Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Há na direita quem comece a abrir a pestana, vá lá, a fazer outras perguntas

Dois artigos – dois – no Observador, põem hoje em causa a ligação malévola, exclusiva e única, irrepetível e incomparável, entre Ricardo Salgado e o governo de Sócrates enquanto símbolo máximo da podridão do regime.

Um de Luis Aguiar Conraria, que, partindo do princípio de que está instalada a corrupção sistémica do regime há muitos anos (certa e segura, pressupõe ele, em muitos casos sem qualquer prova) e, embora misturando alguns alhos no meio de bugalhos (ignorando certas razões, por exemplo, do incentivo de Soares a Ricardo Salgado), “ousa” mencionar casos de protagonistas de direita, do PSD e do CDS, que também terão sido corruptos e terão, muitos deles, escapado completamente ao escrutínio da Justiça ou por esta perdoados. Será “um desabafo” ao estilo de Ana Gomes (que faz questão de elogiar), eventualmente exagerado, como o próprio sugere, mas que vale a pena ler.

Outro, mais extraordinário, de Miguel Pinheiro, centra-se em Ricardo Salgado e naquilo que só ele saberá. E apela a que se exerça pressão para que fale e “confesse”. Importante salientar que o jornalista “ousa”, pelo menos, já não é mau, desafiar a ideia assente de que nada houve antes de Sócrates, o inqualificável criminoso :

Há, por exemplo, esta pergunta: o XVII Governo Constitucional foi uma anomalia do regime, que uniu pela primeira vez na História de Portugal a política, a economia e o dinheiro negro em offshores? Ou esta: essa coincidência foi tão extraordinária que juntou à mesma mesa, na mesma sala, não um mas dois governantes disponíveis para receber, ouvir e servir o banqueiro mais poderoso do país? Ou ainda esta: os motivos que explicam a desagradável fama do homem a que chamavam “Dono Disto Tudo” começaram a 12 de Março de 2005, quando José Sócrates tomou posse, e terminaram a 5 de Junho de 2011, quando foi sumariamente despedido? Ou mais esta: antes de Sócrates e de Pinho, Salgado vivia banhado em pureza e virtude?

Mais surpreendente ainda, vindo de quem vem, M. Pinheiro deixa no ar a hipótese de nada ser, afinal, como o que o Ministério Público intui e propala:

“Era melhor descobrirmos tudo e descobrirmos já — até porque a ameaça de explosão podia acabar num suspiro. Ainda esta semana, respirando com descontração o ar quente da Primavera, Ricardo Salgado assegurou aos jornalistas que “nunca na vida” corrompeu alguém. Afinal, tudo isto pode ser um enorme equívoco. É sempre uma hipótese.”

 

Ó Miguel Pinheiro, vais arrepender-te do que disseste já no próximo artigo, certo?

Serviço público

Uma PGR que nunca leu Kafka – ou a Constituição

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ADENDA

Aproveito a boleia da Fernanda pois queria escrever sobre Carlos Filipe Preces após tê-lo visto no “Prós e Contras” de 23 de Abril a repetir a cassete política da facção mais perigosa do Ministério Público, aquele grupo (minoritário ou maioritário?) de procuradores que cometem crimes. Este grupo, de que o SMMP é a corporização institucional, desenvolveu uma cartilha onde se apresenta como vítima da classe política, dos advogados e dos arguidos. Nunca admitem qualquer responsabilidade pelas disfunções judiciais e rapidamente estão a acusar terceiros por aquilo que a própria lógica obriga a relacionar só com os agentes de Justiça. A grande ambição destes funcionários do Estado que se sonham generais é a captura da Judiciária, órgão que pretendem controlar para finalmente ficarem com a República na mão. O discurso que repetem com a soberba dos impunes ganhou um acrescento medonho há uma semana quando este Preces desatou a exibir o seu profundo desprezo pela Constituição. O texto acima ligado, escrito por quem foi e é e será vítima dos crimes cometidos na Justiça e na imprensa portuguesas, detalha as vexantes afirmações do procurador armado em vedeta.

Mas quem é este Preces? Trata-se do xerife que apanhou o sucateiro e o Vara, ostentando a medalha de ter conseguido a condenação dos 36 arguidos. Titular do inquérito do “Face Oculta” no Departamento de Investigação e Acção Penal de Aveiro, foi metido no dream team do Rosário Teixeira para agora repetir a façanha com a mãe de todas as condenações. De Aveiro traz a experiência de ter escutado ilegalmente um primeiro-ministro em funções e de ter tentado lançar uma golpada judicial em cima da campanha eleitoral para as legislativas e autárquicas de 2009. Sabemos que se tratava de uma golpada porque confiamos na palavra de Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento quando fizeram cumprir a Lei e quando explicaram o que estava em causa. E continuamos a saber que se tratou de uma golpada quando, passados 9 anos, ninguém usou essas escutas para nada que ultrapassasse a calúnia. Aliás, o caso foi definitivamente encerrado pelo Ministério Público ao desistirem de incluí-lo na acusação da “Operação Marquês”.

O Preces percebe de corrupção. Sabe que é o nosso maior problema, muito maior do que a pobreza, a educação, a saúde, a economia, o envelhecimento, a ecologia, a violência contra as mulheres, a qualidade do patronato. Embora nunca apresente qualquer número, qualquer dado objectivo, qualquer fonte consultável que permita medir a sua dimensão e efeitos, pretende fazer da luta contra a corrupção o desígnio nacional. E tem um método cuja eficácia é milenar, havendo sido testado nos mais variados cantos e recantos deste planeta: tratar as testemunhas como suspeitos, os suspeitos como criminosos, os criminosos como párias. Ora, para além do Kafka, há um outro falante de alemão que vem ao caso ao tropeçarmos no à-vontade da sua lábia, de seu nome Carl Schmitt. Este amigo também não ia muito à bola com a civilização liberal e seu gosto em gatafunhar constituições cheias de direitos e garantias. Pelo que desenvolveu uma teoria onde tornava tudo muito mais fácil, bastando passar a identificar quem é que numa dada sociedade tinha o poder para estabelecer um “estado de excepção”, situação em que os códigos legais ficavam suspensos ou eram abolidos por uma razão qualquer (por exemplo, catástrofe natural ou guerra). Aquele que tiver esse poder será o soberano. E o soberano, como ensina Hobbes, não só pode como deve fazer o que lhe der na gana.

Saltemos para o Preces, o Rosário, o SMMP e a Joana. Polvilhemos com o Carlos Alexandre. A forma como fizeram de Sócrates um cidadão sujeito a um estado de excepção, o qual começou no facto de ter sido preso para ser investigado e de ter continuado preso sem legitimidade, e o modo como se revelam coniventes com os crimes ininterruptos e cada vez mais graves que ocorrem no universo judicial e mediático da “Operação Marquês”, tudo isto é carlschmittiano. É uma exibição de soberania. Não estão acima da Lei porque já não precisam dessa ginástica. Basta-lhes usar a palavra “corrupção” para reinarem nesta choldra.

Revolution through evolution

Aging: The Natural Stress Reliever for Many Women
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Study highlights need for strength training in older women to ward off effects of aging
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Let it go: Mental breaks after work improve sleep
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Dark chocolate consumption reduces stress and inflammation
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Weather associated with sentiments expressed on social media
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Children are as fit as endurance athletes
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Study Suggests Older Surgeons Produce Lower Mortality Rates in Emergency Procedures
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Continuar a lerRevolution through evolution

Magnífico

A insustentável leveza dos filmes do senhor procurador

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ADENDA

Pulhas e broncos (esses estados tendem a aparecer juntos, simbióticos, mas também existem especímenes puros) têm agitado o caso Watergate como justificação para os crimes cometidos por agentes da Justiça, jornalistas e empresas de comunicação social ao violarem o segredo de justiça e, agora, ao violarem direitos fundamentais dos acusados e de testemunhas na “Operação Marquês”. Tudo estaria a ser feito à americana, garantem, imitando o melhor exemplo do jornalismo de investigação inscrito na História. Ai, sim?

No Watergate, o jornalismo denunciou uma situação em que o Estado de direito estava a ser violado inaudita e gravemente. Enfrentando pressões do poder político governativo, a imprensa cumpriu-se como baluarte dos valores que associamos à civilização onde queremos viver: democracia, legalidade, coragem, liberdade. Por causa desse serviço público em nome da comunidade, as instituições dos EUA puderam punir os responsáveis e restabelecer a ordem constitucional.

Na “Operação Marquês” faz-se apenas uma exploração mediática do aparato judicial à volta de José Sócrates, principalmente, e de quem mais tenha sido apanhado no processo e sirva para atacar Sócrates e/ou o PS. A Justiça reuniu recursos colossais para tratar do caso e as decisões judiciais têm sido na sua quase totalidade contrárias às pretensões da defesa. Inclusive, temos direito a um juiz de instrução que declarou publicamente o seu asco contra o então arguido à sua responsabilidade. As informações que invadem o espaço público transitam quase todas do próprio Ministério Público através de uma imparável actividade criminosa no seu seio. As empresas de comunicação social para quem o caso é uma fonte de receitas e de combate político não fazem investigação pois já nada há para investigar – ou nunca houve. O exemplo dos casos passados a envolverem Sócrates em matérias judiciais, nos quais nunca foi constituído arguido mas que continuam a servir para campanhas de assassinato de carácter e para teorias da conspiração, é elucidativo do que agora também se passa. Estando esses processos (Freeport, Licenciatura, Casas na Guarda, Cova da Beira, sei lá que mais) à disposição de quem os quiser consultar, não foram reabertos nem apareceram quaisquer demonstrações de irregularidades na sua investigação e desfecho. A imprensa portuguesa, aliás, não nos oferece a menor recordação de ter sido autora de investigações relevantes, sequer sugestivas, acerca da tal corrupção que tudo invadiu desde 2005 e que só foi interrompida em 2011 graças à gente séria do PSD e CDS, como dizem os caluniadores profissionais a ganharem o pão com o suor da sua canalhice.

Se calhar, os bravíssimos jornalistas que dependem da actividade criminosa para mostrarem serviço poderão lamentar-se de não ter existido uma “Garganta Funda” no período socrático, daí nada terem descoberto. É uma hipótese. A outra remete para certas convivências e práticas “Por Detrás da Porta Verde”. Verde de BES, um filme obsceno acerca das orgias entre a finança e os jornalistas do qual nem sequer o trailer é do conhecimento público.

Isto não é não jornalismo não é não isto

«É jornalismo por estar editado, enquadrado e escolhido, expurgado do acessório, gratuito ou privado. Por ser feito por pessoas que acompanham o caso desde o início, jornalistas altamente especializados, que leram tudo o que existe no processo, que já falaram com os envolvidos, que sabem distinguir o trigo do joio, que fazem escolhas, que editam e enquadram. Que fazem reportagem na rua, que fizeram dezenas e dezenas de trabalhos sobre este caso, que têm fontes, que contam histórias.»

+

«A luta pela liberdade de imprensa e pelo direito à informação nunca acaba. E cruza-se, sempre, com outros direitos, num difícil equilíbrio que está na base de qualquer democracia. O jornalismo não pode abusar das suas prerrogativas, mas tem que ter sempre presente a sua missão principal, que é a de informar.»

Ricardo Costa

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O director-geral de Informação da IMPRESA escreveu um texto a justificar os crimes por si cometidos com a publicação de registos audiovisuais de interrogatórios. À mistura com ranger de dentes e mordidelas dadas em quem o denunciou publicamente como o traste profissional que é, conseguiu reunir umas vacuidades para embrulhar a irresponsabilidade e a soberba. Na primeira citação, recorre à falácia do argumento de autoridade. “Pessoas que acompanham o caso desde o início”, “jornalistas altamente especializados”, fulanos que isto e aquilo, estabelece, podem cometer crimes que devem ficar impunes. Na segunda citação, declara que a nossa Constituição deve ser anulada perante o exercício “de informar”. Informar o quê e como? Ora, aquilo que os tais indivíduos referidos na citação anterior decidirem quanto ao conteúdo e quanto à forma. Corolário: vivemos numa república de informadores.

Ricardo Costa seguiria o mesmo critério caso os interrogados fossem Balsemão ou amigos e familiares seus? Ricardo Costa publicaria escutas em áudio entre Marcelo e Ricardo Espírito Santo? Ricardo Costa irá tentar sacar as escutas entre Sócrates e António Costa, e quem mais tiver sido apanhado a falar de política ou da vidinha, em nome do óbvio – porque é óbvio – interesse do público em conhecer o que disse o actual primeiro-ministro àquele que o próprio Ricardo Costa considera ser uma ameaça tão grande à democracia que se justifica anular os seus direitos constitucionais?

O Expresso, recordemos, é o tal jornal que recusou publicar as provas de que Cavaco tinha organizado uma golpada mediática para perverter as eleições legislativas de 2009, a pícara “Inventona das Escutas”. A IMPRESA, pois, não pode ser acusada de falta de critérios jornalísticos. Dá-se é o caso de terem tantos que se podem dar ao luxo de irem usando um de cada vez ao sabor dos ventos e das correntes.

Iliteracia histórica

As comemorações do 25 de Abril no parlamento vieram dar visibilidade mediática à estrela em ascensão na bancada do PSD e actual líder da JSD, Margarida Balseiro Lopes. No seu discurso, a jovem deputada disse que as conquistas da liberdade são de todos e exemplificou, referindo-se a dirigentes de todos os quadrantes políticos. Isso pareceu ser gentil e fez-lhe colher aplausos mesmo além das bancadas da direita. Falou também da corrupção, que definiu como a captura do Estado e do erário público por interesses privados, e da necessidade de a combater. A imprensa sublinhou ter sido a única voz a falar da corrupção no evento, como se isso tivesse algum significado ou importância.

Houve outras alusões no seu discurso que não mereceram destaque da comunicação social.  Uma delas foi a sua referência a duas revoluções, a de 1974 e a de 1975. Como quem diz: – Estamos aqui a comemorar a revolução de 1974, mas também houve a revolução de 1975, coitadinha dela, que não se comemora e, se calhar, é tão ou mais importante do que a outra. É uma variação suave do tema há muito glosado por gente da direita, que opõe o 25 de Novembro (a boa revolução) ao 25 de Abril (um golpe militar marxista).

Ora em Novembro de 1975 – duas décadas e tal antes de a deputada Balseiro Lopes nascer – não houve revolução nenhuma, mas apenas uma operação militar que fez abortar uma tentativa de insurreição de extrema esquerda e restabeleceu a ordem nos quartéis que não obedeciam à linha de comando nem aos órgãos de soberania, incluindo o VI governo provisório. Após essa operação militar, os órgãos de soberania mantiveram-se todos no seu lugar e a Assembleia Constituinte continuou o seu trabalho de elaboração da Constituição, que viria a ser aprovada em Abril de 1976. Em Novembro de 1975, o povo também não veio em massa para as ruas apoiar os militares, como fizera em Abril de 1974, mas a maioria do país, que entretanto já se expressara em eleições livres em Abril de 1975, suspirou de alívio por ter sido abafada uma tentativa revolucionária. Se se pode falar de revolução em Novembro de 1975, é dessa, a que foi abortada.

A história foi obviamente mal contada à deputada Balseiro Lopes, que também não deve saber o que é uma revolução. Os mestrados em direito e gestão não exigem que se saiba isso.

A extrema-esquerda não está próspera, Pedro Soares

É raro ler as crónicas de deputados bloquistas. No entanto, num momento em que aparentemente se agitam por causa do próximo orçamento, convém ir ver o que andam a dizer.

O deputado Pedro Filipe Soares escreve hoje, no DN, sobre a grande traição que terá sido a aceitação do cargo de líder do Eurogrupo por Mário Centeno. Podem ler, para eu não ter que estar a repetir ou sintetizar o que diz.

A tragédia da falta de investimento na Saúde é dada como exemplo de traição. Como se o aumento do número de médicos e enfermeiros e das suas remunerações não fossem investimentos. Além de não ser verdade que não há outros investimentos. Vários centros de saúde já foram construídos, novos hospitais estão a caminho. Enfim, Para Pedro Filipe Soares o Eurogrupo é mau, porque foi mau (o Dijsselbloem era, de facto, execrável) e sempre será mau. Não há volta a dar. Não duvido que, se Hugo Soares fosse proposto para líder do Eurogrupo, recusaria, porque considera essa uma entidade estática, ou seja, alguém malévolo se lembrou de a lá pôr e pronto, é europeia, tem o estigma europeu, pouco interessando quem a dirige ou quem passa a ter voz, poder e credibilidade para propor e tentar mudanças de orientação. Se tal acontecesse, Pedro Soares mandava a Europa passear, porque não gosta. Embora nunca diga de que Europa gostaria para além dos chavões da solidariedade e do utópico anticapitalismo, nem o que faria (caso se sentasse ao lado) para lidar com representantes de outras democracias que elegem os seus governantes legítimos, os quais não são, pelo menos nunca até agora, militantes da extrema-esquerda. Muito pelo contrário. Ia-se embora porque ficava com urticária? 95% do que o Bloco diz, em matéria teórica, é conversa. Em matéria prática, não sabemos, mas imaginamos e, olhem, não. O vosso papel é outro.

Pedro Soares acaba a criticar Augusto Santos Silva por representar o que ele chama a «defesa da Terceira Via», que, diz ele, granjeou tão maus resultados para os partidos socialistas e sociais-democratas na Europa. O assunto tem muito que se lhe diga. Terá sido a «terceira via» a culpada de todos os males? E terá, sequer, definhado para sempre? Mas, e a extrema-esquerda? Prosperou? A derrocada da «terceira via» beneficiou os críticos de esquerda dessa via? Está à vista que a resposta é não.

Invocar o falhanço da chamada «terceira via» é não perceber o que se passou e passa. É não perceber a facilidade com que se exploram os receios dos cidadãos comuns perante os movimentos migratórios recentes (mais no resto da Europa, que não aqui, razão pela qual a direita local fica sem um argumento poderoso) ou o receio compreensível com o colapso de todo o sistema bancário (a que a «terceira via» é totalmente alheia), o medo de perda das poupanças, a preferência por um estilo de vida «ocidental» apesar de tudo, etc.

Porque não são os partidos de extrema-esquerda a ganhar com a crise, com a austeridade e até com o abandono da austeridade? O facto é que não são.

Ricardo Costa, de Einstein a Eisenstein

Nada supera, até ao momento em que teclo, o que aconteceu na entrevista dada por Pedro Cruz ao SMACK, publicação digital do Grupo IMPRESA destinada a “um público maioritariamente jovem, um público que procura saber sempre mais, em mobile ou nas redes sociais“. Nada supera esse espectáculo se a intenção for a de vermos à transparência o que está na origem dos crimes cometidos pela SIC ao ter publicado excertos dos interrogatórios na “Operação Marquês”.

Este senhor é subdirector da informação na SIC. Ao longo da entrevista viola o Estatuto e o Código Deontológico dos Jornalistas. E ainda insulta e mente. Sempre a rir, sempre na maior, ufano e frenético.

Dois exemplos de arrebimbomalho:

i)

Pedro CruzA mim pouco me importa com quem é que dorme o José Sócrates, embora isso esteja lá nas escutas.

Menino De zero a dez, quão delicioso foi ouvir essas escutas nos bastidores?

Pedro Cruz Eu não as ouvi, infelizmente ou felizmente...

MeninaJá ouvi dizer que há coisas ainda mais juicy do que aquelas que podemos ver, mas que...

Pedro CruzA seu tempo...

MeninaA seu tempo?! Vamos ver mais?! Vamos ter mais coisas?!

Pedro CruzÉ possível, é possível, é possível!

ii)

Pedro CruzQuando José Sócrates diz «Ai, eu não trato o Ricardo Salgado por tu, nem ele a mim, ele chama-me senhor primeiro-ministro» e cola com «Ó Zé, 'tá bom?». Portanto, é mentira o que ele está a dizer e nós mostramos que é mentira.

No primeiro, vemos três abutres à volta de um cadáver. Está um festim a decorrer. A carne é dilacerada e engolida furiosamente. O subdirector da SIC anuncia que o cadáver tem carne ainda mais saborosa lá para dentro, fundo no corpo inerte. Os dois abutres pequeninos começam logo a salivar e abrem as suas boquinhas para largarem gritos de excitação. Onde? Onde? Onde está essa carne tão tenrinha, tão gulosa? Quero! Quero! Quero! O abutre velho aproveita para ensinar as virtudes da paciência aos filhotes. A seu tempo, diz ele. Estas coisas têm o seu tempo, e a arte de engolir um cadáver passa por guardar o melhor para o fim. Como isso de saber com quem é que o Sócrates dorme, né? Vá, calma. É que tudo é possível quando se é um abutre disfarçado de jornalista, remata o Pedro Cruz perante o olhar embevecido dos dois abutrezinhos.

No segundo, estamos perante uma montagem. Pegaram na passagem do interrogatório onde Sócrates declara que enquanto primeiro-ministro (2005-2011) Ricardo Salgado tratou-o invariavelmente com o formalismo, protocolo e etiqueta inerentes à sua função e colaram-lhe uma escuta de 2014 em que o Ricardo começa por reconhecer que se enganou no número (não queria falar para aquele “Zé”=José). Nada de nada de nadinha de nada do que é dito nessa conversa foge do convencional entre duas pessoas que mostram ter uma relação moldada por uma estima superficial e distante, duas pessoas apanhadas numa situação imprevista, irrelevante e algo constrangedora pois não era suposto o telefonema ter existido. Pedro Cruz, autêntico xerife do jornalismo da SIC, trocou o respeito próprio pela pontaria e crivou de balas o bandido. Sócrates mente porque a SIC assim o decidiu através daquela arte sem a qual não poderíamos desfrutar dos filmes: a montagem.

Dá para esquecer Balsemão e restante administração da IMPRESA, os quais lavariam as mãos dizendo que os seus jornalistas têm absoluta liberdade para exercerem a sua profissão como acharem melhor. E também esquecermos esta ridícula e degradante figura de seu nome Pedro Cruz, posto que não passa de uma peça menor na engrenagem. De quem importa falar é de Ricardo Costa. Depois do que vimos o Expresso fazer com a devolução da sobretaxa nas vésperas das legislativas de 2015, com o número de mortos em Pedrógão, com um inexistente protesto de militares e com um relatório fantasma dito das secretas onde se pretendia abater o ministro da Defesa, é óbvio que estamos perante um Einstein da imprensa, um génio que desenvolveu a sua própria Teoria da Relatividade. Informar com rigor e isenção, rejeitando o sensacionalismo e demarcando claramente os factos da opinião? É relativo. Procurar a diversificação das suas fontes de informação e ouvir as partes com interesses atendíveis nos casos de que se ocupem? É relativo. Abster-se de formular acusações sem provas e respeitar a presunção de inocência? É muito relativo. Abster-se de recolher declarações ou imagens que atinjam a dignidade das pessoas através da exploração da sua vulnerabilidade psicológica, emocional ou física, e não recolher imagens e sons com o recurso a meios não autorizados a não ser que se verifique um estado de necessidade para a segurança das pessoas envolvidas e o interesse público o justifique? Ui, isso é bué relativo, foda-se, solta o Ricardo enfastiado com a seita do Estado de direito democrático, essa religião funesta que persegue os jornalistas impolutos na posse da verdade.

Com este último número da publicação dos interrogatórios a Sócrates, arguidos e testemunhas, o Ricardo apresenta-se agora como a mais exuberante reencarnação de Eisenstein, o mestre da montagem em cinema. Aquilo que vemos no exemplo do fragmento das declarações de Sócrates quando interrogado a ser colado a um telefonema sem qualquer ligação legítima com a situação conduzida pelos procuradores é uma perfeita execução da chamada montagem ideológica ou intelectual. Eisenstein descobriu que uma sequência de planos aparentemente díspares resultava numa operação cognitiva que produzia um sentido no espectador que estava ausente das peças tomadas isoladamente. Este filão de automatismos narrativos permitiu elevar o cinema a um estatuto artístico superior, sendo considerado um dos pilares estruturantes da 7ª arte e de toda a ficção audiovisual. A pergunta a fazer é, pois, a seguinte: qual a ideologia que o Ricardo Costa pretende espalhar entre a malta ao fazer uma montagem que inventa uma mentira acerca de dois cidadãos servindo-se dos meios de divulgação que o seu patrão lhe oferece para se ir mascarando de jornalista? A resposta não é bonita, mas desconfio que dava para realizar um filme de terror.

O Cerejo mostra como é

Como é que se transforma uma notícia sobre as irregularidades apuradas por uma inspecção à gestão de Santana Lopes na Santa Casa da Misericórdia numa notícia sobre a “demora” de Vieira da Silva em aprovar os resultados dessa inspecção? O Cerejo mostra como é que isso se faz no Público de hoje.

Na notícia praticamente só se fala de Vieira da Silva, incluindo no título, em que Santana está ausente. As irregularidades apuradas na gestão de Santana na Santa Casa são assunto meramente colateral. Só falta agora vir o Santana fazer coro com o Cerejo e denunciar o “encobrimento” de Vieira da Silva.

Se por acaso Vieira da Silva tivesse publicado o relatório da inspecção em fins de 2016 ou em 2017, logo as habituais carpideiras do Público e o próprio Santana viriam denunciar a manobra do governo para o “sanear” ou para o impedir de chegar à liderança do PSD. Vieira da Silva seria acusado de fazer um favor a Rui Rio e o blog do Zé Manel Fernandes falaria de uma conspiração do Bloco Central.

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Multidisciplinary study provides new insights about French Revolution
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Digital addiction increases loneliness, anxiety and depression
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‘Marriage diversity’ a must-have for rock bands to businesses
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O que mais importa

A reacção mais natural, normal e, portanto, previsível no confronto com as informações que atribuem a Sócrates um comportamento perdulário e suspeito na sua vida privada é a de repúdio moral. Teríamos essa reacção, a enorme maioria de nós, mesmo que o acesso a esse conhecimento tivesse sido feito apenas e só através das declarações de Sócrates e de Carlos Santos Silva, sem imputações ou deturpações de terceiros. Teríamos essa reacção, a enorme maioria de nós, mesmo que o indivíduo em causa fosse um ilustre desconhecido. Não é possível contornar tal desvio às convenções sociais que tomamos como circunscritivas das normas da conduta aceitável, aversão que aumenta exponencialmente na relação directa com o estatuto republicano e responsabilidades cívicas da pessoa envolvida. Tratando-se de um responsável partidário e governativo, atinge-se o paroxismo da inevitável condenação moral pois o comportamento suspeito atinge as instituições democráticas e seus representantes. O simples facto de existir uma suspeita legítima de corrupção sobre um ex-primeiro-ministro, haja ou não condenação judicial, já está a fragilizar o regime e a assustar a comunidade. Isto, porém, é lana-caprina face ao que mais importa.

Num outro plano, o da intimidade de Sócrates no seu mundo relacional e afectivo, podemos falar de traição. O seu comportamento, que ele sabia ser imoral (ou que talvez conceba como amoral) e fonte de suspeitas caso detectado pelas autoridades, arriscava envolver terceiros num processo judicial e num ataque mediático. Para quem já tinha sido escutado ilicitamente mesmo sendo chefe de Governo, para quem tinha criado inimigos tão poderosos e diversos, causa perplexidade que aparentasse desconhecer que muito mais facilmente o seria tendo voltado a ser apenas um fulano que andava por aí. E calhando começar a ser escutado, então todos com quem comunicava igualmente ficavam expostos à inevitável devassa que se seguiria. Com estes, tal como com aqueles que publicamente se bateram pela defesa do seu nome e pela decência durante anos, Sócrates não foi leal, nem responsável, nem probo. Isto, porém, é privado, é lá entre eles e com cada um, não é o que mais importa.

Nunca vimos, ou nunca vi, qualquer referência ao valor total da fortuna de Carlos Santos Silva. Só teria os tais 20 ou 30 milhões da tal conta que o Ministério Público considera ser propriedade de Sócrates? Se tem mais dinheiro, quão mais? Por exemplo, se tiver acumulado 300 milhões de euros, ou que sejam 100, qual seria exactamente o problema de andar a gastar 1, 10 ou 20 com quem e como lhe apetecesse? E como o ganhou, só com trafulhices ou a fazer bons negócios? E foi, ou não, amigo de Sócrates ao longo de 40 anos? Que saiba, ainda não se fez um tratado de religião, filosofia ou psicologia onde se considere ser impossível existir um ser humano com a vontade de usufruir da sua riqueza de forma considerada excêntrica pela sociedade que o rodeia. A liberdade tem dessas coisas, tende a chocar quem não pode ou não quer ser livre. Ora, será preciso termos uma Justiça a cometer crimes, e um espaço público emporcalhado de caluniadores, para se investigar a liberdade do Carlos Santos Silva? Eis o que mais importa.

Função decorativa da lei

Artigo do Código de Processo Penal que o Ministério Público considera apenas lá ter sido incluído como apontamento cómico num calhamaço demasiado sério para os senhores legisladores. (Os destaques são meus)

 

Artigo 88.º

(Meios de comunicação social)

1 – É permitida aos órgãos de comunicação social, dentro dos limites da lei, a narração circunstanciada do teor de actos processuais que se não encontrem cobertos por segredo de justiça ou a cujo decurso for permitida a assistência do público em geral.
2 – Não é, porém, autorizada, sob pena de desobediência simples:
a) A reprodução de peças processuais ou de documentos incorporados no processo, até à sentença de 1.ª instância, salvo se tiverem sido obtidos mediante certidão solicitada com menção do fim a que se destina, ou se para tal tiver havido autorização expressa da autoridade judiciária que presidir à fase do processo no momento da publicação;
b) A transmissão ou registo de imagens ou de tomadas de som relativas à prática de qualquer acto processual, nomeadamente da audiência, salvo se a autoridade judiciária referida na alínea anterior, por despacho, a autorizar; não pode, porém, ser autorizada a transmissão ou registo de imagens ou tomada de som relativas a pessoa que a tal se opuser;
c) A publicação, por qualquer meio, da identidade de vítimas de crimes de tráfico de pessoas, contra a liberdade e autodeterminação sexual, a honra ou a reserva da vida privada, excepto se a vítima consentir expressamente na revelação da sua identidade ou se o crime for praticado através de órgão de comunicação social.
3 – Até à decisão sobre a publicidade da audiência não é ainda autorizada, sob pena de desobediência simples, a narração de actos processuais anteriores àquela quando o juiz, oficiosamente ou a requerimento, a tiver proibido com fundamento nos factos ou circunstâncias referidos no n.º 2 do artigo anterior.
4 – Não é permitida, sob pena de desobediência simples, a publicação, por qualquer meio, de conversações ou comunicações interceptadas no âmbito de um processo, salvo se não estiverem sujeitas a segredo de justiça e os intervenientes expressamente consentirem na publicação.

Exactissimamente

«Os media funcionam hoje como distribuidores de poder relativamente aos quais deixaram de ser adequadas as formas tradicionais de crítica (sobretudo aquelas que faziam a crítica dos meios de comunicação de massa). Daqui decorre que aquilo a que chamamos hoje democracia está longe de ter o mesmo sentido que o conceito tinha nos antigos tratados de teoria política. E, de maneira concomitante, a crítica aos media também já não pode seguir as mesmas vias de análise. Questões como as da mentira e massificação deixaram completamente de ser pertinentes. O que importa agora analisar é uma complexa estrutura cujo poder está disseminado ou não se situa no lugar onde parece situar-se.»


A política por outros meios

Há dias em que nada de relevante se passa

Não é o caso de hoje.

Revista Sábado:

Um acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães alterou para pena suspensa a condenação a seis anos de prisão de um rapaz de dezanove anos que esfaqueou a namorada quando esta pôs fim à relação. Esta só não morreu porque teve assistência rápida. Uma tentativa de homicídio, portanto. Levada a cabo por um adulto.

 

E o tribunal, que disse?

Pois. Quando vemos os senhores juízes fazerem associações à arte literária para tecerem as suas considerações, devemos preparar-nos para uma calamidade decisória. De facto (destaques meus):

Sabemos que matar por ciúme é um tema clássico da arte (o do Otelo que mata Desdémona e as suas múltiplas réplicas na literatura, no cinema, no teatro), o que demonstra que tem sido universal e intemporal. Esperar-se-ia, porém, que hoje em dia, quando vivemos numa sociedade mais aberta, mais informada e mais democrática do que qualquer das anteriores, o ciúme — não podendo desaparecer, pois que é um sentimento natural e espontâneo — não fosse tão patológico e aberrante, ao ponto de alguém querer tirar a vida a outrem, só porque essa outra pessoa não corresponde aos afetos que se desejam dar”, refere o acórdão.[…]

Destaca que a personalidade do arguido, “caraterizada por egocentrismo, comportamentos ciumentos em relação à assistente [ex-namorada] e incapacidade de, no caso concreto, aceitar a decisão desta em não reatar a relação de namoro, revela algumas exigências de prevenção especial“.[…]

Considera que a experiência de reclusão, com a sujeição a prisão preventiva e, posteriormente, à obrigação de permanência na habitação, leva a crer que “a ameaça da execução de uma pena de duração bastante considerável (5 anos), terá potencialidades para o arguido se consciencializar da gravidade do seu comportamento e da necessidade de não praticar factos semelhantes”.

A decisão foi, pois: Vai-te embora, rapaz, mas olha lá que ainda vais preso!

 

E ele com uma faca e a miúda a sangrar. Vai cruzar-se com ele na rua.

Sim senhor.