Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

As últimas palavras

A leitura de um post do Zé Mário sobre as últimas palavras de Pessoa («I know not what tomorrow will bring»), trouxe-me à memória uma história engraçada (considerem esta última palavra um eufemismo – na verdade, eu acho a história absolutamente hilariante). Isto foi há cerca de sete ou oito anos, estava eu num café a pastar a toura, quando, de repente, ouço no televisor do estabelecimento que a Madre Teresa Calcutá tinha morrido. Logo de seguida, entra uma reportagem em que um jornalista francês com um péssimo Inglês faz a seguinte pergunta a uma das irmãs da Congregação que, supostamente, acompanhou os últimos momentos de vida da Madre Teresa:

– Which were her last words?

Já dizia Shakespeare que «the tongues of dying men enforce attention like deep harmony» e, como é óbvio, a minha atenção ficou redobrada: que últimas palavras terá dito a Madre Teresa? Estava curiosíssimo.

– Sister, please, which were her last words?
– What?

A irmã era bastante idosa e tinha dificuldade em ouvir a pergunta. Como com certeza saberão, existe uma paranóia sublime em relação às últimas palavras de pessoas famosas. As minhas favoritas, por exemplo, são as de Massimo Taparelli Azeglio («Ó, Luisa, tu chegas sempre quando estou de saída»), Beethoven («Aplaudem, amigos, que a comédia chegou ao fim») e de Sócrates («Crito, eu devo um galo a Asclepius – vê se pagas a dívida por mim»). Por isso, estava «mortinho» por saber

– Her last words. Which were her last words?
– What?

Estava difícil, caramba. Com medo de perder o momento em que a senhora percebesse finalmente a pergunta, levantei-me da mesa e aproximei-me do televisor mesmo a tempo de ouvir pela última vez:

– Which were the last words of Madre Teresa?
– Oh, I understood now. You mean the last thing she said before she died?
– Exactly.

Ponho-me em bicos de pé, o coração nas mãos, e ouço (juro) a bendita senhora dizer…

– Her last words were: «I can’t breathe».

Momento cultural cavaquista

A propósito do papel fulcral que Cavaco vai jogar na cultura lusa, segundo os seus apaniguados, há que prestar homenagem à primeira obra a beneficiar de tão augusta inspiração. Falo, claro está, do belo, inspirado, sublime, lindo hino de campanha de Cavaco. Ouçam-no aqui; baixinho, para não incomodarem os vizinhos.
Pois é. Custa a crer, de tão mau. Mas do que é que estavam à espera? Chopin, não? A coisa arranca com uns delírios confusos sobre o “Futuro”, que é “sempre agora” e que nos leva a “saltar o muro” (esta rima forçada tem um certo ar de incentivo à emigração não tem?). Depois, chega o refrão. Aliás, chega e nunca mais se vai embora:
“Fazer Portugal maior
É romper a bruma
Abrir o dia
É rasgar o medo
É fazer melhor”
Pena é que o poeta não tenha feito uma forcinha para arranjar rimas para “Cavaco”. De “caco” em diante, a musa teria por certo muito com que se entreter…

Concurso Gargalhadas de Betão

Eu, a namorada e o gato Negri estamos a promover um concurso para os leitores do Aspirina B.
O objectivo é saber quem é o colunista mais hilariante da imprensa portuguesa.
Seguindo o exemplo dos Globos de Ouro, dos Óscares, da Farinha Amparo e de outros eventos de grande nível, o “Gargalhadas de Betão” é um concurso transparente, em que se vota em nomes que o júri nacional (eu, o gato e a namorada) previamente pensou. Aos outros elementos do Blog será permitido – a democracia assim o exige – que acrescentem sucintamente as razões da nossa escolha. Já aqui derramo (linda palavra) a lista dos meus eleitos : João Carlos Espada, pela insistência; José António Saraiva, pelas memórias; João César das Neves, por respirar; e Pedro Strech, pelo artigo no Público (“A marcha dos Pinguins”). Não resisto em transcrever uma longa passagem deste belo exemplar de prosa (não é possível reabilitar os electrochoques???):
“Como pinguins, amamos.
Incondicionalmente percorremos a vida, caminhamos o frio a gelar-nos o coração, os ossos, a vida suspensa, sem rumo
Quando o branco quer dizer solidão, ora felizes na descoberta do outro
Quando chega o momento de saber que és tu, sim, não pode haver engano:
Por ti fiz todas a distância de dias e de noites persistentemente, por ti cheguei quase ao desespero (NR: nós também se esta coisa continua), até que, por fim te encontrei. E, depois como pinguins dançamos, do corpo solta-se um calor que é só nosso, rompem abraços
E, de repente, tudo é alegria, certeza, festa que desejamos não acabe nunca até que a alma se prenda
Definitivamente pela marca inesquecível de um no outro.
Como é possível tanto amor depois de um extremo cansaço (NR: Doping?).
E como pinguins, perguntamo-nos ainda: Sim, afinal o que seria de nós
se um não tivesse realmente o outro?
E como resposta tarde, de novo espera o tempo de esse amor florir e com ele a vontade de escrever:” (E O TEXTO CONTINUA SEMPRE ASSIM DURANTE MAIS 66 LINHAS).

Linhas cruzadas

A Aspirina B é quase gémea de uma invenção do Zé Mário. Esta coincidência no tempo foi completamente fortuita, mas não deixou de produzir alguns intrigantes efeitos secundários. Começaram estes quando eu afinava o nosso template; volta meia volta, dava com o endereço morel.weblog.com.pt na minha barra de endereços. Lembrei-me da obra de Bioy Casares, estranhei a invasão inopinada, mas não dei mais importância ao caso. Só quando soube que tal blogue de inspirado nome era obra do ZM é que reparei na bizarria do acontecido.
Agora, a assombração persiste. Alguns posts recusam-se teimosamente a aceitar comentários, emitindo os seus queixumes em nome de um tal Apache/2.0.53 (Fedora) Server at morel.weblog.com.pt Port 80.
Anda por aqui um mecanismo oculto a operar ínfimas maravilhas. A novela que cedeu o nome ao blogue do Zé Mário falava-nos também da aparente sobreposição de dois mundos, de dois tempos. Será que a Aspirina é um mero fantasma electrónico, um glitch de HTML, da Invenção? Ou será que este blogue faz mesmo jus ao seu nome e não passa de uma excelente e bem urdida ilusão?
Estou confuso. Mas, afinal, o que seria de esperar quando um gajo se mete com borgesianos?
Agora, já pedi ajuda ao Paulo Querido, o vero Morel da nossa ilha blogosférica. Esta avaria pode ter o seu quê de inquietante e poético, mas é também muito irritante.

Emmimmesmado

Chove. E sempre que chove oiço sempre as pessoas a dizerem sempre as mesmas coisas de sempre. Oiço ou ouço? Não interessa, porque elas não gostam da chuva. Ficam com uma cara triste e dizem “chove”, mas como quem diz “chove…”, não como quem diz “chove.”, muito menos como quem diz “chove!”. Porque trovoada não gostam elas da chuva? Qual foi o aguaceiro que lhes fez mal? Será que ninguém lhes explicou que os corações desenhados nos vidros embaciados por dedos enamorados vêm dos céus nublados? Uma vez fiz estas perguntas a uma dessas pessoas. Com o cuidado de falar tão baixinho que ela não me pudesse ouvir. Ela mesmo assim ainda disse “não ouço”. E eu disse ainda assim mesmo “não oiço”. Ela estava com uma cara triste. Triste como um daqueles dias de Sol em que não chove nem água. Ficámos sem nos conseguir ouvir. Apeteceu-me chover.

Cavaco, a grande esperança da nossa cultura

Paulo Tunhas, no Pulo do Lobo (nome bem apropriado à candidatura de Cavaco) expõe com candura o seu fraco apego à verdade e a sua elegância como argumentador. Pega numa frase de Francisco Louçã — “O que faz falta em Portugal é abrir a cultura, destruir a ideia de que a criação da mediocridade populista é a cultura de que o povo precisa e de que o povo gosta” — e apresenta de seguida uma sua “tradução”, tão peculiar quanto antagónica do original. Ele lê nessa passagem uma insuportável ofensa ao “gosto das pessoas que Louçã apelida de ‘medíocres’ (e apelida-as mesmo assim, dado o seu preconceito de classe)”.
Como é claro a qualquer pessoa que saiba juntar umas palavritas, Louçã atacou sim a ideia de que o povo só gosta de coisas medíocres, não o gosto de ninguém e muito menos “pessoas”. Tunhas tenta, muito simplesmente, inverter o sentido das suas palavras! O alucinado cavaquista ainda consegue ler no desiderato de “abrir a cultura” um sinistro objectivo: ter uma “pintinha de direito de interferir no gosto das pessoas”. Tudo “opiniões obscenas” do “ensandecido bloquista”, claro está.
Tresler é uma bonita e menosprezada arte; e encontra em Pedro Lomba um fã entusiasmado que não se conteve em juntar logo o primeiro comentário laudatório a este disparate: “excelente”.
Excelente, há que reconhecer, é a ideia central do post: Cavaco Silva é “quem melhor está colocado” para ajudar a promover um reencontro dos portugueses com a cultura. Leram bem. O homem que nem jornais lê vai ser o messias da nossa vida cultural. Isto porque, ao contrário de Alegre e de Soares, “está livre”.
Lá isso aparenta ser verdade; a fazer fé nas entrevistas do homem, ele está 100% livre de qualquer resquício de coisas vagamente aparentadas com cultura humanista. Aliás, já teve ocasião para demonstrar o seu apreço por tais assuntos, quando primeiro-ministro: entregou-os às capazes meninges de Santana Lopes.

A desordem dos livros

A grande mudança de casa está no seu final. A arrumação dos livros é sempre uma surpresa: “nem me lembrava que tinha esta merda”. Muitas vezes tropeço em textos que me transportam para outros tempos e geografias. Por momentos, volto a folhear autores que me dão jeito para poder responder ao dia a dia. É o caso do “Futebol, ao Sol e Sombra” de Eduardo Galeano. Chego a um capítulo chamado: “Da Mutilação à Plenitude”, reza o seguinte: “ Em 1921, a Copa América ia ser disputada em Buenos Aires. O Presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, redigiu um decreto de brancura: ordenou que não se enviasse nenhum jogador de pele morena, por razões de prestígio pátrio. Das três partidas que jogou a selecção perdeu duas.
Nesse campeonato sul-americano Friedenreich não jogou. Naquela época era impossível ser negro no futebol brasileiro, e ser mulato era difícil: Friedenreich entrava no campo sempre tarde, porque no vestiário demorava meia hora a esticar o cabelo, e o único mulato do Fluminense, Carlos Alberto, branqueava a cara com pó de arroz”.

O homem da cavilha

Nuno Simas (Glória Fácil) relata uma pequena história retirada da Visão, ilustrativa do 25 de Novembro: «O apelo à revolta das massas de Duran Clemente foi “cortado”, em pleno directo, cerca das 20 horas, e a emissão passou para as mãos dos “moderados”, no Porto, em directo do Monte da Virgem. Antes de a emissão passar para o Danny Kaye, eis o que aconteceu, na versão de Duran :
“Começaram a fazer-me sinais atrás das câmaras. Não percebi. Já tinha dito antes «eu posso ser cortado a qualquer momento porque a antena está no poder dos Comandos». Mas havia ainda um elemento da RTP, ligado ao PCP, que tinha a cavilha no bolso e andava a fugir aos comandos. De uma cabina, telefonou a um dos meus alferes que estava na televisão e disse-lhe: «Diga ao capitão para se despachar, que não consigo aguentar a cavilha no bolso». E como esse alferes não estava a assistir ao que eu dizia, pôs-se a gesticular atrás das câmaras. O meu primeiro pensamento foi que estava qualquer coisa a arder [risos]. Fiquei desconcentrado. Só tinha uma saída: dizer às pessoas que estavam a fazer-me sinais. Perguntei ao [pivot do Telejornal] António Santos se havia problema – como quem diz: «Há fogo?» E, tau, entra o Porto com um filme do Danny Kaye.”»
O homem da Cavilha é meu conhecido, chama-se Viriato Jordão e é dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Telecomunicações. Durante o dia do 25 de Novembro de 1975 andou nos emissores de Monsanto, acompanhado por oficiais dos comandos, a tentar encontrar para prender o comunista Viriato Jordão (ele próprio), conseguiu manter a representação por algumas horas, até que foi detido por outros comandos, que desta vez estavam munidos de uma foto que o denunciava. Mas mesmo a sua captura não foi pacífica: um oficial dos comandos estava indignado pelos seus camaradas estarem, “por engano”, a prender um homem que durante toda a tarde os tinha estado a ajudar.

Macacos que falam

“A jornada 13 da Série A italiana ficou marcada por um episódio racista ocorrido no jogo Messina / Inter de Milão. Aos 66 minutos, o costa-marfinense Marc Zoro, do Messina, fartou-se de insultos racistas vindo dos adeptos do Inter, agarrou na bola e, com as lágrimas no rosto, preparou-se para sair do relvado. Valeram Adriano e Martins, jogadores do Inter, que convenceram Zoro a ficar em campo. No final do jogo, a direcção do Inter pediu desculpas ao atleta pelo comportamento dos seus adeptos.” (do Blog Terceiro Anel).
O que se passou no jogo entre o Messina e o Inter fez-me buscar um pequeno texto sobre o racismo no jogo da bola escrito pelo argentino e homem do futebol Jorge Valdano:
“Aos fanáticos pode-se tirar a suástica. Mas não a voz.
Como o fascismo é pobre em palavras, no último fim de semana os adeptos limitaram-se a gritar “uuuuuuuuuu” a cada vez que um jogador negro pegava na bola. A claque da Roma vaiava em “uuuuuuu” os atletas negros do Perugia, enquanto a do Perugia respondia com um “uuuuuuuu” destinado aos jogadores negros da Roma. E o mesmo era feita pelos adeptos (sempre em “uuuuuu”) da Lazio em relação aos negros do Parma…
Esse “uuuuuuuu” é grito tribal utilizado para agredir e insultar. É um monólogo incivilizado. E, como sabemos, a palavra “monólogo” significa um macaco (“mono”) que fala”.

Texto extraído do livro “Apuntes del Balón”, Esfera de los Libros, Madrid/2001

Autópsia Ideológica

O Público anuncia na sua capa novas revelações sobre o assassínio de Catarina Eufémia (provisoriamente para o jornal do Belmiro a camponesa de Baleizão ainda não foi “alegadamente” morta). Socorrendo-se de um dos médicos legistas que fez a autópsia, o jornal revela que ela não estava grávida. Apoiando-se no mesmo clínico, o diário lança dúvidas sobre a sua filiação no Partido Comunista Português: “Henrique Pinheiro (o médico legista) acredita ainda que Catarina não seria militante comunista”. Uma certeza tão absoluta do dito clínico deve-se certamente ao facto de não lhe ter encontrado nenhum cartão do PCP no estômago. A ciência médica anda tão avançada, há cem anos a esta parte, que provavelmente conseguirão garantir-nos, daqui a poucos anos, que o Sr. José Manuel Fernandes nunca foi maoista.

1990

É no início do mês de Dezembro que nos começam a bater à porta. Vamos à porta e, tirando a primeira vez, que nos apanha todos os anos desprevenidos, já não estranhamos o facto de abrirmos a porta e de lá não ver ninguém. Os dias vão passando e há já 15 anos que o ritual se repete: batem-nos à porta, um de nós vai à porta e não está lá ninguém. Uma vez por dia, duas, três. Em meados de Dezembro, o som do osso a bater na madeira já se transformou num ruído natural da respiração da casa, ao lado de outros como o do ranger do soalho, do murmúrio dos electrodomésticos ou do mecanismo do relógio da sala: batem-nos à porta e já nem sequer vamos lá, apesar de ser uma das regras da casa abrir sempre a porta aos que estão ausentes. Na manhã do dia 24, o ruído torna-se incessante. Batem-nos à porta, batem-nos à porta, batem-nos à porta. E sou sempre eu quem sucumbe à inquietação daquele momento: abro a porta, mas nem precisaria de o fazer para dizer à minha mãe

– Está aqui o pai.
– Que merda. Deixa-o lá entrar.

É que o meu pai só atrapalha. É preciso pegar nele ao colo e trazê-lo para dentro de casa e sentá-lo ao quente no sofá. Ele fica ali parado a olhar de um jeito meio triste e alucinado para nós e de vez em quando desaparece para surgir nos locais mais inesperados: a fazer o pino na banheira, a esparregata no chão da cozinha ou de parvo perante os cozinhados da minha mãe. A gente bem volta a pegar nele, mas de nada nos vale fechá-lo numa divisão da casa – pouco depois ele reaparece como por magia nos locais mais inesperados e sempre a atrapalhar. Quando chegar a hora da ceia, não haverá qualquer lugar para ele na mesa, mas aí a gente cede um pouco e deixa-o desarrumar a casa à sua vontade. Ele arrasta móveis, muda a posição de alguns objectos, empilha outros lá fora no pátio para os pormos no lixo e é como se viajássemos no tempo, pois ao fim de algumas horas a casa fica quase com o aspecto que tinha há 15 anos atrás, quando celebrámos aquilo que nenhum de nós sabia ser o nosso último Natal – aquele que, todos os anos, no primeiro dia de Dezembro, se mistura com o vento e a chuva e a noite para nos vir bater à porta.

Farmacopeia

A MorDebe é um recurso que se torna de uso recorrente sem necessidade de explicação. Bloguistas, jornalistas, romancistas, contistas, poetas, publicitários e apaixonados com veia lírica têm ali uma amiga.

Mas não tem as palavras todas. Que alívio.

A assombração

A promessa ominosa já tinha ficado, logo no congresso que o apeou: “eu vou andar por aí”. Agora, a profecia cumpre-se, embora ainda de forma mitigada e pouco incomodativa.
Por enquanto, este regresso de Santana Lopes restringiu-se a meia página do “Expresso”. Num artigo de opinião desvairada, ele entreteve-se a proclamar ao mundo a irremediável distância a que dele se exilou. O homem ainda não percebeu mesmo nada. Não reparou no resultado das eleições legislativas. Não deu pelo seu ex-parceiro de coligação a admitir que a maioria de direita estava condenada desde a fuga de Durão: “Hoje podemos dizê-lo: eu creio que o contrato de confiança entre o povo e a maioria caducou nesse dia”. Não acordou para o facto de ninguém querer saber dele para nada.
Esta versão lusa dos fantasmas do “Sexto Sentido” emigrou mesmo para um universo alternativo. Ele vive num país que chora a prosperidade perdida com o fim do seu governo, numa nação indignada com a prepotência de Sampaio, num sítio estranho que ainda lhe liga. Não que este divórcio seja coisa nova; logo quando primeiro se viu na iminência de perder o tacho para que se julgava predestinado, ele lançou o lamento: “porquê agora, quando há sinais de retoma económica e de avanços nas reformas estruturais?” E até Cavaco Silva pode começar a tremer: Santana ainda não sabe se o vai apoiar ou não!
Fico sem perceber se a figura deste has-been é cómica ou apenas triste e patética.

Cruz, credo!

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A Igreja Católica anda na berlinda. Aliás, desde a eleição deste Papa, nada mais se esperava. Agora, surgiu uma “Instrução”, que João Paulo II já pedira há largos anos, sobre a ordenação de homossexuais. Esta recorda o velho argumento segundo o qual um sacerdote precisa de ser mesmo muito parecido com Cristo para estar à altura da tarefa (o que poderia levar a que apenas judeus trintões fossem ordenáveis, mas enfim). E Cristo não tinha qualquer tendência para a bichice, pois não? (Também gostaria de saber onde é que isto vem garantido nos evangelhos…)
De qualquer forma, os actos homossexuais são sempre, e tendo em vista as Escrituras, vistos como “intrinsecamente imorais e contrários à lei natural” (voltando ainda e sempre à Bíblia, talvez já não tarde muito para se ressuscitar a proibição de tocar em mulheres menstruadas). Já as meras “tendências” escapam com alguma indulgência: são apenas “objectivamente desordenadas”. Mesmo assim, basta que sejam “profundamente arraigadas” num candidato para o excluir. Aliás, tal destino é comungado por todos os que “apoiem a assim chamada cultura gay“, mesmo que sem qualquer tendência pessoal nesse sentido.
Toda esta malta, aos olhos perfeitamente normais das gentes do Vaticano, está impedida “de ter uma relação correcta com homens e mulheres”. No caso dos sortudos que só sofrem dessa desordem como “expressão de um problema transitório” (assim uma espécie de sarampo da alma), podem considerar-se curados se não tiverem tido recaídas nos três anos anteriores à ordenação diaconal.

Continuar a lerCruz, credo!

É O FERNANDO PESSOA, ESTÚPIDO!

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Hoje, no dia em que se assinalam os 70 anos da morte de Fernando Pessoa e que a sua obra cai no domínio público, o É A CULTURA, ESTÚPIDO! “ressuscita” o mais importante poeta português do século XX em mais um debate no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, pelas 18h30. Entre outros temas, discutir-se-á a forma como o legado do escritor será recebido pelas próximas gerações. No centro das conversas estará ainda o futuro da própria ideia de literatura e o lugar que esta poderá ocupar na cada vez mais vasta panóplia de oferta cultural. A sessão, organizada em parceria pelas Produções Fictícias e pela Casa Fernando Pessoa, será moderada por José Mário Silva, com Pedro Mexia no papel de “agente provocador”. Os convidados especiais são José Afonso Furtado, director da Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, além de especialista em questões da Edição no mundo digital e novos suportes para o livro; Richard Zenith, tradutor, investigador e editor de Fernando Pessoa; Manuela Parreira da Silva, professora da Universidade Nova de Lisboa e elemento da equipa que tem estudado e editado o espólio do poeta; e Fernando Cabral Martins, ensaísta, “pessoano” e um dos responsáveis pela Pós-Graduação em Edição de Texto da Universidade Nova de Lisboa.
Antes da sessão, o Teatro Municipal de São Luiz e a Casa Fernando Pessoa desafiam actores, autores, artistas e outras personalidades para virem ao Jardim de Inverno, entre as 16h00 e as 18h30, para lerem um poema, à sua escolha, de Fernando Pessoa. A sessão é aberta ao público. Entre muitos outros, estarão presentes Gonçalo M. Tavares, Fernando Pinto do Amaral, Graça Lobo, Nuno Lopes, Sérgio Godinho, Inês Pedrosa, Virgílio Castelo, Pedro Lomba, Rogério Vieira, Sofia Grillo, Manuel Marques, Carlos Martins, Jorge Vaz de Carvalho, Pedro Mexia, José Mário Silva, Nuno Artur Silva, Sílvia Pfeifer, Custódia Gallego.
Para encerrar as comemorações, e assinalar os 12 anos da Casa Fernando Pessoa, será apresentado o espectáculo «Wordsong/Pessoa», pelas 21h00, na Casa Fernando Pessoa.

[Todas as informações sobre o «É a Cultura, Estúpido!», bem como os relatos das sessões, encontram-se no blogue do projecto, aqui.]