Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Secretarias de Estado para todos, já!

Muito se tem dito e escrito sobre o último faux pas de Cavaco Silva: a ideia de sugerir ao Governo a criação de «uma Secretaria de Estado para fazer a lista de todas as empresas estrangeiras e, de vez em quando, falar com cada uma delas para indagar sobre problemas com que se defrontem». Ao contrário do que se escreveu no Aspirina, e sobretudo aqui, eu até concordo com a proposta cavaquista. E a medida, se querem que vos diga, só peca por defeito.
É que não são só as empresas estrangeiras que precisam de acompanhamento. Assim de repente, acho que se justifica a criação:

– de uma Secretaria de Estado para fazer a lista de todos os futebolistas estrangeiros e, de vez em quando, falar com cada um deles para indagar sobre problemas com que se defrontem [pensem no Liedson; lembrem-se do que aconteceu ao Pinilla]

– de uma Secretaria de Estado para fazer a lista de todas as raparigas estrangeiras que se despem em clubes nocturnos e, de vez em quando, falar com cada uma delas para indagar sobre problemas com que se defrontem [a renda em atraso da Irina; os imbróglios da Marilene, às voltas com a burocracia do SEF]

– de uma Secretaria de Estado para fazer a lista de todos os reformados estrangeiros que vivem no Algarve em resorts de luxo e, de vez em quando, falar com cada um deles para indagar sobre problemas com que se defrontem [a entorse no pulso de Bob, contraída numa cervejaria, a desmanchar lavagantes; a ruptura do stock de Chanel 5 em algumas lojas de Vilamoura]

São as que me ocorrem agora. Mas haverá decerto mais sectores profissionais a precisarem de atenção e desvelo governamental, tudo para que se mantenham por cá, tudo para que não se deslocalizem.

un martini et la mer (courier sentimental)

J’ai un problème, ma chère amie, qui me rend peu à peu folle :
Le pauvre con qui se dit mon mari (alors qu’il a plutôt épousé l’alcool)
se sert de mon fils comme alibi, quand il n’est pas à l’école.
Chaque dimanche matin, il me dit avec son air de con :
«Ma cocotte, on revient : je vais montrer la mer au fiston».
Mon très doux petit, bien sûr, il trouve cela chouette
De pouvoir, jusqu’à midi, pisser dans l’eau et chasser les mouettes.
Il ne sait pas que c’est une ruse : son père se fout bien de lui,
Ce qu’il veut c’est une excuse pour aller boire ses martinis.
Je vous en prie, Madame, aidez-moi – je ne sais que faire :
Comment puis-je interdire son «cher papa» de l’emmener à la mer ?

Ma chère amie, je ne crois pas que vous ayez un problème :
Ignoreriez-vous de la nature cette loi : «Les Hommes Sont Tous Les Mêmes» ?
À votre place, je serais contente que mon fils ne se promène seul
Et que l’alcool ne soit une excuse pour que mon mari me casse la gueule…
Ma chère amie, je serais franche : ne croyez-vous pas que c’est dommage
De ne pas profiter de ces dimanches pour vous bronzer sur la plage ?
Croyez-moi, ma chère amie, je n’ai pour vous d’autre conseil :
Au diable vos petits soucis et jouissez du soleil !

NOTAS:
1. Este texto consiste em (mais) um exercício de rescrita de UM MARTINI E O MAR (três desses exercícios bilingues foram editados em 2001 pela Campo das Letras).
2. Pretende (tadinha, pró que lhe havia de dar) ser uma letra para uma canção com duas vozes femininas. Ainda tentei, nos últimos dias, alinhavar uns acordes para ela (cenas em Ré e Mi menor), mas sem sucesso. Se houver por aí algum leitor que tenha pachorra para compor uma musiquinha para ela, pronto, aqui o vosso escriba ficaria agradecido. Eu depois falo com a Brigitte Fontaine e a Shakira.

O futuro do futuro

Hoje, pelas 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, o “É a Cultura, Estúpido!” vai ensaiar um balanço cultural do ano de 2005, feito por Pedro Mexia e por este vosso escriba. Na rubrica “O que não ando a ler”, falar-se-á dos livros que não lemos em 2005 e dos que não tencionamos ler em 2006.
No tema do mês vamos tentar compreender se o futuro terá futuro quando o futuro for presente. Para discutir a questão, nos seus aspectos científicos, filosóficos, práticos ou nem por isso, estarão presentes na mesa Nuno Crato (matemático e divulgador de ciência) e João Barreiros (autor de Ficção Científica e especialista deste género literário). A conversa será moderada pelo Pedro Mexia, cabendo-me a função de “agente provocador”.
Relatos das outras sessões e tudo o mais que há para saber no blogue do EACE.

O Jogo do Quadrado

O blogue não-oficial mais oficial de Portugal é o máximo. A constelação de estrelas que por lá se deixa entrever basta para encandear o mais afoito. Um banho em tanta grandeza Literária, Cultural e Patriótica (repararam nas maiúsculas?) tem de ser ousado pé ante pé, para que o banhista atrevido não desapareça no primeiro covão, tragado pelo oceano — pejado de intensas correntes — da glória alegrista.
Para dar uma mão amiga ao neófito, vou elaborar aqui um pequeno menú de degustação das delícias do “Quadrado”, sob a forma (enganadora, que é por vezes nisto das pequenas coisas que se esconde a Suprema Complexidade dos Grandes Temas) de um singelo passatempo.
É entretém fácil: basta emparelhar cada uma das citações que aqui vos deixo com o correspondente autor. Depois, só tem de confirmar o acerto da sua intuição literária clicando no “Continue a ler…”. Não vale espreitar antes.
Está pronto para desafiar a lendária opacidade das musas? Força. Aventure-se. Perca o pé. Alegre-se, em suma.

1— Desclassifico-o (a Marcelo Rebelo de Sousa) por incumprimento das regras do jogo.

2— Que cépticos e inseguros nos tornamos que preferimos homens hirtos na expressão da afectividade, esquálidos de horizontes, que lêem e vivem sempre a História de perfil; homens severos que nos oferecem livros tristes, cheios de números, pálidos de Humanidade, que foram ungidos em doutas reuniões onde se costumam atemorizar os cidadãos incautos com leis sem alma e normas cegas, que têm conduzido a sociedade à vertical do desespero!

3— O teu Quadrado é o nosso Manifesto, a tua disponibilidade generosa é mais um dos grandes exemplos da tua vida.

4— A poesia é um muito concreto modo de ligação ao real, pensado no que de mais profundo lhe dá consistência, expressão do mais humano do ser, nos tempos de sombra como nos de alegria; a poesia exprime o mais verdadeiro rosto de um homem, e, nele, de todos nós.

5— Bom Natal e um Alegre 2006 para todos.

6— E nunca poderia ter dado, porque a sociedade e a política são conceitos em perpétuo movimento, às vezes para a frente, outras para atrás, outras ainda em espiral, o que significa que a sede e a fome. em vez de saciadas, são ao invés espicaçadas.

7— Não aparece envolvido em birrinhas, intriguinhas, negociatas e politiquices fraldiqueiras, neste arranjismo generalizado que domina e diminui o país.

8— É extraordinário! Só nos aparece gente de altíssima qualidade humana e profissional!

Autores: Yvette Centeno; Mário de Carvalho; Helena Roseta; Inês Pedrosa; José Dias Egipto; Colaboradora Anónima mas muito Voluntariosa; Paula Morão; Cristóvão de Aguiar

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Cavaco e as “inverdades”

Não me surpreendeu a confusão que parece grassar no crânio de Cavaco Silva. Que ele não tem ainda grande ideia de como poderá “esticar” os seus futuros poderes já era bem notório.
Mas o que me espantou mesmo neste lamentável episódio do “secretário de Estado do acompanhamento” foi a pusilanimidade da criatura. Incapaz de assumir as suas palavras, resolveu desmentir o indesmentível: “eu não sugeri a criação de um secretário de Estado nem defendi a criação de nenhuma Secretaria de Estado. Apenas contei histórias de sucesso que ocorreram em outros países”, mentiu ele aos microfones da TSF. Note-se que ao “JN” ele tinha afirmado categórico: “tem de ser feito um acompanhamento com algum pormenor que deveria ser feito por um secretário de Estado especialmente dedicado a essa tarefa” (vigiar as empresas estrangeiras em Portugal). Depois, instado pela pergunta “vai propor isso ao Governo?”, confirmou, parecendo por uma vez ter uma ideia firme sobre algo: “já o estou a propor aqui”.
Puro engano. Pouco depois, caiu-lhe em cima um vendaval de acusações de se pretender imiscuir na vida do Governo. Em resposta, além da mentira, veio a fuga para o último refúgio dos tíbios: atribuir culpas a terceiros. Afinal, o deslize foi apenas “mais uma inverdade dos outros candidatos”, nada a que o pobre não se tenha já “habituado”. Armou-se em vítima, a criatura!
Só de pensar que esta personagem desprovida de palavra, de coragem e de respeito pela inteligência alheia vai ser o nosso próximo Presidente da República, até o intragável Manuel Alegre começa a parecer apetitoso. Que desgraça.

O meu Natal bloquista é melhor do que o teu

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Luís, eu como sou mesmo militante bloquista – apesar de não ser “director de imagem”como o meu amigo – já descobri o caminho das pedras e tive uma santa quadra muito melhor que essa “pecêzada” sem banho que tu viveste. É bonita a tua conversão, mas não és obrigado a entrar no PSR, podes continuar a ensaboar-te…
A propósito, quando quiseres contribuir com textos para os tempos de antena, escusas de publicar primeiro no blog…

O fantasma do meu Natal Presente

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Os meus dias de filocomunista já lá vão. Desde que uma revista de confiança me nomeou “Director de Imagem” da campanha do Camarada Francisco Louçã, muita coisa teve de mudar aqui em casa. E o Natal também sofreu a desestalinização que há muito se impunha. É que não dá mesmo para continuar com a mesma celebração caduca, aquele hino à globalização que todos os Dezembros nos entrava pela casa. E ainda por cima sexista: a mulher placidamente deitada enquanto o tal “Deus” (de género masculino, está visto) manda naquilo tudo? Isso já era!
Começámos por reformular o presépio. Agora, temos uma caverna okupada, com graffitis contra o governo e carregada de malta com djambes e cortes à moicano. O José anda por lá, com os pastores imigrantes, a enrolar umas valentes brocas e a planear acções contra o ocupante romano. Os três reis magos dispersaram: um está a mudar de sexo e os outros dois foram casar-se a Inglaterra. A Maria saiu e anda à procura de uma clínica de abortos.
Ainda tentámos decidir em reunião familiar a retirada obrigatória de todos os símbolos religiosos do nosso Natal. Mas a criançada teve medo que isso incluísse as prendas e vetou a proposta. Valeu-nos a alternativa multicultural: agora, temos uma menorah cheia de luzes a piscar e uma deusa Shiva de ar furioso pregada à porta. Quem veio distribuir prendas foi um simpático irmão muçulmano muito parecido com alguém que já vi na TV, saco repleto de sprays de tinta, kalashnikovs em miniatura e t-shirts da ATTAC. Sem esquecer a grande prenda deste Natal: uma moratória à obrigação do banho semanal, até ao dia de Reis!
Bem; gostava de ficar aqui à conversa convosco mas tenho de levar os miúdos à ceia no McDonalds. Já tenho os bolsos do colete cheios de pedras e de cromos do camarada José Bové. Se tudo correr bem, vemo-nos mais logo, nas notícias.

O populismo soft

Não sei se é da companhia, mas Vital Moreira não conseguiu evitar a tirada mesmo ao gosto das turbas justiceiras: “já agora, cabe uma dúvida: se fosse Presidente, Cavaco teria vetado as medidas governamentais que cortaram nos privilégios dos militares, juízes, etc.?”
Outra dúvida: e se ele próprio, seduzido por algumas contrapartidas interessantes (“subsistema de saúde, idade de aposentação, etc.”), se tivesse inscrito há umas décadas na Academia Militar, desistindo de outras profissões mais prósperas (como a de deputado)? E se a meio da sua carreira todas as regras fossem alteradas? Será que Vital Moreira continuaria a escrever que se trata de simples cortes de “privilégios”?
Ah; já me esquecia. “Populismo” é clamar contra as benesses dos políticos, não contra as dos militares, dos juízes ou de outros grupos pouco simpáticos. Que memória a minha.

Portugal dos Pequeninos

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– Ó sotôra; as suas colegas continuam a dar-me negas!
– Não te preocupes, já te expliquei que a Matemática é que conta…
– Mas a sotôra de História diz que eu não distingo um infante dum elefante; e a de Português diz que eu sou um “analfabeto funcional”… o que é que isso quer dizer?
– Quer dizer que ela não sabe o que é mesmo importante. Fazer contas bem feitas. Isso sim, é o que nós precisamos na vida.
– Mas agora todos gozam comigo!
– Faz de conta que não dás por eles. Olha para cima, põe um ar superior e não respondas a nada do que te digam. Manda-os ler livros, se te chatearem. E, claro, continua a fazer-me queixas deles todos.
– A sotôra acha mesmo que ainda vou conseguir ser alguém na vida?
– Com esse jeito para as contas, tu vais longe. Não duvides, Anibalzinho!

Lénine, Marx e Bin Laden (Afinidades Acidentais)

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O Henrique Raposo tem a ambição de ser uma espécie de professor Marcelo da Blogosfera. Em vez de ler livros: enuncia títulos. Em vez de argumentar: tira conclusões. Infelizmente, a leitura das lombadas raramente nos elucida muito sobre as obras.
Hesitei bastante em escrever sobre os seus escritos : não só porque me sinto esmagado com tantas capas digitalizadas, mas sobretudo, porque tenho para mim claro que só vale a pena discutir livros com alguém que alguma vez leu os autores que crítica. Ora depois de ver a análise que ele fez sobre Negri e Zizek é obvio que o senhor Raposo não se dá a esse trabalho.
Mas a associação de Lénine e Marx ao terrorismo, e a falta de assunto para escrever, levam-me a enumerar umas tantas ideias:
1.Lénine terá os seus defeitos, mas a apologia ao grupos terroristas não faz parte deles. Vladimir Ilich Ulianov sempre denunciou os atentados terroristas como perniciosos.
A sua posição tem razões pessoais e políticas: o irmão mais velho de Lénine, Alexandre, morreu enforcado por participar numa tentativa de assassínio do Czar, o que levou o seu jovem irmão a dizer que “esse não era o caminho”; e, do ponto de vista político, o terrorismo na Rússia foi uma prática de grupos anarquistas e socialistas revolucionários a que o partido Bolchevique sempre se opôs. O líder da revolução de Outubro tem mesmo um texto crítico, escrito salvo erro em 1909, contra o assassínio do rei D. Carlos I de Portugal. Para os Bolcheviques a violência e o terror revolucionário só podiam ser exercidas no contexto de luta de massas generalizada e nunca no quadro político e técnico de atentados terroristas.
2. A rejeição por parte de Marx do terrorismo dá-se no contexto das divergências tidas com sectores anarquistas no quadro da primeira Internacional, nomeadamente em relação a Mikhail Bakunin e, episodicamente, a Netchaev (autor do célebre catecismo revolucionário), histórias que estão bastante bem narradas num livrinho muito fácil de ler, e até editado em português, e para Henrique Raposo em inglês, a biografia de Karl Marx de Francis Wheem.
3. Acerca da pseudo-ligação entre fundamentalistas islâmicos e comunistas, é sabido que os Estados Unidos da América e Israel financiaram e apoiaram o renascimento de sectores do fundamentalismo islâmico, no âmbito da guerra fria, tendo três objectivos principais: combate aos soviéticos no Afeganistão, contrariar os partidos de esquerda árabes de origem nasserista e debilitar a OLP e Yasser Arafat. São histórias mais do que conhecidas e bem ilustradas na foto publicada pelo Luis Rainha.