómetros, pode fazer feliz.

Isto da felicidade é um mistério.

Encavacado

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(Luís Rainha e João Pedro Costa na cerimónia da Sagração da Primavera do Aspirina)

É formal: encontro-me encavacado. Farto de campanha eleitoral. Para recuperar, estou a livros. Releio com espanto “Os Testamentos Traídos” de Milan Kundera. Este livro, e as obras de George Steiner e de Cioran, têm o efeito hipnótico. O único problema é que me dão a vontade de não escrever. Eu sei que nunca conseguirei que as palavras tenham essa densidade. Nunca as frases parecerão mágicas e reveladoras de um continente perdido. Para quê tentar? Sinto-me como um boi a olhar para um palácio.

A Ciência confirma o óbvio: hoje é o dia mais deprimente do ano

O psicólogo Cliff Arnall, da universidade de Cardiff, provou cientificamente o que já nos parecia uma evidência: o dia 23 de Janeiro vai ficar marcado a vermelho no calendário como o mais abominável do ano. O esforçado cientista usou “uma fórmula elaborada” que levou em conta o mau tempo, as dívidas pós-natalícias, as resoluções de ano novo frustradas e muitas outras variáveis similares. Só se esqueceu de incluir nos seus cálculos a vitória de Aníbal Cavaco Silva; tivesse ele dado a importância devida a este factor infausto e estaria encontrado o dia mais sorumbático da década.

Iatrofobia (1)

Sala de espera de um hospital ferrugento, estreito, inadequado. Espero por alguém que há-de sair de uma pequena cirurgia. Espero agarrado a um livro, tentando desviar os olhos dos coloridos panfletos sobre a psoríase, sobre o herpes labial, sobre um bestiário inteiro de pequenas criaturas letais que por ali devem andar em barda.
Um velhinho, com ar de padre reformado, resolve combater o medo falando. E fala, para o seu acompanhante e para o mundo em geral. Começa por perorar sobre as qualidades imprevisíveis da gravidade noutros planetas. Depois, vem a extinção dos dinossauros, a tectónica de placas, o império romano e a mecânica celeste. O pior, além do tom monocórdico do monólogo, é que o pobre e assustado homem inventa metade do que diz: o meteorito que deu conta da bicharada jurássica causou a cavidade do oceano Atlântico, os continentes trocam de posições várias vezes ao milénio e a Terra cai pelo espaço mais ou menos a metade de C. Estão a nascer ali capítulos inteiros de uma alucinada história natural alternativa, um delírio febril em forma de alocução académica.
Meio acabrunhado, escondo-me num jornal gratuito. E dou de caras com uma coluna de Nuno Júdice em que ele me garante que Colombo encontrou, em vez da almejada Índia, “os Estados Unidos” — sendo depois talvez recebido pelo presidente republicano Trovão da Pradaria.
Parece-me que o mundo inteiro acordou com uma tremenda ressaca e está ainda incapaz de dizer coisa com coisa.

extra_o meu mandato

Votei Alegre, como poderia ter votado Louçã ou Jerónimo – mas nunca Cavaco ou Soares. Votei Alegre, apenas para bater Soares – mas talvez Alegre viesse a derrotar Cavaco numa 2ª volta, como os números permitem supor. Votei Alegre, só para não votar em branco – mas votaria em Freitas do Amaral, Adriano Moreira, Helena Roseta, Pacheco Pereira, António Barreto, Vasco Pulido Valente, João Benard da Costa, Agustina Bessa Luís e Manuel João Vieira.

A pecha da república consiste em não se ter ainda assimilado que está em causa ter sucessivas, limitadas e sufragadas monarquias. A vantagem da monarquia está em transubstanciar a política em identidade. Os que insistem com a dicotomia Esquerda/Direita esquecem que o poder é sempre um eixo vertical.

Então, o Cavaco é agora o meu Presidente. Não o escolhi, fui escolhido pelos meus conterrâneos para o ter na presidência do meu país. Os meus conterrâneos, concidadãos maiores de idade e na posse das faculdades mentais mínimas para exercerem o direito de voto, votaram em mim para um mandato de 5 anos como súbdito do Presidente Cavaco. Aceito a vontade popular e espero cumprir o meu mandato com dignidade.

Bravo!

Trinta e um anos depois, com a esquerda dividida em cinco candidatos e com o seu próprio candidato caladinho que nem um rato, a direita lá ganhou umas presidenciais. Agora só precisam de desembalsamar o homem antes da cerimónia de posse.

RUI TAVARES

Uma vitória é uma vitória é uma vitória

O triunfo de Cavaco não se discute. Entra em Belém à primeira volta e com a direita às costas (uma coisa nunca vista), enquanto a esquerda perde em toda a linha e por culpa própria (uma coisa vista demais).
Convém, no entanto, sublinhar o óbvio: vencer com 50,6% não é a mesma coisa que ganhar com 56%. Na primeira quinta-feira de “cooperação estratégica”, José Sócrates recordará decerto ao novo Presidente esta evidência.