Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Comédia no semipasquim

«Mas, no momento da proximidade do caos, ele [Passos Coelho] teve coragem, energia e determinação para traçar um rumo. Governou o país na mais terrível conjuntura em décadas e deixou-o melhor para o primeiro-ministro que lhe sucedeu. Deixou-o com um défice controlável e, principalmente, liberto da sensação de que o Estado estava capturado por figuras como Ricardo Espírito Santo ou empresas como a Ongoing. Só assim se explica que o PSD tenha sido o partido mais votado em 2015.»


Manuel Carvalho

Não há cobardia na loucura

Trump fez um raciocínio interessante na sequência do atentado em Manchester. Disse que não iria chamar “monsters” aos autores do ataque, e seus apoiantes, porque esse vocábulo os deixaria contentes, pelo que passava a tratá-los por “losers”. O interesse está na análise semântica ter vindo de alguém manifestamente incapaz de reflectir sobre o que está em causa no seu involuntário lampejo de relevância. Porque se no domínio psicológico se percebe o infantilismo de Trump, permanentemente reduzindo o mundo exterior a si próprio e aos seus códigos culturais, no domínio da gestão política e social dos atentados terroristas sobre civis importa pensar no vocabulário usado pelas autoridades que assumem os discursos públicos e institucionais na gestão e rescaldo das violências. Aqui, reina o chavão do conceito de “cobardia”. Uma “cobardia” inerente a qualquer ataque sobre civis, e que aumenta à medida que aumentar a fragilidade das vítimas de acordo com a sua idade.

Dá que pensar. Porque, nesta lógica, a “cobardia” ficaria atenuada se os terroristas escolhessem como alvos apenas indivíduos acima dos 65 anos, ou 70, ou 80, ou qualquer idade equivalente à velhice. Quão mais velho menos cobarde ficaria esse modo de matar alguém, de acordo com o pressuposto que remete para uma tabela, uma taxonomia da cobardia terrorista. Num outro plano, a escolha pelo conceito de cobardia surge como um refúgio consensual para evitar contaminações religiosas e clínicas. O cobarde não é necessária nem provavelmente alguém possuído pelo “mal”, tal como não é provável nem necessariamente alguém a precisar de diagnóstico e terapia psiquiátrica. Será outra coisa, aparentemente normal da Silva: um cobarde. E, portanto, como cobarde que é fez o que fez – matou-se para matar ou apenas matou quem pôde sem saber quem iria apanhar e estando preocupado somente com o grau de destruição e mediatização obtidos.

Creio que teríamos vantagem em mudar o automatismo de usarmos o conceito de cobardia como principal doador de sentido para os ataques terroristas sobre civis. Para começar, ele é absolutamente inútil como eventual prevenção para futuros assassinos nessa categoria. Depois, porque espalha nas comunidades atingidas um sentimento de impotência que acrescenta dano ao dano sofrido. De facto, se for a “cobardia” a explicação mais funda para o ódio alucinado que gera esses desastres, que se pode fazer? Vamos iniciar um programa de detecção e correcção de “cobardes”? Quando ouvimos e lemos os nossos chefes políticos, policiais e militares a tratarem como “cobardes” quem, do outro lado da barricada, é tratado como “mártir”, algo de perverso se espalha. A perversão de não querermos entender os processos mentais em acção naqueles que planeiam e executam este tipo de guerra sem linhas da frente nem retaguardas.

Seria preferível uma destas duas respostas, por exemplo: “Não sabemos porque nos atacam assim, mas queremos ouvir as vossas razões, ‘bora aí falar” ou “Alá, deus do amor, também foi atacado neste atentado”. Por exemplo. E, no entretanto, continuar a fazer os possíveis e os impossíveis para anular quem nos vai mesmo atacar apesar da sua tão infinitamente grande “cobardia”.

Caro director,

David Dinis escreveu uma carta ao mercado dos compradores de jornais – Caro leitor, – onde se apresenta em modo intimista. A retórica simula uma conversa olhos nos olhos, voz ora grave ora aguda, com vista à apresentação de um pedido da maior importância. No caso, trata-se de pedir dinheiro. Pouquíssimo dinheiro, aliás, tão pouco que até os pobres o poderiam gastar sem por isso ficarem mais pobres.

Irá resultar? Adorava conhecer os resultados da sua epístola aos ex-pagantes-por-notícias-e-opiniões. Daqui deste canto na sala, diria que o exercício é patético. No forma e no conteúdo. Na forma, pelo artificialismo de uma proximidade moral sonsa, exibida apenas para efeitos de cravanço imediato, de pedido de esmola. No conteúdo, porque não se consegue identificar sequer um benefício concreto que resulte da existência de um Público dirigido pelo David Dinis. Repito: o seu texto não identifica (não aponta, descreve, ilustra) sequer um (1) benefício concreto (tangível, discutível, aplicável) que resulte da existência (graças ao nosso dinheirinho) de um Público dirigido pelo David Dinis (um jornalista com um percurso de altíssima volatilidade ao serviço do mesmo posicionamento: não grama socialistas).

E o texto leva-nos para a gargalhada quando se permite estes atrevimentos: “Há uma diferença grande entre manter rigorosos princípios éticos (e humildade em reconhecer os erros) ou prescindir deles para ganhar um click fácil.” Este é um director que despediu o Malheiros e a Lucas Coelho enquanto se declara fã do João Miguel Tavares; este último, no meio da sua continuada actividade caluniosa, tendo arranjado um tempinho no jornal do Dinis para dizer-se fã do Correio da Manhã por causa do combate contra a “corrupção”. Que dizer? Que seria deste miserável país sem a coragem do CM a denunciar e meter na choldra as dezenas, centenas e milhares de corruptos apanhados graças à excelência do seu jornalismo? Aliás, dentro dos propalados “rigorosos princípios éticos” em vigor na actual linha editorial, o melhor seria promover o JMT à direcção e começarem a ajudar de forma mais assumida o CM contra esses corruptos todos que ainda permanecem escondidos ali para os lados do Rato.

Se o Público quer sobreviver, um outro tipo de inteligência, que ainda ninguém viu o David Dinis expressar, terá de ser introduzida na questão. Ironicamente, tal passaria pela actualização do projecto original – agora, adaptado às drásticas mudanças tecnológicas e comportamentais dos últimos 30 anos. Por exemplo, a introdução de inteligência artificial para começar a prestar um serviço personalizado como agregador e analista do excesso de informação disponível. Tradicionalmente, o jornalismo foi concebido como uma actividade que tinha de explorar e escavar a realidade à procura da informação relevante. Quando os meios de transmissão de informações crescem exponencialmente em quantidade e tipologias e se tornam ubíquos, o problema passa a ser o inverso: filtrar, separar, afastar o que na realidade está a mais para o seu aproveitamento prático e teórico, utilitário e significativo, de acordo com os segmentos do mercado dos “leitores”. Obviamente, o jornalismo continuará a ser sempre, e também, essa aventura da caçada, esse heroísmo em nome da cidade e da liberdade. Mas tornar um jornal merecedor de um pagamento, uma assinatura, uma taxa, requer uma radical transformação do serviço onde cada leitor passará a ser concebido como um mercado singularizado. A tecnologia disponível e o desenho de novas funções jornalísticas permitem o começo dessa mudança gradual já no imediato.

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Revolution through evolution

Friendship group influences dating violence risk for early-maturing girls
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Exposure to psychological domestic abuse most damaging to children’s wellbeing
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Three-year-olds understand, value obligations of joint commitment
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Producing fertilizer from air could be five times as efficient
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After receiving bad advice, bullying victims say they would give same bad advice to others
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To curb medical errors, physicians must be better trained to admit mistakes
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There’s more to attraction than what meets the eye
. Continuar a lerRevolution through evolution

O sucesso da geringonça, segundo Vítor Bento

No DN de hoje, Vítor Bento discorre sobre “A improvável geringonça”. Este “técnico” tem-se mantido a uma prudente distância da política – sobretudo a política mais arriscada, como quando recusou as Finanças que Passos Coelho lhe ofereceu. Nem por isso deixa de pensar e escrever politicamente – à direita, naturalmente.

Na sua coluna, o ex-conselheiro de Estado de Cavaco tenta dar a impressão que plana a grande altura sobre a bagunçada da luta política. Dá-se ares de isenção, assenta umas rabecadas fáceis no seu próprio quadrante político e até reconhece uns pozinhos de talento a Costa, sem nomear nomes. Uma pessoa distraída acaso pensará que Bento é um modelo de isenção.

O sucesso da geringonça constitui o objecto das reflexões de Bento, mas começa por apontar dois erros a Coelho: a teimosa recusa da legítima solução de governo encontrada pela esquerda e as previsões catastrofistas falhadas à luz dos resultados económicos até hoje conseguidos. Ora, na opinião de Bento, o que é que Coelho deveria ter feito? Deveria ter olhado para a frente e construído “um programa de futuro”, que “valorizasse” o que duramente conseguira no seu governo “incompreendido”, que respondesse aos “anseios sociais” e que fomentasse uma “alternativa mobilizadora”. Puro blá-blá-blá sem mistura. Como poderia agora Coelho valorizar a sua incompreendida política de 2011-2015, apontada à frustração dos mais elementares “anseios sociais”? Não saberá Bento que a direita perdeu 700 mil votos nas eleições de 2015 porque a sua governação a tornou o absoluto contrário de uma “alternativa mobilizadora”? Adiante.

O “improvável” sucesso (quer dizer que Bento não o previu) da chamada geringonça deve-se, segundo ele, a uma mistura de talento, sorte e cumplicidade dos media. Vejamos então.

No talento, refere a promoção de uma solução de governo nunca antes tentada e o “perceber que, em economia, tudo o que desce acaba por subir, e que, feito o ajustamento [pelo governo anterior], a viragem da onda não deixaria de trazer aproveitáveis dividendos”. Reparando melhor, este falso elogio não explica como surgiu a inédita solução de governo (o eventual talento de Costa não esclarece o essencial, que foi a recusa pela esquerda toda do governo de Coelho), deixa de fora as políticas concretas deste governo, aponta o oportunismo do confisco dos dividendos da política do governo anterior (a actual treta dominante da direita) e refere uma “viragem da onda” económica que, transparentemente, ele considera um bambúrrio e, logicamente, deveria constar do ponto seguinte, a sorte.

Na sorte, o colunista enumera uma salgalhada de coisas, desde a inesperada boa conjuntura económica internacional e o inesperado boom turístico, até à cumplicidade nunca antes vista (diz ele) do presidente da República com o governo (o que também relevaria da sorte). Não se coíbe aqui de mencionar, pasme-se, os “acidentes favoráveis à autoestima do país”, a saber, os êxitos do futebol e da Eurovisão, sem esquecer a visita do papa. Pelo meio refere um “amolecimento da obstinação dos falcões de Bruxelas”, que se teria devido apenas à conjuntura política internacional e não a qualquer mudança de atitude por parte do governo de Portugal. Qualquer burro pode ter sorte, é o que se conclui.

Na cumplicidade mediática, por fim, Bento expõe uma versão light da velha teoria da “asfixia democrática”. Segundo ele, há hoje em Portugal um “controlo do efeito político da comunicação social”, que “se materializa muito mais no que omite do que no que declara.” Dito mais claramente, a comunicação social portuguesa “reproduz e amplifica as notícias ou opiniões convenientes [ao governo], multiplicando-lhes o impacto social” e “ignora ou amortece as inconvenientes, abafando-lhes o impacto.” Bento não está a falar da Coreia do Norte ou da Venezuela. Está a falar de Portugal e do Público, do DN em que ele escreve, do Expresso, da SIC, da TVI, da TSF, da RTP, da CMTV, do Correio da Manhã e não sei se do Observador e do Diabo. Ou seja, uma vastíssima conjura destinada a glorificar o governo e a abafar a oposição – mas completamente inexplicável, dado que os media portugueses estão quase exclusivamente nas mãos da direita.

Os êxitos da geringonça estão a pôr a direita fula, cega e paranóica. Nem almas bentas escapam.

 

De hipócritas está o céu cheio

Este Expresso Curto começa com uma violação. Não de alguém, mas dos princípios básicos do jornalismo.

(Esta opinião não vincula nenhum dos outros elementos do Expresso, nem a direção da qual faço parte. Não discuti sequer o tema com todos os jornalistas do Expresso mas tenho a certeza de que a maioria (se não todos) concordam, de forma geral, com as próximas linhas).

A divulgação de um vídeo pelo Correio da Manhã de uma alegada violação de uma rapariga num autocarro da cidade do Porto, durante a Queima das Fitas, não é jornalismo. É entretenimento travestido de informação. É a procura da maximização de audiência e de visualizações através da profanação do jornalismo, recorrendo para isso ao total desrespeito pela alegada vítima.

Mostrar aquele vídeo não acrescenta nada à notícia. A mesma podia ser dada sem recurso a imagens. Por isso o seu uso é errado, despropositado e condenável. E justificar a sua divulgação por uma questão de justiça também não faz sentido. Se algum crime foi cometido, então o jornal deveria ter entregue as imagens às autoridades para que fizessem o seu trabalho.

João Vieira Pereira

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Acredito que este importante profissional do grupo Impresa faça mais pelo seu patrão do que escrever sucessivos textos a malhar nos socialistas e a defender o laranjal. Não que isso já seja pouco, a que temos de somar as idas à SIC com o mesmo propósito, mas porque, ainda assim, deve ficar com muito tempo livre nos intervalos. É altamente provável que, depois de tratar de outros relevantes assuntos profissionais relativos ao Expresso, ainda consiga passar os olhos diariamente pelos restantes principais jornais portugueses. E que, portanto, não tenha começado a ler o Correio da Manhã pela primeira vez na sua vida nesta semana. A ser válida esta hipótese, qual a razão para ter esperado por Maio de 2017 em ordem a denunciar a violação dos “princípios básicos do jornalismo” no CM, situação que constitui a prática corrente naquele esgoto a céu aberto? Nunca o dirá em público, quiçá nem em privado, óbvio. Mais, nunca outro jornalista lhe fará essa pergunta num contexto de exposição mediática.

Eis o que gostaria de saber: quando o João Vieira Pereira tropeçou, e continuará a tropeçar, na publicação de escutas e interrogatórios judiciais concernentes a processos em investigação – ou seja, onde os indivíduos envolvidos são factuais inocentes até prova em contrário e onde esses materiais têm como exclusiva função serem avaliados judicialmente quanto à sua legitimidade para serem eventualmente apresentados em tribunal, estando protegidos por vários valores constitucionais, legais e deontológicos, sendo a sua divulgação pública um crime se sujeitos a segredo de Justiça – não se sentiu atingido na sua decência de jornalista e cidadão? O que acharia o João Vieira Pereira, calhando ser alguém da sua família ou estima a ser vítima dessa violência, de se expor a própria voz de uma pessoa sujeita a um interrogatório no Ministério Público ou apanhada numa escuta? De que forma é que essa dimensão se constitui como “notícia”? Os particularismos somáticos e psicológicos de alguém colocado numa situação de alta tensão emocional podem ser considerados como necessária “informação” a transmitir ao público? E quanto àquilo que se disse privadamente com um sentido e cuja descontextualização e recontextualização permite toda a sorte de deturpações e insinuações? E que diria o João Vieira Pereira se depois visse aparecerem no espaço público, das “redes sociais” à “imprensa de referência”, uma avalanche de explorações desses mesmos materiais com o exclusivo fito de espalhar e aumentar o sentimento popular de culpabilidade das vítimas? Ou achará o João Vieira Pereira que a Constituição, a Lei e a decência estão reservadas somente para os autocarros usados pelos foliões da Queima das Fitas do Porto e deixam de ter aplicação quando se trata de políticos e aqueles com quem eles se dão ou deram privadamente, especialmente se for um certo político de um certo partido?

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O CM e a reflexão

Fonte

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Chegou o tempo de exigirmos ao Correio da Manhã, na pessoa do seu director ou accionista, um maior zelo pelo compromisso que este prestigiado órgão de comunicação social mantém com os leitores desde que foi fundado: “relatar notícias, contar o que acontece de relevante.” Com que finalidade se dão a essa meritória trabalheira? Fazer a “reflexão”. É isto. Precisamos de “notícias” por causa da “reflexão”. Acaso anda por aí algum cabrão, ou maluco, que se atreva a negar a evidência de que “sem notícias é impossível haver reflexão”? Pois.

O problema é que o CM está a impedir os seus leitores e espectadores de fazerem a “reflexão” mais vezes. Inclusive, mais vezes ao dia ou até mais vezes por hora. Idealmente, o universo de bípedes implumes sob a influência pedagógica do CM para efeitos de acréscimo e expansão da “reflexão” poderia passar entre 8 a 18 horas por dia nisso, a “reflexão”. E para tal o CM só tem de abrir um bocadinho de nada os seus horizontes. Como?

Basta fazerem o mesmo, exactamente o mesmo, que acabam de fazer a uns miúdos e aplicarem a receita aos milhares, milhões, de outros vídeos que igualmente “as redes sociais partilham, sem regras nem qualquer cuidado na preservação de direitos fundamentais de jovens vítimas”. O CM só tem de pegar nessas “imagens brutais”, dar-lhes o tal tratamento “jornalístico”, “ético”, “deontológico”, “moral”, “decente” e “civilizador” que consiste na “total proteção da identidade dos agentes envolvidos, com imagens editadas” e bute, toca a espalhar a “reflexão” às carradas para a malta que adora “reflectir” logo pela matina, depois do almoço e antes da deita. Vídeos de lutas de rua, vídeos de agressões entre casais, vídeos de agressões a idosos, vídeos de espancamentos de grupo, vídeos de perseguições e agressões racistas, vídeos de ódio ideológico, vídeos de ódio étnico, vídeos de promoção do nazismo, vídeos que gozam com doentes mentais, vídeos das execuções terroristas, vídeos de sexo roubados, vídeos de sexo publicados por vingança, vídeos de sexo obtido com violência física, social, pessoal ou química, vídeos de sexo com crianças e, o que talvez seja o mais importante para melhor conseguirmos “reflectir” nisto tudo, vídeos de sexo com crianças que foram vendidas pelos respectivos pais para serem exploradas em vídeos de sexo com outras crianças, com adultos e, calhando, com animais. Quanta “reflexão” não se tem estado a perder por mera preguiça, ou desatenção, do nosso CM, o paladino do “jornalismo” de “reflexão”.

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A consagração do triunfo da calúnia

António Costa fez uma original campanha de promoção política em parceria com João Miguel Tavares. No dia 12 de Maio, os três filhos menores do segundo foram levados a S. Bento para serem fotografados e retidos nessas instalações durante umas horas pelo primeiro. Aparentemente, estamos face a uma operação de sucesso, pois não encontrei registo de qualquer protesto, qualquer crítica, sequer leve remoque, fosse de políticos ou publicistas. Nas caixas de comentários, as opiniões parecem também maioritariamente favoráveis, o que equivale a um triunfo para Costa e seu parceiro de iniciativa.

Agora, era interessante conhecer a origem desta campanha. A parte em que o JMT usou os seus filhos numa crónica não conta para a avaliação do que Costa resolveu fazer. Sim, o primeiro mostrou estar disponível para a operação, mas podia ter recusado. Ao aceitar, passou a problemática do uso dos familiares em contexto mediático e profissional para outro campeonato, o equivalente a saltar de um treino na Caparica antes de uma jogatana entre solteiros e casados para a final da Champions. O mais importante, todavia, está na génese do convite primo-ministerial. Terá a ideia nascido de Costa, quiçá por ser leitor fiel do JMT ou por alguém lhe ter falado nesse tal texto criador de uma oportunidade que quis agarrar? Terá a ideia vindo de alguém da equipa do gabinete, ou governativa, ou partidária, ou de alguma agência ou assessor de comunicação? Terá a ideia aparecido em alguém da família ou amizade de Costa, tendo depois chegado por essa via ao chefe de Governo? Para além da questão relativa à invenção, temos também muita curiosidade a respeito do processo seguido durante a sua concretização. Terá a ideia sido discutida com alguém politicamente responsável? Se sim, com quem? E que posições terão tomado esses conselheiros? Ou nada se discutiu e Costa fez o que lhe deu na gana porque não achou necessário discutir o assunto ao mais alto nível, ou na esfera mais próxima, das suas preocupações governativas? Nunca o saberemos, aposto.

Já quanto à mensagem que foi tornada pública, há coisas que ficam incontornáveis. Uma delas, a principal do meu ponto de vista míope, concerne à valorização social que Costa quis fazer do JMT. Este escrevinhador já tinha sido distinguido com a suprema atenção e valorização de outro primeiro-ministro, quando foi alvo de uma acção judicial por Sócrates. Esta acção era um disparate tão grande que qualquer caloiro de um curso de Relações Públicas levaria as mãos à cabeça caso tivesse de se pronunciar sobre ela na ocasião. Pura e simplesmente, Sócrates só iria ter prejuízos políticos com essa tentativa de fazer justiça num tribunal a respeito de difamações e calúnias. Contudo, quis avançar e foi até ao fim, de derrota em derrota, permitindo que essa situação fosse explorada com espectacularidade na avalanche das campanhas negras e ódio que recebia de todos os lados. O resultado foi a transformação do JMT numa vedeta do antisocratismo, posicionamento que não mais abandonou tamanho o êxito obtido. Agora, recebe de outro primeiro-ministro uma distinção que vale mais do que uma comenda. A maior parte dos restantes cidadãos, incluindo a maior parte dos que teclam em jornais ou botam faladura nas televisões, não teria a mínima chance de receber de Costa tamanha deferência. Que poderá, então, explicar esta aliança entre um político socialista no auge do seu sucesso governativo até à data e um dos mais notáveis profissionais da indústria da calúnia em Portugal?

Costa não estava virgem destes conúbios. Tanto na Quadratura do Círculo, onde validava a postura caluniosa do Pacheco Pereira e do Lobo Xavier, como no Correio da Manhã, para onde quis ir escrever enquanto presidente da câmara de Lisboa, a sua tolerância com essa cultura e prática decadentes mostrou-se ilimitada. Mais do que isso, Costa revelou não ver qualquer obstáculo ético na exploração desses ambientes para suscitar simpatias eleitorais ou gerar influência política. Ora, é impossível que lhe tenha escapado o que JMT fez há umas semanas apenas. Entre 18 e 27 de Abril, JMT publicou no Público quatro textos que deixaram as seguintes acusações:

– Dias Loureiro usou Daniel Proença de Carvalho, o qual usou a Global Media para usar o DN e a TSF, os quais usaram Paulo Baldaia, Paulo Tavares, Anselmo Crespo e Pedro Marques Lopes. Usados para quê? De acordo com o primeiro parágrafo do texto do dia 18, usados para atacarem o Ministério Público ao serviço de um criminoso que conseguiu escapar e que ainda não está satisfeito.

– Sócrates usa Daniel Proença de Carvalho para o mesmo fim, recorrendo aos mesmos processos.

– Paulo Tavares, intencionalmente, escolheu perguntas que favorecessem Dias Loureiro e os seus interesses na entrevista que lhe fez, deixando por fazer muitas outras que o poderiam entalar.

– Aqueles que apareceram a protestar contra os termos do arquivamento do processo a Dias Loureiro são coniventes com os protestos que se fazem na “Operação Marquês” contra o Ministério Público.

– Daniel Oliveira, Pedro Adão e Silva e Miguel Sousa Tavares trabalham para os interesses de Sócrates pelo que não merecem ser invocados como vozes independentes no que concerne à opinião que calhem ter sobre o Ministério Público noutros casos.

– Joaquim Oliveira, António Mosquito e a KNJ Investment têm estado a investir num negócio falido, pelo que terão de ter outros objectivos escondidos para tal gasto de dinheiro.

– Daniel Proença de Carvalho é uma figura suspeita pois tem aparecido como advogado de “grandes figuras do regime”, o seu filho igualmente suspeito fica pelas mesmas razões. Suspeitos de quê? JMT não o diz, mas se fosse de coisa boa ele não nos estaria a avisar para termos muito cuidado com essa malandragem.

– Afonso Camões terá cometido imoralidades e/ou ilicitudes não descritas pelo JMT, mas podendo nós ter a certeza de que terão ocorrido porque o próprio JMT leu notícias a respeito de escutas na “Operação Marquês” que o levaram para essa conclusão que faz questão de partilhar com o povo.

– Paulo Rego terá cometido imoralidades e/ou ilicitudes não descritas pelo JMT, mas podendo nós ter a certeza de que terão ocorrido porque o próprio JMT descobriu que o senhor foi nomeado director-adjunto da Lusa em 2006, o que levou o bom JMT a partilhar essa conclusão com o povo.

– Luís Viana, idem idem, aspas aspas.

– Afonso Camões e Macau, Macau e os socialistas, etc.

– Pedro Marques Lopes não presta, anda para aí a mentir.

Em suma, o “jornalismo” do “jornalista” JMT foi desenterrar estas vilezas do buraco onde estavam escondidas e transportou-as com diligência para a sua coluna de opinião onde ficam em exibição como híbrido: nem são factos nem deixam de o ser, nem são notícias nem são boatos, são coisas que ele diz porque lhe atravessam a mona quando tem de trabalhar para ganhar o dele. E conseguiu calar os alvos do seu ataque, que reagiram à primeira investida mas que se recolheram em tábuas à segunda, terceira e quarta. Obviamente, o que está aqui em causa não é a pessoa, nem sequer a figura mediática, do JMT. A relevância que protagoniza remete é para quem lhe está a dar o espaço e a remuneração. Ele, tranquilamente, chegando ao ponto de usar os filhos como material profissional, veste extasiado pela facilidade e benesses a farda do franco-atirador, o David que enfrenta e assusta os Golias da sua predilecção, quase todos socialistas, ou que larguem esse cheiro, por grande coincidência e conforto cognitivo. E é neste contexto que aparece um primeiro-ministro que viu vantagem em associar a sua imagem à dele. Uma associação que tanto pode ser vista como uma brincadeira para gerar ganhos de popularidade num momento em que não precisa deles para nada se obtidos desta forma, como pode ser vista como a celebração de uma cultura e agenda políticas comum. Para quem reduza a política ao cinismo pragmático, para quem não se importe de permitir que um esgoto a céu aberto use o seu nome e voz para vender jornais e ter audiências, é a segunda hipótese a que terá maior probabilidade de estar certa.

 

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Exactissimamente

O suicídio do PSD

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Clara Ferreira Alves lembrou-se de algo que eu tinha esquecido, ou que me passou ao lado, uma declaração de Miguel Macedo que reza assim: “Portugal não pode continuar um país de muitas cigarras e poucas formigas“. Isto foi dito em Setembro de 2012, no período mais violento de toda a violência que o Governo de Passos decidiu impor aos portugueses naquela que era uma estratégia de aproveitamento da presença da Troika para levar a cabo um projecto de reengenharia social totalmente avesso ao programa eleitoral com que PSD e CDS foram a eleições. Programa esse que se reduzia a prometer o fim da austeridade sobre as “pessoas” e o seu deslocamento para o “corte de gorduras” no Estado. Trata-se do maior logro eleitoralista de toda a história da democracia em Portugal, é verificar.

Ora, dizia este senhor que habitamos num país onde abundam as cigarras e faltam as formigas. É a visão do castigo, da oligarquia, da exploração, do ódio. Um ódio pragmático, pois ao simpático Macedo nunca lhe passaria pelo bestunto dizer tal coisa antes de ser ministro de Passos. Pelo que importa continuar a recordar a experiência política, social e cultural por que passámos de 2011 a 2015. É uma contemplação luminosa acerca daqueles que nos tratam como gado para abate.

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Revolution through evolution

Changes in Early Stone Age tool production have ‘musical’ ties
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Birds choose their neighbors based on personality
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Sound projection: Are Stradivarius violins really better?
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Pet dogs help kids feel less stressed
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Jumping to your death? Motivations of extreme sports
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Our Taste in Movies Is Highly Idiosyncratic—and at Odds with Critics’ Preferences
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‘Narrative Expressive Writing’ Might Protect Against Harmful Health Effects of Divorce-Related Stress

A indiferença do ateu

[…]Para um ateu militante, Fátima é uma exibição de primitivismo, um desfile de sacrifícios sem sentido, uma exploração de crendices, uma manipulação comercial, em suma um horror, palavra raramente aplicada ao misticismo oriental ou às cerimónias tribais da Papuásia. E sobre Meca, por motivos óbvios, a deferência impera.[…]”

Excerto de “Fátima, um assunto que não me diz respeito” (Observador)

Faz um bom estilo e uma boa pose a Alberto Gonçalves dizer que, sendo ateu, Fátima e a religião lhe são indiferentes. Que não são nada com ele. Que por aí se fica e daí não ousa sair. Isto, deduz-se, como bom ateu que é. E ao contrário de outros. Por isso, abomina – eu diria esconjura – os que fazem do ateísmo uma militância (como se fossem a maioria) e, evidentemente, logo aproveita para caricaturar e generalizar. Os ateus militantes serão de esquerda (socialistas, a sua grande obsessão), marxistas (têm assim uma outra religião, esta sim verdadeiramente perigosa) e, entre outros defeitos, não criticam minimamente a religião islâmica, que inclui as peregrinações a Meca, muito semelhantes às que rumam a Fátima, nem outras religiões mais distantes e insulares. Estas afirmações são um bom exemplo de mentiras para encher o olho e de meias verdades veiculadas por meio de generalizações, muito convenientes ao objectivo perseguido, que é sempre o mesmo.

Sendo o ruído que alguns ateus fazem muito longe de ensurdecedor, não consta mesmo assim que Richard Dawkins, um dos mais conhecidos activistas, seja marxista. Ou Stephen Hawking. Ou o falecido Christopher Hitchens, que dizia meramente o que pensava sobre esta matéria. Não é verdade, mas a questão nem está aí. É evidente que há uma boa razão para que o deus cristão seja o mais “atacado” pelos ateus activistas que vivem no Ocidente. É aquele em que acreditam a maioria dos que por cá acreditam em entidades sobrenaturais. Aquele em nome de quem muita gente nesta parte do mundo foi vítima das maiores atrocidades e massacres (a Santa Inquisição) e que consentiu nos maiores deboches e promiscuidade com o poder temporal que marcaram parte da história pós-romana do catolicismo.

Como ateia não militante (não ando a colar cartazes), tanto me perplexizam os preceitos e as rezas islâmicas como os católicos ou judaicos. Ou hindus. Repudio o seu primitivismo, a sua irracionalidade e a sua inutilidade. Mais, acho que só fazem mal às criancinhas. Não há divindades em cima de oliveiras. Há, sim, é um enorme cemitério de divindades ao longo da história da nossa espécie. Mas repudio com maior veemência a doutrina e os preceitos islâmicos dada a sua total inflexibilidade e petrificação, o número avassalador dos seus praticantes num mundo aberto e por serem potencial e realmente indutores de violência, muita dela perpetrada em solo ocidental, numa altura em que a religião católica já se remeteu em muito boa medida a domínios como o da vida espiritual, do recolhimento interior, do amor do próximo, da paz, das visões místicas e outros tão indefiníveis como inofensivos. Será para mim uma naturalidade ser chamada de islamofóbica. Quanto a outros cultos, igualmente abstrusos, nunca nos afectaram, não nos afectam e não corremos o risco de ser por eles afectados – o animismo, o xintuismo, o taoismo e sei lá que mais.

Comungando eu do mesmo distanciamento que o Alberto Gonçalves (ena!) em relação a fenómenos como a pantomina de Fátima, e não sendo activista do ateísmo (ah, e muito menos marxista), não considero, porém, que o alheamento de um ateu deva ser total. A liberdade de pensamento, de expressão e de culto (ou não culto) não existe há tanto tempo quanto parece. A vigilância quanto à intromissão das seitas religiosas nas nossas vidas, e na vida de toda a gente, deve ser permanente. Num tempo em que os mais fanáticos dos fanáticos adoradores de entidades sobrenaturais – os muçulmanos – praticamente nos obrigam a um penoso exercício de encarnação em pessoas de há dez séculos para olhar para um fenómeno que julgávamos e desejávamos morto e esquecido, existe o perigo de uma “ressurreição” das afirmações dos credos religiosos ocidentais ou, mais provável, do seu aproveitamento pelos ditadores que vão surgindo no panorama político ocidental, ou até do regresso da ligação igreja-Estado, invocando a questão identitária.

Assim dito, indiferença, sim, mas na dose certa, ou melhor, passe a contradição, uma indiferença atenta. Eu não quero que, à boleia da contraposição de uma religião de paz (como diz o Francisco Bergoglio) a outra de violência, as crendices se imponham e se oficializem outra vez.

Bem precisam

Institutos da direita ganham novo fôlego para debater ideias

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A decadência da direita portuguesa tem a sua origem no sucesso do cavaquismo. Uma banal história da valência do lugar-comum “o poder corrompe”. Depois, acrescentou-se um momento simbólico desta mesmíssima decadência, com a traição de Barroso ao abandonar o Governo de Portugal para ir tratar da governança dos milhares de milhões de euros europeus. É uma traição, retinta, porque Barroso tinha declarado ao eleitorado antes das eleições de 2002 que a sua mais importante missão na vida seria chegar a primeiro-ministro. Em seu favor, há que reconhecer que ele nunca explicou por que razão dava tanta importância ao exercício desse cargo. A descoberta das suas mais profundas motivações veio tarde de mais para o interesse nacional. Seguiram-se Santana Lopes, Marques Mendes, Luís Filipe Menezes, Ferreira Leite e Passos Coelho. Uma galeria de horrores quando comparados com Sá Carneiro. Ao lado, o PSD foi convivendo em sinergia com Paulo Portas, mais um exemplo acabado do que é o triunfo do oportunismo e da demagogia.

A decadência da direita, acirrada ao máximo no páreo com o PS de Sócrates e seus quadros dirigentes e governativos, consiste em terem trocado o confronto de ideias e projectos pela chicana, pelas golpadas e pelo assassinato de carácter. Para tal, foi crucial a influência de Cavaco a partir de 2007, permitindo, e ele próprio alimentando e assumindo, o uso de todas as armas do arsenal da baixa política – e até algo mais, de facto criminoso, como foi a “Inventona de Belém”, por exemplo. A violência desta resposta da direita compreende-se à luz da crise económica que fez ruir a sua estrutura de poder bancário e também como impotência perante as superiores capacidades políticas de Sócrates e da sua equipa. Mas é o que é, decadente.

A decadência da direita atinge o seu ponto cimeiro no chumbo do PEC 4 e no logro eleitoralista que se seguiu. Mais duas traições ao interesse nacional e, inclusive, aos valores tradicionais da direita portuguesa, aqueles da social-democracia e do patriotismo. O ataque aos portugueses, aproveitando a desculpa da invasão estrangeira, que Passos e Portas levaram a efeito não deve ser esquecido, devia era ser estudado.

Os advogados que vão para a política sentem-se como se estivessem na escola a cabular e no recreio, daí a sua sempiterna jovialidade. Sabem que só precisam de debitar umas cagadas para terem jornalistas à volta e poderem ir jantar em paz com o sentimento do dever cumprido. São “políticos”, e o “fazer política” para figuras típicas da actual direita como Montenegro, Aguiar-Branco, Nuno Melo e dezenas doutros, não passa de uma actividade circense onde o critério da vitória é o boicote à mensagem do adversário e a ilusão de que a comunidade dá atenção às vacuidades que largam automaticamente nisso do “fazer política”.

Pois é, talvez já seja tempo de começarem a usar a cabeça para pensar em algo distinto do vosso umbigo.

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Prognóstico reservado

O que se está a passar no Estados Unidos da América, neste episódio do despedimento do director do FBI, não tem paralelo com nada conhecido na história dos presidentes norte-americanos (dizem os bacanos que dizem que sabem do assunto). As parecenças com o “Watergate” desvanecem-se rapidamente quando se constata que até com Nixon havia uma matriz de racionalidade, enquanto com Trump estamos mergulhados na loucura diária (e até horária, porque ele pode ir para o Twitter desvairar a qualquer hora). Quem esteja a acompanhar a sucessão das grotescas manifestações de incompetência e alucinação por parte de Trump e da sua equipa não precisa de mais nenhuma informação para concluir que a origem do problema não é ideológica, partidária, política, criminal nem conspiracionista. Pura e simplesmente, Trump é um sujeito emocional e cognitivamente descontrolado, o qual ao longo da sua vida foi tendo oportunidades para aproveitar essas características em seu proveito no mundo dos negócios através de sucessivas burlas. Quando decidiu concorrer às eleições presidenciais, provavelmente não queria mais do que dar um golpe publicitário ligado com a oportunidade de explorar comercialmente o populismo reinante na América e no Mundo com o lançamento posterior de um canal televisivo. Depois, constatando que a comunicação social ficava toda ao seu serviço mesmo quando o atacava e tentava ridicularizar, limitou-se a ir esticando a corda como se estivesse apenas a lidar com uma audiência televisiva viciada em “escândalos” e entretenimento. A fórmula passou por destruir todas as regras que foram seguidas durante décadas na estratégia eleitoral. Trump colou-se aos racistas, aos misóginos, aos russos. Trump atacou a outrance o próprio Partido Republicano, os Bush, Mitt Romney, John McCain. Trump gozou com deficientes, com os pais de um soldado americano morto no Iraque, com um juiz de ascendência mexicana. Trump ameaçou os americanos latinos, os americanos muçulmanos e os americanos socialmente marginalizados. Por causa de uma tempestade perfeita contrária aos interesses de Hillary Clinton, onde ironicamente uma das peças-chave da sua derrota se deve a uma decisão altamente suspeita de James Comey, o resultado das eleições colocou na Casa Branca um autêntico chanfrado dos cornos.

A democracia nasceu do desenvolvimento intelectual de um certo povo que tinha inscrito na sua mitologia fundadora a conexão entre o poder guerreiro e o poder da palavra. É essa a lição da Ilíada, e são esses os factos da realidade política da Atenas de Sólon, Clístenes e Péricles – a qual era, igualmente, a Atenas dos filósofos, esses seres que gostam mais de perseguir a verdade do que exibi-la pendurada e morta. Logo, há uma interdependência entre a democracia enquanto ideal que coloca o poder no mais fraco dos autónomos, o cidadão, e as condições em que essa autonomia pode originar acções políticas, condições essas nascidas da identidade, da experiência e da inteligência. Obviamente, estas condições só ocorrem num dado território, com uma dada demografia e respectiva economia. Porém, tiveram de passar centenas de milhares de anos para que um certo tipo de primatas tivesse criado esta tão sofisticada e revolucionária forma de usar o poder comunitário a que chamamos democracia. E depois de ter aparecido esteve vários séculos enterrada no esquecimento, prova da sua fragilidade. Quando nos últimos anos correlacionamos a erupção dos populismos nascidos das crises económicas e transformações sócio-culturais com os ataques ao conceito e modelo da democracia não estamos apenas a repetir clichés para encher conversas, a vitória de Trump é a exuberante prova da causalidade em causa: eleitorados alienados por retóricas identitárias fundadas no medo e no culto do autoritarismo favorecem políticos que apenas precisam de mentir com talento histriónico. Esses políticos, caso triunfem desse modo, não se irão converter à democracia depois de agarrarem o poder. Porque a democracia, na sua essência, é um culto da liberdade, enquanto o populismo de todas as formas e feitios é uma manipulação da estupidez colectiva. A estupidez dos outros pode ser usada em proveito próprio recorrendo à hipocrisia, já a liberdade dos outros exige a humildade – e a coragem – de colocar a inteligência ao serviço daqueles que nada nos devem nem ficarão a dever.

Trump prometeu resolver todos os problemas económicos, sociais e políticos dos EUA assim que fosse empossado. Era tudo simples e imediato. E os outros governantes e políticos, todos os outros que assumiram funções públicas antes dele, eram corruptos e incompetentes, garantiu na TV. O resultado está à vista. Estamos a ser cobaias numa experiência médica que nos poderá matar ou imunizar.

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As pessoas que vão a Fátima são melhores do que as outras?

Resposta: não. Há de tudo, como “cá fora”. A comprová-lo basta lembrarmo-nos dos mexericos e da maledicência que era habitual ouvirem-se pela boca das pessoas que iam à missa em relação a outros frequentadores do templo. Findas as rezas, à vidinha, pois aquela que acabou de vir da Sacristia é cá uma fingida, de facto. E o padre? Ai, sabe-se lá.

A característica bizarra de certas pessoas acreditarem na existência de uma entidade sobrenatural que as pode castigar ou que, de uma outra perspectiva, vela por elas e as ajuda – mas, note-se, só quando lhe apetece, ou quando a concentração é tanta que o suplicante experimenta transformações físicas benéficas (por vezes não, a comoção pode matar) – é uma coisa lá delas. Se se sentem bem assim, se gostam da companhia de amigos imaginários, se para elas funciona, tanto melhor! Haja liberdade, desde que, obviamente, não me obriguem ao que não quero nem me façam mal em virtude da crença em causa (aconteceu durante demasiados séculos). Por isso, ir de passeata até à Serra de Aire pode até fazer bem à saúde de quem leva uma vida sedentária. O facto de o Governo ter concedido tolerância de ponto faz parte da política de não hostilização de fenómenos de massa inócuos, mas que geram dividendos económicos, e de boas relações diplomáticas com empresas poderosas na manipulação dessas mesmas massas.

O que distingue o homo sapiens (com 50 000 anos apenas) dos seus antepassados neanderthal, denisovo ou erectus é precisamente uma capacidade fundamental entretanto adquirida – a de criar ficções (ler o interessante livro “Sapiens – História Breve da Humanidade“, do israelita Yuval Noah Harari). Por uma questão prática de ordem organizativa, de sobrevivência, defensiva, afirmativa, de domínio, identificativa, etc., a invenção de realidades, de histórias – também chamado pensamento abstracto – deu-nos uma vantagem decisiva sobre as restantes espécies. Como não podia deixar de ser, com a distribuição dos sapiens pelo mundo, tipicamente em grupo, e com o seu estabelecimento em locais precisos, cada comunidade criou as suas próprias ficções, que a necessidade de supriorização, de marcação do território ou de combate a invasores depressa transformou em antagónicas. Em certas zonas do mundo, como na Europa, houve a genialidade de pôr de parte essa razão para antagonismos. Outras haverá e já nos chegam. Instituiu-se, pois, a liberdade religiosa – cada um acredita no sobrenatural que entende ou não acredita em sobrenatural nenhum e vamos ao que interessa, ou seja, organizarmo-nos segundo as regras do direito (lá está, outro exemplo de abstracção) e procurar perceber, já que estamos aqui, como é que aqui chegámos e o que é isto do universo. E o que fazer com a nossa inteligência e os conhecimentos de que dispomos.

Sugiro, pois, que se olhe para estes fenómenos das peregrinações a lugares considerados sagrados não só como comuns a múltiplas e variadas crenças desde tempos imemoriais, experiências místicas (possíveis de serem vividas, eventualmente com maior proveito, em contextos artísticos, amorosos e outros), como também algo sem efeito de maior na sociedade, a não ser uma breve, mas bem-vinda dinamização da economia, o reforço do espírito caritativo entre alguns (mas que se dispensa se vier acompanhado de proselitismo; além de que há alternativas laicas) e sobretudo o da recolha de fundos valiosos para a perpetuação da empresa ICAR, que, hoje em dia, não faz mal – embora talvez pudesse fazer melhor se os seus representantes pudessem acasalar com outros adultos. Mas enfim, lá está, para esta comunidade concreta, parece que o sexo é bom demais para não ser pecado para os seus pastores.

Livros

Ainda não li, pode até ser uma desilusão, um conjunto de teorias sem fundamento, mas, há pouco, na France24 (na rubrica “Le journal de l’Afrique”), vi uma pequena entrevista com o autor, que me pareceu um homem bem interessante, a dizer coisas, para muitos, escandalosas e inaceitáveis. (Tudo a propósito da questão das reparações pela escravatura exigíveis, ou não, à França; ele diz-se contra)

«Les Arabes ont razzié l’Afrique subsaharienne pendant treize siècles sans interruption. La plupart des millions d’hommes qu’ils ont déportés ont disparu du fait des traitements inhumains.
Cette douloureuse page de l’histoire des peuples noirs n’est apparemment pas définitivement tournée. La traite négrière a commencé lorsque l’émir et général arabe Abdallah ben Saïd a imposé aux Soudanais un bakht (accord), conclu en 652, les obligeant à livrer annuellement des centaines d’esclaves. La majorité de ces hommes était prélevée sur les populations du Darfour. Et ce fut le point de départ d’une énorme ponction humaine qui devait s’arrêter officiellement au début du XXe siècle.»


O que nos vale é já ter acabado a impunidade

Joana Marques Vidal, de acordo com esta notícia: PGR angolana exige desmentido a Joana Marques Vidal, impediu que se pedisse formalmente à Procuradoria-Geral Angolana o interrogatório de Manuel Vicente no âmbito de um inquérito a Orlando Figueira relativo à suspeita de arquivamento de processos judiciais a troco de dinheiro.

Este episódio não gerou, que tenha apanhado, sequer uma opinião fugidia no comentariado nacional. Porém, o que na notícia se descreve é factualmente anómalo até para um leigo – como se prova pela posição da PGA. A influência de Angola na economia portuguesa esmoreceu com a baixa do preço do petróleo, mas as gigantescas fortunas na posse da elite angolana continuam a fazer-se presentes na nossa sociedade. Neste caso em que temos uma juliana onde aparecem angolanos poderosos, a procuradora-geral que foi escolhida pelo PSD e CDS para acabar com a impunidade socialista, o tal procurador acusado de corrupção que andava a emprestar dinheiro ao tal juiz que nunca recebeu empréstimos e que papa corruptos ao pequeno-almoço, e ainda o chibanço deste sobre o que lhe terá contado aquele a respeito de Proença de Carvalho (famoso manipulador de jornalistas e opinadores nessa organização mafiosa chamada Global Media, de acordo com o jornalismo de opinião praticado no Público do David Dinis), não há mais nada para explicar? Aquilo que aparenta ter sido a intencional criação de um erro no processo que poderá acabar por torná-lo inviável fica como um acontecimento que não desperta a curiosidade de jornalistas, deputados e governantes?

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