Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Inovações turísticas

A última edição do suplemento de viagens do The New York Times traz uma reportagem bizarra. Sequestros fictícios como parte de pacotes de viagens. E, ao contrário do que se pode imaginar, nada tem a ver com destinos com uma famosa reputação dos raptos.
A “fabulosa” ideia é da empresa espanhola Bandoleros Tours. O objectivo é mostrar como era a vida dos bandidos do século 19, que povoavam Serra Morena, na Andalucía. Uma quadrilha vestida a rigor “força” os turistas a descer de um autocarro com as mãos amarradas e os faz percorrer quilómetros em motas.
Os ingleses adoraram a adrenalina. São os que mais pagam os 2.500 euros pela brincadeira.

Loucuras relativas

“Tás louca?” Essa foi a pergunta que mais ouvi quando decidi dizer adeus a Portugal. Uma carreira que ia de vento e popa (para o abismo) na revista Focus foi o grande empurrão. O “apelo” da Universidad Carlos III para ali terminar a minha tese de mestrado sobre jornalismo de investigação, a grande desculpa.
Desde que cá estou – e mesmo sendo a Espanha um dos países com as taxas de desemprego mais assustadoras da União Europeia – trabalho não me tem faltado. Em quatro meses, passei por três empregos. Troquei um por outro só para somar alguns euros extras na minha conta.
Surpreendentemente, não falta oportunidades para quem fala português – mesmo com qualquer sotaque estranho, como é o meu caso. Falar meia dúzia de palavras em inglês é quase o mesmo que ser um nativo. Tudo porque os espanhóis não têm jeito nenhum para os idiomas. Um dos maiores desafios, por exemplo, é encontrar cinemas que tenham legendas. Eles são fãs incondicionais das dobragens.
Só hoje, aparecem 28 ofertas para os nativos portugueses no site Infojobs. No geral, ganha-se mais falando português aqui, que suando para fazer (bom) jornalismo em Portugal.
Mas ser imigrante em Espanha não é nada fácil. Antes de começar a bombardear as empresas com currículos bonitinhos e cheios de experiências, há que cansar as perninhas. Aqui, cidadãos europeus, sul-americanos, africanos e extraterrestres significam o mesmo: estrangeiro. Como tal, agrupam-se em longas filas à porta da polícia, para pedir um tal de NIE (Número de Identificación de Extranjeros). Sem o NIE, não és ninguém. Nada de ter conta no banco, querer alugar uma casa e muito menos, trabalhar.
O problema não é a fila em si, mas a notícia que tens ao seres atendido. O documento leva três meses para ficar pronto. Enviam-te uma carta a casa e depois tens que voltar ao empurra-empurra, para ter essa bênção de documento na mão. Nesses três meses, tu ainda não existes em Espanha.
Agora, a pergunta que mais oiço – e que até me encanta – é: “¿Eres italiana, guapa?” Não ter bigode feminino à portuguesa é um alívio…

Ah g’anda Regina

Na rubrica Selecção Nacional, do Público, fizeram a Regina Guimarães (apresentada como “escritora, professora universitária”) a seguinte pergunta: Neste momento, Portugal exporta calçado e têxteis, faz obras públicas e tem a AutoEuropa. Como quer que, na sua área, Portugal seja em 2026?
E a Regina Guimarães, mostrando que tem a língua solta (como prova o facto de ter sido letrista da banda Três Tristes Tigres), responde assim: «Começaria por dizer que não tenho área pessoal – como, cago, devaneio, durmo, sonho, suo e trabalho como quase toda a gente».
O resto do depoimento é, digamos assim, relativamente normal. Mas esta frase tem muito daquele desassombro de que andamos precisados como de pão para a boca.

Olhe, não parece mesmo nada

Há uns dias, Cavaco Silva dizia-nos que estamos da iminência do que, em futebolês, se chama uma “chicotada psicológica”: “a chegada de um novo presidente pode ter o efeito, quer se queira quer não, da chegada de um treinador novo”. É que “às vezes, a equipa não é má, mas precisa de um novo treinador”, com direito, presume-se, a ditar a táctica, substituir elementos, exigir reforços, etc.
Agora, Cavaco tentou tranquilizar-nos: “conheço muito bem as competências do Presidente”. Escasso valor terá esta garantia, vinda de alguém que parece, como na altura realçou Vital Moreira, incapaz de distinguir as competências do árbitro das do treinador.

Espiritismo eleitoral

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Primeiro, foi Manuel Alegre. Confortado pela presença da viúva do capitão de Abril, tratou de o arregimentar para a sua causa: “Sei que o Salgueiro Maia gostaria de me ouvir dizer o que estou aqui a dizer”. Agora, outra viúva ilustre, Matilde Sousa Franco, tratar de anunciar aos viventes as vontades do esposo: “toda a gente sabe que foi um grande amigo de Mário Soares, estando certa de que, se fosse vivo, o apoiaria”. Mas, com tamanha alergia ao que chama “oportunismo político”, que terá passado pela cabeça da senhora quando aceitou fazer parte das listas eleitorais do PS, escassos meses após a morte do marido?

Prós e contras

O programa que ontem à noite animou a RTP 1 proporcionou-me uma das experiências televisivas mais divertidas da minha vida.
O espectáculo foi entregue a meia dúzia de mentes brilhantes que supostamente iam discutir a alma lusa ou coisa que o valha. O professor Adelino Maltez ficou com o papel de dizer umas banalidades isentas de conteúdo com voz ribombante e condizente expressão grave e intensa; acabava uma frase — invariavelmente sem conclusão — e ficava a olhar com ar de mau para as câmaras e para os comparsas, não fosse algum ter a ousadia de lhe perguntar o que queria afinal dizer. Clara Pinto Correia entretinha-se a demonstrar a sua erudição com umas historietas medievais e a falar dos filhos a propósito do estado deplorável do ensino, do bom que é morar no Bairro Alto, local onde as crianças podem brincar à vontade na rua (talvez a ver qual encontra mais seringas), da maravilha que foi ir a pé a Fátima (pobres petizes). Um padre velhinho muito simpático dava ideia de se ter enganado no estúdio: quando lhe perguntavam qual devia ser o perfil do próximo PR, falava de Goa. Um senhor publicitário discorria sobre a falta de gravatas do primeiro-ministro japonês e sobre a miséria que é a “marca” Portugal.
Como guardião da racionalidade ficou, imagine-se, Nandim de Carvalho, que teimava em remar contra a maré e tentar dizer coisas com sentido. Jacinto Lucas Pires, ao longo de todo o programa, não conseguia reprimir um sorriso incrédulo.

Talvez já nem ele escape

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Manuel Alegre, não contente em incomodar os vivos e recrutar os mortos, já ameaça publicamente vir a ser o “presidente de todos os portugueses e de todos os estrangeiros” residentes em Portugal. Mas o delírio não pára aqui: ele começou a apresentar-se aos transeuntes estupefactos como o “Presidente da República”. Começo a gostar do nosso candidato-dadá.

Bits, filtros e bruxas

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O “24 Horas” de hoje, umas páginas antes de mais uma crónica da mulher de Carlos Cruz, continua a clamar que “os procuradores tinham todas as condições para desvendar o conteúdo das disquetes do escândalo”. Isto porque terão recebido ajuda de uns “peritos informáticos”.
É mais um esforço para implantar a ideia de que as intercepções da polémica terão sido mesmo ordenadas por “alguém”. Apesar de o curso dos acontecimentos parecer perfeitamente explicado: um técnico da PT, ao elaborar a lista das chamadas pedidas, optou por ocultar as restantes em vez de as apagar.
Mas a simplicidade nunca satisfaz os amantes das conspirações. No sábado, José Manuel Fernandes angustiava-se: “os investigadores olharam para todas essas chamadas, ou eram tão analfabetos do ponto de vista informático que nem repararam que estavam lá registadas?”
O inefável Ferreira Fernandes, do “Correio da Manhã”, dá “de barato” que os magistrados não pediram a informação no cerne do “escândalo”; mas “sabe” que os dados só se tornaram públicos porque “esses magistrados foram uns irresponsáveis”. Apesar de se tratar de documentos sob segredo de justiça e apenas consultados oficialmente por advogados de defesa de alguns dos acusados no processo Casa Pia.
António Barreto, mais uma vez a leste, exclama: “duzentos números de telefone vigiados”; “mais de oitenta mil chamadas telefónicas detectadas e registadas”. Esquecendo que os números não estavam “vigiados” na altura das chamadas e que o tal registo é rotina obrigatória em qualquer operadora de telecomunicações; ou nunca terá recebido uma factura detalhada?
Depois, claro que a defesa de Carlos Cruz tratou logo de lançar mais uma cortina de fumo sobre o pandemónio geral.
Mas, a bem da verdade, importa perguntar: quem terá o hábito de vasculhar folhas de Excel, em busca de informação suplementar à esperada? E porque deveriam os tais peritos fazê-lo? Julgo que nunca de tal me lembrei, a não ser quando sabia que havia algo a procurar. Mas vou começar a tratar disso; não quero que amanhã me possam acusar de ter informação indevida no meu computador.

Quanto a Souto Moura, não me admira nada que atribua esta nova desgraça a uma célebre busca em demanda de um valioso tabuleiro de xadrez que até nem apareceu… é a velha história das bruxas inexistentes.

Um grande reforço de outro planeta

Vanessa Amaro estagiou na Veja, na Folha, foi jornalista numa agência noticiosa no México e teve a infelicidade de viajar para Portugal, onde aterrou na revista Focus. Fugiu para Espanha, para acabar um mestrado de jornalismo. É bastante mais nova do que o João Pedro Costa, e bastante mais inteligente que nós todos. Verifiquem: ela não está em Portugal. O Aspirinab procede à sua internacionalização e consegue integrar, nas suas fileiras, a primeira mulher. Façanha só possível porque ela não nos atura e guardou alguns milhares de quilómetros de distância. Fora isso, é uma excelente jornalista.

Declaração de princípio (para que saibam no que é que se metem)

Eu tentei convencer o meu excelente amigo Nuno Ramos de Almeida (cujo percurso acompanho desde há anos com desvelo quase fraternal, sem que contudo tivesse conseguido impedi-lo de vir a padecer, já na idade adulta, de uma lamentável doença infantil…) de que não seria o tipo indicado para escrever num blog, mas ele não me quis dar ouvidos, e foi pena, porque para lá do meu muito justamente referido mau feitio & falta de pachorra, possuo ainda outros defeitos graves e que se afiguram mesmo fatais no caso vertente: primeiro, tenho uma relação difícil com as novas tecnologias, não frequento blogs, não sei mandar SMS´s, não tiro fotografias com telefones nem coisas do género, porque sou do tempo dos utensílios com vocação única, o telefone toca, o fax faxa, a máquina fotográfica tira fotografias, etc., e nunca me habituei aos vários-em-um; segundo, gosto de ler e escrever pausada e pensadamente, e acho que boa parte dos males do mundo advêm do facto de as pessoas se instruírem por via da TV, de revistas coloridas com muita imagem e pouco texto ou de informações soltas, encontradas ao acaso na net, que me parecem meios em si mesmos insusceptíveis de dar origem a uma reflexão minimamente reflectida sobre o que quer que seja (lá em casa, a jovem geração queixa-se e diz que eu sou um bota-de-elástico, mas eu estou-me nas tintas, não só porque casa que se preza tem de ter o seu par de botas-de-elástico, e nisso a T. faz-me excelente companhia, mas ainda porque, como eu procuro explicar aos meus herdeiros, quem pode o mais pode o menos, embora o inverso não seja necessariamente verdade – ou seja, quem conseguir sobreviver a um texto meu, chato e comprido, há-de certamente achar graça a seguir a um texto leve e espirituoso do Nuno Tito de Morais ou do Luís Rainha – olá Luís, prazer em rever-te – embora o contrário se afigure muito menos provável); em suma, não sou pop nem pretendo vir a ser, para parecer mais jovem; se ainda assim me quiserem, não me quero armar em difícil e aceito o gentil convite para chatear de vez em quando os leitores; se não quiserem também não levo a mal – porque no vosso lugar fazia o mesmo.

Mais um reforço, mais um tiro.

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António Figueira é outro dos novos reforços desta equipa com remédio. Jurista, foi do gabinete de porta-vozes da Comissão Europeia. É Prémio Jacques Delors 2003, com o ensaio “Modelos de Legitimação da União Europeia”. Apesar destes feitos duvidosos e outros que eu me escuso de revelar, é dono de um sentido de humor apurado, duma imagética duvidosa e de uma má disposição crónica, factos relevantes que levaram à sua contratação.