Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Post mortem

Com os primeiros flocos de neve de ontem, começaram a pingar as primeiras atribuições de culpa: o efeito de estufa anda a destrambelhar tudo e vamos a caminho de uma nova idade do gelo. Alarmismo sem bases científicas, claro está; se uma andorinha não faz a Primavera, também um nevão não faz o fim do mundo.
Com efeito, por muitas notícias assustadoras que vamos lendo, nada está ainda provado. E o problema é mesmo esse: se algum dia toda a comunidade científica aceitar como certo o papel das actividades humanas nas alterações do clima, será depois de convencida por alguns estudos a posteriori.

Toupeiras e outros animais furiosos

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Ainda a propósito da polémica desencadeada pela famosa nota crítica do Zé Mário, o JPG volta ao ataque. Antes do mais, há que convir que esta sua luta não é de hoje: lembro-me, embora não consiga recuperar o respectivo url (mas dei com um ténue fantasma no Google, e com parte da resposta do “nosso” Fernando Venâncio), de pelo menos uma prosa georgiana antiga a vituperar o “amiguismo” circular do meio.
Agora, depois da polémica já ter dado várias voltas à blogo-aldeia, o JPG julga ter encontrado o testemunho perfeito para tornar a sentença inapelável e poder exarar a ordem de crucificação do Zé Mário: a posição do Pedro Mexia. Sobretudo quando ele reconhece “que não se deve escrever sobre um amigo próximo”. QED: andam por aí chuvas de “textos sebáceos que uns e outros ejaculam uns para os outros” e o Zé Mário terá caído na “asneira” de dar mostras de “de medievalismo e de oportunismo”.
Não vou esmiuçar isso do “medievalismo”; interessa-me mais o carácter “sebáceo” do texto em apreço. Pensar-se-ia que o tal “favor” com que o Zé Mário benzeu o livro do “amigo (hui! hui! hui!)”seria calculado para, sendo tão untuoso, lhe dar uma “exposição” tremendamente positiva; seria pela certa um panegírico acrítico e delirante.
Ora o que se lê na tal micro-recensão é tudo menos isso. É dada a notícia do nascimento de mais uma editora, do lançamento do livro e, em poucas palavras, feito um balanço do mesmo. Quando chega o momento do veredicto, este é frio: assim-assim. Poesia por vezes “rasa” e “ingénua” que, embora almejando objectivos meritórios e sabotadores, parece condenada a estiolar no gume assassino do “quase”.
É esta a tal “ejaculação” da fantasia do JPG? Talvez: ele desvaloriza o conteúdo do texto e concentra-se no seu suposto “programa”: incensar a todo o custo os amigos, dar-lhes doses cavalares da mirífica “exposição” (francamente, se fosse eu o autor, preferiria não a ter tido, neste caso). JPG, depois de se “esbandalhar a rir”, afirma não ter percebido “patavina” das ressalvas do Zé Mário. Eu, por mim, percebi-as sem dificuldade; e até começo a perceber melhor este encarniçamento contra os críticos instalados.
A posição do Pedro Mexia é louvável. Eu também preferiria não correr o risco de escrever sobre obras de amigos íntimos. Mas a atitude simétrica é igualmente virtuosa: criticar obras de autores próximos, sim, desde que com a liberdade necessária para poder apontar fraquezas quando é caso disso. Assegurado isto, como neste evento, o que haverá a censurar?
O resto, como a indignação de Pacheco Pereira, esse pobre ostracizado pelas diversas coteries, é mais do domínio da pequena história das embirrações pessoais.

TOUPEIRICES & AMIGUISMOS

Na sexta-feira passada, o indómito e virginal João Pedro George, talvez à míngua de figuras para zurzir, pegou no suplemento do DN, viu-me a jeito nas páginas dedicadas aos livros, pensou “não é tarde nem é cedo” e vai de desancar-me à antiga portuguesa neste post, rapidamente comentado por Pacheco Pereira, que não perdeu tempo a ampliar a tese conspirativa («há hoje no mundo literato vários sistemas e subsistemas grupais competindo pelos mesmos “bens”, influência, artigos, colunas, programas de televisão, entrevistas, promoções, editoras, colóquios») e a apontar o dedo a esse grupo semi-maçónico, presume-se, que «ia do defunto DNA, para o grupo do “É a Cultura, Estúpido”, ou as Produções Fictícias». Com o Abrupto na liça, o que podia ser um mero post azedo do JPG transformou-se num verdadeiro caso que já se ramificou em várias direcções, numa trama de links que ainda não pude visitar na totalidade.
Se só respondo agora, é porque só agora voltei a ter alguns minutos (poucos) para dedicar aos blogues. A vida tem destas coisas: cai-te em cima uma polémica das boas precisamente numa fase em que o trabalho não dá tréguas e a internet desceu vertiginosamente na lista de prioridades. Mas isso pouco importa. Mesmo sem saber se conseguirei abordar as principais questões levantadas, queria voltar, se me permitem, ao princípio de tudo. Isto é, ao texto que motivou a indignação do JPG. Será que alguém o leu? Será que alguém foi ver o que havia ali de tão grave, de tão indecoroso, de tão amiguista? Não me parece.
Sendo assim, antes de focar outros aspectos deste «banzé escusado», como lhe chamou certeiramente um amigo, talvez seja melhor começar pela republicação dessa fatídica notinha que não chega, vejam bem, aos 2000 caracteres (nem sequer lhe consigo chamar recensão, quanto mais crítica):

Andar na rua com um pêlo na boca

Um homem cai para trás, fulminado por um raio. É este o símbolo da Livramento, uma editora recém-nascida que pretende marcar a diferença, no panorama sobrelotado das pequenas chancelas (quase sempre com dois sócios cheios de genica mas com pouco dinheiro), pelo arrojo do grafismo. Basta olhar para o rosa shock da capa do primeiro livro para perceber que é possível, afinal, encontrar volumes de poesia que prescindem, no frontispício, das cores neutras ou do inevitável quadro de Edward Hopper.
Estreia poética de Nuno Costa Santos, jornalista que já publicou uma colectânea de narrativas interligadas (Dez Regressos, Salamandra) e mantém um popular blogue de posts curtos (http://melancomico.blogspot.com), Os Dias Não Estão Para Isso diz ao que vem logo nas epígrafes: Fernando Assis Pacheco (“Peçam a grandiquolência a outros…”), Alexandre O’Neill (“…adoptemos o prosaico…”) e Raymond Carver (“Sentia-me esquisito, a andar pela rua com um pêlo dentro da boca”).
A partir destas três referências, NCS estrutura uma aproximação à poesia que é sempre uma forma de sabotagem da poesia (ou, pelo menos, sabotagem da sacralização do sublime que ainda é bastante notória em muita da produção contemporânea).
Nestes versos de um lirismo sempre irónico – e por vezes ingénuo – não há pose, não há verve, não há um rasto que seja de solenidade. Descrevendo aspectos da sua vida pessoal e da respiração do bairro onde vive, NCS assume como programa uma “tabela de ninharias”, onde o Fórum TSF, a fisioterapia das “veteranas senhoras”, a bica pingada e a sinusite coexistem com vislumbres da beleza escondida das coisas ou com a nostalgia da infância nas ilhas.
É uma escrita arriscada e desigual, no fio da navalha, por vezes excessivamente rasa. Quase poemas de um quase poeta capaz de versos completos. Como estes: “Lembra-te que na dúvida / as pessoas não amam.// Que antes da dúvida / há muitos territórios // e que nenhum deles é o amor”.

Os destaques a negrito dispensam, parece-me, mais comentários. Às outras questões da polémica regressarei logo que possa.

[Este post foi igualmente publicado no blogue A Invenção de Morel.]

Balanço provisório do DN

SORAIA CHAVES E O MESTRE BULGAKOV
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Normalmente indigno os meus amigos ao afirmar, com convicção, que o jornal mais bem feito, em Portugal, é o Correio da Manhã (CM). Não se trata de gostar da imprensa popular. Não é por concordar com a linha editorial. Eu acho o CM bem editado: um texto nunca tem 7000 caracteres. Os assuntos importantes são tratados de várias maneiras com várias texturas: temos notícia principal, várias caixas, infografia, pequena entrevista, etc Nota-se que é um jornal pensado em que os editores fazem o seu trabalho. Aquilo que me irrita no Público, para além da existência do José Manuel Fernandes, e no Diário de Notícias (DN) é de ter a sensação que os editores não participam com os jornalistas na discussão da melhor forma de dar valor acrescentado a uma notícia.
A recente mudança no DN deu-me esperança que o jornal começava a ser melhor pensado e se estava a aproveitar decentemente a centena de profissionais que lá trabalham. Infelizmente, apesar do “fogacho” da cobertura eleitoral, parece-me que as coisas tendem a não melhorar. Parece não se perder tempo a pensar qual é a melhor maneira, a mais original, a mais motivante de contar uma história. E depois, há pouca definição dos produtos de apoio: não consigo perceber o que distingue a Notícias Sábado (NS) da Notícias Magazine, para além de na segunda revista, apesar do péssimo grafismo, se encontrar reportagens jornalísticas e na NS só haver lugar para futilidades. Os técnicos de marketing vão-me garantir que uma é masculina e outra feminina, mas isso, agora a sério, serve de pouco.
Apesar de ser jornalista há muitos anos, nunca consegui perceber um produto, dito, jornalístico que não tivesse um único assunto que fosse importante do ponto de vista informativo. Acho que a um jornalista se deve pedir que saiba interessar o leitor e que consiga contar histórias, mas uma revista não pode ser um simples amontoado de consumos e de vidas de famosos.
Houve um dono de um grupo de media que explicou que “as pessoas não queriam ver pretos, pobres e velhos e que para desgraças bastava a vida”. Um director-adjunto garantiu-me que as notícias a publicar eram aquelas que as pessoas desejavam comprar e elogiava um tablóide inglês, com enlevo, e garantia-me: “não tem uma única notícia!”
Lamento muito, não estou de acordo com o “ar do tempo”. Acho aliás que já estivemos muito melhor. A SIC já deu informação muito a sério. O Independente no tempo da Constança Cunha e Sá tinha um grande caderno de reportagem e o Público e a revista do Expresso já foram muito melhores.
Exemplo dessa nova ideologia bacoca, do jornalismo pensado para o que supostamente o público gosta, é a nova revista do DN, ao Sábado, a NS. Vejamos o cardápio: Perfil de Soraia Chaves, o serão do Ministro da Economia, o dono do Majestic, uns tipos que atiram discos na praia, os consumos e gostos do Francisco José Viegas e uma reportagem, que sendo jornalismo, devia lá estar por engano: os detectives privados. A única coisa verdadeiramente positiva que soube, foi que Soraia Chaves lê a “Margarida e o Mestre” de Bulgakov. É inteligente e ganha o seu tempo a ler um grande romance do século XX. Nós, infelizmente, perdemos tempo a ler a revista do DN…Para meu consolo, nesse número fiquei a saber que o jornalista Joel Neto esvaziou a estante para colocar uma consola de computador e que diabo, o bom do Joel merecia, até já tinha dado alegrias suficientes ao pai porque, passo a citar, “não virei drogado nem militante do Bloco de Esquerda”. Depois de ler tal crónica, descobri um herói do nosso tempo. Tive a curiosidade de ir à página pessoal do Joel, a qual aconselho vivamente. No perfil disponibilizado, pelo próprio, soube que « a dignidade de Joel Neto, neste mundo em que “ tudo se vende, tudo se compra”, está em ser um “outsider”. Para o jovem açoriano, a democracia falhou, mas apesar de “as pessoas viverem como penicos embrulhados em cetim” », além de ser autor de uma rica cosmogonia, Joel Neto ainda é um homem que acredita. E de onde lhe vem essa força transcendental? O próprio esclarece-nos de uma forma telúrica: “há uma mãe grávida em cada homem capaz de suportar o parto.” Grande matéria para um próximo número da NS seria uma ecografia deste jornalista prenho de ideias…
Apesar das potencialidades científicas da descoberta, eu cá acho que, para ele e para todos leitores, mais valia ser drogado.

Iatrofobia (2)

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Sobre a secretária com décadas de cansaço, uma fila de pequenos frascos transparentes. Uns cheios de líquido sem cor, outros tingidos de um rosa débil e esgarçado. Os primeiros habitados por partículas a custo visíveis, farrapos brancos dissolvendo-se como migalhas inchadas na água. Nos frascos vermelhos vogam peixes adormecidos e pedaços de carne polpudos. Talvez ainda em crescimento desvairado. Coisas incapazes de aceitar a morte, prontas para acordar e contaminar o mundo.
Estão ali os despojos das pequenas cirurgias da manhã.
Aguardam pacientemente que os levem para análise. Mas só dentro de dias, só dentro de dias iremos saber o que está ao certo dentro do frasco com o nosso nome e número de utente: nevo melanocítico, carcinoma baso-celular, carcinoma espino-celular ou melanoma. Repito a ladainha, fórmula que ilumina os cantos mais escuros com o brilho da ciência. Nevo melanocítico, carcinoma baso-celular, carcinoma espino-celular, melanoma. Um-dó-li-tá.
A enfermeira recolhe a meio de um suspiro mais um frasco, decora-o com um autocolante escrevinhado e volta a concentrar-se nos seus assuntos. O velho que acaba de lhe entregar parte do seu corpo fica ali, imóvel, estúpido, besta antediluviana a aguardar que se confirmem os rumores da sua extinção. Agarra-se ao enorme penso que carrega na testa, aturdido pelo escoar da anestesia. Faz medo, de tão assustado e sem amparo.
É grande, o seu resto: quase um bicho, uma ostra com filamentos pendurados à laia de raízes de planta esfomeada. Nadando no seu oceano cada vez mais vermelho, mais opaco. Uma promessa de morte.
São agora dez os frascos. Em quantos lerão os técnicos sentenças fatais? Naquele com um seixo simétrico, quase bonito? Ou no meu, que procuro confundir com os outros? (Mas não consigo perder-lhe o rasto, fazer de conta que mão de artista da vermelhinha baralhou a fila de recipientes esterilizados enquanto me reconfortava na miséria do velho com o penso que não pára de inchar. Lá volta a cantilena: um-dó-li-tá-quem-está-livre-livre-está. Bom. Mais logo, voltarei a arriscar.)
Esperam por mim no corredor. Já podia ter ido embora. Mas ficarei até que alguém leve o meu frasco (ou até conseguir desligar os olhos da parada de anomalias acabadas de morrer). Imagino agora as maravilhas da anatomia patológica: o meu pedaço rebelde centrifugado, pasteurizado, esmiuçado por uma culinária invertida que tem como produto final um simples papel, a receita com a medida exacta de cada ingrediente.
O velho desiste de esperar por mais explicações e encaminha-se para a porta. Um estremecimento em que só eu reparo agita o frasco com a ostra encarniçada. Ela vira-se e encara o velho.
Juraria que ali vi ódio.

Trasladem-nos, por favor!

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Parece que um bando de rapazes com défices capilares se andou a manifestar, em Lisboa, contra o assassinato de portugueses na África do Sul. Nada a opor. Até julgo que uma qualquer alma caridosa devia financiar-lhes o aluguer de um avião, para que pudessem desembarcar no Soweto e fazer a manif no sítio certo. Até iam poder explicar à malta local quem são, ao que vêm e que ideais os animam. Ia ser um sucesso.

Conta, peso e medida

O segredo de uma boa sesta, contava o avô octogenário, é a sua duração: tem de ser suficientemente longa para ser reparadora e suficientemente breve para impedir a indisposição. Por isso, lembrou-se um dia de tentar adormecer com uma pedra na mão e deixar-se acordar quando a mesma caísse ao chão. O que ele não sabia, nem poderia saber, é que demoraria dois anos a encontrar a pedra ideal. Inicialmente, acreditou que o peso da pedra era a única variável relevante: quanto mais pesada ela fosse, menor seria a duração da sesta; quanto mais leve, maior. Comprou então uma balança de pratos e um caderno quadriculado onde ia apontando os pesos das pedras que ia testando. Todos os dias, depois do almoço, sentava-se no cadeirão com a pedra na mão e fechava os olhos. Quando, alguns minutos depois, acordava com o ruído da pedra a bater no soalho, voltava a fechar os olhos e tentava decifrar no paladar da saliva os sinais do corpo: fadiga ou indisposição? Ao fim de alguns meses, e apesar de alguns inevitáveis erros, ele foi conseguindo estreitar cada vez mais os intervalos de peso da pedra desejada e chegou mesmo a conhecer uma ou outra vez o frenesim inconfundível da aproximação. Contudo, ao olhar para as tabelas e gráficos do seu caderno, era por de mais evidente que havia um factor desconhecido que interferia com o rigor dos cálculos e das medições. Chegou a pensar que tal se deveria a variações do seu próprio peso e procurou introduzir uma certa regularidade no horário e na quantidade de comida que ingeria nas refeições. Acrescentou então uma terceira coluna na tabela, ao lado da do peso das pedras e das respectivas considerações, com o peso do seu próprio corpo. No entanto, mesmo após ter conseguido estabilizar esse segundo factor, os cada vez mais reduzidos intervalos que ia definindo revelavam-se instáveis e, mais grave ainda, incongruentes. Num primeiro momento, chegou a especular sobre a questão da forma, mas rapidamente afastou essa hipótese pelo facto de o leque das probabilidades ser praticamente infinito e, por isso mesmo, inalcançável. Lembrou-se finalmente da mão. Todos os testes e cálculos que tinha efectuado tinham sido feitos com a pedra agarrada na mão direita e essa não tinha sido uma decisão pensada, mas apenas um fruto do acaso ou, quando muito, a tendência natural de um dextro. Quase febril com essa descoberta, desenhou um risco horizontal na folha do caderno e agradeceu aos deuses o facto de ter conservado e catalogado todas as pedras que tinha testado: 439. Seu propósito era inequívoco: refazer, com mão esquerda, pedra a pedra, sesta a sesta, todo o percurso da sua busca e comparar os resultados. Ao fim de algumas semanas, a disparidade era evidente. Os intervalos, outrora hesitantes e pouco precisos, possuíam agora um rigor belo e matemático. Numa tarde, chegou mesmo a determinar com exactidão, através de simples cálculos de proporcionalidade, a pedra que lhe proporcionaria finalmente o repouso imaculado. Contudo, resolveu não saltar etapas, talvez por superstição ou pelo facto de sentir um certo e inconfessável prazer em prolongar a espera. Quando finalmente chegou o dia em que ele iria testar a pedra que sabia ser a que procurava há quase dois anos, não deixou de sentir uma irreprimível tristeza. Agarrou na pedra e olhou longamente para ela. Era uma pedra absolutamente banal, feita do que lhe parecia ser granito, sem forma precisa e de cor irregular. Percebeu que o facto de saber o exacto peso da pedra ou mesmo o de um hipotético geólogo lhe determinar a sua complexa constituição não dissolveriam em nada o seu mistério. Antes de adormecer, calculou no caderno a razão exacta entre o seu peso e o da pedra, não por lhe interessar o resultado, mas apenas para se distrair do medo inexplicável que sentira de repente. Pousou o caderno, respirou fundo e agarrou a pedra com a mão esquerda. Fechou os olhos e, para sua grande surpresa, não lhe custou nada adormecer.

Ainda mais nhurrice

Concentrado que estava nos delírios do JPH que me envolviam, nem sequer reparei numa cuspidela em forma de texto que por ali já andava. Depois de aventar que os povos podem ter características que os distinguem, ele saiu-se com isto: “no contexto desta interessante discussão antropológica, pergunto-me: poderão os palestinianos ser um pouco estúpidos?”
Trata-se de um daqueles insultos que retratam melhor o seu autor do que os supostos alvos. Vomitar impropérios sobre gente que se comporta de forma que não entendemos só pode mesmo ser a marca de alguém muito pouco estúpido. Desafiou-me o JPH há umas horas: “tente raciocinar comigo, se conseguir”. Confesso: não consigo.
Mas façamos de conta que os palestinianos elegeram mesmo monstros sanguinários que só pensam em explodir autocarros. Os alemães também votaram em Hitler: serão “estúpidos” por isso? O simplismo e os preconceitos levam-nos a sítios bem feios.

Negri, Raposo e os talheres (1)

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Caro Henrique Raposo,

A sua resposta esmagou-me, não que você tivesse argumentado, mas como me atulhou de citações, ainda hoje estou a sacudir frases de cima. Por gosto e para que “afine a pontaria”, como com tanta graça escreve, vou-lhe responder:
– Homem, pode estar de arma na mão, mas está virado ao contrário!
De qualquer forma não dei o tempo por mal empregue, ao reler os dois artigos que Slavoj Zizek escreve sobre Negri , que você cita mal (já lá vamos), deparei com uma passagem que lhe endereço; Thomas De Quincey no seu “Assassínio considerado como uma das belas artes”, dá o seguinte conselho: quantas pessoas começaram por uma simples morte, que no momento, pareceu-lhes não ter nada de repreensível, e acabaram por se comportar mal à mesa!
Meu caro Henrique Raposo, o problema é esse mesmo, você começa por escrever sobre autores que não estudou e vai acabar por trocar os talheres na refeição. E é sobretudo isso que, no seu caso, eu quero evitar.
Você cita Zizek, pretendendo demonstrar que o pensador esloveno considera que Negri não vai beber a Marx. Se tivesse tido a atenção de ler na integra os dois artigos, em vez de andar à procura de frases espúrias, teria descoberto que Zizek afirma que “voilà, exactement, ce que Michael Hardt et António Negri essaient de faire dans Empire, un essai qui touche à son but dans sa tentative d’ecrire le Manifeste communiste du vingt-et-unième siècle” (Zizek, Slavoj: “Hardt et Negri ont-ils Réécrit le Manifeste Communiste ? », em Que Veut L’Europe ?,Climats, Paris, 2005, pag 91), apesar do elogio, Zizek mais à frente vai criticar Negri e Hardt não por não terem sido fiéis a Marx, mas por não terem ido buscar Lenine. Para ele, Negri falhou depois de ter analisado o processo sócio-económico global não foi capaz de apontar as medidas radicais necessárias e que a esse respeito, “L’Empire reste un ouvrage prémarxiste.<Quoi qu’il en soit, peut-être la solution reside-t-elle dans la prise de conscience du fait qu’il n’est pás suffisant de revenir vers Marx, de renouveler l’analyse de Marx, mais qu’il est nécessaire de se tourner vers Lénine.» (Ob. Cit. Pag 94), o sublinhado é meu.

Negri, Raposo e os talheres (2)

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Deineka

Caro Henrique Raposo,
Como apenas leu em diagonal o que escrevi, vou-lhe relembrar as três correcções que fiz ao seu artigo na revista do “Diário de Notícias”, que eram para ser de começo de conversa, mas vão mesmo para o fim dela, para não torturar incautos leitores. Não vou perder muito tempo com a sua modesta afirmação de que o marxismo morreu. A afirmação coexiste desde do tempo de Marx e se ainda hoje há quem a discuta é porque estamos perante um moribundo muito saudável. Mas vamos por partes:
1. Não há entre os marxistas uma chancela oficial de quem é ou não é marxista. Ao contrário do que você está convencido, existem muitas correntes no marxismo e até existem várias leituras de Marx. Melhor dizendo, Marx escreveu coisas diferentes e às vezes contraditórias durante a sua vida. Para agudizar esta questão, dá-se até o caso de que as obras de Marx foram sendo conhecidas durante um intervalo de tempo muito grande. Parafraseando Gramsci, que você conhece da autobiografia da Filomena Mónica, cada geração teve de descobrir o seu próprio Marx. Veja bem, se os livros II e III do Capital só ficaram disponíveis no fim do século XIX, já os Manuscritos económico-filosóficos só viram a luz do dia no final dos anos 30 do século XX e os importantes textos que Marx escreveu entre os anos 1858-1863, incluindo o Grundrisse – sobre o qual Negri vai escrever um dos seus livros mais importantes: “Marx oltre Marx” – só são conhecidos depois de 1945!
Você cita as críticas, a Negri, de Samir Amin e de Imannuel Wallerstein, ambos de uma corrente do marxismo que investiga o “sistema mundial capitalista”, mas tem que ter em conta que ao contrário da Santa Madre Igreja, não há um Papa que possa excomungar os crentes. O próprio Wallerstein está ciente da multiplicidade das leituras marxistas quando afirma que “mais do que o fim do marxismo, assistimos ao florescimento disperso e impotente de mil marxismos” (Bidet, Jaques; Eustache, Kovélakis: Dictionnaire Marx Contemporain , PUF, Paris, 2001, pag 59).

Negri, Raposo e os talheres (3)

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Estimado Henrique Raposo,
Acho-lhe imensa graça quando garante peremptório que aqueles que, como Negri, incorporam contribuições de Deleuze ou de Foucault não são marxistas!
Meu caro Raposo, enquanto as suas contribuições para o “Acidental” não são cristalizadas, como diamantes, no corpo teórico dos estudos sobre o marxismo, existem algumas obras de referência para os investigadores. Há entre milhares de obras de estudiosos do marxismo, quatro livrinhos fundamentais: Dictionary of Marxist Thought de Tom Bottomore, Dictionnaire critique du marxism de G. Labica e G. Bensussan, Historisch-Kritisches Worterbuch des Marxismus,dirigido por W. F Haug e sobre desenvolvimentos mais recentes temos alguns livros, entre os quais, Dictionnaire Marx Contemporain, dirigidos por Jacques Bidet e Eustache Kouvélakis. Estranhamente, talvez porque ainda não souberam do seu veto, grande parte destas obras abordam como corrente do marxismo o “operarismo” italiano (o tal do Negri), e, vergonha das vergonhas, o último dicionário dedica um capítulo a Deleuze e outro a Foucault. Vão ter que enviar, como nos tempos da saudosa enciclopédia Soviética, uma lamina para os leitores arrancarem as páginas, para a obra ficar de acordo com o “cânone Raposo”.
Mas vamos a matéria de facto, esta diversidade e mudança deve-se entre muitas causas, a uma pequena que você vai reconhecer na frase de Sorel: “é preciso ter em conta, para apreciar correctamente a mudança acontecida nas ideias, a mudança que o capitalismo teve ele mesmo.”(Sorel, Georges: La décomposition du marxisme, PUF, Paris, 1982, pag 237).
Esta constatação das mudanças no capitalismo tardio e das novas formas como o actua e da especificidade do problema do poder, encaixa na segunda correcção que eu fiz ao seu texto no “Diário de Notícias”, como se recorda eu afirmei-lhe que a sua ideia que “Negri reduz o mundo a duas estruturas anónimas. Não existem homens ou ideias”, era incorrecta. Porque Negri e o “operarismo” italiano vão contestar as correntes marxistas mais sujeitas ao determinismo económico, apoiando-se numa longa tradição marxista italiana, começada em Gramsci, afirmando um certo primado da política e das questões do poder e garantindo que mesmo os desenvolvimentos tecnológicos eram frutos dos homens e dos seus conflitos. Em Negri, o poder constituinte da multidão está em potência, é uma possibilidade, mas não uma fatalidade. Ele vai buscar a Deleuze e a Guattari a sua reinterpretação do materialismo histórico e a Foucault a análise das formas do poder, nomeadamente, a transição de uma sociedade da disciplina (Escola, Fábrica, Exército e Prisão), para uma sociedade do controlo, onde as formas do poder se tornam biopoder e são incorporadas pelos próprios controlados. E em passada rápida chegamos à quarta crítica que eu lhe fiz, entre muitas que lhe podia ter feito, a ideia de que um homem não “alienado” não é originária de Marcuse, como você escreveu, no seu texto, mas encontra-se em páginas do próprio Marx. Mas isso fica para o meu último post sobre os seus talheres.