Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Um país inculto na arte da negociação

Anda boa (e outrora boa) gente a dizer que a entrevista de Santos Silva significa o fim da renovação do acordo entre PS, BE e PCP para a próxima legislatura – Acordo para nova “geringonça” deve incluir política externa e europeia

Acontece que, como acontece sempre quando o jornalismo está agendado ou cede à tabloidização, que se está tão-só a reagir a um título que deturpa o discurso do entrevistado (tal qual como se fez no DN a respeito de uma entrevista de Azeredo Lopes no ano passado). Santos Silva farta-se de repetir que é fã do acordo com a esquerda, admitindo inclusive que é um dos convertidos. Santos Silva farta-se de repetir que tem esperança na sua renovação, que está optimista a respeito dessa possibilidade após as eleições. E responde a uma bateria de perguntas sobre o mesmo ponto que só pararam quando os entrevistadores consideraram que tinham conseguido uma declaração que dava para deturpar e encher o chouriço da guerrilha política através do “jornalismo de referência”.

Há mais nisto do que apenas o oportunismo mediático e a decadência da direita. Há também a constatação de que o catolicismo, o salazarismo e a cultura corporativa, a que se veio juntar como símile o sindicalismo dominado pelo PCP e a probreza financeira e cultural da classe média portuguesa, são factores que atrofiam a inteligência dialógica e dialéctica inerente à prática de chegar a acordo com competidores e adversários. Aliás, o atrofio é tal que em Portugal até para se chegar a acordo com potenciais parceiros há obstáculos antropológicos de monta. A paupérrima qualidade do patronato e o deserto que é o envolvimento cívico e político da maior parte da população são manifestações desta deficiência de base. A atitude sociológica correspondente é a desconfiança, e a desconfiança provoca uma poderosa inércia intelectual e económica na comunidade.

Não sei se precisamos de um museu dos Descobrimentos. Sei é que esses bravos que se enfiavam em cascas de noz e se lançavam contra os vagalhos teriam muito a ensinar aos contemporâneos sobre o que é e como se faz uma negociação.

Seja o que for que aí venha, o CDS parece não ter nada de substancial para dizer

Adolfo Mesquita Nunes aparenta pertencer à direita decente (apesar de ter no seu currículo a colaboração com o XIX Governo Constitucional), é o protagonista de um relevante acto de coragem pessoal, cívica e política ao assumir a sua orientação homossexual, e podemos apostar dobrado contra singelo à confiança em como irá liderar o CDS após a queda de Assunção Cristas caso tenha essa ambição.

Pois bem, com tais predicados psicológicos e mediáticos era suposto também conseguirmos descobrir predicados intelectuais se o seu plano for o de aliar à imagem algum tipo de substância. Só que está difícil, como se pode comprovar após os 5 minutos que demora a ler este texto: Pode alguém com medo proteger-nos do que aí vem? Não passa de uma juliana de falácias cuja estratégia retórica se sustenta no voluntarismo da “ambição”. O Adolfo, pelos vistos, quer que a malta acredite que ele é mais ambicioso do que a concorrência porque não tem “medo, receio, do que aí vem” como essa esquerdalha que anda a desgovernar a Grei por falta de tomates. Um bravo, este amigo.

É demasiado básico para o seu horizonte de realização política, e fica ali resvés ao nível da banha da cobra, deixando-nos a pensar no que o levou a optar por tratar tão mal a oportunidade de escrita e sua difusão. Será displicência? Despachou a coisa por obrigação? Falta de tempo? Problemas mais importantes para resolver que lhe retiraram o discernimento, a imaginação e a inteligência? A menos que seja a cristalina expressão do seu pensamento, nada mais tendo para dizer ao bom povo que pretende persuadir – o que até para quem se está a marimbar para o CDS seria uma fonte de pânico.

Lágrimas de crocodilo argentino

Numa entrevista dada no domingo passado, Maradona, cada vez mais decadente, chorou lágrimas de crocodilo pelos jogadores de futebol africanos que, vítimas de supostas máfias, são “levados para a Europa para serem nacionalizados” e depois acabam a representar as selecções nacionais de França, Bélgica e Inglaterra – logo por acaso, três equipas que chegaram às meias-finais do Mundial, enquanto a Argentina ficou pelo caminho. Compreende-se a dor de cotovelo de Maradona, dado que a Argentina foi eliminada pela França, uma selecção europeia com uma maioria de jogadores de origem africana.

Meditando sobre isto, de repente dei-me conta que nunca vi nenhum negro ou mulato com a camisola da Albiceleste. Fui verificar e, de facto, em toda a América só a selecção de futebol da Argentina é 100% branca e sempre assim foi – excepto, parece, nos anos 70, quando tinha um guarda-redes suplente de origem africana.

Este chico-esperto do Maradona, que venceu a Inglaterra no Mundial de 1986 com um golo de cabeça marcado com a mão, deveria talvez explicar-nos por que razão a selecção argentina não tem nem nunca teve jogadores de origem africana. E, já agora, confessar-nos por que razão a população da Argentina, que no século XVIII chegou a contar 30-40% de negros, só tem hoje menos de meio por cento, mais exactamente, 0,37%. As razões não são bonitas, têm a ver com carne negra para canhão. Alguns falam mesmo de genocídio deliberado, por sinal cometido já após a libertação dos escravos. Portanto, mais valia que o Maradona calasse a trombeta e aprendesse a saber perder.

Revolution through evolution

The gender bias of names: Surnames standing solo gives men advantage
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Feeling young could mean your brain is aging more slowly
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People who engage in more substantive conversations tend to be happier
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It’s official – spending time outside is good for you
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‘Find your passion’ may not be the best advice after all
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Are You Dying in the Dark?
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Buying under the influence (of testosterone)
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Inquérito Nacional sobre Demência

«O Programa Nacional para a Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde, em articulação com a Alzheimer Portugal e o CINTESIS - Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (ICBAS-UP), promove um novo inquérito nacional sobre a consciencialização e a perceção pública relativa à Demência.

Este inquérito pretende melhorar a compreensão sobre as experiências, as expectativas e as preocupações da sociedade portuguesa sobre a Demência, bem como o conhecimento, a atitude e as crenças do público em geral.

Gostaríamos de conhecer a sua opinião sobre uma série de temas relacionados com a demência.

Os resultados deste questionário irão permitir um melhor conhecimento sobre a perceção que a população em geral tem sobre a demência e, no futuro, promover campanhas de consciencialização.

Aceda aqui ao questionário.»

Agora é que o Público vai ser do Carvalho?

David Dinis estava a fazer um bom trabalho no Público, dizem os direitolas na despedida deste artista da nacional-sonsaria. Ignoro quais são os actuais resultados comerciais e sociais do jornal, mas não ignoro que foi o mais estimulante projecto jornalístico aquando do seu lançamento, embora rapidamente o sonho tenha tropeçado na realidade. Depois transformou-se num pasquim quando José Manuel Fernandes o usou para levar a cabo a vingança da Sonae no desfecho da OPA sobre a PT. O desvairado Zé Manel não se limitou a pôr a carne toda no assador da calúnia, ainda conseguiu ser protagonista de uma das maiores e mais graves golpadas na história da Presidência da República e do regime democrático. Saiu de lá para fundar o Observador, cujo primeiro director foi o David Dinis vindo do Sol. Um circuito vicioso e viciante.

Chegado ao Público, DD transformou-o em assumido semipasquim. Os editoriais revelavam a sua parola auto-importância, imaginando-se a enviar recados e avisos em nome do PSD de Passos para Marcelo e Costa, e o alinhamento editorial não se distinguia do que é feito no Expresso e no Observador quanto ao tribalismo. Sobre questões que envolvessem a Justiça, calou-se bem calado; mas, nas colunas de opinião, Sócrates foi explorado com carta branca pelos carniceiros especialistas na matéria, usando João Miguel Tavares, Francisco Teixeira da Mota e São José Almeida para se promover abertamente a violação do Estado de direito e o triunfo dos assassinatos de carácter. Em suma, mais do mesmo do que sempre fez, apenas sendo de estranhar o que terá levado alguém a pensar que o seu perfil estaria indicado para a TSF (pese ser, nalguns pontos de preferência partidária, semelhante ao do Paulo Baldaia).

Agora, será a vez de Manuel Carvalho. Este jornalista, com vasto currículo caceteiro e persecutório contra o PS, surpreendeu-me recentemente ao mostrar que era capaz de assinar posições decentes em vez de alinhar sistematicamente pela baixa política. Se continuar por aí, se colocar o jornalismo à frente do sectarismo, se abdicar do ódio em favor do serviço público, então o jornal poderá recuperar parte da sua promessa original. Se deixar que as suas páginas continuem a ser o palco para os profissionais da indústria da calúnia, então a coisa ficará como está: um capricho da vaidade completamente inútil para quem procure jornalismo inteligente e corajoso.

Regime Geral das Infracções dos Chefes das Repartições de Finanças

A coima enviada nesta semana a quem não se inscreveu no Via CTT, para lá de não ter sido precedida de qualquer aviso para uma parte indeterminada de contribuintes, começa por levantar interrogações acerca do sentido desse serviço. Serve para quê se até aqui toda a gente agora multada passou tão bem sem ele na sua relação com o fisco? Admitindo a minha ignorância, salto para a questão mais importante, embora lateral: o poder arbitrário e não sindicado dos chefes das repartições de Finanças.

Recorrendo a uma experiência pessoal análoga ao que está aqui em causa, descobri que a invocação dos requisitos previstos no artigo 32.º do Regime Geral das Infracções Tributárias – (i) a prática da infracção não ocasione prejuízo efectivo à receita tributária: (ii) estar regularizada a falta cometida; (iii) a falta revelar um diminuto grau de culpa – não chegava para que a Lei fosse aplicada em favor do cidadão. Era ainda preciso fazer um requerimento ao chefe da repartição de Finanças, mesmo depois de tal já ter sido feito repetidamente por via digital ao longo de 3 anos. Assim fiz, entregando presencialmente e em papel esse pedido e ficando a aguardar a resposta. A resposta foi a de que a Lei não tinha mais poder do que o chefe da repartição de Finanças, o qual decidia em casos similares de acordo com critérios impossíveis de prever até para os funcionários fiscais que atendem os contribuintes nos balcões. Se eu quisesse, que fosse para tribunal – situação em que poderia perder; e situação em que, mesmo que ganhasse, os custos de iniciar o processo equivaliam ao valor da coima que pretendia ver anulada. Logo, saía mais barato pagar sofrendo a injustiça do que procurar a Justiça. Para além do saque, fiquei com a cristalina ideia de que esse tipo de decisões fiscais podia envolver múltiplos funcionários que imitavam o chefe da repartição na facilidade com que decidiam de forma arbitrária até em casos tão básicos como o meu na circunstância.

O cenário é de flagrante violação do Estado de direito. Se os chefes das repartições de Finanças e suas equipas exercem este poder de forma discricionária, se o Estado não faz um levantamento das respostas aos requerimentos (e aposto os 10 euros que tenho no bolso como não faz) com a intenção de proteger os contribuintes, então estamos perante uma cultura corrupta, haja ou não vantagens para os trabalhadores estatais envolvidos. Cultura corrupta porque, obviamente, se eu tivesse um amigo ou meia amiga na repartição de Finanças onde fui roubado teria saído de lá com um sorriso e uma assinatura do chefe a garantir que estavam respeitados:

“os requisitos previstos no artigo 32.º do Regime Geral das Infracções Tributárias – (i) a prática da infracção não ocasione prejuízo efectivo à receita tributária: (ii) estar regularizada a falta cometida; (iii) a falta revelar um diminuto grau de culpa”

Não sou votante do PS também à pala disto. É chato ser gamado por aqueles que recebem salários por causa dos meus impostos.

Cristiano Ronaldo Cabrão

Em 2004, a Selecção era treinada por um fulano especialista em bandeirinhas nas janelas e em ganhar por meio a zero. Chegou à final do Euro com uma equipa onde jogavam Figo, Rui Costa e Cristiano Ronaldo, entre outros artistas. Disputou a final num estádio português cheio de adeptos portugueses. Perdeu para a Grécia, uma equipa de quem ninguém consegue recordar seja o que for nesse torneio a não ser a consequência do último jogo que fizeram: sagraram-se campeões da Europa em futebol.

Em 2016, a Selecção era treinada por um fulano especialista em agradecer a seres divinos as respectivas intervenções a seu favor em jogatanas da bola. Chegou à final do Euro com uma equipa que perdeu a sua única estrela aos 25 minutos da primeira parte. Ganhou à França num estádio francês cheio de adeptos franceses com um chouriço de um jogador trapalhão de terceira categoria, tendo Portugal praticado ao longo do torneio um futebol tão feio que levou ao desespero os comentadores profissionais dos restantes países.

Em 2018, a Selecção continuava a ser treinada pelo tal fulano vencedor do Euro 2016. No primeiro jogo do Mundial, a única estrela da equipa fez um jogo espectacular, tendo marcado o último golo de forma miraculosa. Toda a gente, incluindo os seres divinos com responsabilidade directa nessa partida e a imprensa internacional, mergulhou de cabeça no pensamento mágico. A estrela tinha poderes que só as estrelas têm. Assim é que o universo ficava bem ordenado, com as estrelas no céu e os crentes a babarem-se frente aos ecrãs.

E depois vimos que a única estrela da Selecção estava a deixar crescer uma penugem no queixo. A manutenção dos folículos estaria relacionada com um acrónimo em inglês onde se misturavam o Messi, o Quaresma, o queixo do Cristiano e pelo menos uma cabra, embora não necessariamente por esta ordem. Foi nesse estado que a estrela partiu quando quis para um pontapé numa bola parada a onze metros de distância de um guarda-redes abandonado pelos seus companheiros de equipa e com 17,86 metros quadrados para cobrir só com o seu corpinho. Visto à distância de cinco mil e trezentos quilómetros, aquele pontapé parecia condenado a ter mais sucesso do que o anterior que conquistou o empate contra a Espanha. Todavia, para a completa surpresa do treinador especialista em agradecer a seres divinos as respectivas intervenções a seu favor em jogatanas da bola, a que se juntou a dolorosa desilusão dos tais seres divinos e da imprensa internacional, a única estrela da Selecção optou por chutar a bola com a força e a direcção apropriadas para permitir ao guarda-redes iraniano ficar com ela nas mãos. O universo voltava a mostrar que tinha sido feito muito à pressa, só um louco podia ter pensado que chegavam seis dias para garantir que merdas destas não se iriam passar.

Vale a pena querer ganhar por ganhar, por meio a zero e com idas a Fátima se um ressalto marado der uma vitória? Vale a pena encher o futebol de cinismo e desculpas ou sentidos irracionais para o que não passa da sorte? Ou não será melhor, bem melhor, e até mais democrático, abolir a regra burrocrática que excluiu o Senegal do Mundial e substituí-la por outra onde o desempate seja conseguido recorrendo a critérios artísticos relativos ao gosto de ver futebol por quem gosta de jogar e ver futebol pelo simples prazer de ver e jogar futebol?

De regresso a Lisboa, a Selecção tinha uma multidão à espera, apesar da banalidade da prestação no Mundial da Rússia. Cristiano não os foi cumprimentar e agradecer. Foi apanhar outro avião e bazou. Foi embora. Foi cabrão. Não lhe fica bem nem o ajuda na marcação de grandes penalidades.

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Por uma «Suíça» 2.0

 

De acordo com a revista Sábado, um grupo de lisboetas chamado Fórum Cidadania Lisboa resolveu escrever a Rafael Nadal para lhe pedir, enquanto investidor (muito minoritário) do fundo que comprou o quarteirão do Rossio onde se situa a pastelaria Suíça, que não deixasse desaparecer a dita, agora que as obras de requalificação dos imóveis estão em curso. Pedem-lhe que “não mate as nossas memórias”. Estão a exagerar.

 

Primeiro, não sei se o Nadal alguma vez ouviu falar do Rossio, quanto mais da pastelaria Suíça e, caso lá entrasse, se compreenderia o que motivava a angústia dos ditos lisboetas perante o fecho daquele estabelecimento concreto. Há pouco tempo entrei lá e, francamente, para além de funcionários com idade para terem muitos anos de casa e direito a uma boa e merecida reforma (havia excepções, claro), nada vi que merecesse ser preservado ao ponto de impedir o estabelecimento de fechar. A pastelaria já sofreu transformações ao longo dos anos, estando agora, arquitectonicamente, sem grande jeito e sem grande graça. Também não me pareceu que, de entre a doçaria em oferta, se encontrassem receitas originais ou especialmente saborosas e não me lembro de nenhuma bebida típica ou particularmente apreciada da pastelaria Suíça. Além disso, são poucos, se alguns, os lisboetas que por ali param. A esplanada costuma ter só turistas. Para coroar, o actual dono não vê qualquer viabilidade na exploração da pastelaria.

 

A situação da pastelaria é a única privilegiada (se descontarmos a proximidade da saída do Metro). Vista para o Rossio, de um lado, e para a Praça da Figueira, do outro. Mas essa, com um estabelecimento novo, poderá  ser preservada.

 

É este o ponto: o fim desta pastelaria não significa o fim das possibilidades de abertura de uma outra, ou de um bar ou do que quer que seja. Mais para a direita, mais para a esquerda, enfim, acho que o lugar é propício a um estabelecimento desse género, com esplanada.

 

Segundo, todo aquele quarteirão estava extremamente degradado, sendo uma dor de alma ver, em pleno Rossio, imóveis naquele estado de pré-colapso e lojas, no rés-do-chão, em avançado declínio comercial. Ainda bem que alguém decidiu investir.

 

Portanto, não se compreende que saudades pode deixar uma pastelaria fortemente descaracterizada, pouco frequentada pelos lisboetas e encimada por um imóvel à beira da ruína. O novo hotel que, segundo consta, ali está a ser construído aproveitando o actual edificado terá com certeza espaço, no rés-do-chão, para um estabelecimento mais contemporâneo e atraente.

A santa Joana prepara-se para ser herdeira de si própria

Joana Marques Vidal foi perentória: depois da sua passagem pela Procuradoria-Geral da República nada voltará ao que era antes. "As instituições dependem muito das pessoas que têm à frente mas também têm vida por si mesmas. Há um Ministério Púbico que nunca voltará atrás, há hoje uma cultura e uma maneira de estar que prosseguirá caminho. Há questões práticas que podem ir ou não no sentido que eu lhes imprimo hoje, mas isso é da vida das instituições. E quero acreditar que não é fácil perder a minha herança", afirmou ontem à noite, num jantar-debate organizado pelo grupo Portugal XXI, no hotel Sheraton.

Garantindo que os processos não são marca de água dos procuradores, concedeu numa coisa: "O meu mandato pode ter posto a máquina a funcionar no âmbito do que é a justiça."

Questionada também sobre se entendia a nota de Marcelo - sobre a urgência em resolver o caso do roubo de armas em Tancos, no dia em que faz um ano sobre o acontecimento -, rejeitou essa ideia. "O Presidente da República exprimiu o verdadeiro sentido do que é a separação de poderes. A investigação compete ao Ministério Público e estamos a aguardar o resultado", disse, sublinhando estar a acompanhar o caso.


Joana Marques Vidal: “Não é fácil perder a minha herança”

Recusando-se a abordar a questão de um segundo mandato, Joana Marques Vidal recusou a ideia de que o Ministério Público atua de uma forma judicialista e que é por isso que hoje existem mais processos em investigação. "Durante muito tempo, era normal e tolerado pelas pessoas certo tipo de comportamentos censuráveis ética, deontologicamente e ao nível criminal. Era normal nos contratos - em qualquer contrato - ficar regisatada uma comissão. E há a prenda, a cunha, a cultura de tolerância face a comportamentos que não são admissíveis", frisou.

Joana Marques Vidal defendeu que é preciso discutir o tema da delação premiada e lamentou que o tema anticorrupção esteja "praticamente" ausente do discurso político. Relembrou que a Polícia Judiciária tem uma "gritante falta de meios" e que o trabalho produzido se deve a um esforço acrescido dos profissionais daquele órgão de polícia criminal.


Joana Marques Vidal descansa os mais preocupados: “O MP não voltará ao que foi”

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Nunca se tinha visto. Um procurador-geral da República em campanha aberta pela continuação do uso do Ministério Público como arma política sectária e persecutória. No caso, esta PGR assume que foi escolhida por um certo Governo e por um certo Presidente da República para fazer o que não se tinha ousado fazer antes: manipular o incomensurável poder do Ministério Público para influenciar a disputa política em Portugal.

Como é que é possível, ao seu nível de estatuto e na ocupação do cargo, declarar em público que outros magistrados cometeram crimes aquando do exercício das mesmas responsabilidades na Procuradoria-Geral da República? Esta é a matriz do discurso da politização da Justiça, que a direita decadente alimenta por nada mais ter a que se agarrar dada a inanidade da sua dimensão intelectual e o chiqueiro da sua dimensão moral. É a outra face da má moeda onde se cunhou o triunfo da caçada a Sócrates e a glória de o ter destruído publicamente e metido no calaboiço – graças a ilegalidades e violência infrene, graças à judicialização da política num plano que começa em 2004 com a criação do caso Freeport com Santana Lopes e se manteve com o apoio e impulso de Cavaco após 2007.

A santa Joana ambiciona liderar a direita. Tem currículo, políticos e impérios da comunicação social do seu lado. Só lhe falta um partido que acolha e celebre a sua herança. Um qualquer, talvez por inventar.

Manela no caminho de Damasco

2009

Esta crise foi um abalozinho.

Ferreira Leite – Entrevista

2018

Sobre as causas do endividamento excessivo, Ferreira Leite disse que contribuiu o custo barato do dinheiro após a entrada de Portugal na zona euro (devido às baixas taxas de juro) e o investimento em projetos de infraestruturas que considerou "muitos discutíveis".

"Num concelho com 13 freguesias, que haja 13 piscinas é discutível", afirmou, referindo ainda que nos custos de então não se contabilizou o custo de manter esses equipamentos, que é elevado.

A economista recusou, contudo, apontar o dedo a executivos específicos, afirmando que "há um conjunto de factos que ocorreram ao longo dos anos e que afetaram muitos governos", e criticou também as instâncias europeias que, aquando do início da última crise, pediram aumento da despesa e depois se tornaram rígidos nesse tema.

Ferreira Leite mostrou-se ainda preocupada com a arquitetura da zona euro por ser pouco adaptável a crises.

Manuela Ferreira Leite diz que não é possível pagar a dívida e defende reestruturação