Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Vai ao psicanalista que isso passa

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Francisco Louçã e o Bloco de Esquerda tiveram uma indiscutível derrota eleitoral. Mas vale a pena ler o editorial de José Manuel Fernandes (JMF) de hoje [link não disponível]. JMF tenta transformar uma derrota – que, já agora, mesmo que seja fraca a consolação, é o segundo melhor resultado do espaço do BE desde o seu nascimento – numa hecatombe que põe o BE à beira da extinção.

No seu texto, JMF compara (e a compação é pertinente) os resultados das últimas legislativas com os das presidenciais, em vários distritos. Sempre sem dizer a que distritos se refere e sem nunca dar um número. Na verdade, em vários exemplos, os dados com que avança não se aplicam a nenhum distrito ou concelho. Num caso, não encontrando melhor, escolhe uma freguesia, a única que explicita. Mas num texto tão extenso e explicativo – uma novidade nas prioridades de JMF –, nunca o director se dá ao trabalho comparar o totais nacionais de há um ano e de agora. Compreende-se. O seu texto deixaria de fazer qualquer sentido. É que quem o leia fica com a estranha sensação de que perdeu alguma coisa da noite eleitoral e que o BE pura e simplesmente desapareceu do mapa.

Recordo: o Bloco desceu de 6,4 para 5,3, depois de vir dos 3% em legislativas e presidenciais anteriores. Mais uma vez: o seu segundo melhor resultado em 8 eleições nacionais. Mais uma vez: uma derrota. Não uma calamidade, mas uma derrota. Só que, lamentavelmente para JMF, não foi aquela com que ele sonhara. E, já sabemos desde o Iraque, quando as coisas não acontecem como JMF quer, JMF cria-as. JMF abandonou a extrema-esquerda mas o estilo “Voz do Povo” nunca abandonará JMF. Só que, também como sempre, a sua excitação é tanta que acaba por denunciar a sua patologia. No caso do Bloco, trata-se de um caso que só a psicanálise pode resolver.

PS – Fica para mais tarde o contra-factual a todos os “dados” avançados por JMF, mostrando o nível delirante da sua prosa. Não o faço agora, porque me soaria, pelo menos a mim, a desculpas de mau pagador. Uma derrota é uma derrota e quando a derrota vem, aceita-se sem grandes desculpas, deixando para mais tarde a análise cuidada. Mas se é verdade que no dia 22 o Bloco saiu derrotado, com este editorial, é a seriedade do jornal “Público” que fica mais uma vez posta em causa. E mais uma vez pela militância de um director que está a transformar o melhor jornal português num projecto político pessoal. Definitivamente, há homens que não estão à altura do lugar que ocupam.

Negri leva “n” no início, e o Carlos Marques não é parente do Karl Marx

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Caro Henrique Raposo,
Compreendo o seu dilema: você nunca perdeu tempo com autores marxistas (havia sempre tantos livrinhos com capinhas coloridas para ler). Acontece-lhe o que me aconteceria a mim, se me pusesse a criticar um qualquer liberal, citando outros liberais: não dominaria suficientemente a matéria. Mas isso não o deve impedir de se precaver e de evitar fazer figuras tristes nas páginas dos jornais. A sua crítica sobre o último livro de Negri na revista do Diário de Notícias é um desastre. Para começo de conversa, deixo-lhe algumas precisões e uma lista de compras:

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E se, de repente, um desconhecido lhe enfiar um míssil em casa? (1)

Soubemos ontem que os terroristas podem ter já deitado as mãos a mísseis de tecnologia avançada. Isto é terrível. Em breve, qualquer um de nós poderá acordar com o som de uma explosão pavorosa. E ver-se entre os escombros do que era a sua casa, entre pedaços dos seus filhos. Os culpados estarão bem longe, clamando mais uma vitória contra as “forças do mal”, indiferentes ao facto de terem apenas destruído mais uma mão-cheia de vidas inocentes.
Ficção? Nada disso: aconteceu há umas semanas, no Paquistão. Só que, ali, os mísseis não tinham sido contrabandeados da Chechénia; até talvez ostentassem as orgulhosas insígnias da USAF.

(Vou ver se lhe mudo a ração)

Ontem de manhã, reparei que a minha cadela tinha sangue no focinho. Quando lhe abri a boca, vi que a parva tinha estado a roer um pedaço de vidro branco muito afiado com cerca de dois centímetros e que sangrava das gengivas. Retirei o vidro e perguntei-me onde teria ela encontrada esse pedaço de vidro absolutamente triangular e aguçado que nem uma lâmina. Fiz uma rápida inspecção à casa, temendo o pior, mas não consegui encontrar nenhum objecto partido. Deitei o pedaço de vidro no saco do lixo e, como medida de precaução, tive a pachorra de fechar o saco e de o deitar lá fora, no contentor da rua. Quando voltei, desinfectei o corte na gengiva da cadela, que parou imediatamente de sangrar.

Durante a noite, fui acordado abruptamente por um estrondo. Lembro-me vagamente de um movimento brusco do braço e de sentir a mão bater num objecto. Ao tentar acender a luz, não encontrei o candeeiro – ele tinha caído ao chão, partindo-se em mil bocados. A cadela, assustada, começou a ladrar. Lá me levantei muito contrariado para apanhar os pedaços de vidro espalhados pelo quarto e foi então que reparei num pedaço de vidro branco. Com cerca de dois centímetros. Absolutamente triangular. E aguçado que nem uma lâmina. Uma lâmina manchada de um sangue que não era meu.

Não se pode exterminá-los?

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O romancista húngaro Gyorgy Spiró alerta, nas páginas do Courrier Internacional, que se está a formar licenciados a mais e que a maior parte deles ficarão desempregados e sem perspectivas, e como tal serão presas do nacionalismo virulento. Para Spiró, esses licenciados “vão acabar por odiar o sistema. Pode ser que, em princípio, este caos a que chamam democracia parlamentar seja o melhor dos mundos. Eles, porém, não têm aqui lugar: historicamente, é assim. Resultado: vão tornar-se radicais.”. O húngaro não vê aparentemente nenhuma solução que passe por mudar o sistema, ele está é preocupado é com a possível instabilidade, até porque ele sabe o que os pobres estudantes ainda não descobriram: “Mais cedo ou mais tarde, vão dar-se conta de que não tiveram a sua oportunidade. Eu sei aquilo eu eles ainda não sabem: todas as revoluções foram feitas por intelectuais supérfluos. Eu estou apenas enervado. Eles, eles vão acabar por explodir.”
A posição do escritor coincide com as palavras do antigo administrador da Chrysler, Lee Iacocca, que quando visitou em 1993 a Argentina, disse numa conferência: “O problema do desemprego é um tema difícil. Hoje podemos fabricar o dobro de automóveis com a mesma quantidade de gente. Quando se fala em melhorar o nível da educação das pessoas, como solução para o desemprego, lembro-me sempre do que se passou na Alemanha: ai publicitou-se a educação como remédio do desemprego, e o resultado foi a frustração de centenas de milhares de profissionais, que foram empurrados para o socialismo e a rebelião. Custa-me dizê-lo, mas pergunto-me se não seria melhor que os desempregados actuem com lucidez e procurem trabalho directamente no McDonald’s.”

Happyness

Da minha casa também se vê, muito ao longe, recortado na paisagem, o castelo de Palmela. Eu soube, desde a primeira vez que me cheguei à janela, que aquilo é o castelo de Palmela. E isso, como ao Fernando, faz-me feliz (descontados os dias de nevoeiro sobre o Tejo).

O castelo de Palmela e a felicidade

Uma vez, entrei em casa de uma amiga minha. Já era amiga há uns tempos, mas não lhe conhecia a casa. Era uma zona chique de Lisboa oriental, com vista para o rio, e ela vivia ali há mais de vinte anos. Cheguei-me a uma das janelas e disse, excitado: «Olha o castelo de Palmela». E era um facto: ele recortava-se, nesse fim de tarde, com uma nitidez que feria. A minha amiga veio até à janela, num desassossego: «O castelo de Palmela? Onde?»

Fiquei sem palavras, é bem de ver. A minha amiga, que não é parva, até escreve livros e assim, nunca se tinha perguntado o que pudesse ser aquele acidente, de recorte estranho, na paisagem dos seus dias. Ora, para mim, num segundo, aquilo havia-se tornado numa completa topografia, num discreto GPS a orientar-me o corpo no vasto mundo.

Sou mais feliz eu? É mais feliz ela? Eu sinto-me feliz assim. Tenho a certeza de que ela o era já também. Não entendo nada da felicidade dela. E ela não perceberá jamais o que o castelo de Palmela, a vinte quilómetros, pode fazer feliz.

Isto da felicidade é um mistério.

Encavacado

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(Luís Rainha e João Pedro Costa na cerimónia da Sagração da Primavera do Aspirina)

É formal: encontro-me encavacado. Farto de campanha eleitoral. Para recuperar, estou a livros. Releio com espanto “Os Testamentos Traídos” de Milan Kundera. Este livro, e as obras de George Steiner e de Cioran, têm o efeito hipnótico. O único problema é que me dão a vontade de não escrever. Eu sei que nunca conseguirei que as palavras tenham essa densidade. Nunca as frases parecerão mágicas e reveladoras de um continente perdido. Para quê tentar? Sinto-me como um boi a olhar para um palácio.

A Ciência confirma o óbvio: hoje é o dia mais deprimente do ano

O psicólogo Cliff Arnall, da universidade de Cardiff, provou cientificamente o que já nos parecia uma evidência: o dia 23 de Janeiro vai ficar marcado a vermelho no calendário como o mais abominável do ano. O esforçado cientista usou “uma fórmula elaborada” que levou em conta o mau tempo, as dívidas pós-natalícias, as resoluções de ano novo frustradas e muitas outras variáveis similares. Só se esqueceu de incluir nos seus cálculos a vitória de Aníbal Cavaco Silva; tivesse ele dado a importância devida a este factor infausto e estaria encontrado o dia mais sorumbático da década.

Iatrofobia (1)

Sala de espera de um hospital ferrugento, estreito, inadequado. Espero por alguém que há-de sair de uma pequena cirurgia. Espero agarrado a um livro, tentando desviar os olhos dos coloridos panfletos sobre a psoríase, sobre o herpes labial, sobre um bestiário inteiro de pequenas criaturas letais que por ali devem andar em barda.
Um velhinho, com ar de padre reformado, resolve combater o medo falando. E fala, para o seu acompanhante e para o mundo em geral. Começa por perorar sobre as qualidades imprevisíveis da gravidade noutros planetas. Depois, vem a extinção dos dinossauros, a tectónica de placas, o império romano e a mecânica celeste. O pior, além do tom monocórdico do monólogo, é que o pobre e assustado homem inventa metade do que diz: o meteorito que deu conta da bicharada jurássica causou a cavidade do oceano Atlântico, os continentes trocam de posições várias vezes ao milénio e a Terra cai pelo espaço mais ou menos a metade de C. Estão a nascer ali capítulos inteiros de uma alucinada história natural alternativa, um delírio febril em forma de alocução académica.
Meio acabrunhado, escondo-me num jornal gratuito. E dou de caras com uma coluna de Nuno Júdice em que ele me garante que Colombo encontrou, em vez da almejada Índia, “os Estados Unidos” — sendo depois talvez recebido pelo presidente republicano Trovão da Pradaria.
Parece-me que o mundo inteiro acordou com uma tremenda ressaca e está ainda incapaz de dizer coisa com coisa.