Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Carreiras meteóricas

Dijsselbloem é um político trabalhista holandês que se licenciou em economia agrícola numa cidadezinha do sul do seu país. Do currículo oficial do mangas chegou a constar ser detentor de um mestrado irlandês em economia empresarial, aldrabice depois denunciada na Irlanda por um jornal. O gajo esteve mesmo na Irlanda a passar uma temporada, presumivelmente com uma bolsa que pagou farras e cerveja Guinness, mas não concluiu qualquer curso. Depois de ter sido vereador na sua cidade natal, saltou para deputado do parlamento holandês, onde se ocupou de questões de educação, juventude, ensino especial, professores, etc. Escusado será dizer que não tinha qualquer formação ou experiência prévias nessas áreas. Desde 2012, sem que ninguém saiba explicar porquê, é ministro das Finanças da Holanda. Em 2013, foi feito presidente do Eurogrupo, sem outra experiência política europeia prévia. Em 2014 chegou a falar-se dele para comissário europeu, numa pasta que não lembraria a um careca: Melhoria da Legislação, Relações Interinstitucionais, Estado de Direito e Carta dos Direitos. Pelos vistos, o fulano é um tapador de buracos nato.

Tal como Miguel Relvas, com quem tem várias afinidades, Dijsselbloem tem fama de ser “sincero” e “directo”, isto é, incontinente verbal. Talvez seja esse o segredo da sua carreira ascensional, que nenhuma outra razão parece justificar, além do amor paternal que Schäuble lhe vota. Há tempos, declarou que Claude Juncker bebia demais. O acusado lá teve de ir à televisão negar que tivesse problemas com o álcool. Há poucos dias, referindo-se aos países do Sul da Europa, o gajo disse que “não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e copos” e depois ir pedir dinheiro aos países ricos. Políticos dos países sul-europeus, incluindo Costa e Renzi, reagiram chamando-lhe vários nomes merecidos e sugerindo a sua demissão de presidente do Eurogrupo. Até o líder do Partido Popular Europeu lhe pediu mais respeito e tento na língua.

Como ministro das Finanças da Holanda, Dijsselbloem ajudou o seu partido a cair a pique nas recentes eleições. Com Passos Coelho também tem outras afinidades: estão ambos a caminho do desemprego, depois de carreiras políticas meteóricas em que apenas se distinguiram como serventuários de Schäuble.

A caminho do desemprego… ou da Goldman Sachs?

Pacheco Pereira a caminho de Damasco

Paulo Pedroso elogiou o Pacheco por causa do texto Impedir abusos, defender direitos, liberdades e garantias é connosco e não com Sócrates, onde, para além da referência ao processo Casa Pia, encontrou uma denúncia dos abusos do Ministério Público sobre Sócrates e demais arguidos na “Operação Marquês”. Abusos que está em condições de compreender por experiência própria. Pedroso viu a sua carreira política, altamente promissora, ficar destruída precisamente por ter sido vítima de uma Justiça onde se praticam recorrentes, sistemáticas e capitosas injustiças.

Ora, o texto do Pacheco nasceu da intervenção de João Nabais no Expresso da Meia Noite no passado dia 17. Esse episódio de indignação foi uma pedrada no charco no marasmo e atrofio cívico dos espectadores que ainda não perderam o respeito por si próprios. Porque Nabais estava rodeado de 5 jornalistas, uma delas armada em advogada para o deboche ser maior, que, por actos e omissões (sim, Nicolau, esta é para ti apesar do tudo que não és), estavam a validar o comportamento criminoso do Ministério Público nas investigações acerca da suspeitada corrupção de Sócrates. E Nabais disse-lhes na cara que a sua cumplicidade com o escândalo em que o processo se transformou desde o seu primeiro momento público (e poderíamos inclusive situar o escândalo muito antes) só se explicava pela obsessão com Sócrates. Uma desvairada obsessão que permite a jornalistas da suposta “imprensa de referência” usarem a sua carteira profissional para mostrarem que sabem mais sobre um dado processo judicial do que os próprios arguidos e sua defesa. Uma obsessão feita de ódio, mas também de sectarismo e dependências várias a vários poderes fácticos, que se celebra a si própria num frenesim de ilegalidades inerentes a um linchamento em curso.

Este diálogo, ao minuto 33, sintetiza a “operação Sócrates” que parte da “imprensa” está a fazer:

Inês Serra Lopes - O importante é que exista uma acusação!

João Nabais - Mas porque é que tem que haver uma acusação?... Pode haver um despacho de arquivamento.

A promiscuidade criminosa do Ministério Público com os órgãos de comunicação social que exploram uma efectiva suspensão do Estado de direito para concretizarem agendas políticas e/ou comerciais tem esta superior finalidade estratégica: levar à aceitação social de uma eventual acusação insuficiente em matéria probatória e, acto contínuo, levar a uma eventual condenação por provas indirectas e clamor público. Perante a evidência, poder político, instituições públicas e sociedade civil têm apoiado com passividades e silêncios cumulativos o auto-de-fé. Porquê? Porque, e por razões fáceis de encontrar, até o PS obtém benefícios neste julgamento e tortura na praça pública que se faz a Sócrates por um colectivo cobarde. Estamos a viver uma inaudita experiência catártica onde os reais ou imaginados crimes de Sócrates deixam de requerer provas porque estão a ser cinzelados como mitos fundadores da nova História. Ele tem de ser sacrificado no altar da nossa submissão aos poderes que não controlamos, sequer sabemos onde habitam, mas que nos entram em casa e na mirrada defesa da liberdade. Reina a anomia na Grei por causa da paixão política por um homem.

O texto do Pacheco é ridículo, patético e mentiroso. Mais um assim, o enésimo, que vende por bom dinheiro. 90% do que escreve não passa da cassete “ele é culpado dos piores crimes, como eu sempre disse”, fazendo coro com os esgotos a céu aberto que fedem na cidade. Pacheco é um fulano que está na política há 40 ou 50 anos, que foi parte integrante e activa do cavaquismo nos seus vários ciclos, e que nunca encontrou mentiras e anomalias suspeitas no pessoal a quem se abraçou e com quem se cruzou. Foi preciso aparecer Sócrates para finalmente se confrontar com a corrupção e males congéneres. O Pacheco, portanto, é um palhaço que ganha a vida no circo que é a indústria da calúnia. Todavia, até este palhaço, mesmo que irónica e involuntariamente, consegue contribuir para a iluminação do que está em causa:

Sócrates hoje está sozinho no seu labirinto. A direita que o louvou como o “social-democrata” do PS, como aquele que tinha “roubado” o programa ao PSD, que andou ali a fazer-lhe a corte nos interesses e na política, agora, certamente por complexo de culpa, vai lá apedrejá-lo como se nada tivesse que ver com o homem. Mais, em vários momentos cruciais, protegeu-o de acusações muito semelhantes àquelas de que hoje lhe faz o Ministério Público.

A tese é a de que Passos e Relvas foram cúmplices de Sócrates quando o sabiam culpado de ilegalidades. Uma tese literalmente maravilhosa, que se explicita a si própria quanto à sua origem mental sem carência de mais palavras. O que realmente importa na citação está nesta oração: “protegeu-o de acusações muito semelhantes àquelas de que hoje lhe faz o Ministério Público.“. Do que fala é do “Face Oculta” e da operação que levou a que se espiasse ilegalmente um primeiro-ministro com vista a abrir um processo judicial contra ele em cima das eleições de 2009. Pois bem, quando o Pacheco repete estas bojardas a troco de dinheiro, e como estrela da política-espectáculo no suposto “jornalismo de referência”, a sua mensagem consiste efectivamente nos seguintes elementos:

– Que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento são ainda mais culpados do que Passos e Relvas, pois sabiam tanto ou mais do que eles e tinham a acrescida responsabilidade de agir no cumprimento do seu dever. Com isto, o Pacheco contribui intencionalmente para espalhar no espaço público uma suspeita conspiracionista cuja lógica é a de levar ao sentimento de que as instituições da República e o Estado de direito ruíram pelo poder diabólico – portanto, inexplicável e indomável – de uma coligação de agentes, uns nomeados e outros apenas subentendidos.

– Que nada se tem de concretizar para atacar Sócrates e terceiros com quem se alucinem ligações de parceria, basta apenas lançar suspeições sem fundamento. O Pacheco repete que tomou conhecimento dos registos da espionagem feita a Sócrates, que eles são “terríveis” e que há muita gente a mentir, mas nunca se foi oferecer ao Ministério Público para os ajudar a apanhar essa malandragem nem sequer permite que se saiba do que está a falar. É pura canalhice.

– Que o “Face Oculta” não tinha matéria que legitimasse a intervenção da Justiça mas chegava para judicializar a política na forma de mais comissões de inquérito e, com sorte, levando a que o Ministério Público abrisse uma investigação, de modo a que então se fizesse a exploração político-mediática e devassa da privacidade que tem sido feita na “Operação Marquês”. O Pacheco parece não ter qualquer consciência de que o combate político a Sócrates pela direita não foi feito no páreo de modelos de sociedade e desenvolvimento económico mas, logo desde 2004 com o Freeport e os boatos de ser homossexual, exclusivamente recorrendo a assassinatos de carácter – os quais tiveram sempre a participação de agentes da Justiça e/ou da comunicação social.

De repente, aparentemente, em Março de 2017, oito anos depois do que andou a fazer e com quem o andou a fazer, o Pacheco começa a dar-se conta de que, talvez, quer-se dizer, vai na volta, isto que se passa com Sócrates no tandem Justiça-indústria da calúnia é capaz, se calhar, talvez, vai na volta, de ser mesmo, ai jasus, uma perseguição política. Talvez.

Já que é notório o teu desequilíbrio em cima do cavalo, Pacheco, só posso desejar que te aleijes na queda.

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Aviso à navegação

Comentários que tenham muitas ligações (links) poderão ficar retidos pelo sistema automático de afastamento do merdelim (spam). E aquilo que é apanhado nesse filtro por cegueira da máquina nem sempre é salvo da destruição irreversível pois para tal há que estar a ver todos os comentários considerados merdelim (1.689.388, é o total destes seres que foram apanhados ao longo dos anos neste momento em que escrevo). Ora, tal confirmação manual só acontece de forma aleatória e circunstancial.

Igualmente podem ir parar ao esgoto comentários que não tenham qualquer ligação de hipertexto e que, ainda por cima, sejam de comentadores regulares – como aconteceu recentemente com o último comentário do Joe Strummer. Não sei qual é a causa desse fenómeno, mas aconselho a que se envie uma digicarta para o blogue calhando terem algum comentário retido e sentindo que ele merece melhor sorte.

Não é tempo de alguém pôr ordem nisto?

Onde está a decência destas pessoas?

Tenho estado fora do país. Mas li que velhas práticas se repetem. Depois de umas incursões noutros jornais e revistas, o Ministério Público continua alegre e impunemente a manter viva a parceria com o Correio da Manhã para a divulgação das teses que não consegue provar no que respeita à Operação Marquês. Li até, e quase não acreditei, que estavam a ser transmitidas numa televisão as gravações dos interrogatórios.

Eu diria que isto é demais e que já dura há demasiado tempo. “Eu diria”, não. Eu digo. Mas a Ministra da Justiça o que tem a dizer sobre isto? Achará bem e normal o que se está a passar com a Justiça? Com os prazos que não são prazos, mas um apontamento anedótico da lei? Os atropelos descarados ao Estado de Direito não lhe merecem um reparo? Quem é afinal o responsável por este esquema viciado, que desrespeita por completo os direitos dos arguidos, condenando antes de acusar? Nada lhe é apontado, de nada é acusado? É possível ouvir sem rir e sem agarrar no telefone a Procuradora-Geral dizer que vai abrir um inquérito interno? Não há nenhuma conversa a ter com esta senhora sobre esta matéria? O Presidente da República, que em tudo intervém, não acha que é tempo de tornar a Justiça séria, digna, imparcial, racional e, enfim, competente?

Porque o que se passa de aberrante é o seguinte: o MP prende um indivíduo porque lhe apetece, já lhe apetecia há algum tempo, instigado pelo ambiente político e por raiva corporativa, e porque entende que o povo vai adorar. A comunicação social é avisada para o “show”. Não há a mínima prova consistente para o acusar, mas isso parece não interessar. O indivíduo é mantido preso durante meses e apenas libertado a contragosto do senhor juiz, que, por ele, o manteria preso até ao fim dos seus dias. O MP, obrigado a investigar, patina nas investigações. Chamam-se então uns jornalistas e combina-se que se lhes passa um determinado material, neste caso as suas teses, suposições e desconfianças. Os jornalistas aceitam, olá se aceitam!, e publicam. Publicam, aliás, sabendo que tais teses e desconfianças devem ser lidas como verdades. Não discutem. O negócio é comprar e depois vender da maneira mais atraente. Aliás, os que menos discutem e contrapõem, e pelo contrário acentuam por todos os meios a mensagem pretendida pelo “fornecedor”, são os que terão garantido o prolongamento da parceria e, logo, maiores receitas para o seu jornal. Assim, pobres dos jornais que não queiram entrar no esquema. E triste o dia em que o esquema acabar!

O objectivo é sempre o mesmo: destruir a imagem não só do, mas também dos arguidos até já não ser possível alguém decidir pela sua inocência, sobretudo “do” arguido por excelência. Mas entretanto, o que sabemos nós do que diz Carlos Santos Silva, por exemplo, o alegado depositário da fortuna de Sócrates? Nada. Zero. Era sequer rico?? Por que razão dá o MP crédito ao que disse Helder Bataglia? O homem não estava sujeito a um mandado de captura internacional? Não estaria disposto a dizer tudo o que agradasse aos ouvidos dos procuradores para poder circular em liberdade? No meio disto tudo e para reforçar a seriedade do processo, a defesa não tem acesso ao material fornecido aos jornalistas. Não conhece o que dizem as pessoas ouvidas, não conhece a acusação. Não pode exercer os seus direitos. Acresce que a classe dos juízes ri-se em peso de cada vez que é interposto um recurso e afasta os colegas que com eles não riem. Isto é uma autêntica bandalheira. Uma pouca-vergonha. E quando a pouca-vergonha vigora na Justiça, há ou não há algo a fazer? Tem que haver.

 

É um grande cultor da lei moral de Kant, diz esta anedota ambulante


(oferta do nosso amigo Lucas Galuxo)

Para além do que o perigoso socrático de nome Judice diz, tocando num aspecto crucial para as obrigações da Justiça e dos interesses da soberania que o comentariado nacional intencionalmente abafa, colhe recordar que Carlos Alexandre, na entrevista à SIC onde aparece todo pimpão a fazer ameaças inclusive a colegas juízes, por três vezes declara que não recebe ajuda financeira de amigos. Ou seja, tal como Pedro em relação a um certo galináceo de Israel, Carlos mentiu a triplicar para que todo o pulha cantasse de galo.

Um juiz que dá uma entrevista para se promover como santo franciscano e para insinuar que um certo e notabilíssimo arguido que anda a julgar “tem dinheiro em contas de amigos”, revelando ser uma obscena farsa o suposto papel de defensor das liberdades e garantias dos cidadãos na fase de instrução, e que ainda por cima disto resolve mentir a respeito dos amigos procuradores que lhe emprestam dinheiro, terá condições para julgar seja quem for em nome da Justiça? Se tiver, como tem, então estamos desgraçados.

Revolution through evolution

Forgiving Males, Firing Females: Women in the Workplace Face Harsher Discipline
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Mothers Are the Unseen Force Behind Honour-Based Crime
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For a modest personality trait, ‘intellectual humility’ packs a punch
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Imagining dialogue can boost critical thinking
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Empathy from the sick may be critical to halting disease outbreaks
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NUS Study: Daily Consumption of Tea Protects the Elderly From Cognitive Decline
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Children who play outside more likely to protect nature as adults
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Passos, um líder com excesso de princípios

“Espero que o primeiro-ministro não pense que o país está dispensado da verdade”

Passos, 14 de Fevereiro, a respeito de um caso irrelevante e resolvido que apenas serve para uma estratégia de baixa política

“Há matérias em que o silêncio é o melhor conselheiro”

Passos, 16 de Março, a respeito de um caso onde uma ex-ministra fez revelações espantosas sobre o conteúdo e o modo como decorriam os conselhos de ministros do Governo da gente séria

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Pedro, em matéria de ética, não tentes viver acima das tuas possibilidades. Tens de sair dessa zona de conforto onde saltas de princípio para princípio, antinómicos, com a leveza de um insecto aquático. Precisas de cortar nas gorduras desse estado de decadência. Porque este regabofe de valer tudo, custe o que custar, para fazer política está a pedir uma moralização austeritária radical, como tu sabes fazer e gostas tanto de aplicar no lombo dos outros. Coragem, mete na gaveta o grouchomarxismo.

Estarem todos feitos devia ser proibido, diz este senhor

O presidente executivo da Sonae comentou hoje as revelações feitas no âmbito da "Operação Marquês" sobre a Oferta Pública de Aquisição falhada que a empresa lançou sobre a Portugal Telecom, recordando que "estavam todos feitos" e o "jogo estava distorcido".

Admitindo que "é com algum agrado" que vê a vinda a público de aspetos que rodearam o negócio, Paulo Azevedo afirmou acreditar que "agora a justiça fará o seu trabalho".


Paulo Azevedo: “Estavam todos feitos” quando a Sonae tentou comprar a PT

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Quais revelações? A que “aspectos que rodearam o negócio” está Paulo Azevedo a fazer referência? A OPA da Sonae sobre a PT foi chumbada pelos accionistas, o Estado não se opôs ao negócio. Uma comissão de inquérito parlamentar sobre a CGD, anunciada com baba e ranho pela direita como o meio para se destaparem os podres da governação socrática, terminou, ou parece que terminou, com todos os principais interrogados a jurarem pela licitude e normalidade de tudo quanto foi decidido pela CGD ao longo dos anos, fosse quem fosse o primeiro-ministro em funções. Até Campos e Cunha nada conseguiu apresentar como prova, só tinha suspeições e calúnias para largar.

Quais revelações, então? Que aspectos, enfim? Mesmo que algo ilegal tenha acontecido, esta postura degradante onde se tenta judicializar política e negócios sem disso fazer prova é tóxica para a democracia e para o Estado de direito.

Regime, prefere doce ou Salgado?

"Continuei a privar com Ricardo Salgado."

Marcelo Rebelo de Sousa, 13 de Dezembro de 2015

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A notícia de que o trajecto dos indícios sólidos para os indícios robustos, num périplo de 3 ou 4 anos exposto ao detalhe na indústria da calúnia, tinha finalmente conseguido ligar Sócrates a Salgado não entusiasmou a direita decadente que tem dominado PSD e CDS desde meados dos anos 80. Uns patos-bravos do Interior, apenas se distinguindo dos pedreiros porcalhões pelos Mercedes e pelas inflacionadas baselgas, isso sim. Uns escroques da ralé inglesa e seus envelopes, como no Freeport, mesmo fixe. E um sucateiro, cujo dinheiro tresanda a lixo e mijo, maravilha (é escarafuncharem mais um bocadinho que ainda o vão conseguir enfiar na “Operação Marquês” sem dificuldade). Essa tipologia dos putativos corruptores do odiado, porque temido até ao pavor, Sócrates está em perfeito acordo com a cosmogonia e teodiceia dos pulhas em versão direitola. Agora, o BES? O Espírito Santo mais espírito santo é que se lembrou de comprar um primeiro-ministro? Eh, pá… Então, mas o BES e o GES não alimentaram tantas bocas, e durante tantos anos, dos senhoritos (e suas famílias) que têm pululado nos quadros partidários e dirigentes do PSD e CDS? Atão mas, bá lá ber, será que agora vai-se também saber quem mais é que o santo Salgado comprou ou ajudou a comprar? Quer-se dizer, e isto sim é que é importante: a Comporta, afinal, não era um santuário ao ar livre só com gente séria e melgas em ininterrupto bacanal?

Como está claro desde o início, um processo judicial que leva à prisão de um ex-primeiro ministro por suspeita de corrupção torna-se, acto contínuo, uma questão de regime. Podemos até separar a exploração política do caso que foi e é insistentemente feita através de alguns órgãos de comunicação social, o que permanece incontornável é a gravidade do que está em causa: é impossível que a eventual corrupção, qualquer que se conceba, tenha sido concretizada apenas pela acção de um único indivíduo então no Governo, mesmo que esse indivíduo fosse o chefe do Executivo; aliás, por estar nesse cargo, a realização dos actos corruptos – dada a sua permanente exposição burocrática, política e mediática – implicaria uma logística cuja complexidade está absolutamente ausente em tudo o que foi vertido publicamente até à data e que acabaria necessariamente por envolver o próprio Partido Socialista e sua elite dirigente. Por outro lado, esta é uma questão de regime pela qualidade da investigação e dos actos judiciais que foram assumidos pelo Ministério Público e pelo juiz de instrução. Tal como não queremos viver numa sociedade onde após se deterem suspeitos de crimes, quaisquer crimes, eles sejam humilhados pela turbamulta e espancados pelos polícias só porque parece que cometeram ilegalidades, assim ficará por fazer a história deste processo onde desde o primeiro momento condicionador da liberdade de um cidadão, a detenção de Sócrates no aeroporto acabado de chegar a Portugal, tudo tem sido feito para condenar na praça pública um ex-primeiro-ministro e ex-secretário-geral do PS sem que ele se possa defender de ataques criminosos. Estes actos têm responsáveis, se depois o País se dará ao respeito de os expor e julgar é o que veremos – mas não veremos, né?

E como temos descoberto nas últimas semanas, tocar em Ricardo Salgado é abraçar o regime. Um regime onde até Marcelo Rebelo de Sousa aparece na berlinda como um dos seus mais influentes e poderosos maestros. Perante a magnitude do que está implícito nas acções e omissões do Banco de Portugal e do Governo de Passos, este miserável caso onde ainda nem sequer se conseguiu acusar o bode expiatório da Nação seja do que for é agora uma fonte de luz apontada às mãos, e cabeças, escondidas na escuridão oligárquica.

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Que cagada é esta?

Sublinho, antes do mais, achar muito bem que a imprensa publique tudo (com o devido enquadramento e necessário contraditório) o que os que violam o segredo de justiça lhe servem de bandeja. Se um jornal decidir não alinhar nisso, neste ambiente de mercado concorrencial, isoladamente e contra a maré, comete um suicídio reputacional e comercial, pois lança a suspeita sobre a sua independência em relação aos alegados criminosos, cria a desconfiança nos leitores sobre a própria capacidade de os informar e, a prazo, fragiliza até à morte esse projeto jornalístico, pondo em risco inúmeros empregos e o bem-estar material de muitas famílias. Ser D. Quixote é bonito mas normalmente não acaba lá muito bem.

O segredo de justiça devia estar salvaguardado a montante dos jornais. Não está, nunca esteve e não estará: essa é a realidade.


Pedro Tadeu

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Eis o que este jornalista e militante do PCP (ambos os estatutos aqui cruciais para o assunto em causa) está a dizer: os jornais devem ser cúmplices de crimes por causa da lógica de mercado a que têm de obedecer, e os jornais devem tratar todos os cidadãos que calhem ser apanhados em processos judiciais como criminosos até prova em contrário.

É isto que está a defender. Não sei se ironicamente, se por estar bêbado, se por ser maluco. Mas por ser jornalista – interessado em respeitar a Lei do país e o código deontológico da profissão – e por ser comunista – interessado em denunciar as perversões do capitalismo – é que não pode ser. Essas as duas causalidades excluídas desta prosa surpreendentemente degradante que assina.

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Perguntas simples

Se Sócrates não sei quê, milhares de milhões envolvendo o Governo, se Vara não sei quê, centenas de milhões envolvendo a CGD, que é feito do resto do maralhal sem os quais nada poderiam ter feito? Vão ser metidos às pazadas na “Operação Marquês” nos próximos 4 dias?

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O populista antipopulista

Pacheco Pereira alerta em “O grande abandono”, no Público de sábado, para uma possível irrupção do populismo em Portugal. Os ingredientes base estariam cá todos, ou quase. Os abandonados da política esperam apenas que surja o seu líder, de preferência fabricado pela televisão, para que o salto final para o populismo seja dado.

Eles sabem que o CDS, o PSD, o PS os abandonaram à sua sorte, estão-se literalmente borrifando para as ‘causas fracturantes’ do Bloco de Esquerda, e a ‘linguagem de pau’ do PCP não os mobiliza. Eles esperam no seu fel – até um dia.”

Observador aéreo e supostamente isento, planando a grande altura sobre a cena portuguesa, Pacheco culpa, pois, pelo iminente “salto” de Portugal para o populismo o abandono a que as classes desprotegidas estão alegadamente votadas por todos os principais partidos políticos e, com nuances, pelos outros também.

E em que é que Pacheco se baseia? Directamente na vox populi. No “restaurante popular” que frequenta, Pacheco ouviu o comentário de uma cozinheira à reportagem que a televisão estava a passar sobre a entrega de uma casa provisória a uma família de refugiados chegados da Síria. “Vão-lhes dar uma casa melhor do que minha. Eu trabalho toda a vida e a mim ninguém me dá nada” – queixou-se ela, achando-se talvez com mais direito à casa dos refugiados, que supostamente seriam mandriões –  além de não serem portugueses, parece implícito.

Pacheco aprova: “É verdade. E isto é algo que é sentido como uma enorme injustiça. E é uma injustiça. O bem-estar destas famílias e das pessoas como aquelas que estão ali a trabalhar duramente foi abandonado. E estamos assim a alimentar claramente o populismo.” Por isso avançaria o trumpismo, o lepenismo, etc., etc.

Ainda bem que o comentário da cozinheira e a claríssima aprovação do dito comentário por Pacheco se situam logo no início do artigo, porque assim já não nos deixamos enganar com o que se segue. Porque é completamente estúpido partir de um argumento tipicamente populista para um arrazoado que pretende ser antipopulista.

Ainda se compreende que uma cozinheira mal informada ou iletrada não saiba distinguir a sua situação pessoal, que talvez seja socialmente injusta, da situação desses desgraçados que são escorraçados por uma guerra sangrenta e aqui chegam aos baldões, após peripécias trágico-marítimas e estágios em campos de tendas. Mas como aceitar que o informado Pacheco ache injusto que a cozinheira tenha uma casa eventualmente menos boa do que o alojamento provisório desses desgraçados que fogem à morte?

Será injusto que Portugal, dentro das suas possibilidades, preste um acolhimento minimamente decente a um certo número de refugiados de guerra, sabendo-se embora que muitos portugueses vivem em condições socialmente injustas? Pacheco acha que sim, que é injusto. E nisso irmana-se com todos os populistas que acham o mesmo.

Revolution through evolution

Information avoidance: From health to politics, people select their own reality
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Are market bubbles caused by traders’ testosterone levels?
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Maintaining an active sex life may lead to improved job satisfaction, engagement in work
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Religious participation may serve to strengthen social bonds
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Caffeine boosts enzyme that could protect against dementia
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Brain is 10 times more active than previously measured, researchers find
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The Organization of the Future: 3 Essentials
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Exactissimamente

Da decência, desta vez

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Nota

Francisco Teixeira da Mota, o especialista jurídico do Público tão lesto e entusiasmado a celebrar todos os triunfos judiciais da “liberdade de expressão”, mesmo quando ela não passa de um exercício de calúnia sobre pessoas que ocupam cargos políticos – o que coloca este advogado/colunista como uma das vozes populistas na praça pública, em modo insidioso – ainda nada disse sobre este notável e incontornável caso. Dobrado contra singelo em como nada vai dizer, pois o silêncio é um recurso usual nos sectários de registo sonso.

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Entretanto, num Universo paralelo

O Supremo Tribunal de Justiça decidiu esta quinta-feira que o juiz Carlos Alexandre está impedido de continuar a intervir no processo que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, a chamada “Operação Marquês”.

A deliberação do Supremo surge após um pedido nesse sentido por parte de José Sócrates, que entende “existir motivo sério e grave, adequado a gerar desconfiança sobre a imparcialidade” do magistrado do Tribunal Central de Investigação Criminal no DCIAP em Lisboa, responsável pela “Operação Marquês”.

O facto de o juiz de instrução se ter pronunciado obscena e manhosamente sobre o caso numa entrevista televisiva à SIC, em 2016, em tom insinuante e sarcástico, afirmando que “não tinha amigos, amigos no sentido de pródigos” nem “fortuna herdada dos meus pais ou de meus sogros”, e de não ter forma de obter dinheiro a não ser “através do trabalho honrado e sério”, pesou na decisão de afastamento do juiz.

Nas suas declarações estava implícita a recusa de respeitar o estatuto de inocente até trânsito em julgado de uma eventual condenação de Sócrates a partir deste processo, refere a defesa no seu pedido de afastamento: “Mesmo depois de se pronunciar publicamente sobre um processo em curso e de pôr em causa a objectividade e a adequação legal das suas decisões como juiz de instrução, o senhor juiz não se inibiu, intencionalmente, de fazer afirmações vexatórias da inocência e dignidade do arguido”. As objecções da defesa não se ficam por aqui: referem o facto de Carlos Alexandre e Cavaco terem uma relação de promiscuidade institucional, onde o primeiro vertia para o segundo teorias conspirativas acerca de Sócrates, o que significa que havia um relacionamento pessoal entre ambos que ultrapassava o mero conhecimento social.

O Supremo Tribunal de Justiça vem agora dar razão a José Sócrates, ao concluir existir, de facto, “um risco real do não reconhecimento público da imparcialidade” de Carlos Alexandre. “Encontra-se afectada, de forma grave e séria, objectivamente, a confiança pública na administração da justiça e, em particular, a imparcialidade”, escrevem os conselheiros do Supremo. “É de admitir, a partir do senso e da experiência comuns, que qualquer cidadão de formação média da comunidade possa contestar a imparcialidade” do magistrado, prosseguem, invocando a máxima segundo a qual à mulher de César não basta ser séria, sendo também necessário parecê-lo. Um dos conselheiros aproveitou ainda para escrever nas margens do acórdão, com uma Futura azul emprestada por um jornalista na ocasião, o seguinte provérbio: “Tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta”, mas escusou-se a dar explicações.

Com base neste universo

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“Eu vejo-os todos entendidos e chateio-me, claro que me chateio!”

A Helena Garrido (aqui, no Observador), dando voz à direita em geral, continua sem compreender o porquê de terem perdido os seus aliados tradicionais no combate aos socialistas – o PCP e o Bloco. Está inconsolável. Vai daí, carrega nas hipérboles e diz que Costa tem mais poder do que qualquer outro anterior primeiro-ministro em democracia; chama, pasme-se, guardiões da democracia aos dois partidos – “críticos e escrutinadores da democracia, da liberdade, do cumprimento da lei e da ética” (ena!).

Lamenta-se da seguinte maneira trágica: “O que nos pode restar? Quem pode impedir que este Governo se transforme numa espécie de “o Estado sou eu”?

Ah, Helena, que triste, parte-se-nos o coração de a ver tão angustiada, como se, no governo anterior, aqueles dois partidos tivessem algum poder de fogo contra os abusos dos passistas e portistas!

Surpreende porém que, apesar do choro, mantenha ainda algum sentido de humor, como aqui:

“[…] quem acompanhava a economia lembra-se como era importante ouvir as análises dos comunistas aos Orçamentos e como se devia estar sempre atento ao que afirmava o Bloco, primeiro com Francisco Louçã e depois com Catarina Martins.” Ah, sua maluca. Danada para a brincadeira. Mas eles continuam a pronunciar-se!

Mas Helena acaba por tocar num ponto sensível e muito importante da actual situação: pelos vistos, o PSD e o CDS não podem fazer o papel que ela considerava atribuído aos comunistas e bloquistas, a saber, o de escrutinadores e guardiões das liberdades. Mas e não podem porquê? Ela responde: porque já foram poder. Ora bem, aqui é que bate o ponto. Se tivessem exercido bem esse poder, e sido um bom governo, a actual solução não teria tido sucesso. Se não tivessem feito figuras tristes no panorama europeu, por exemplo, ou na condução da governação, ou a nível da moral e da ética, estariam agora em muito boas condições para darem lições aos outros. É um facto, não estão. Choremos, portanto.

Engraçado é que, por muitos encómios que teça aos seus ex-chuchus da extrema-esquerda, Helena acaba por lhes dizer que eles estão bem é na contestação e no protesto. Nunca na assunção de responsabilidades. Para elogio não está mal.