Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Uma pequena história pouco natalícia (2)

Ilustração de Jorge Mateus, conto de Javier Ortega

O Anjo da Guarda

No dia do seu 65º aniversário, a Sr.ª F. acordou com uma alarmante dor no lado esquerdo do peito. Lembrou-se logo do enfarte do miocárdio que fulminara o seu marido. Com esta recordação a dor piorou bastante.

A Sr.ª F. gastou os dias seguintes – e bastante dinheiro – consultando todos os cardiologistas da cidade. Farta de ouvir sempre o mesmo diagnóstico, envolvendo gases e outros processos digestivos pouco dignos, a Sr.ª F. desistiu da Medicina. Sabia a verdade: a Ciência já nada podia fazer por ela. Apenas por piedade não lho confessavam.
Mergulhou na angústia mais profunda. Porquê ela? Porquê já, quando ainda lhe faltavam tantos anos para atingir a esperança média de vida?
Sempre fora uma cristã piedosa, uma católica assídua. A sua fé era infatigável. Em que falhara?
Só ao ouvir as sábias palavras do seu confessor começou a aceitar o seu destino. Os desígnios de Deus são mesmo insondáveis. Se Ele a chamasse mais cedo que o previsto, por certo teria Planos Especiais para ela. Sem dúvida, uma vida isenta de pecados e norteada pelos princípios da Igreja seria recompensada com uma rápida ascensão ao Reino dos Céus. Os pratos da Divina Balança reconheceriam o peso da sua virtude.

A paz não durou muito. Cedo a Sr.ª F. recordou pequenas mentiras, pequenas traições, pequenas faltas. Tudo junto, não seria igual a um grande pecado?
Alarme. E se os Planos Especiais do Altíssimo lhe reservavam o Inferno como destino da sua última viagem?
Imaginou-se no meio das chamas da danação eterna. Não gostou mesmo nada da ideia; sempre se dera mal com o calor. E não tinha especial vontade de voltar a ver o seu marido.
Foi num destes dias de desespero que a Sr.ª F. viu pela primeira vez o seu Anjo da Guarda.

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Quadros para a Quadra (2)


“A Natividade de Cristo”, ícone russo da escola de Novgorod, sec. XV. A ânsia de tudo contar e de todos os símbolos ilustrar, numa fome de doutrina e de santidade que ultrapassava mesmo as fronteiras da Bíblia. Os ícones russos deste período nunca esqueciam a figura do velho pastor, o escriba Anás; personagem de um famoso apócrifo, o proto-evangelho de Tiago (XV-XVI). Ele acusou José de ter surripiado a virgem Maria ao Templo de Deus, acusação de que este só se livrou após ter passado o teste da “água da prova do Senhor”. A Ablução de Jesus, um episódio ausente de qualquer escritura, era outra presença frequente nos ícones bizantinos e russos. Entretanto, no Ocidente, temas como a apresentação de Maria no Templo também mereciam a dignidade das imagens sagradas, mesmo se estrangeiros ao cânone bíblico.

Uma pequena história pouco natalícia (1)

Ilustração de Jorge Mateus, conto de Javier Ortega

Do Outro Lado

– Diga-me, Mestre, acha que o consegue encontrar?
– Minha senhora; já lhe disse que ele é que me vai encontrar. Mas só falará se assim o quiser. Não tenho qualquer poder sobre ele.
– Mas já aqui estamos há meia hora.
– Diga-me; a sua amiga que me recomendou disse-lhe que isto era automático? Comunicar com o Além demora tempo e requer concentração. Se não mantiver o silêncio, vamos demorar ainda mais umas quantas meias horas.
– Queira desculpar, Mestre, mas tenho tantas saudades do meu pai.
– …
– …
– Filha, és mesmo tu?
– Papá!?
– Estás com mau aspecto. Estou farto de te dizer que esses cremes só servem para gastar dinheiro. Água e sabão azul… não precisas de mais nada.
– Mas, diga-me: como é que está, como é a vida… como é que são as coisas aí?
– Água e sabão azul. É o que eu sempre disse.
– Sim. Água e sabão azul. Eu lembro-me. Mas temos tantas coisas para falar… eu não o devia ter posto no lar. Mas era tão difícil tomar conta de si, papá!
– Papá?? Deve estar a fazer confusão. Os meus filhos são pequenos. E são todos louros. Vivemos numa casa linda, no meio das montanhas…

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Natal hipnagógico

Há uns dias, fui assistir à festa de Natal do meu filho mais minúsculo. Lá o vi a tentar agarrar o microfone enquanto se dedicava a outras tropelias pelo palco fora, totalmente alheado da “coreografia” dos restantes meninos. Logo depois, antes que eu conseguisse encetar a fuga, começou a projecção de uma reportagem caseira sobre as aulas de Inglês dos petizes. Câmara imóvel e desfocada, minutos intermináveis do mesmo plano de criancinhas a produzir sons estranhos. Naquela modorra tonta que anuncia a queda no sono, comecei a ver na projecção uma das cenas sinistras de maus tratos a crianças, sempre gravadas com câmara oculta, com que os telejornais nos estragam as noites. Quando entrou em campo uma das educadoras, dei um salto na cadeira, convencido que ali vinha um qualquer acto de crueldade extrema. Despertei sob o olhar inquisitivo da mãe da cadeira ao lado. E suspirei de alívio: a crueldade era mesmo só exercida sobre os pais sujeitos à estopada.

Quadros para a Quadra (1)

“A Natividade” (pormenor), Giotto, 1304-1306. Neste fresco da Capella degli Scrovegni, em Pádua, surpreendemos Giotto a apontar mais uma vez o caminho para a Renascença. E surpreendemos a usura dos dias em plena voracidade: a Virgem desfaz-se numa névoa azul, parecendo prender-se a este mundo apenas graças à intensa teia de olhares que ali tudo suspende.

Farmacopeia

O saite do Instituto de Meteorologia é feio, mas útil. Nele se desmonta o cepticismo popular relativo às previsões meteorológicas; bizarra crendice que persiste por causa da complexidade e instabilidade dos sistemas climáticos. Porém, quando o cidadão larga com um sorriso agasalhado a decisiva sentença – “eles nunca acertam!” – algo de ancestral arregaçou as mangas: é uma pequena vingança da racionalidade mágica, acossada pela racionalidade científica.

Na secção de mapas por satélite é possível visualizar animações variadas, sendo a minha preferida a da visão sobre o Atlântico. O filme constrói-se com imagens de infravermelhos, uma por hora. Ali assisto aos movimentos das massas de ar, acompanho os seus rodopios, faço apostas quanto à sua direcção, comovo-me com o desaparecimento das frentes frias, antecipo a chegada de gloriosas formações de cumulunimbus. E quando as nuvens aparecem na barra do Tejo, tenho ganas de as ir receber e oferecer-lhes um poiso para descansarem.

O fantasma do meu Natal Passado

Há um ano, caí na asneira de tentar descrever como são os “Natais que cantam” aqui da malta de esquerda, decididamente entregue à construção do Socialismo sob os auspícios do único partido com um candidato presidencial chamado Jerónimo. Além da ira da minha namorada, a coisa conseguiu atrair pelo menos um comentário que a levava a sério. De tal, nem a nossa comentadora Margarida se lembraria; aliás, não é tarde nem cedo para lhe dedicar esta reedição do meu pequeno panfleto natalício:

Desde que vivo com uma militante comunista, tudo mudou na minha vida. Em nossa casa, respira-se ideologia, come-se dialéctica, bebe-se dedicação à Causa. Mas não é por isso que deixamos de ter Natal. Apenas recusamos a celebração consumista e burguesa que só serve para encher o bolso ao explorador Belmiro. Sim: o nosso Natal é ideologicamente puro e decididamente Socialista!
Começando pelo presépio. Rodeado por um carpinteiro de ar humilde (símbolo, é bom de ver, das heróicas virtudes do Proletariado) e por uma robusta e azougada camponesa (representando a gloriosa Revolução que todos adivinhamos para breve) está o menino camarada Jesus, de punho direito bem erguido (a bem da verdade, tinha um dedo esticado até ao dia em que caiu da prateleira). Ao lado, lá estão dois animais de ar estúpido: as bestas do capitalismo e do imperialismo. À porta da caverna de musgo artificial, três homens sábios a camelo. Os bonecos são um bocadito mal-acabadões, mas as suas fisionomias dignas e corajosas não enganam: trata-se dos camaradas Engels, Marx e Lenine (este com um belo bronzeado). Só ainda não percebi uma coisa: que prendas trarão eles? Ouro, incenso e mirra não será por certo; para que quereria um recém-nascido essa tralha burguesa?

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O país paradoxal

Lido num jornal de distribuição gratuita (o Metro):

«A marca que mais cresceu em termos de vendas em Portugal foi a Maserati, com 11 carros vendidos entre Janeiro e Novembro, um aumento de mais de mil por cento face a 2004. Com subidas nas vendas estão também as marcas Bentley, Ferrari e Porsche.»

O Impossível acontece: Durão Barroso foi quase mais parvo que Ribeiro e Castro

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Há experiências enternecedoras: recentemente estive na Hemeroteca para folhear alguns jornais e tropecei no “Independente” de 27 de Janeiro de 1995, em que se publicava um artigo do camarada “Abel” (Durão Barroso), retirado do “Luta Popular” de 2 de Maio de 1975.
A singela peça tem como título: “A Vida e Obra de Estaline”. É preciso notar que o texto foi escrito há 30 anos, mas que na altura José Manuel Durão Barroso tinha mais de cinco anos de idade (pelo menos de idade legal) e uma formação que ultrapassava largamente a infantil. E, embora a redacção deste escrito teórico o pareça indiciar, não está provado que Durão Barroso tenha descoberto as pastilhas ou que tomasse regularmente ácidos.
Feitas estas advertências aos leitores, cá ficam alguns excertos deste documento histórico que espelha algumas das características intelectuais do actual presidente da Comissão Europeia.
“ Onde quer que estejamos mal se pronuncie a palavra ESTALINE (Nota do redactor (eu): o autor escreve quase sempre o pseudónimo de Josef Dugladovitch em maiúsculas) logo um poderoso campo magnético (sic) isola à direita toda a espécie de oportunistas, unindo ferreamente à esquerda os verdadeiros comunistas e os autênticos revolucionários.
Esta é uma das teses fundamentais da directiva do nosso movimento “QUE VIVA ESTALINE!”. Essa directiva é uma contribuição enorme (NR: não consigo ver mesmo nenhuma maior, talvez os Himalaias) ao património científico do Marxismo-Leninismo-Maoismo. (…)
O camarada Saldanha Sanches é que não se demarca dos oportunistas, nem pouco mais ou menos não resistiu à contraprova do campo magnético (NR: uma espécie de “o algodão não engana”); mal se falou em ESTALINE começou a hesitar, titubeou, hesitou, indo cair no campo da contra-revolução, arrastado pelo poderoso campo magnético de que fala o Comité Lenine na sua Directiva. (…)
E isso acontece porque a camarada Gina (NR: parece que não é a das revistas) não ama Estaline (NR: talvez seja a das revistas) e está contra a linha política do MRPP.
E isso porque na sua crítica não toma as posições face a ESTALINE; fala dos “erros” de forma aparentemente correcta mas não diz que o camarada ESTALINE não cometeu erros estando implícito que admite que os cometeu (NR: a pontuação à Saramago é de Durão Barroso) . A camarada Gina não resistiu também à prova do campo magnético. Tentou cair no meio e foi cair ao lado dos oportunistas. E é talvez por isso que na sua crítica não se refere a esta questão, não diz que a questão de ESTALINE é a pedra de toque que demarca os Comunistas dos oportunistas.
A CAMARADA Gina faz a crítica por descargo de consciência. Não se “lembrou” que quando criticamos os outros não podemos cair nos mesmos erros que eles e por isso não estudou pacientemente a directiva “QUE VIVA ESTALINE!”.
A posição da camarada Gina é a posição (NR: é definitivamente a das revistas) daqueles que erguem a bandeira de ESTALINE para partir a cabeça dos que defendem Estaline, daqueles que sob a capa de defenderem ESTALINE, atacam-no. E Gina ataca-o porque não defende (NR: “estar vivo é o contrário de estar morto”). (…)
Devemos varrê-las do nosso seio (NR: o do Barroso) implacavelmente, “agarrar o touro pelos cornos” e não fazer tentativas hesitantes pelo flanco, tal é a posição dos Comunistas (NR: Fica por explicar qual é a posição do touro em relação aos comunistas e aos “deserdados” do campo magnético: os comunistas agarram os cornos e os outros seguram o rabo? ou pelo contrário empurram o touro? e “no meio” onde é que fica a “camarada Gina”?).
Dizer que ESTALINE foi um eminente dirigente proletário e não cometeu erros e não dizer que há erros de 1ª espécie e erros de 2ª tal é a nossa posição.” (…)
“Eu próprio não ousei criticar o camarada Saldanha Sanches, não dei à directiva “Que Viva Estaline” a enorme importância que ela tem, o que é uma manifestação oportunista e cobarde de quem não ama Estaline, de quem não defende intransigentemente os princípios do Marxismo-Leninismo-Maoismo. Por tudo isto, desde já me autocritico (NR: as chibatadas e flagelações eram à quarta feira) manifestando o desejo de ir contra a corrente e defender a vida, a obra e a actividade do grande Estaline não pactuando com todos os ataques – directos ou camuflados – que foram feitos ao grande Estaline.”

Os mistérios de Luciano Amaral

Não sei se é da altura do ano, se é qualquer coisa no DN, talvez pós estranhos no ar condicionado. Depois do espampanantes delírios de César das Neves, vemos agora Luciano Amaral declarar a sua beatitude natalícia.
Aqui segue a competente amostra para vos aguçar o apetite: “mesmo na Europa adivinha-se uma porta de regresso que (pelo que vai dizendo) Bento XVI parece querer explorar. É que a inverosimilhança da história de Cristo pouco fica a dever a certas inverosimilhanças opostas. Quem recusa militantemente a existência de Deus, fá-lo por fé. Não porque, de acordo com os critérios de veracidade de que se reivindica, tenha demonstrado que Deus não existe ou que é falsa a sua materialização em Jesus.”
Assim, para que um ateu possa ser visto como mais razoável do que uma pessoa religiosa, tem de tentar provar a não-existência de Deus, da Grande Abóbora, ou seja lá do que for. Passagens destas fazem-me recordar a graçola de Ambrose Bierce: “a fé é crer sem provas no que nos é dito por alguém que fala sem conhecimento de coisas sem paralelo.”
E já se está a ver onde vai desaguar o sermão: “o ateu ocidental, sem o saber, herdou do cristão a noção de salvação e de fim da História (o ‘Reino de Deus’). Mas incapaz da fé em Deus transfere-a para ídolos, como a ciência, a economia ou a política.” ; “Daqui nasce a crendice. É no Ocidente super-racionalista que assistimos a uma verdadeira explosão das mais folclóricas superstições, desde a astrologia à psicanálise. Não surpreenderá, por exemplo, vermos um físico nuclear acreditar na reencarnação ou no poder das actividades mediúnicas.”
Muita atenção, gentes sem fé: a psicanálise é uma superstição (não apenas a impostura científica que aparenta ser); a reencarnação é folclore e um físico nuclear que acredite nela só pode ser maluco, mesmo que seja hindu ou que se chame Subrahmanyan Chandrasekhar ou Jagadish Chandra Bose.

Por mais Natais que passem, não há forma desta malta comprar um disco novo. A crença deles é que está obviamente certa; quem acredita em coisas que lhes parecem estranhas, como a reencarnação ou a comunicação com mortos (que até podem voltar a este mundo, garante-nos a Bíblia) é adepto de superstições grotescas e risíveis.
A novidade deprimente desta crónica é que até os poucos que vão conseguindo manter a alma livre de semelhantes tralhas, os ateus, são agora acusados de acalentarem, por invisível herança e “sem o saberem”, essa tal “Fé”.
Irra.