Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

É lindo o amor na blogosfera (1)

De quando em vez, vou sabendo de mais um par, de mais um casal que se conheceu na blogosfera. O rapaz tem um blogue, a rapariga tem um blogue. Acabam, com a conhecida inevitabilidade destas lindas histórias, por reparar nos blogues um do outro. Aí, arriscam comentar um post ou uma ideia que lhes surge como mais admirável. Dias depois, os mails a transbordar admiração sincera e desinteressada começam a sulcar o éter do ciberespaço, para cá e para lá. Não tarda até que se instale a ideia inabalável de que tudo no blogue amado é escrito tendo em vista um só (secreto) destinatário: eles mesmos, claro está. Quando o coup de foudre físico por fim acontece, num qualquer encontro da especialidade ou num lanche aprazado a medo, é apenas o cumprir de uma formalidade que os ditames da vida impõem: a paixão iria por certo ignorar qualquer desilusão com pormenores anatómicos e outras minudências.
Não deixa de ser engraçado ver a blogosfera como um repositório de milhares e milhares de paradas nupciais. Os voos lexicais mais arriscados substituem o peito inchado; a elegância conceptual toma o lugar das plumas coloridas; o arrojo da prosa emula a pose rampante. Assim se vão revelando e atraindo, post a post, os futuros amantes.
E parece-me mesmo bem, que se escolha quem tão bem já se conhece. Para alguma coisa de jeito haveria isto de servir. Ainda por cima, dá-me ideia que por aqui é sempre Primavera.

O Inferno é isto

O Canal História emitiu ontem dois documentários engraçados sobre o Inferno. Entre outras demandas, correram Igrejas à cata de respostas a perguntas fatais: o que é o Inferno? Quem é que lá vai dar com os costados? Será que no Inferno também teremos de ouvir debates presidenciais?
Só fiquei admirado pela falta de imaginação revelada por tanto teólogo. Do Budismo ao Judaísmo, ninguém se lembrou de alvitrar uma hipótese óbvia: o Inferno é este mundo onde nos arrastamos. De acordo com esta provável teoria, teremos sido punidos pelas nossas acções numa outra esfera celeste que só em sonhos de beatitude conseguimos relembrar. Talvez morrendo possamos voltar a algum local aprazível. Entretanto, o castigo não é nada manso.

José António Saraiva e José Castelo Branco, irmãos espirituais

“Sou uma pessoa com carisma que consegue agradar a todas as classes sociais”.
“A coluna registou um êxito imediato, vindo a tornar-se uma das mais lidas, influentes e carismáticas de sempre da imprensa portuguesa.”
A primeira frase é da autoria de José Castelo Branco, o inconfundível socialite que enche páginas às revistas do Jacques Rodrigues. A segunda é do ainda director do “Expresso”, o arquitecto José António Saraiva.
Estes dois parecem duas personalidades sem muito a ligá-las; mas partilham inúmeros traços de carácter. Começando pela absoluta e inabalável convicção de que são seres predestinados, geniais e sem igual. E ambos se sabem investidos de papéis cruciais para a sociedade portuguesa: o primeiro ensina-nos a ter “estilo”, o segundo a “pensar”. Com resultados muito similares, aliás.
A coluna de Saraiva desta semana, a “Última”, é de leitura imperdível. Recomenda-se aliás a compra do espesso semanário só para recortar e emoldurar aquele naco de prosa. A sério. Ora tomem lá algumas passagens: “Enquanto outros se esforçavam por tornar complexas e densas as coisas simples, acreditando desse modo fazer provas de inteligência, profundidade e erudição, sempre segui o caminho contrário: procurei tornar simples as coisas complicadas”; “mesmo tratando de temas circunstanciais, tentei fazer alguma doutrina, não me ficando pela espuma dos dias”; “neste espaço se previu há muitos anos a ‘invasão espanhola’, com um texto premonitório que foi estudado nas universidades de Espanha”; “neste espaço enfrentei o ‘ar do tempo’, rejeitando o aborto, a eutanásia, a pena de morte e o suícidio”; “neste espaço houve sempre uma visão de futuro — e muitas vezes antecipou-se o futuro”; “posso dizer que a História confirmou grande parte do que aqui se escreveu e previu”; “este espaço deixou sementes (…) inspirou uma cadeira de Política Portuguesa na Universidade Católica que nasceu há 5 anos”. No meio destes feitos sem par, o arquitecto ainda conseguiu “ser claro, rigoroso, isento, claro, atento, criativo, independente de partidos, personalidades, organizações ou seitas, impermeável a modas — no sentido de lhe dar semanalmante a melhor opinião da imprensa portuguesa”.
Fico sem saber se isto é apenas grotesco e cómico ou se é pungente e patético. O homem, tal como o José Castelo Branco, está mesmo convencido de que todos olham para ele em busca de iluminação e de inspiração. Acredita que as banalidades que semanalmente debitou foram mais do que lugares-comuns sem novidade; tem como sublimes inspirações delírios como a proposta de criar uma nova capital para Portugal. Aliás, ele sempre se viu neste papel messiânico de Prometeu a trazer o fogo aos ígnaros: é só recordar a indescritível crónica que escreveu a propósito do aborto. Mas o triste facto é que em 24 anos de coluna semanal só conseguiu ser original quando se tornou flagrantemente disparatado.

Tal como o Castelo Branco, António José Saraiva não entende que lhe é dada tão somente a atenção que se dedica a um inofensivo e pitoresco clown. Ambos serão populares, mas apenas porque nos fazem rir.

Espada em Madrid

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Decorreu esta semana em Madrid, por iniciativa do Professor Eduardo Nolta e da FAES (Fundacion para al Analisis y los Estudos Sociais), instituição que para além de tudo é conhecida pelo o uso de gravatas garridas italianas e a confecção de excelente scones, uma conferência comemorativa do bicentenário do nascimento de Sir Alexis de Tocqueville. O Hotel, que me arranjaram, era muito em conta e estava situado na Calle Mayor, no atrío polulavam os fellows em alegres concílios, sempre com a dignidade que se exige, a excelência que se procura, e claro, fatos a condizer: você já repararam o ar distinto das casacas, mesmo quando não usadas em Wimbledon?
Entre os temas abordados esteve a concepção de liberdade em Tocqueville, que deve ser distinguida claramente de Rosseau e, ainda que menos vincadamente ( a mim as pregas não me ficam muito bem), da de John Stuart Mill. Como por coincidência, recordei aqui no sábado passado, Rousseau (embora não tenha conseguido falar-lhe ao telefone) não aceitava o indivíduo enraizado em qualquer particularismo – dizia-me com muita graça Sir Karl Popper: “Spading (ele tratava-me assim) isso são sinais e faça o favor de me ir buscar o carro” –, como os seus interesses privados, a sua família, o seu negócio ou a sua igreja ( em Messajana há uma particularmente conseguida). Esta hostilidade contra todos os “attachments” particulares (em mails e fora deles), para usar da expressão de Michael Oakeshott, que carteia no bridge como poucos, esteve na origem do jacobinismo e do comunismo, que como todos sabemos não sabem fazer o nó da gravata e não apreciam a Zara e a liberdade.

(Qualquer parecença com a crónica do professor João Carlos Espada, de hoje e de sempre, é casual)

Sempre o Mal

De quando em vez, lemos mais qualquer coisa sobre o Mal; assim como se se tratasse de uma quantidade — melhor, de uma personalidade — viva e independente do nosso arbítrio. Era bom, não era? Podermos repartir culpas com uma entidade simbiótica que tem por destino desviar-nos dos bons e justos caminhos. Também poderíamos fazer como os Cátaros e outros dualistas, que acreditavam na maldade intrínseca de todo universo material e na inevitável contaminação que as nossas almas sofrem mal cá entram. O resultado é a mesma litania: nós somos bons, nós somos puros, nós estamos isentos de mácula. O Mal é-nos exterior. Claro: se fomos feitos à imagem de Deus, nem poderia ser de outra forma.
Como já deu para reparar, o genocídio do Ruanda é o espelho nigérrimo a que acabo sempre por voltar, quando tento não me esquecer da verdadeira face do bicho homem. E, inevitavelmente, o Holocausto continua a esmagar as nossas memórias como o mais gigantesco monumento ao Mal que conseguimos construir (e olhem que nos temos esforçado muito).
É fácil encontrar semelhanças entre estes dois buracos negros da nossa história recente. A Alemanha nazi e os milicianos Hutus seguiram a mesma estratégia base: começar por retirar a humanidade aos inimigos, classificando-os como “untermensch” e “baratas”, respectivamente. Depois, atirar para cima destas criaturas desprezíveis e sem direito à vida todas as culpas, todas as vilezas. Por fim, escolher os mais desalmados para tomar conta das primeiras matanças; estes exemplos frutificam sempre e não tardará até que os matadores sejam legião.

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Um quadro

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Quando era pequeno, ir a casa dos meus avós era uma aventura fantástica: passava pelas salas, em que a lareira crepitava, e em que se sentia também o cheiro do couro dos livros. Abria as portas e subia umas escadas em que os quadros se amontoavam. No cimo de tudo, antes da enorme vista para o Tejo, estavam dois quadros de Mário Eloy: este e um outro em que a mesma mulher surge na mesma posição, mas vestida. Uma espécie de exercício de Goya, entre Maya vestida e Maya desnuda.
O meu avô, que era ateu graças a deus (reparem na minúscula), não comemorava o Natal, apenas assinalava o ano novo.
Infelizmente, nenhum dos meus avós é vivo: talvez por isso, mais do que pela indiscritível musiquinha, esta época me irrite tanto.

Um Natal Acidental

Dado que me dirigi ao festim natalício do “Acidental” já depois de um ágape bem regado, guardo memória algo lacunar do mesmo. Estou assim a ver umas imagens tremidas de inúmeros jovens em alegre e são contubérnio, lembro-me de trocar saudações com gente bem simpática e de sofrer a forte decepção de não ter conhecido a Ana Albergaria.
Hoje, o PPM teve a caridade de escrever que eu fui “o melhor convidado”. Segue-se a explicação deste destaque: eu terei sido “o único que trouxe presente”.
Já desconfiava: os neocons apossaram-se do “Acidental”. Verdadeiros conservadores nunca perderiam de vista as tradições do Natal; todos chegariam carregadinhos de ouro, incenso e mirra. No mínimo.

Ipsis verbis

Subscrevo, uma a uma, as palavras de João Miguel Tavares, no DN de hoje, sobre o caso sórdido e trágico, para lá de todos os limites, da bebé que está em coma há vários dias devido aos maus tratos e abusos sexuais que lhe infligiram os próprios progenitores:

«Há uma névoa que nos impede sequer de compreender como é possível que um pai e uma mãe agridam e abusem sexualmente de uma filha de 50 dias até a deixarem em estado de coma, com convulsões, fracturas cranianas, lesões por todo o corpo e cega de um olho. O que aconteceu a Fátima Letícia não tem explicação – é um daqueles terríveis momentos em que a brutalidade do mal cai a pique sobre nós, atingindo aquilo que nos é mais sagrado e que temos por inviolável: o amor que une um pai e uma mãe a um filho.
Mas se o que aconteceu a Fátima Letícia não tem explicação, alguém deverá ser obrigado a explicar como é que um bebé de apenas 50 dias, e já com uma longa história de passagens pelo Hospital de Viseu com indícios de maus tratos, foi deixado junto dos seus pais por uma comissão de protecção de menores que existe precisamente para impedir que tal aconteça. O hospital detectou o risco, a comissão foi alertada, a criança foi confiada aos cuidados da avó. Só que – pequeno detalhe que parece ter escapado às autoridades – a avó e os pais viviam debaixo do mesmo tecto. Como é que ninguém reparou?
Tendo isto em conta, afirmar, num caso com tamanha gravidade, que “o sistema funcionou” e que “não houve negligência nem omissão de ninguém” – como garantiu há dois dias o presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco – é uma atitude despudorada e absolutamente inadmissível. Não, o sistema não funcionou. Sim, alguém foi negligente. Sim, alguém omitiu. Sim, alguém se esforçou menos do que deveria. Nos últimos anos assistimos a um desfile imperdoável de casos de violência sobre crianças em famílias que estavam devidamente assinaladas pelas autoridades. Neste momento, apurar todas as responsabilidades e repensar todo o sistema de protecção de menores é o mínimo que o Estado português pode fazer. É o mínimo que devemos a um bebé a quem tudo foi tirado, aos 50 dias de vida.»