Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

A alternativa Shakespeare

Eu até compreendo a raiva dos muçulmanos diante dos 12 cartoons injuriosos.
Mas näo compreendo, nem tolero, a sua resposta.
Bandeiras queimadas? Ataques a embaixadas? Embargos e ameaças de morte? Ódio generalizado ao ocidente, sem distinçöes? Eis a mais estúpida e apocalíptica das reacçöes, a meio caminho entre a loucura e a barbárie.
Se eu fosse um muçulmano indignado, deixava as pedras no chäo e citava Shakespeare.
Aquilo do Hamlet, sabem, sobre haver “algo de podre no reino da Dinamarca”?
Para além de ser mais elegante, era também mais verdadeiro. É que até pode haver algumas coisas “podres” lá para os lados de Copenhaga (os malfadados cartoons, por exemplo) mas o resto do país e os seus habitantes näo merecem levar por tabela.

Qualidade portuguesa

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Saber falar é uma arte. Saber ler também. Luís Gaspar, «locutor de publicidade», tem-nas, uma e outra. Podem ouvi-lo no seu audioblog ESTÚDIO RAPOSA (www.estudioraposa.com), eventualmente pela ligação no TRUCA (www.truca.pt).

Aí se percebe como o nosso idioma – apesar do fechamento sonoro dos últimos séculos, que se vem acelerando – ainda tem sonoridades fortes e maviosas. Aí se aprende a ler aos outros: aos amigos, aquele poema que nos saiu esta tarde no café, aos miúdos, aquela história antes de adormecer. O efeito é o melhor. Os amigos ficam boquiabertos. As crianças não. Mas ficam crendo, para a vida, que o meu papá, a minha mamã, são os maiores.

A qualidade nunca esquece.

A liberdade não se encomenda

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Lars Refn foi o único cartoonista que, apesar do pedido do Jyllands-Posten, optou por não representar Maomé, o profeta, mas Mohhamed, aluno do 7ºA. O jovem aponta para um quadro onde se pode ler, em persa: «Os jornalistas do Jyllands-Posten são um bando de provocadores reaccionários».

Lars Refn usou da sua liberdade de expressão como queria e não como lhe foi ecomendada. O jornal, apesar de amar a liberdade de imprensa, não gostou da graça e escreveu, como legenda: «pensamos que Lars Refn é um cobarde que não entende a gravidade da ameaça muçulmana à liberdade de expressão». Parece que o Jyllands-Posten adora a sua liberdade, mas não convive bem com a liberdade dos outros. Insultar o jornal que lhe publica o desenho, isso sim, é ter tomates.

Caricaturas (2)

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A ideia de que o desenvolvimento científico e tecnológico implica um desenvolvimento ético, é falsa. Como se viu há uns anos na Libéria, é possível cortar um homem aos pedaços, castrá-lo, e matá-lo e filmar tudo com uma câmara Sony, para ser visto na televisão.
As câmaras de gás e os gulags são tão modernos como os atentados do 11 de Setembro.
O nazismo, o neoliberalismo, o estalinismo e o Islão radical são todos muito modernos.
Os fundamentalistas islâmicos de vários matizes, apesar de reivindicarem o seu suposto anti-ocidentalismo, são mais filhos do Ocidente do que do Islão tradicional. A convicção que une todos os modernos é a possibilidade de moldar a humanidade e o planeta a golpes de míssil ou de explosões de bombistas suicidas.
Quando o Financial Times , de 4 de Setembro de 2002, pela pena impoluta de Martin Wolf, garantiu que “o 11 de Setembro foi perpetrado por fascistas islâmicos” tinha toda a razão: de facto, como notou John Gray, o Islão radical é como o fascismo, principalmente por ser inequivocamente moderno. O fundamentalismo é um sintoma da doença da qual pretende ser a cura.
É muito interessante verificar, como escreve Amin Maalouf no “Les identités meurtrières”, que num passado recente os islamistas eram vistos, no Médio Oriente, “como inimigos da nação árabe e muitas vezes como espiões do Ocidente”. Foi o falhanço dos projectos de modernização nos países árabes que levou à expansão do fundamentalismo islâmico. A base de expansão, desse movimento, baseou-se em muitos dos desiludidos do socialismo e do nacionalismo nasserista. É nas universidades e com as centenas de milhares de licenciados desempregados, que o islamismo radical ganha forma.
Como escreve, um tal Kosrokhavar, citado por Castells: “Quando o projecto de constituir indivíduos que participem plenamente na modernidade revela o seu absurdo na experiência real da vida quotidiana, a violência converte-se na única forma de autoafirmação de um novo sujeito (…)A exclusão da modernidade adquire um significado religioso: de este modo a auto-imolação converte-se na via para lutar contra a exclusão.” (Castells, Manuel: “ La Era de la Information, Volume II, El Poder de La Identidad”, pag 43.

Caricaturas (ponto prévio)

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Leio no Guardian, de hoje, que o clérigo radical islâmico, Abu Hamza foi condenado, na Grã Bretanha, a sete anos de cadeia, por incitar o “ódio racial”. Parece que a célebre “liberdade de expressão” não funcionou com ele…
Nesta tempestade das caricaturas, a propalada “liberdade de expressão” é um fait divers. Segundo o Diário de Notícias de ontem, a história desta crise é edificante: um autor de um livro xenófobo propôs “pinchar o Alcorão com sangue menstrual” e queixou-se de não ter conseguido desenhadores para caricaturar Maomé. O jornal dinamarquês Jyllands-Posten, que tem a propósito o belo facto de ter sido apoiante do nazismo, tomou o desafio em mãos e encomendou 12 caricaturas do profeta dos muçulmanos. Publicou, em primeira mão, o Guardian, que o mesmo expoente da liberdade recusou, recentemente, aceitar caricaturas de Jesus Cristo, sob a alegação que iriam “ofender as pessoas”. As cabecinhas bem pensantes cá do burgo, resolveram afunilar a questão das caricaturas para a liberdade de imprensa, como se cá no Ocidente e fosse um valor absoluto. É sabido que em Espanha o dirigente do Harri Batasuna vai ser julgado por dizer que o Rei de Espanha liderava “a camarilha” que manda; já foram proibidas caricaturas do rei da Bélgica, por “ultraje aos símbolos nacionais”. O sacrossanto mercado impede, em muitos países, a utilização do Tintin, Asterix e Rato Mikey nas caricaturas. No entanto, parece que Maomé com cabeça de homem bomba não vale um rato da Disney…
Talvez mais importante do que restringir a questão, à liberdade de expressão e liberdade de imprensa, seria analisar o conteúdo das ditas caricaturas e o que significa esta explosão das massas muçulmanas. No fundo, era interessante analisar onde nos levam estas dinâmicas tão caras aos apóstolos do “choque de civilizações”.

Esta pergunta não é parva

E se…

E se os brilhantes espíritos, os inefáveis artistas que decidiram misturar religião com política de maneira desnecessária e ofensiva, tivessem reflectido duas vezes antes de criar a confusão e interferir com a existência e a segurança de outras pessoas, tinha-se perdido alguma coisa? O que é que se ganhou, em todo o caso? Quem é que ganhou alguma coisa com esse exercício fútil da “liberdade de expressão”?

João Camilo no seu blogue blueeverest.blogspot.com

Pagar o galo a Asclépio

O tema do Holocausto Nazi é aquele que, desde o início da WWW, mais flame wars provoca. Ao ponto de ser seguro abandonar qualquer discussão onde ele apareça, pois o que virá a seguir é o cardápio da irracionalidade. O tema do terrorismo sob bandeira islâmica vai por igual caminho. Unindo os dois temas, uma mesma fulguração: a lógica da ausência de sentido. Para designar essa experiência paradoxal, em que assistimos à organização metódica do caos, temos um palavrão com muito pouco gasto: derrelicção. Mas a derrelicção é tramada, não dá para um gajo se sentar e fumar um cigarro, fazer uma mijinha. Por isso, o costume é a malta voltar para trás e ir abancar noutro lado qualquer ou nem sequer lá entrar.

Quando alguém (seguramente de boa-fé, bem intencionado, “boa pessoa”; isso nem se discute, dando-se já como provado) se permite falar do Holocausto Nazi com a facilidade com que fala de pilinhas e bananas, apresentando uma contabilidade macabra como critério de valor e substância de argumentos, eu reconheço-me incapaz de retorquir. Porque fico triste, e depois dá-me para o silêncio. É que o nazismo continua a desafiar-me, e cada uma das suas vítimas a tentar falar comigo. Imagino-me lá, nessa época, em qualquer um dos lados da barricada, mas especialmente represento-me como cidadão alemão. Que teria feito? Teria sido cúmplice activo? Cúmplice passivo? Cobarde? Mártir? Herói? E acabo sempre com a suspeita de que teria sido mais um esmagado pela máquina nazi, provavelmente um cobarde. A mesma agonia trágica para o nosso período salazarista: teria tido a coragem daqueles que lutaram pela liberdade em Portugal ou teria sido um filho-da-puta qualquer?…

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