Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Soares, a idade e o tabu (2)

Margarida Marante faz parte do interminável rol de celebridades actuais e de has beens que saltaram para o comboio de uma candidatura presidencial; integra a Comissão de Honra de Soares. Mas tal não parece bastante para a impedir de entrevistar os candidatos, na TSF. Atirando-lhes à cara, sem qualquer rebuço, frases destas: “Acho indecente, vergonhoso, que se utilize a idade do Dr. Mário Soares para o denegrir. Não acha o mesmo? Vai usar esse argumento?” Não sei o que o pobre Jerónimo Sousa respondeu. Mas sei bem com que força reforcei a péssima ideia que já tinha desta “jornalista”. Afinal, o tal tabu também é alimentado às claras.

PS: diz-me uma das minhas fontes do post anterior que não houve “reprimenda”; apenas dúvidas e inquietações do próprio e dos colegas. Fica anotado o meu exagero. Mas mantém-se o fundamental.

Só para irritar um pouco os fãs incondicionais dos EUA

Aqui fica o discurso de aceitação do Nobel da Literatura. De Harold Pinter, claro está. Quem mais se lembraria de falar assim à augusta Academia? “Direct invasion of a sovereign state has never in fact been America’s favoured method. In the main, it has preferred what it has described as ‘low intensity conflict’. Low intensity conflict means that thousands of people die but slower than if you dropped a bomb on them in one fell swoop. It means that you infect the heart of the country, that you establish a malignant growth and watch the gangrene bloom. When the populace has been subdued – or beaten to death – the same thing – and your own friends, the military and the great corporations, sit comfortably in power, you go before the camera and say that democracy has prevailed”.
Mas não é só de política que Pinter fala. Vão lá ler que vale a pena.

Soares, a idade e o tabu

Há em torno destas presidenciais um interdito absoluto: a idade de Mário Soares. Qualquer alma incauta que vagueie pela zona proibida adentro está logo sujeita a ser apelidada de “canalha”, “crápula” e coisas ainda bem piores. Quem quer que escreva uma linha sobre a campanha sabe bem qual a zona do mapa onde o mundo acaba e começa a barbárie. Temos todos de fazer de conta que não existe qualquer diferença etária entre candidatos. Pior: temos todos de ignorar qualquer atitude (ou deslize) de Soares que possa ser ligada à sua idade.
Exagero? Olhem que não: o tabu já infectou há muito os jornalistas que cobrem a campanha. Muitos sentem-se sobre brasas cada vez que relatam o dia-a-dia da caravana eleitoral soarista. O decreto não-dito e não-escrito é, mesmo assim, cristalino: nada de alusões, referências ou insinuações que possam ser lidas como estando apontadas à idade de Soares. Exemplo? Ao que me contaram, um jornalista que comparou o entusiasmo de crianças em torno do candidato com o que demonstrariam se fossem visitadas pelo Pai Natal foi logo alvo de uma reprimenda da sua hierarquia.
Assim, de gentil preocupação politicamente correcta, o tabu passou a auto-censura. Ninguém se arrisca a fazer eco de gaffes de Mário Soares. Quando ele há pouco explicava a alunos universitários a sua luta por essa Europa fora, em prol do “Não” ao projecto de constituição europeia, foi corrigido por um insistente coro de “Sins” da assistência. Um deslize inofensivo que tem alguma graça, como teve o de Valentim Loureiro há uns anos, quando desatou a berrar por Guterres num comício do PSD. Mas todos vimos imagens deste último episódio; do primeiro ninguém ouviu sequer falar.
De repente, o que parecia uma demanda de um decoro mínimo, começa a interpor-se como um ecrã translúcido entre os eleitores e as cenas da campanha. Esta louvável e doce intenção não clarifica, antes obscurece e enubla. Temos agora mais um mediador entre os espectadores e a “realidade” política: o pudor dos jornalistas.

Mas será esta uma estratégia viável? Ou arrisca-se, como grande parte das estratégias impensadas, a disparar pela culatra? José Gil apontou o inesperado peso que uma ausência pode transportar consigo. E a idade de Soares é o grande não-tema, o omnipresente mas invisível fantasma de toda a campanha presidencial. Se o filósofo tem razão, a sua invisibilidade não lhe vai tirar importância e premência. Antes pelo contrário.

Continuar a lerSoares, a idade e o tabu

Cineterapia

126703.jpg
The Sun Shines Bright_John Ford

É um filme que mereceu, à data em que escrevo, seis comentários no IMDB. Se cruzarmos esse epifenómeno com a informação de estarmos perante o filme preferido de John Ford, percebemos que uma parte fundamental da História do cinema repousa esquecida nesta hora e meia de pretos e brancos.

Tinha 120 filmes de idade. 59 anos de casmurrice e insolência. Tratava mal todo e qualquer que deixasse entrar na sua intimidade. E por isso cuidava deles. Orson Welles declarava-se discípulo. Truffaut e Godard ainda só rabiscavam em cadernos. Onde grafavam a palavra “auteur”. O mundo vivia a única década feliz do século XX. Hollywood preparava-se para fechar a fábrica de estrelas. E Ford fez um fracasso comercial que não tem ponta por onde se lhe pegue, por ser um todo indivisível. Estamos em 1953.

O que é uma pessoa? É aquele agregado molecular que sobrepõe a comunidade à lei, que escolhe o ideal em vez da comunidade, que elege o sentimento em prejuízo do ideal. É inevitavelmente um ser paradoxal, cadinho de contradições, aberração da lógica binária. Porque a vida não é lógica, nem sensata, nem piedosa. A vida é uma merda, e são as pessoas que a limpam.

Este filme ensina-nos a nunca confiar na palavra de um cão. Só por isso, estava justificada a invenção do cinema.

Isto já parece a TVI

São mais os intervalos para publicidade do que a programação propriamente dita. Agora, sou eu a deixar aqui um pequeno anúncio: hoje, a partir das 18:30, a minha micro-editora vai levar a cabo um distinto lançamento na Tv. da Praia, n.º1, Lisboa.
O livro a entregar aos apetites do mercado é, de acordo com o inspirado paleio da contra-capa, “uma viagem de descoberta, por um País que resiste e renasce através de produtos únicos: industriais por vezes, artesanais noutros casos, todos nascidos de uma forte ligação à Natureza. Do Licor de Poejo ao Arroz, do Linho ao Mel.
Em 12 capítulos iluminados pelas magistrais fotografias de Rui Vasco, Paulo Caetano traça-nos a História e as mil histórias por detrás de cada tradição, de cada processo arcaico. Desvendando um outro Portugal, arredado dos media mas pujante e surpreendente; onde o passado é também fonte de renovação. Provando que se pode conciliar modernidade e consciência. Que se pode continuar a ser português num mundo global.”
Pronto: se lá aparecerem, conhecem os autores, bebem um belo vinho e ainda provam os queijos da Serra que agora tenho aqui à minha frente a empestar o escritório…

É triste mas é verdade

Em contraponto ao sectarismo jubiloso do Super-Mário, o Pulo do Lobo admite sem rebuços que “tanto Manuel Alegre como Cavaco Silva conseguiram tornar a reposição de um Jogo Falado de 1995 à uma da manhã pela RTP Memória numa coisa interessantíssima”. Depois de constatarmos que há comentários no blogue de direita e não no de esquerda, contrariamente ao mito, vemos agora que o fair-play e a auto-ironia também já se passaram para o outro lado…

Vasco Pulido Valente insultou este senhor

“Talvez Cavaco e Alegre se safassem na Estónia”. Foi desta forma pouco elegante que Vasco Pulido Valente descreveu no “Público” o debate de ontem. E que grande injustiça cometeu! Ora leiam lá o CV do senhor Arnold Rüütel. E maravilhem-se com a sua sapiência em diversos domínios da agricultura. Ou com a sua fulgurante carreira sob o jugo da URSS. Acham que Alegre ou Cavaco alguma vez mostraram cometimentos que se comparem? E olhem que o seu antecessor, Lennart Meri, era cineasta e escritor. Não; aqueles dois nem na Estónia se safariam com facilidade…