Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Serviço público

Num bairro que se habituou a ter medo da polícia, a ouvir "para dentro, caralho", a revistas sem motivo, a portas partidas, a balas perdidas, a ser tratado por tu, a não protestar "porque é pior" e a não fazer queixa "porque não serve de nada", a acusação do MP à esquadra de Alfragide é como uma esmola demasiado boa: o pobre quer acreditar mas desconfia. É muito tempo sem justiça nem lei, de "preto vai para a tua terra", de "cala-te se não queres levar". A sede de uma espera só se estanca na torrente. Virá ela?


“Os polícias eram deuses, agora são como nós”

Há demasiados jornalistas a precisarem de ir de férias

Hoje o Público lança-se numa campanha de ataque à Câmara Municipal de Lisboa, insinuando que praticamente toda a obra feita, aprovada ou a concurso está sob investigação judicial. O PSD está, como é óbvio, por trás desta campanha. Está a tornar-se um padrão de actuação: sem argumentos, candidatos ou propostas melhores que os dos seus adversários, lançam uma nuvem de suspeição, que pode dar no que der, tipicamente em nada, mas o que interessa mesmo é deixar pairar a dúvida. O jornalista (na realidade, dois, pois assina também uma jornalista) do referido jornal faz então o trabalho de divulgação em forma de notícia. Notícia mal apresentada, diga-se, porque nem sequer ouve as partes acusadas, nomeadamente a Associação de Turismo de Lisboa. Não querendo ir de férias, estes jornalistas escrevem sem tino. Irão ser acusados de fretes e de mau jornalismo. Eu já comecei.

No DN, vários jornalistas-comentadores continuam decididamente a ver uma realidade totalmente diferente da esmagadora maioria da população. Lendo alguns deles, parece que o Governo anda a atear os incêndios. Sobre o SIRESP, jamais uma palavra sobre o que o governo anterior devia ter feito e não fez para corrigir as falhas identificadas durante o seu mandato e o que já foi feito entretanto . É dito alto e bom som, nas televisões, por quem anda hoje no terreno a acompanhar ou a combater os incêndios, que as recentes interrupções do SIRESP foram de imediato compensadas por sistemas de comunicações alternativos, não tendo havido qualquer problema de falhas, muito menos de falhas que agravassem a situação em Alijó ou Mangualde, mas estas criaturas continuam a falar na vergonha das falhas e mais não sei o quê que o Abreu Amorim, o tanque de combate e insídia do PSD, anda por aí a dizer. Também no mesmo jornal, João Pedro Henriques, para não perder a onda, e a propósito dos ciganos caluniosamente acusados por um troglodita qualquer que concorre a Loures pela coligação PSD/CDS, disserta sobre racismo  e acha que é racismo os trabalhadores de origem africana terem ido viver para uma zona recuada de Cascais onde tem, ao longo dos anos, havido necessidade de mão de obra para a construção civil.

Isto sem evidentemente cuidarem de saber que aquela gente toda tinha ido viver para Cascais não por causa dos gelados Santini mas porque a construção civil dava emprego a toda a mão-de-obra barata (negra, portanto) que pudesse agarrar. O racismo era isto: os brancos, upstairs, no litoral; os negros, downstairs, no interior.

Racismo, isto, porquê? Anda por aí um conceito de racismo muito bizarro. O facto de as pessoas com interesses, locais de trabalho e possivelmente hábitos comuns se agregarem em determinados sítios não configura racismo por parte de quem lhes dá emprego. O racismo infelizmente existe, mas é melhor não dizer patacoadas e procurar noutro lado, noutras atitudes, noutros contextos, para não dar a ideia de que se fala nele só porque virou agenda.

Revolution through evolution

Study Finds ‘Sexism’ in Sexual Assault Research, but This Time Men Are the Target
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Cannibalism: A new way to stop the spread of disease
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Cognitive behavioral therapy improves functioning for people with chronic pain, study shows
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Handshaking viewed more positively by Westerners than by East Asians
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Banks hired risk officers to mitigate risk in years before collapse. It didn’t go so well
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A Purpose in Life by Day Results in Better Sleep at Night
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Study Reveals the Hidden Ways Math Helps Us in Everyday Life
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Ladies and gentlemen

O metro de Londres acabou nos seus altifalantes com a saudação “ladies and gentlemen”, por esta ter sido considerada “fora de moda” e sentida como “ofensiva” por utentes que não se consideram nem ladies nem gentlemen. Trata-se, aparentemente, de lesbians, gays, bisexuals e transgenders.

É mais um avanço da luta pela igualdade ou neutralidade de género, causa que vai progredindo irresistivelmente através de uma multidão de “pequenos passos”, até à vitória final.

Não sei onde estaremos quando chegarmos à vitória final, mas imagino que, do ponto de vista linguístico, será assim:

– Os pronomes pessoais de dois géneros, nas línguas em que os houver, serão substituídos por um pronome pessoal neutral, como já está a ser experimentado por militantes sueco(a)s na(o) Suécia(o). Em português, por exemplo, ele e ela poderão ceder o lugar ao neutral eli. Criar-se-á assim uma saudável incerteza acerca de quem falamos. Por exemplo, quando dissermos “Eli deu à luz”, ninguém saberá se estamos a falar de uma parturiente ou de um electricista barbudo, se ainda não tiver sido proibido o uso de barba.

– Os artigos definidos e indefinidos dos dois géneros (em português o, a, um e uma) serão implacavelmente eliminados. Há línguas que não têm artigos definidos e os seus falantes, como é bem sabido, são muito mais felizes. Os artigos indefinidos, quando muito, poderão ser substituídos por pequenos grunhidos neutrais, tipo oink, hein, uh, ahn, etc.

– Os pronomes possessivos serão neutralizados. Em português, meu/minha darão lugar a, simplesmente, me.

– Os substantivos com género, onde os houver, serão impiedosamente neutralizados. Os que têm o mesmo radical e apenas diferem pela vogal final, como menino/menina, senhor/senhora, etc. poderão ser substituídos por excelentes neutrais como menine, senhori, etc. No caso de terráqueo/terráquea, a óbvia solução seria terráque, mas é melhor procurar outra coisa, para não se confundir com traque quando pronunciado com dois rr.

– Os outros substantivos, como cão/cadela, cavalo/égua, pai/mãe, etc. oferecem porventura maior dificuldade. Em princípio, os mais neutrais canídeo, equídeo e progenitor seriam bons. O problema é que, em português, essas palavras ainda são do género masculino. Por isso talvez fosse melhor optar por canide, equide e progenite.

– Assim, quando se quiser dizer: “Vou andar a cavalo com o meu pai enquanto a minha mãe passeia o cão”, passaria a dizer-se: “Vou andar a equide com me progenite enquanto me progenite passeia canide”. É simplesmente linde e bué neutral!

– Há ainda palavras de género neutral, como isso, mas que parecem masculinas, pelo que isso passará a isse.

Vamos a isse?

Suspeito, não sabe do quê, até prova em contrário

Em mais um 14 de Julho, aniversário da Revolução Francesa, vem a propósito recordar o que se passou há 11 dias com Manuel Pinho. Segundo o seu advogado, Pinho foi constituído arguido no caso das rendas da EDP sem ter sido ouvido e, principalmente, sem ter conhecimento do que estava na origem da acção judicial sobre a sua pessoa. No dia seguinte, a PGR enviou para a Lusa uma declaração onde se lia que “no momento da constituição, o arguido foi informado dos factos que lhe são imputados”. Mais um dia passado e Ricardo Sá Fernandes apareceu a desmentir a PGR e a anunciar uma queixa à Ordem dos Advogados para refutar o que considerou como falsidade. De lá para cá, no meu radar, nada mais aflorou a respeito. Não sabemos quem mente, mas sabemos que alguém mente.

Será este episódio algo sem importância cívica, política ou social? Não, impossível. O silêncio que o encobre revela uma sociedade que já transitou em julgado a culpa de um grupo de cidadãos. Nesse grupo está Manuel Pinho, figura que é fácil de ridicularizar e ofender. Saber que foi constituído arguido sem saber porquê, sem se poder defender e, como também apareceu publicado, apenas para evitar a prescrição de um inquérito, não causa escândalo, sequer solidariedade ou mínima preocupação. Na prática, testemunhamos um ostracismo generalizado que foi e é desejado por este Ministério Público de Joana Marques Vidal. Acham, e com toda a razão, que é meio caminho andado para prolongarem um exercício de poder que, a confirmar-se a versão de Sá Fernandes, corresponde a uma prática despótica. Saber como chegámos a este estado não é operação cognitivamente exigente, pois existe uma campanha intensa para linchar publicamente todos os alvos que possam contribuir para a exploração caluniosa de Sócrates com objectivos comerciais e/ou políticos. Pinho alia a ligação a Sócrates à ligação ao BES, transportando uma nuvem de culpabilidade que não passará nunca, nem mesmo que saia ilibado dos imbróglios legais onde está metido. Ainda por cima é rico, logo, fogueira com ele.

228 anos passaram desde a Tomada da Bastilha. Incontáveis e radicalmente decisivas as alterações políticas e sociais resultantes desse evento na França, na Europa, no Ocidente. Qual a relação desse pilar da História Moderna e Contemporânea com esta nanohistória de um fulano mal-afamado que foi constituído arguido no meio de um bate-boca sobre questões formais a que ninguém liga, muito menos tratando-se da rês em questão? A relação é a que cada um quiser – e puder – estabelecer. Na verdade, podemos recuar mais anos, mais séculos, até milénios, e continuar a estabelecer nexos fundamentais. Trata-se de reconhecer o papel do conhecimento histórico na formação da consciência política, primeiro, e na formação da actividade cívica, depois. Quem não souber explicar a si próprio o que aconteceu na Revolução Francesa igualmente não conseguirá sequer perceber qual seja a importância de vivermos num Estado de direito democrático. Porque não irá entender o que seja uma democracia, uma constituição, um direito. Nesse caso, qual será a origem das suas convicções ou opções políticas? Quais os mecanismos através dos quais toma decisões eleitorais? Como se gera na sua consciência os gostos e aversões pelas figuras públicas ligadas ao poder político, económico e social? Não é um acaso que, neste País vítima de décadas de analfabetismo e iliteracia, décadas de ignorância intelectual e atrofio cívico, o Correio da Manhã seja o grande educador do povo.

Como escreve Sócrates – Arguido por prevenção – o Código Penal não contempla a figura de arguido por fezada e arbítrio de algum procurador que esteja para aí virado. Porém, talvez o devesse fazer. Talvez o melhor seja regularizarmos a situação. Pormos em letra de lei que se pode constituir arguido qualquer cidadão sem carência de factos que o sustentem, sem que seja ouvido pelas autoridades judiciais, e ficando a partir daí ao dispor do Ministério Público e do seu aparelho mediático para o que lhes apetecer. É que coisas destas já aconteceram, eram a norma no tal passado registado na História. Os poderosos de então não conheciam outra forma de exercer o poder que não passasse pela lei do mais forte. Foi preciso que muita e muita gente verdadeiramente heróica morresse, ou perdesse tudo de seu e ficasse na miséria ou encarcerada, antes de se conseguir criar neste planeta uma outra forma de convivência onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade substituíssem a tirania, o privilégio e a opressão.

Nesta terra de liberais de pacotilha, temos de perguntar aos valentões que apanham corruptos pelo cheiro, não precisando que qualquer investigação se conclua nem de conhecer a defesa dos envolvidos, se estão de acordo com a tal mudança do Código Penal – se isto de tratar cidadãos como suspeitos não sabem do quê até prova em contrário é só para ser usado contra alguns tipos que eles não gramam ou se também querem ver a sua família, amigos e colegas de carreira sujeitos ao mesmo remédio. Conseguir levá-los a responder a esta questão seria verdadeiramente revolucionário.

A CGD e a telepatia

O PSD, e muito bem, pretende que o Parlamento investigue até à última gota a CGD. Perante um inquérito parlamentar que não encontrou provas de pressões políticas sobre a Caixa, tendo os principais dirigentes do banco declarado sob juramento que sempre agiram sem condicionalismos dos diferentes Governos, os sociais-democratas estão em combate para que não se aprove as suas conclusões. Na berlinda está o levantamento do sigilo bancário da CGD, do Banco de Portugal e do Ministério das Finanças. A suspeita que justifica o interesse é da maior importância para a direita partidária e mediática, dizendo respeito a certos empréstimos, a certas pessoas, para certos negócios. É uma suspeita que tem sido explorada a outrance vai para 10 anos, coincidindo com a implosão do BCP por exclusiva responsabilidade de Jardim Gonçalves e do seu delfim, Paulo Teixeira Pinto. Ambos criaram uma situação de ruptura que abriu uma crise institucional no banco. Nesse contexto, diferentes accionistas aliaram-se para encontrar uma nova solução de gestão, e é neste âmbito que nasce a teoria da conspiração predilecta da oligarquia: Sócrates deu ordens à CGD para emprestar dinheiro àqueles que depois iriam conseguir controlar o BCP e meter Santos Ferreira e Vara no comando das operações. A teoria implica ainda que Sócrates dominava o BES e seu DDT. Ou então que era dominado pelo Ricardo, pois a teoria dá para os dois lados com igual eficácia argumentativa posto que nada tem de ser provado, sendo usada nas duas versões consoante as ocasiões e a direcção do vento. Mas o interesse da direita e seu império mediático não se esgota no BCP, pois qualquer empréstimo que possa ser associado, seja de que forma for, a Sócrates é alvo da suspeição máxima, quando não de certezas prévias às eventuais investigações. Existem milhares de declarações de políticos, directores de imprensa, jornalistas e comentadores em “órgãos de referência” a propagar estas ideias num qualquer grau ou modalidade. Se o PSD tiver razão, se os tais documentos em falta forem disponibilizados aos deputados e revelarem o esquema dos bandidos, ficaremos penhorados aos bravos da Lapa porque algo historicamente importante para a Justiça, a política, a sociedade, e até para a cultura, em Portugal terá acontecido ao apanharmos criminosos desse calibre.

Curiosamente, o PSD não pretende que se investigue até à ultima gota o caso do apagão no Fisco de 10 mil milhões de euros transferidos para paraísos fiscais. O que está em causa são transferências ocorridas em 2012, 2013 e 2014, exclusivamente do BES e Montepio nos três anos consecutivos – e correspondendo no caso do BES ao volume de 7917 milhões de euros omissos na base de dados. Perante a auditoria da Inspeção-geral de Finanças que concluiu pela inexistência de responsabilidade humana nessas anomalias, os sociais-democratas de imediato reclamaram que o Governo devia um pedido de desculpas a Passos Coelho, ao Governo anterior e ao PSD. No entanto, não é preciso ser técnico das finanças ou de informática para suspeitar que tamanha coincidência talvez seja mais improvável do que ganhar o Euromilhões 3 vezes de seguida. É que o programa do Fisco envolvido só teve problemas no registo das transferências para offshores. E só em 2012, 2013 e 2014. E só para o BES e Montepio nos três anos consecutivos. E permitindo que o BES, na altura crítica em que pairava sobre os seus donos o descalabro total, pudesse mover para fora do País aquela quantidade de dinheiro ocultamente. Pode ser uma coincidência, claro e sei lá eu. Todavia, porque está o PSD cheio de pressa para arrumar o assunto apesar das evidências que suscitam a maior perplexidade? Ainda por cima, a ter existido mãozinha, ela abrirá um novo capítulo na história da criminalidade em Portugal graças à sofisticação da operação. Dir-se-ia que este material jornalístico seria capaz de deixar a imprensa nacional a salivar de apetite e com ganas de revolver os calhaus da estrada, mas, como não mete socialistas, reina o marasmo na produção de títulos e falatório.

O caso da CGD é fascinante para os apaixonados por política. Estamos a falar de um banco que teve e tem nos seus quadros dirigentes – portanto, ou seja, isto é, nas pessoas que conhecem perfeitamente bem o que se passou com os tais empréstimos, dispondo de toda a documentação a respeito para ler e reler caso sofram de insónias – dezenas de bacanos ligados ao PSD e ao CDS ao mais alto nível. Faria de Oliveira, presidente do Conselho de Administração e CEO de 2008 a 2011, foi uma figura grada do Cavaquistão. José de Matos, o presidente da CGD que se seguiu, foi escolhido pelo Governo do PSD-CDS. Paulo Macedo e Rui Vilar não carecem de apresentações nem de explicações sobre os seus percursos. E estas referências dizem apenas respeito ao pináculo da pirâmide, logo abaixo os níveis directivos estão repletos de imitações. Donde, não há nada que se possa descobrir nos tais documentos em falta que eles não tenham descoberto directa ou indirectamente. A comissão de inquérito parlamentar à CGD foi anunciada pelo PSD com pompa e excitação dada a promessa de se ir, finalmente, confirmar o faduncho que andavam a cantar nas esquinas. Lá chegados, só um indivíduo deixou no ar suspeições que não provou e que foram de imediato desmentidas pelos terceiros que referiu. Esse indivíduo dá pelo nome de Campos e Cunha e a sua obsessão com Sócrates e com o PS não passa de um caso de ódio até prova em contrário. Os restantes desmentiram, sob palavra de honra, o discurso calunioso da direita. Em suma, se a CDG foi um pardieiro do “bloco central”, como PCP e BE não se têm cansado de repetir ao longo de décadas, essa paridade tornava impossível a sua manipulação para a luta política por um dos lados em desfavor do outro. Pura e simplesmente, tal seria denunciado com todas as provas suficientes para interromper as manobras na hora. Ora, as suspeitas nunca passaram de munição caluniosa, apesar da facilidade em expor os eventuais actos legal ou politicamente ilícitos.

Entretanto, o Ministério Público de Joana Marques Vidal entrou numa guerra de vida ou de morte com Sócrates ao abrir o “Processo Marquês” e ao seguir por uma linha de violação de direitos e abuso de poder. O enredo que seguem é o da direita e corresponde, ao milímetro, a uma operação gigantesca de investigação aos Governos do PS de 2005 a 2011. Neste momento, temos investigações a correr sobre as PPP, os gastos com cartões de crédito desses governantes e sobre qualquer contrato com a assinatura de Sócrates que possa ser usado para alimentar suspeitas e acabar referenciado na eventual acusação a Sócrates. Até negócios de privados poderão ter utilidade desde que se estabeleçam esquemas de ligações entre protagonistas. E quais os grandes negócios, num país minúsculo, que não têm qualquer ligação entre terceiros com o poder político do tempo? Pois. Em jogo não estão apenas factos, outrossim percepções – dado que com percepções também se condena em tribunal ou, pelo menos, na opinião pública. E o fascínio da questão consiste em observar até onde é que a Justiça e a direita vão levar a farsa de ter existido um primeiro-ministro que dominou um banco público para cometer crimes de regime – e impossíveis de esconder, no acto mesmo de se realizarem – apenas recorrendo aos seus poderes telepáticos.

Deliciosa desgraça

Os mortos de Pedrógão e o aparente assalto em Tancos foram festejados exuberantemente pela actual direita partidária, pela indústria da calúnia e pela classe dos jornalistas vulgares. A uni-los a mesma satisfação na expressão descontrolada da agressividade e da violência verbal. Uma questão de adrenalina, mas também de dopamina e serotonina. A depressão causada pelas boas notícias para o País e para os portugueses foi substituída pela euforia resultante da catástrofe, da tragédia e do pânico. O caudal de acusações, centradas na abstracção do “Estado” e na indefinível “resposta” do actual Governo, permitiu reunir no mesmo festim os pulhas do costume, os fanáticos profissionais e, para surpresa dos incautos, certas vozes que tomamos como ponderadas e activas no acrescento de salubridade para o espaço público. Podemos usar como exemplo paradigmático este texto: Estado de desgraça

Anselmo Crespo recreia-se a colar com cuspo banalidade atrás de banalidade, caricatura atrás de caricatura, numa juliana de vacuidades que foi registando ao longo dos dias nas leituras dos colegas de comentariado. A retórica escolhida, muito provavelmente num automatismo insciente, é um misto de registo coitadinho a rasar o lamechas com o desvario hiperbólico do tabloidismo e da demagogia mais básica. Exemplos:

«E foi quando se começou a perceber que a demissão de um ministro, por si só, não resolvia os problemas, que se começou a aplicar a velha estratégia do "empurra com a barriga"."»

«Aquilo a que assistimos nas últimas semanas, quer no caso de Pedrógão quer no de Tancos, foi a dois ministros completamente desorientados, a cumprir ordens do primeiro-ministro, do Presidente da República e dos assessores de imprensa, sem a menor noção do que fazer.»

«No caso de Pedrógão Grande, continua o jogo do passa-culpas, tocam-se uns requiens com a presença do Presidente da República, mas continua-se sem dar resposta à pergunta mais importante: aquelas 64 pessoas tinham que morrer? Tinham, senhora ministra?»

É a cassete dos “malandros dos políticos”, bando de corruptos e incompetentes que muito aborrecem os santos e geniais jornalistas que têm de relatar as suas actividades e ainda opinar a respeito. Mas é mais. É também a exploração, aqui consciente, do ódio larvar nas audiências a quem estas peças se dirigem, não hesitando em apontar para uma governante e dizer que ela foi responsável pelas mortes do incêndio de Pedrógão. Como é que o valente Anselmo consegue estabelecer esse nexo? É o próprio que o explica ao abrir as cortesias:

«A tragédia de Pedrógão Grande e o assalto aos paióis em Tancos são dois casos completamente diferentes, apenas com uma semelhança: o falhanço do Estado. E não, não é preciso esperar pela investigação da Polícia Judiciária ou pelas conclusões da comissão independente - que nunca mais ata nem desata - para chegar a esta conclusão.»

E não, não, não e não. De facto, não é preciso gastar mais do que meia caloria para concluir que a velocidade a que o autor chega às conclusões que lhe dão jeito tem como consequência o despiste da sua inteligência pela ribanceira do sensacionalismo abaixo. Donde, a questão: qual a finalidade de exercícios como este, neste meio? Sendo o resultado prático da leitura do texto o encontro com a decadência intelectual e cívica a que ele nos conduz feliz da vida, podemos igualmente concluir que estes jornalistas de uma opinião que se contenta em chafurdar na impotência são parte da tal desgraça que os alimenta e embriaga.

Respeitinho, menina

  1. Três secretários de Estado do Governo PS esperaram um ano para serem constituídos arguidos num caso que, desde o início, era claro, transparente e, por isso, comprovável, embora sem qualquer gravidade. Não é, pelo menos, considerado grave pelo MP quando os amantes de bola são deputados e líderes de bancada do PSD que beneficiaram de viagens pagas por empresas como a Olivedesportos, dona da Sportv e accionista da Global Media. Ninguém os incomodou.

Mera coincidência, é o que é: a atribuição do estatuto de arguidos aos secretários de Estado ocorre numa altura em que a oposição de direita se excita com uns incêndios e um furto de armamento e, sem nada que fazer até agora a não ser morrer de vergonha, pede a cabeça de ministros. Os secretários de Estado apenas se vinham juntar à festa. Nada de mais. O entusiasmo é contagiante. Passado um ano, exactamente.

  1. Veio a público que o Ministério Público recebera há uns meses uma denúncia de que estaria iminente um assalto a instalações militares com vista ao roubo de armamento. Que abrira até um investigação. A notícia não foi desmentida. Ontem, interrogada por Fátima Campos Ferreira, no programa Prós e Contras, sobre este facto e sobre as diligências tomadas pelo MP na sequência da denúncia, e sobretudo sobre as diligências não tomadas, a procuradora Maria José Morgado meteu os pés pelas mãos, enveredou por um palavreado de juridiquês confuso e nada esclareceu (sugiro que vão ver; nunca fico a apreciar o MP depois de ouvir esta senhora). Uns minutos depois, chutava a bola para os serviços de informações. Até ao momento em que mudei de canal, não lhe tinha sido perguntado se a PGR comunicara alguma informação sobre esta matéria ao ministro da tutela e, se não o fizera, qual a razão. Fiquei sem saber. O argumento de que, havendo suspeitas de envolvimento de militares, não seria aconselhável informar o CEME, atabalhoadamente invocado para a não informação do general Rovisco Duarte, colhe e não colhe. Se colhe, então o caso deveria ser considerado gravíssimo. Não havia como não ser atabalhoado, o argumento.

 

  1. Segundo o jornal oficial do Ministério Público, chamado Correio da Manhã, os procuradores responsáveis pela Operação Marquês estão muito preocupados (e já chamaram a atenção da Procuradora-Geral) com a possibilidade séria de a acusação a Sócrates sair na altura das eleições autárquicas, ou seja, finais de Setembro.

“A equipa de procuradores destinados para a elaboração do despacho final já comunicou à hierarquia que a investigação poderá ficar fechada em cima das eleições autárquicas. Certo é que a situação poderá não ser muito confortável para o Ministério Público por estar em causa um período eleitoral.”

Acreditamos. O Ministério Público sempre se preocupou com questões como essa. Acreditamos também que a senhora procuradora-geral vai ordenar que se espere mais 15 dias para evitar tal contratempo. Possivelmente mais três meses. Ou dois anos. Ou melhor ainda, pelo contrário: alegando a necessidade de rapidez, vai exigir que a acusação saia antes, durante a campanha.

O estado de desgraça da imprensa

Não se consegue ler um único jornal e muito menos artigo de opinião por estes dias. Para além dos já conhecidos “cães raivosos”, como os residentes e passistas ferrenhos do site Observador, o João Miguel Tavares, no Público, os directores, subdirectores e colunistas do Expresso, os directores, subdirectores e afins do Público,  os inqualificáveis do Correio da Manhã e os da dupla siamesa Sol/jornal i, agora até o Baldaia, do DN, virou militante do CDS e o Paulo Tavares e o Anselmo Crespo, do mesmo jornal, para lá caminham e com a bandeira do PSD. No JN não se quer perder o espírito do tempo e acompanha-se o disparate. E não é que até o Pedro Adão e Silva anda a perder o bom senso e o concomitante interesse? (é frustrante ouvi-lo na RTP3). O Daniel Oliveira. sem abdicar do tom hipercategórico que sempre utiliza, anda um pouco à toa.

Caros leitores, sintam-se livres para acrescentar nomes à lista. Deve ser fácil.

Ah, esqueci-me de dizer: tudo porque houve um incêndio particularmente devastador e mortífero e porque, por incúria das forças militares e por incompetência/desleixo/indiferença da PGR, desapareceram armas em Tancos.

Revolution through evolution

Our faces reveal whether we’re rich or poor
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Surprising trend in extramarital sex in America
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Self-driving cars may soon be able to make moral and ethical decisions as humans do
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Smelling your food makes you fat
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Who’ll win at Wimbledon? Just listen to the pitch of the grunts
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Computer that reads body language
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Vegetable coloring agent lutein may suppress inflammation
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O assalto ao bom senso

Tinha, tenho e continuarei a ter o Paulo Tavares na conta de jornalista sensato e útil. Mesmo depois de ele ter publicado isto como “opinião da direção”:

O gabinete do ministro da Defesa enviou ao DN um esclarecimento a propósito da manchete de ontem, Autorização para obra na vedação de Tancos demorou 73 dias. À parte a correção de pormenor nas datas, importa fixarmo-nos no último parágrafo. Aí revela-se muito mais do que uma simples correção de datas. É dito que "o despacho em causa (...) não resulta de nenhuma questão de segurança da infraestrutura; diz respeito estrito a um ato administrativo de autorização de procedimento contratual". Conclui-se, portanto, que ao ler as palavras "cerca", "paiol" e "reparação" todas juntas, num documento do Exército, não passou pela cabeça do ministro - ou de alguém do seu gabinete - questionar as chefias militares sobre as condições de segurança daquele perímetro [...]

Não foi uma "questão de segurança"? A sério?! Mas senhor ministro, que outra razão haveria para o Exército querer uma cerca nova ou instalar um circuito vídeo naquelas instalações? Ter uma vedação mais bonita e de uma cor que combinasse melhor com o mato por cortar dentro do perímetro dos paióis? Passar a ter câmaras mais modernas, a cores e alta definição, para ver ao detalhe a nova cerca? Acaso os pedidos que lhe chegaram à secretária foram para construir canteiros de flores ou fazer melhoramentos na messe dos oficiais? São uns frívolos e vaidosos, estes tipos do Exército...

Querido, mudei a cerca (ao paiol)

A coisa, do princípio ao fim e a começar pelo título, pretende-se sarcástica, mas é apenas parva. De acordo com o raciocínio, sempre que o Ministério da Defesa aprova uma despesa qualquer tem de questionar as chefias militares sobre matérias de segurança. É que tudo se pode relacionar potencialmente com algum risco, num qualquer grau, quando estão em causa as Forças Armadas. O articulista enche o peito com as palavras “cerca”, “paiol” e “reparação” sem perder uma caloria a pensar se o alvo da gozação não acabaria por ser ele próprio. Ter um ministro da Defesa a telefonar para os chefes militares por causa de uma reparação numa cerca de um paiol dá notícia, sem dúvida, só que à pala do ridículo da questão e pelo atestado de incompetência que esse ministro estaria a passar aos militares. Quando os nossos oficiais e praças precisarem da ajuda dos ministros para reconhecerem uma falha de segurança na protecção de um paiol por causa da porcaria de uma cerca essa será uma trombeta a anunciar que o melhor é fecharmos a tropa e confiarmos a defesa da Nação aos discos do Solnado.

E a grande pergunta é: “Houve roubo em Tancos?”

Vasco Lourenço escreveu aos membros da Associação 25 de Abril uma comunicação dando conta das suas perplexidades, e, segundo o próprio, das suas teorias da conspiração, sobre o alegado assalto aos paióis de Tancos.

Eis algumas das perguntas que deixa no ar, segundo a notícia do DN:

“quando se deu o desaparecimento do material” ou como desapareceu (“todo de uma vez ou, como muitos opinam, por várias vezes e durante um espaço concreto de tempo? E, neste caso, durante quanto tempo durou o desaparecimento do material?”) ou ainda (“hipótese mais grave ainda”), o material desaparecido “chegou a entrar nos paióis ou foi apenas acrescentado à carga dos mesmos”. Seja como for, conclui, “parece indubitável que não teria sido possível fazer o que porventura se fez sem a participação ativa de elementos da estrutura interna das unidades responsáveis pelos paióis”

Ora, há um outro jornal que noticia, citando a SIC Notícias, que “Algum do material roubado da base militar de Tancos é coincidente com o material que já tinha sido apreendido anteriormente pela Polícia Judiciária ao desmantelar uma rede de tráfico de armas material“.

O material tem, pelos vistos, andado por aí. Pode ainda andar.

E o buraco na rede? Foi ou não foi para despistar e criar um alarido de incúria e cativações da parte do Governo? Até que encaixa bem. É ver os olhinhos do Nuno Magalhães a brilhar.

Mas que diabo se passou, afinal?

O que Vasco Lourenço diz mais adiante no seu texto não é nada que não me tenha passado pela cabeça:

Afirmando-se adepto de “teorias da conspiração”, Vasco Lourenço pergunta-se, face que aconteceu em Tancos, “porquê agora”. E responde: “Sendo o objetivo principal o descredibilizar este Governo, provocando (ouro sobre azul…!) a sua queda, há que juntar aos resultados de uma tragédia natural (até agora nada nos diz que tenha sido provocada) um escândalo de tal natureza que leve à conclusão de que este Governo é incapaz, não serve, tem de cair.” “O facto é que tudo o que se seguiu, a que temos assistido e vivido, nos permite consolidar a nossa teoria”, lê-se no texto.

Pode o coronel Lourenço estar louco. A mim, já nada me espanta. Nem uma possível loucura do coronel, nem a falta de travões éticos da direita. É que, em 2011, houve quem mandasse o país para o charco enquanto decorriam negociações críticas para evitar o resgate só porque viram nisso uma oportunidade para chegar ao poder. Agora, alguém pode estar a rir-se com o “desaparecimento” das armas.

Anatomia das crises políticas

Estar na oposição é estar permanentemente em crise política. Porque algo está a correr muito mal quando se é oposição. Nenhum partido foi criado com a intenção de ficar na oposição como meta ideológica ou programática. Ser oposição parlamentar implica sofrer o vexame da derrota nas urnas ou na Assembleia da República. A saída para essa inerente crise política passa pela abertura de novas crises políticas cujo alvo seja o Governo e o partido, ou partidos, onde se legitima. Logo, as oposições procuram constantemente, salvo nos acordos pontuais com o Governo onde obtêm vantagens, que o Governo se desgaste, enfraqueça e acabe por ser substituído – de preferência, antes do fim da legislatura – por outro Governo agora formado por quem estava na oposição.

Estar no Governo é estar permanentemente em crise política. Porque algo pode correr mal, ou muito mal, e algo acaba invariavelmente por correr mal e muito mal. Nenhum Governo escapa à permanente e ubíqua pressão da fiscalização dos seus actos – e ainda dos actos passados, de Governos anteriores, cujas responsabilidades e consequências possam ser associadas ao Governo em funções. A saída para essa inerente crise política passa pelo fechamento das sucessivas emanações do estado geral de crise, seja pela resolução dos problemas avulsos, seja pela retórica da pose de Estado. Logo, os Governos procuram constantemente, e especialmente nos acordos pontuais com a oposição onde tudo o que fica acordado são vantagens, que a oposição pareça incapaz de fazer melhor do que está a ser feito na governação, levando a que no final da legislatura o eleitorado prefira a continuidade à mudança.

A comunicação social que cobre as actividades do Governo e da oposição alimenta-se das crises políticas. O registo é apocalíptico para quem estiver a empurrar a oposição na direcção do poder e dissuasor e panegírico para quem estiver a empurrar o Governo para se manter no poder. A energia dos participantes cresce na relação directa das reais ou inventadas fraquezas do adversário e das agendas respectivas daqueles que têm espaço mediático: políticos, directores de imprensa, jornalistas, comentadores. Quando não há matéria substantiva para crises, diz-se que essa situação prenuncia uma crise futura, iminente, já em curso… na comunicação social. Por exemplo, se um Governo estiver a superar todas as expectativas e a apresentar resultados económicos crescentemente positivos, alega-se que tudo podia ser muito melhor com outros senhoritos ou que vai tudo desabar em breve por causa disto e daquilo. Por exemplo, se um Governo tiver de lidar no espaço de poucas semanas com um incêndio com dezenas de mortos e um assalto a um paiol militar com falhas de segurança, declara-se a falência do Estado e agitam-se as bandeiras do caos. Não há, nem tem de haver, racionalidade, objectividade, justiça. Porque tal ponderação é contrária à dinâmica da comunicação social. Os milhares e milhões e milhares de milhões de situações que correram e correm bem nos serviços do Estado não impedem o frenesim sanguinolento quando as variáveis geram desastres e danos alarmantes. Na comunicação social, por causa do seu próprio ritmo editorial e da sua natureza autofágica, as crises políticas não são episódios, são conteúdos.

Porém, todavia, contudo, nem todas as crises políticas são crises políticas. Aliás, quase nenhumas, não passando de algazarra que se mastiga e deita fora assim que perde o sabor. Para percebermos o que é uma verdadeira crise política temos de pesar as suas origens e consequências. A mais recente aconteceu no seguimento das eleições legislativas de 2015, em que o partido vencedor em número de deputados não conseguiria formar um Governo com legitimidade parlamentar. Desta crise política veio uma solução governativa que não só tem resultado por cumprir o que prometeu aos eleitores como antecipa um salto qualitativo no sistema político no mesmo sentido. Antes dessa, tivemos a de 2011. A insuspeita Marina Costa Lobo, num artigo onde chega a citar o insuspeito Pedro Santos Guerreiro, explicou em tempo útil, e à prova de estúpidos, o que era uma obscena crise política em formação e andamento:

A resistência de Sócrates serve Portugal

Famoso caça-socráticos queixa-se de ex-ama

Temos um Estado máximo a prestar serviços mínimos. Os portugueses andam há ano e meio a fechar os olhos a tudo isto, encandeados pelo sorriso do primeiro-ministro. Já vai sendo hora de começarem a abrir a pestana e exigirem responsabilidades pelas manifestações contínuas de absoluto desleixo por parte de quem dirige o país.


Cliente do serviço de amas do Palácio de São Bento

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João Miguel Tavares, talvez o melhor jornalista português na área da investigação (e não só), tem prestado serviços inestimáveis à Grei. Fruto da sua coragem, a corrupção socialista de casta socrática está a ser perseguida, julgada e condenada sem dó nem piedade; e também sem tribunais, pois, para quê gastar dinheiro nessas chatices se basta dar razão a umas certas pessoas da nossa preferência? Quando terminar a sua caça aos bandidos, que topa à légua nas capas dos esgotos a céu aberto, o País vai finalmente recuperar a decência. Há que esperar só mais um pouquinho na certeza de que não irá vacilar, é o combate da sua vida.

Entretanto, este farol ambulante da nossa moralidade colectiva deixou-nos um aviso sobre António Costa – fulano que conhece de ginjeira ao ponto de, no passado recente, lhe ter confiado a guarda dos filhos. Ora, parece que esse tal Costa anda a fazer merda da grossa. Como se pode ler no último edital do sr. Tavares, temos um primeiro-ministro que revela “absoluto desleixo” na governação. Se fosse apenas “desleixo” já seria gravíssimo. Com o adjectivo, é crime. Ou coisa absolutamente pior.

O alerta não vem de um raivoso qualquer, apenas interessado em despachar mais uns caracteres para sacar o seu. Muito pelo contrário. Trata-se de uma vedeta da fina flor do jornalismo nacional, uma inteligência superior, alguém especializado em socialistas e seus vícios congénitos, endémicos e sistémicos. E nós só podemos imaginar como este extremoso pai estará agora tão arrependido de ter ido meter os próprios filhos nesse antro onde reina o “absoluto desleixo”. Foi uma sorte as crianças terem conseguido voltar para o regaço paterno sem mazelas ou traumas.

Ambiente de golpe de Estado, com espadas

O Movimento das Espadas, em Janeiro de 1915, protagonizado por oficiais monárquicos alegadamente descontentes com alegados “atropelos”, deu lugar a um governo ditatorial de direita, chefiado pelo general Pimenta de Castro e empossado pelo seu amigo presidente da República, Manuel de Arriaga. Tudo acabou em sangue, uns meses depois, com a revolução de 14 de Maio, que reinstaurou a República.

O movimento dos oficiais que quarta-feira vão alegadamente depositar as suas espadas à porta do presidente Marcelo tem todo o ar de se inspirar nos acontecimentos de 1915, a começar pelo depor das espadas. Quererão um golpe, como o de Arriaga-Pimenta? O país, hoje, não é o mesmo, só o nome é igual, mas o objectivo deste novo Movimento das Espadas parece ter algo de essencialmente comum com o do seu antepassado: contribuir para a queda do governo que está.

A direita está raivosa com o  êxito do governo de António Costa. A direita está fartinha de “boas notícias”. A direita está possessa e raivosa com as sondagens. Por isso, vai querer explorar até ao tutano qualquer “má notícia” para o grande objectivo do derrube do governo, como Passos Coelho e Cristas claramente dão a entender.

Se estivéssemos em 1915, tudo isto perfaria um claro ambiente de golpe de Estado… Em 2017, esta história exala um inegável fedor a ranço , mas estamos aqui para ver o que o presidente Marcelo vai fazer.

A direita radical e fascistóide só se satisfaz se o PR dissolver o parlamento.  E os seus comentadores (como o Garoupa do Pingo Doce) até já fazem contas e previsões sobre novas eleições legislativas.

 

Rondinhas e quarteleiros

Independentemente de poder ter havido cúmplices no interior do exército para o furto de armamento dos paióis de Tancos, e independentemente da responsabilidade pela não reparação ou substituição das câmaras de vigilância, que, de qualquer modo, segundo ouvi, nunca cobriram toda a extensão do terreno, parece-me que a pessoa responsável pelo bizarro sistema de vigilância em vigor, que consistia na mera passagem de uma ronda uma vez por dia, devia ser imediatamente demitida. Quer por assim ter decidido, quer por não exigir mais meios. Será assim tão difícil descobrir essa pessoa?

Também tenho outra pergunta: aquelas instalações ficam tão isoladas e distantes de qualquer base ou posto ao ponto de não ser possível ninguém ouvir a chegada e as movimentações de um camião/camiões/furgonetas/jipes não previstos?

Na televisão, todos vimos o embaraço do general Rovisco Duarte ao afirmar que o sistema de vigilância em vigor em Tancos era considerado suficiente. Mas quem o considerou suficiente? Terá sido ele? Se não foi, aparentou ter conhecimento dele, pelo menos para efeito da ida às televisões. O general tem um ar simpático, mas ou é incompetente ou negligente (conhecendo-o) ou não sabia efectivamente, até anteontem, de nada em matéria de controlo do material militar, porque não tinha que saber. No primeiro e segundo casos, tem que se demitir; no terceiro, tem que procurar quem sabia e/ou decidiu a periodicidade da voltinha ao recinto e demiti-lo. Qualquer pessoa consegue ver que o sistema era ridículo. Vejamos com imagens: compra-se material militar caro e perigoso, transporta-se o mesmo para Tancos, deposita-se nos paióis, fecha-se a porta, fecha-se o portão exterior e todos seguem para o quartel ou para casa tranquilos porque há-de passar uma patrulha no dia seguinte. É isto. Surpreende o furto não ter acontecido antes e não terem sido esvaziados todos os paióis.

Finda a guerra colonial, o exército (bom, alguns militares, para não generalizar), apesar de continuar a comprar e a lidar com material de guerra, parece não se levar a si próprio muito a sério. Mesmo quando o mundo está terrível e o roubo e tráfico de armas exige um esforço de controlo acrescido.

Dizem que o orgulho dos militares sofreu um rude golpe com o que aconteceu. É verdade, uns estão a ser alvo fácil de chacota e, com isso, outros sentir-se-ão manchados mesmo sendo profissionais competentes, mas, meus senhores, aquele sistema é demais! Aliás, é de menos.  E repito, mesmo que se venha a provar que houve colaboração de quarteleiros (como diz o Correio da Manhã), o sistema de rondinhas diárias ao pôr do sol ou ao nascer do sol é anedótico. E inadmissível.

Precisamos dos militares e hoje gostamos deles. Mas devem ser bons profissionais. Em qualquer ramo e em qualquer função. Confesso que fiquei surpreendida com a ingenuidade daquele general, que calha ser o Chefe do Estado-Maior do Exército. Pareceu-me convencido de que Portugal devia ser uma pasmaceira de facto, onde nada de grave acontece, que essa é a ordem natural das coisas, e que, não fora a existência de cúmplices dentro do exército, nunca aquele roubo teria acontecido. As rondinhas não teriam deixado que acontecessem. Senhor general, será possível?

Por falar em profissionalismo, lembro-me de protestos de militares a propósito de carreiras, remunerações e assuntos afins, mas não me lembro de protesto algum nem de reivindicação alguma para garantirem o exercício das suas missões com eficácia nem para exigirem mais efectivos para certos locais sensíveis, nem para colmatarem as lacunas de segurança existentes. Nem depois dos roubos de armamento que tiveram lugar, ainda recentemente, noutros países europeus, nomeadamente em França, e um pouco por todo o mundo. Talvez ainda não tenham percebido que o mundo mudou, que tudo se trafica, desde fio de cobre a armamento, sobretudo armamento, e que não se vai lá com voltinhas à rede a cada 24 horas.

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