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Trilogia do livrinho de Natal

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(Gravura de Raoul Haussmann)

Como todos os lares burgueses, recebemos este Natal o livro de Filomena Mónica, o terceiro volume da biografia de Cunhal (de Pacheco Pereira) e o romance de Philip Roth. Os dois primeiros estão lidos em velocidade, nos intervalos da campanha, o terceiro vai demorar mais algum tempo.
Sobre o em busca do tempo perdido da socióloga não me apetece falar. Emprestei-o à minha mãe que o está a apreciar. Sobre a obra do historiador-político, acho-a muito bem elaborada. Gosto deste volume de Pacheco Pereira, parece-me o mais conseguido dos três: o número de fontes citadas e o trabalho envolvido parece-me inteligente. Ao contrário do anterior volume, em que as páginas sobre “reorganização” afiguravam-se demasiado ligadas à entrevista feita pelo o autor a Vasco Carvalho, este parece-me muito bem argumentado. Não se pede a ninguém que não tenha ideias e preconceitos. Pacheco tem-nos aos molhos, mas isso não condena esta sua obra. Pacheco Pereira não fez disto um panfleto acéfalo, mas um investimento intelectual sério, que acessoriamente (não há bela sem senão) pode servir para branquear algumas das suas posições políticas mais primárias. Mas isso não determina, nem condena obrigatoriamente o livro.
Isaac Deutscher, com quem Pacheco foi erradamente comparado por Mário Soares, dizia que a história dos comunistas era demasiado importante para ser deixada apenas aos ex-comunistas e aos anti-comunistas, infelizmente parece ser este o destino de Portugal. O PCP é pouco inteligente nessa matéria: em vez de mostrar a grandeza daqueles que resistiram, imersos na vida real, assumindo erros e falando das questões mais polémicas, tem tendência de querer apagar tudo o que não coincide com a história dos santos. Ora os santos têm muito pouca piada, o valor de gente como Álvaro Cunhal foi a sua humanidade, a sua capacidade de transcender os erros e as fraquezas. Não se faz uma história politicamente séria, nem uma política com futuro, recorrendo a verdades instrumentais. As traições de Lindolfo, a presença de Francisco Martins Rodrigues na fuga de Peniche, o assassínio de Manuel Domingues, o “caso” Carolina Loff, fazem parte da história do PCP. Podem torná-la trágica e humana, mas não a fazem menos heróica.

Agit-prop em cheio no alvo

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Boas razões tem Jerónimo para não embarcar no ataque generalizado à imprensa que Soares lançou: é que a sua candidatura prefere atacar o mal na fonte. Assim, neste preciso momento dois esforçados militantes estão às portas do edifício do “Expresso” distribuindo com assinalável diligência (e cortesia, aliás) os seus folhetos. Se a próxima edição do semanário do tio Balsemão tiver como manchete qualquer coisa saída do Mais Livre, como “a cada dia Jerónimo avança!”, já sabem porquê.

Da raiva

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(Imagem gamada ao “Da Literatura”, o texto é só para justificar).

Falta raiva à política portuguesa. Estamos num país de falinhas mansas, em que todos aceitamos os pequenos insultos e as repetidas injustiças diárias, com um ar de destino complacente. Há anos que as nossas vidas pioram, e nós incorporamos o triste fado, como se de um caminho imutável se tratasse. Somos colaboracionistas do nosso próprio falhanço, da nossa total miséria, porque não conseguimos ter a coragem de dizer não.
Vivemos, independentemente do resultado destas eleições, em pleno rotativismo sovaquista (uma espécie de Sócrates com Cavaco). O país está na merda, mas os eleitores insistem em votar nos seus carrascos. Há quem garanta, como um aventurado apoiante de Cavaco, que Portugal está à beira do abismo e que o Professor é a nossa tábua de salvação. Resta saber o que faz uma tábua junto a um precipício: prancha de saltos?

“Munique”: a polémica e o disparate

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A bronca já dá que falar: o último filme de Steven Spielberg, o muito discutido “Munique”, parece condenado a não poder ganhar qualquer prémio nos Bafta Awards, atribuídos pela academia britãnica de artes cinematográficas. Imagine-se que os DVDs entregues aos membros da dita academia foram codificados para a região norte-americana, o que impede a sua leitura nos aparelhos especiais — destinados ao visionamento de material de cópia interdita — distribuídos no Reino Unido. Pois; parece episódio português.
O filme de Spielberg, com argumento do dramaturgo Tony Kushner (Angels in America) recapitula a missão de um esquadrão de assassinos da Mossad em busca dos terroristas palestinianos que em 1972 raptaram e mataram atletas olímpicos israelitas. E já foi acusado de aceitar como equivalentes os dois actos: o ataque e a subsequente vingança. A ver vamos; o que é mais do que os membros da Bafta podem dizer.

Em directo

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Imagem do Primeiro Concílio Aspirínico, que decorre a esta hora. Temas em franca e leal discussão: o Vindaloo é ou não descendente da vinha d’alhos? A “Margarida” será na realidade um heterónimo do João Pedro? O Valupi consegue levitar? O Nuno é mesmo um horrendo divisionista? O Zé Mário conseguirá cumprir as suas resoluções para 2006? E quem é que fez a foto acima, se o Júlio ficou em Beja?

Confirma-se o sacrilégio


Já houve mundos a acabar por menos: “Jobs unveiled the first Intel-based Mac, an updated iMac. The machine will come in the same sizes as its Power PC processors and will cost the same, but Jobs said it will be two to three times faster because it uses Intel’s dual-core Duo chip.” E lá entra o bicho maldito nas nossas lindas maçãs.
De seguida, porque não suporto ver uma tal imagem afixada aqui, podem ver o momento em que o CEO da Intel, num grotesco disfarce que denuncia a sua aliança com as forças do Mal, entrega o primeiro processador a Jobs. Bem; pelo menos não é um Pentium…

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A minha equipa de futebol

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No ISE, a minha equipa de futebol tinha o animado nome de “Tchernenko and the Coconuts”, conseguimos uma vez chegar às meias finais da taça de futebol da escola. Milagre ao nível da escola soviética, concorriamos com mais de 30 equipas e nós éramos um bando de coxos. Não foi nada mau!
É engraçado seguir as transferências de todos os atletas:
Guarda-redes: Miguel Portas (eurodeputado); defesas: eu e o Josue (economista na Sismet); ao meio-campo: Luís Carlos (grande gráfico), João Rosa (Banco de Portugal) e Paulo Madruga (Professor no ISE); ao ataque, o nosso ponta de lança: Sérgio Figueiredo (director do Jornal de Negócios).
Na altura, todos comunistas; hoje, só alguns. Como dizia o Guterres:”é a vida!”

Os novos cães de guarda

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Leio com espanto, como sempre acontece quando espreito as obras de João Carlos Espada, o anúncio da revista “Nova Cidadania”. A dita publicação, é, com a “Atlântico”, uma das duas revistas de ideias distribuídas e apoiadas pelo jornal “Público”, facto que expressa claramente a imensa pluralidade que grassa na cabeça de José Manuel Fernandes. Garante o anúncio: “6 anos politicamente incorrectos”. O meu comentário vai ater-se apenas a essa declaração, até porque, contrariamente à “Atlântico” que compro com alguma regularidade (revista a que o Rainha pediu emprego), só comprei uma vez a dita “Nova Cidadania”: não por razões políticas, mas por motivos estéticos. O grafismo desta publicação é uma clonagem, feita certamente por um designer maléfico, com vista à criação de um híbrido de uma revista da Coreia do Norte e de uma publicação de catequese.
Mas o que me interessa é o anúncio: “6 anos politicamente incorrectos”, quer dizer o quê?
– Opõem-se aos poderes estabelecidos? Estão contra os governos? Não têm lugar nas universidades? Contestam os banqueiros? Ameaçam a moral dominante? São perseguidos?
Nada disso! Limitam-se a ser uma espécie de “voz do dono”, ainda por cima querem silenciar outras vozes, garantindo que essas é que são politicamente correctas e hegemónicas. Olhando para a sociedade portuguesa: entre dinheiro, universidade e acesso a publicar a opinião, são os Espadas desta vida que são hegemonicamente ditatoriais.
O slogan mais conforme à “Nova Cidadania” seria: “6 anos a lamber botas”.