Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Confissão

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Eu cá só critico os amigos. Não tenho paciência para perder muito tempo com disparates de gente que não conheço. E, como tenho só meia dúzia de amigos, isso poupa-me ter de fazer críticas a esmo. Recomendo por isso, vivamente, a minha última crítica, ao último livro do meu amigo António Figueira, saída no último número da revista Manifesto. Estou convencido que é uma crítica que ele próprio poderia ter escrito. Estou à espera de ganhar a comenda Pedro Rolo Duarte, a título póstumo.

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Post para o José Tim (aka Brigada Bigornas)

Meu amor.

Já era para te escrever há algum tempo, mas só hoje é que consegui reunir a predisposição e o tempo necessário para alinhavar estas palavras. Como com certeza sabes, a tua aparição inicial na caixa de comentários da Aspirina foi, para mim, motivo de orgulho e diversão. Sou muito sensível à pachorra dos «pequenos Sísifos» e não me custa nada confessar que, todos os dias, quando acedo ao blog e invariavelmente verifico o teu labor frenético, fico sempre, como direi?, «deslumbrado» com a tua persistência. Nesses momentos, imagino-te sempre em casa todo nu e suado, a fumar cigarros de menta enquanto vais fazendo copipeistes nas caixas de comentário do Aspirina. Já não sei muito bem quando me apaixonei por ti. Sabes muito bem como são estas coisas do amor: é um bicho que vai crescendo a gente não sabe muito bem quando, como, e não raras vezes porquê, e, quando damos por ela, já estamos reféns da sua condição. Meu amor. Se tivesse escrito esta carta ontem, estaria neste momento a suspirar pela tua boca imunda e pelos teus olhos que imagino de lince. No entanto, hoje, quando entrei na área privada do Aspirina, reparei que, durante a tua noite de insónia, tinhas publicado qualquer coisa como uma centena de comentários. E tu sabes o trabalhão que dá apagar uma centena de comentários? Eu explico. Se tiveres um PC manhoso como o meu e um acesso à Internet comparável à velocidade de um veículo em hora de ponta na Rotunda de Santo Ovídio, apagar um comentário demora, vá lá, uns bons trinta segundos. Multiplicas isto por cem, adicionas o tempo necessário para carregar cada página de comentários e eventuais bloqueios do meu computador e facilmente chegas a algo que se aproxima perigosamente dos sessenta minutos. Meu amor. Eu não sou nenhum José Matias. Não me importaria de gastar diariamente ainda mais tempo contigo, se esse tempo significasse passearmos de mão dada pelas planícies do Alentejo ou pelas estradas sinuosas do Minho à procura de ocasos que de certa forma reflectissem a paixão que nos engrossa o sangue e nos dilacera as vísceras. Agora, passar diariamente uma hora a apagar os teus comentários, convenhamos, é algo que põe em causa as definições enciclopédicas da monotonia. E é por isso, meu amor, que te escrevo num tom lilás. Eu tenho amigos, conheço imensa gente. Amigos que ocupam os cargos mais altos dos serviços de informação de vários países e gente que trata o Bill Gates por «tu» e aqueles moços do Google por «queridos». Há cerca de uma hora, forneci-lhes o teu IP e já recebi entretanto meia dúzia de e-mails com informações precisas sobre a desgraça comovente da tua pessoa. Sei a cidade onde vives, por exemplo. A loja onde compras as saias de bombazina e as blusas de cetim que vestes para sair à noite movido pelo desespero branco da insónia. Já sou senhor de sete dígitos, devidamente ordenados, do teu BI e de um gráfico colorido onde figuram os ramos circundantes da tua árvore genealógica. Meu amor, meu amor. Fica aqui o aviso: mais um ataque de comentários teus como o da noite passada e garanto-te que irei à tua procura. Não para consumarmos a nossa paixão (infelizmente, foste tonto, e já é tarde de mais para isto), mas para te dar a maior salva de palmadas que este teu traseiro que presumo liso, róseo e rechonchudo já alguma vez levou na vida. E blogar de pé, pois é, é uma verdadeira chatice.

Beijos muitos

extra_let’s just be friends

Fosga-se. Também quero entrar nisto. Primeiro era apenas um duelo entre o Zé Mário e o George. O nosso Zé, com o económico recurso ao negrito, tinha clarificado a questão. Depois veio o Luís e cantou a tabuada:
1 crítico X 1 amigo = 1 crítico com um amigo. Finalmente, entrou o Fernando e, ex abundantia cordis, deu um açoite na criança mal comportada. Ressarcido fui para a cama, ajeitei as ceroulas, bendisse o saco de água quente e preparei-me para sonhar com o movimento cívico do Manel. Estava quase a conseguir quando me aparece o espectro da Constança. Levitou-me até um palimpsesto onde ainda se conseguia ler o nome “Luís Rainha” rasurado e que, garanto, era uma cópia de um texto meu. Achei bem, porque eu escrevo muito bem e ela mostrou ter gosto. Mas, como estava cheio de sono, não lhe dei conversa. Só que havia outro espectro na sala, o Vasco. E de imediato pensei “Às tantas, a Constança é amiga do Vasco.” Este raciocínio incendiou-me, porque eu ando há que tempos a tentar ser amigo do Vasco. Não sei se já vos aconteceu, quererem muito ser amigos do Vasco e não o conseguirem, mas a mim está sempre a acontecer. De modo que fiz um esforço para entender o texto da Constança, de modo a poder fazer-lhe um elogio, de modo a ela pensar que eu era amigo, de modo a ela dizer bem de mim ao Vasco. Lá consegui sacar uma ideia: vivemos em Portugal. E disse-lhe “Constança, acertas quando dizes que vivemos em Portugal.” Foi quanto bastou, a mulher prometeu marcar-me um almoço com o Vasco. Ufano com o homérico triunfo, decidi fazer-me amigo do George. É que eu já sou amigo do Zé Mário, e constato como tal condição está prenhe de vantagens. Tudo começou numa festa, no momento em que me debruçava para capturar o último pastel de massa tenra. Nisto, o Zé Mário antecipa-se e não só me entrega o pastel como ainda tem o cuidado de o embrulhar num guardanapo de linho. Olhei-o com firmeza e disse-lhe sem vacilar “Pá, se é para estares com cenas destas, mais vale sermos amigos.” Ele compreendeu a mensagem e ainda hoje me fala disso. Neste espírito, fui ao Esplanar. Apanhei o George com uma réplica do Fernando Venâncio na mão esquerda, exactos 10 cm, e uma agulha ferrugenta na mão direita, inexactos 5 cm. As espetadelas eram frenéticas, umas à frente das outras, outras ao lado das outras e ainda outras muito parecidas com outras atrás mencionadas. Sem levantar os olhos nem abrandar o vodu, berrava “És um merdas.” “És um merdinhas cagão.” “Nunca, mas NUNCA serei teu amigo!” Eu, como quem quer a coisa, tinha-me encostado ao texto genesíaco das toupeiras. Estava a curtir aquilo, era giro, tanto que me distraí e deixei de ligar ao que ele dizia. O post possuia uma concavidade onde, fazendo alguma pressão, um gajo (mas só um, fica o aviso) se conseguia enfiar. Assim recostado, com os presuntos quase a tocar no texto de cima e uma perspectiva que trocava o eixo das palavras abcissas pelo das ideias ordenadas, ia-me entretendo a ler a peça. Estava mesmo bem esgalhado, o magano do post. Aparentemente, a intenção seria a de impedir que o Nuno escrevesse no DN sobre um eventual livro do Zé Mário. Fiquei curioso. O George não se engana, toda a gente sabe, e não lhe faltam recursos críticos, todos hão-de acabar por saber. Ora, a única conclusão lógica era a de estar na calha um livro do Zé Mário. Isso deixou-me triste. E também triste. Porque o Zé não me tinha dito nada. E agora interrogo-me: seremos só amigos?

Sete notas finais

Há coisas difíceis de explicar. A neve em Lisboa, por exemplo. Ou as proporções atingidas pela polémica em que me quiseram converter, à má fila, no bode expiatório de todos os insondáveis pecados da crítica literária portuguesa. Desde sexta-feira, o tema do “crítico que escreve sobre o livro do amigo” espalhou-se pelos quatro cantos da blogosfera, despertando toda a sorte de oportunismos, hipocrisias, ressentimentos, golpes baixos, demagogias e também, devo assinalar, igual número de reacções equilibradas, lúcidas, sensatas, por parte de bloggers que não se deixam cegar pela esquizofrenia conspirativa e maquiavelicamente moralista de João Pedro George.
Recuperar todos os links, agora, seria fastidioso (muitos deles estão elencados no fim deste post). Quem não acompanhou a história desde o início, acabará por a encontrar, mais ou menos distorcida, numa qualquer esquina deste mundo digital. Se escrevo uma última vez sobre o assunto, é apenas para esclarecer alguns equívocos e deixar bem clara a minha posição sobre esta matéria de tantos melindres.

1. Se descontarmos os insultos gratuitos e a bazófia pachequiana, o cerne das acusações de JPG é este: eu escrevi um texto sobre um amigo meu, Nuno Costa Santos, o que consubstancia gravíssimo crime de lesa-tudo-e-mais-alguma-coisa, além de ser uma prova de preguiça, falta de recursos críticos e de uma escrita “em função de favores” que o Nuno, obviamente, mais tarde reciprocará. Quanto à falta de recursos críticos, nada a opor. Trata-se de uma opinião pessoal respeitável, embora contraditória com esta, assinada pelo mesmo JPG há pouco mais de três meses. Já a insinuação de que concedo “benesses e mesuras a amigos” é, mais do que uma atoarda, um acto difamatório lançado para o ar, à toa, com a soberba e o desplante dos inimputáveis.

2. Na sua verborreia descontrolada, JPG insurge-se várias vezes contra o “bater palmas só porque é meu amigo” ou contra quem diz “bem passivamente, por reflexo de amizade”. Que o meu texto seja tudo menos um panegírico, aliás com reservas explícitas que já sublinhei, foi-lhe completamente indiferente. Prova-se que eu afinal não bati palmas, mas ele recusa-se a voltar atrás. Salta aos olhos que eu estive muito longe de dizer apenas bem, passivamente, pelo tal reflexo de amizade e ele o que faz? Reincide na grosseria e nos insultos. “Repito: o texto que José Mário Silva escreveu é sintoma de medievalismo e de oportunismo. Mais, denuncia a estrutura mental de um crítico que ainda não atingiu a idade de pensar.” Há muito tempo que não via tamanha desonestidade intelectual.

3. Levado pela verve, JPG não se limita a terraplanar tudo o que lhe aparece à frente. JPG também inventa, acrescenta, mente e omite. Mente, por exemplo, quando dá a entender que o Nuno Costa Santos trabalha na redacção do DN. Não trabalha. Nunca trabalhou. E omite, por exemplo, que o Nuno é apenas colaborador pontual do suplemento 6.ª (como foi em tempos do DNA) sem sequer fazer parte da ficha técnica.

4. Deixemos os detalhes e sigamos então para o fulcro do problema: pode-se ou não se pode falar sobre livros de amigos? Neste ponto, concordo com o que Eduardo Pitta escreveu aqui e aqui. Resumo das ideias principais: “Frequentes vezes levantei objecções a livros de amigos, circunstância que afastou dois ou três; enquanto, do mesmo passo, nunca regateei elogios a livros de autores acerca dos quais, enquanto pessoas, tenho as maiores reservas. Mas quando os livros valem por si, a pessoa do autor é irrelevante.” (sublinhado meu); “É de um puritanismo inadmissível pretender que alguém não escreva sobre amigos ou conhecidos. Se as pessoas tivessem um pouco mais de mundo, sabiam que outra coisa não se faz desde Homero”; “O problema não está em escrever sobre amigos e conhecidos, mas na eventual troca de galhardetes, infelizmente comum em certas moradas. Se a recensão for isenta, ninguém pode acusar o crítico de favoritismo”. A minha legitimidade para escrever sobre amigos (e já o fiz no passado, dizendo bem) passa pela consciência de que abordei esses livros como abordaria quaisquer outros: de forma honesta, sem benevolência nem piedade, no pleno uso das minhas faculdades críticas, por muito subjectivas e diminutas que elas sejam. Essa consciência está limpa e não há ataques maliciosos capazes de a conspurcar.

5. Corolário lógico do ponto anterior: mesmo que se possa falar sobre livros de amigos, deve-se falar sobre livros de amigos? Agora mais do que nunca, eu diria: manda a prudência que não. Justamente porque se abre campo a todo o tipo de suspeitas, conjecturas e especulações, esse caldo de que se alimentam os oportunistas da estirpe do JPG. Por muito seguros que estejamos da nossa honestidade, nunca faltará quem se disponha a duvidar dela e a tecer as mais estapafúrdias conspirações. Até porque o que há mais para aí são fretes verdadeiros e miseráveis conúbios, secretos ou às escâncaras. Não é pelo facto de JPG ter falhado o alvo que o alvo deixa de existir.

6. Concluamos. Foi legítimo escrever sobre o livro do Nuno Costa Santos? Tenho a certeza que sim. Era aconselhável escrever sobre o livro do Nuno Costa Santos? Admito que não. Porque raio escrevi eu então sobre o livro do Nuno Costa Santos? Para ser o mais sincero possível, foi uma contingência, mais do que uma opção. E o Nuno Costa Santos, vítima colateral deste processo todo, nada teve a ver com essa contingência.

7. Coda: há muitas pontas por onde pegar na problemática da crítica literária; pena é que o JPG tenha escolhido logo a mais fútil e insignificante.

Game Over.
Pela minha parte, o “banzé escusado” termina aqui.

[Post publicado em A Invenção de Morel.]

Betume da Judeia I

«Fotografia, s. f. Arte de fixar por meio de agentes químicos e com o auxílio da câmara escura, a imagem dos objectos exteriores, quer directamente sobre chapa, quer por uma reprodução da chapa sobre papel ou sobre outra chapa.»
ARTUR BIVAR, Dicionário Geral e Analógico da Língua Portuguesa, 1948

«Fotografia é uma técnica de gravação por meios químicos, mecânicos ou digitais, de uma imagem numa camada de material sensível à exposição luminosa.»
Wikipedia

Como se pode facilmente constatar, a definição de fotografia foi, ao longo dos anos, tornando-se cada vez mais lata à medida em que foram evoluindo as técnicas que estão associadas à sua produção. Poder-se-ia, inclusivamente, esboçar-se uma definição ainda mais ampla e actual do que a fornecida pela Wikipedia: Fotografia é uma técnica de gravação por meios químicos, mecânicos, digitais ou biológicos de uma imagem numa camada de material sensível à exposição luminosa.

O que é, então, uma fotografia?

Sendo a fotografia o resultado de um processo, tentarei desmontar as suas várias fases:

1. Gravação, fixação ou impressão (suporte que conserva a informação);

2. Imagem (fonte de luz directa, reflectida por objectos ou induzida por cargas eléctricas);

3. Sensibilização (suporte sensível à exposição luminosa, isto é, material que sofra alterações físicas e/ou químicas quando atingido por fotões).

Se virmos uma transparência pintada com uma tinta translúcida projectada numa tela, não poderemos, à partida, afirmar que estamos perante uma fotografia, na medida em que não existe um suporte fotossensível, nem um meio para a sua conservação. Contudo, se utilizarmos um digitalizador, a mesma imagem anteriormente projectada adquire, automaticamente, qualidades fotográficas…

Aviso (amigo) para Virginal George

Começo por declarar que admiro João Pedro George. Direi mais: sinto-me feliz por ele existir. Se isto parecer uma declaração de amor, perceberam mal. Mas é uma declaração de amor à vida, que nos fez coincidir nesta zona e neste tempo de um tão vasto planeta.

Dito isto, direi também que a felicidade não é total, e que começou já a abrir gretas. Se é verdade divertirem-me as suas leituras de Filomena Mónica ou de Rodrigues dos Santos (fico pelos últimos visitados pelo doce olhar do lince), causam-me calafrios os seus organigramas da crítica literária. Já fui objecto de um deles, na Periférica, e pude apor-lhe um circunstanciado embora contido comentário (obrigado, Luís, por lembrá-lo).

Sejamos singelos: há um elemento de intromissão policial nesses divertimentos georgianos. Não é por alguém escrever sobre a obra de um conhecido, ou mesmo amigo, que se abre a porta à desonestidade. Lembrou-o já o Pedro Mexia. O efeito dos atidos controlos de George poderá ser, até, o criar de agora autênticas injustiças.

Vamos a um caso pessoal. Eu sinto-me inibido para escrever sobre José Rentes de Carvalho. Já o fiz há uns anos, no Expresso, e gostaria de voltar a fazê-lo. Os seus livros (depois de retumbantes sucessos em neerlandês), começaram a aparecer com mais regularidade em Portugal. Acontece que Rentes de Carvalho é um prosador primoroso e um efabulador de imensa força. E isso é raro – acreditem, por favor – entre autores portugueses actuais.

Ora, porque me proíbo eu de dizê-lo mais vezes e mais publicamente? Por isto: Rentes e eu vivemos na mesma cidade, a longínqua Amsterdão, e calha sermos dois de muito poucos escritores portugueses locais. Há-de ter-se a medida da minha frustração sabendo que não nos damos particularmente bem e que em 30 anos não tomámos um só café juntos.

Declaro-me, pois, vítima, e vítima consciente – portanto, e ainda por cima, vítima solidária -, do terror de observadores como João Pedro George. E considero que seria lamentável, seria péssimo, que o espaço literário português ficasse ensombrado pelas medonhas asas de uma harpia assim.

João Pedro George é muito mais interessante, e muito mais útil, quando não nos observa por esquemas. Quando só mostra a forma bizarra, ou monstruosa, de alguns microclimas da nossa realidade. Logo que esquematiza, torna-se um aparelho de observação, algures num outer space. Asséptico e realmente virginal. E frio e inabitável.

O desassombro

Nunca tinha visto falar José Pacheco Pereira. Tinha-o avistado, há uns anos largos, em Vila Franca de Xira, num colóquio em que fui dizer umas coisas, já não recordo quais, sobre o neo-realismo. Mas só ontem o tive mais por perto e o ouvi.

Foi na livraria Bulhosa do Campo Grande, em Lisboa. Aí foi apresentada a mais recente obra de JPP, Quod erat demonstrandum, Diário das Presidenciais (Julho 2005 – Janeiro 2006), da Alêtheia Editores.

E gostei do que ouvi. JPP fez ele próprio a apresentação do livro e fê-lo de modo comunicativo, despretensioso, respeitando-nos a nós que o ouvíamos. E o respeito estava sobretudo na simplicidade com que se expôs, a si, e àquilo que pensa da política portuguesa e que prefere nela. «A política portuguesa é interessantíssima», afirmou a certo momento. A quem é que já ouvimos isto? A ninguém. O que é ‘correcto’ é chamá-la uma chachada, nunca um terreno de surpresas. Ora ela revela-se feita por medida para divertimento de JPP, e depois nosso. De vários temas o ouvimos afirmar: «Ninguém se lembra de dizer isto», «Está debaixo dos olhos e ninguém vê». Dir-se-ia parvoíce, mas é verdade: este país parece feito de gente que se recusa a ver, e acha muito mais engraçado congeminar, extrapolar, sonhar, enfim.

Encantou-me (não adoço o termo) aquele imenso desassombro, aquela nenhuma preocupação com a conveniência do que dissesse, a desarmante ausência de calculismo. Via-se que estaria disposto a levar o seu comentário até ainda mais inóspitas paragens, assim houvesse quem o estimulasse.

Um dia, haverá três anos, queixei-me da escrita de José Pacheco Pereira. Achei-o vago, confuso, desmazelado. Seguramente porque se deu, ele próprio, conta de que o seu público merecia melhor, a expressão revigorou-se-lhe e é hoje agradável, translúcida e feliz.

Três ou quatro indivíduos assim, e este País será logo outro.

Boas notícias para cibermeliantes e criminosos em geral

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A Microsoft vai tratar do hardware e do software necessários à Polícia Judiciária, na sua incansável luta contra o cibercrime. Como bónus, ainda vem incluída a “assistência técnica”. Ficam assim assegurados, com a assinatura deste protocolo, quatro anos de relativo sossego para os criminosos nacionais. E anuncia-se a expansão do vocabulário técnico dos agentes da Judiciária: em breve este vai incluir novidades como crash, freeze, bug, virus, trojan, system error. Que outros milagres nos trará Santo Bill Gates, nesta sua visita?

O ex-candidato e os seus temas

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Vasco Pulido Valente, o mais recente espectro famoso a assombrar a blogosfera, dedica-se a embirrar um pouco com Manuel Alegre. Ou a propósito da sua baixa meio estranha, ou dos “temas” que parecem tirar o sono aos pensadores de serviço na sua campanha. Estes, se bem percebi a coisa, continuam em busca do seu santo graal: o que irão fazer com um milhão de votos? O bom senso responderia “nada”, uma vez que ninguém deu a tal pandilha voto algum; houve quem votasse num dado candidato naquelas eleições e pronto. Mas estou capaz de apostar que o apelo do palco vai mesmo ser forte demais. A alegre tragicomédia ainda vai dar pano para muita gargalhada.
Por mim, tenho alguma pena de não ver o bardo em Belém. Era garantia de uma coabitação pacífica e sem história: desde que Sócrates cumprisse a sua quota semestral de inaugurações de estátuas do Presidente-Poeta, tudo correria sobre rodas. É que não estou mesmo a ver outro “tema” nas recentes intervenções do homem que não fosse ele mesmo.