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Há jornalistas mas não temos imprensa em Portugal

Depois da leitura deste texto – Sócrates: quem ficou refém de quem – do episodicamente interessante João Pedro Henriques, gostava que o autor arranjasse uns minutos para responder às seguintes perguntas:

– Qual é o problema de se ter acrescentado no contrato a norma relativa aos 149 milhões de euros? Essa inclusão foi ilegal? Tem a certeza de que o consórcio ELOS não gastou dinheiro, nesse valor ou aproximado ou superior, em preparação da obra numa fase prévia ao do visto do Tribunal de Contas?

– Admitindo que JPH é um jornalista conhecedor dos processos relativos a essa adjudicação, estará em condições de explicar qual a relação de algum membro do Governo de então, e para essa decisão específica, com esse júri na berlinda? Se está, porque não incluiu no seu texto essa causalidade? Se não está, como se atreve a estabelecer um nexo difamatório e calunioso?

– Supondo que JPH é um jornalista na posse de todas as suas faculdades mentais e direitos inerentes à sua carteira profissional, que explicação dá para não se ter constituído arguido no “Processo Marquês” qualquer outro elemento do Executivo de Sócrates nem qualquer outro elemento do júri a quem atribui a entrega de 149 milhões de euros a entidades que os meteram ao bolso “sem construir um centímetro de linha”? Não tendo, não achará necessário ir à procura dessa explicação recorrendo à sua autoridade profissional e demais recursos da empresa onde trabalha? Ou também partilha da convicção de que Sócrates, talvez por telepatia ou artes mágicas, levou o júri a dar essa montanha de dinheiro aos bandidos?

– Crendo que JPH é não só um jornalista maturo e reputado (escreve num órgão da chamada “imprensa de referência”) como também um cidadão decente e preocupado com a qualidade da Justiça, donde lhe vem a baixeza de estar a falar em modo justiceiro de taberna sobre factos colados com cuspo e que não fazem qualquer sentido assim que se dissipa a fumarada da pulsão linchadora? Ou, então, que sentido achará que faz opinar sobre suspeitas de corrupção que atingem tantas empresas e indivíduos sem ter prova de coisa alguma mas feliz da vida por ter ocasião de teclar a sua impotência e paranóia?

Estes textos de “opinião”, de jornalistas com décadas de profissão e ocupando lugares de grande destaque mediático, onde se repete o discurso taxista do “andam todos a roubar”, não se limitam a espelhar o mundo subjectivo dos seus autores. São igualmente, por inerência sociológica, o retrato de uma classe mediaticamente inútil e civicamente tóxica – salvo honrosas excepções.

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It’s mathematically impossible to beat aging, scientists say
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Do animals think rationally?
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Horses can read our body language even when they don’t know us
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A direita não sai do seu velho ciclo

Para desespero da direita, ainda não foi desta que Bloco e PCP roeram a corda do Orçamento. O resultado das Autárquicas alimentou-lhes a esperança da vinda do tão esperado novo ciclo, como não aconteceu, alguns atacam o documento agora aprovado, enquanto outros usam como única arma de arremesso político a tragédia dos incêndios. E há ainda os que misturam tudo como faz o Pedro Marques Lopes, esta semana, na sua crónica no DN.

Diz ele que “o Orçamento do Estado para 2018 é uma espécie de documento de “depois logo se vê”.” Confesso que demorei um bocadinho, mas acabei por concordar. Afinal, há aqui uma diferença, os orçamentos da direita eram mais do tipo “vê-se logo”. Via-se logo que eram inconstitucionais, via-se logo que as contas estavam aldrabadas e que seriam necessários vários orçamentos rectificativos e, sobretudo, via-se logo que o País continuaria a marcar passo. Mas fiquei a pensar e o “depois logo se vê” deve ter sido inspirado na campanha dos candidatos à liderança do PSD. É que, tirando o campeonato dos afectos, não se lhes conhece ideia alguma para o futuro do País. Aliás, “depois logo se vê” podia ser o lema do velho ciclo da direita. Adiante.

Mais abaixo, o Pedro Marques Lopes, informa-nos que “a grande questão é que este Orçamento revela o labirinto sem saída desta solução governativa”, e que “o Orçamento grita isso, está bem à vista que os entendimentos em aspectos fulcrais para o país são impossíveis com esta solução governativa”. Até aqui, os aspectos fulcrais para o País têm sido o défice, a dívida, o crescimento da economia, o desemprego, etc.. Como esses aspectos estão bem encaminhados, e o Orçamento assim o prova, no entender de PML, e se calhar bem, os aspectos fulcrais passaram a ser “as mudanças na Segurança Social, prioridades para o investimento público, reformas no ordenamento do território, acordos para reformar a Justiça, entre outros.” E que os mesmos “são impossíveis de obter no quadro da geringonça.” Não sei se é impossível o Governo realizar essas reformas com o apoio do BE e do PCP, mas sei, e o PML também, que sem o acordo do PSD, pelo menos, são reformas com muito pouco alcance. Ou seja, não são reformas, são apenas umas medidas que o governo seguinte revogará assim que tiver oportunidade.

O que me leva ao tal labirinto. Ao contrário do que diz o PML, os labirintos normalmente têm uma saída e o PS, o BE e o PCP têm conseguido encontrá-la. Já no PSD não se movem num labirinto, isso implica percorrer caminhos, sendo que alguns até os poderiam levar ao entendimento com a esquerda para os tais aspectos fulcrais. Movem-se em campo aberto, mas, tendo em conta as coisas sem nexo que gritam, devem andar todos de olhos vendados.

Oscar da hipocrisia para a Netflix

Será que a Netflix não vê as próprias séries que encomenda? Acaso Kevin Spacey não andou desde o primeiro episódio de House of Cards a exibir em frente às câmaras o monstro de perfídia que é, onde se inclui a oculta paneleiragem e um extenso rol de crimes ao longo de 6 temporadas? Porquê só agora a reacção?

A moca de pregos do Chico Mota

Francisco Teixeira da Mota teve recentemente ocasião de publicar o seu entusiasmo pela existência de uma acusação contra Sócrates, a qual antecipa ir gerar condenações porque os “circuitos do dinheiro” chegam e sobram para engaiolar a bandidagem, é limpinho. Logo de seguida, expôs o seu êxtase resultante do excelente trabalho que o Correio da Manhã fez na recolha dos sinais exteriores da corrupção socrática, o qual carimba como jornalismo exemplar. Hoje, junta-se ao coro dos que pretendem que os juízes portugueses se dêem ao respeito e ponham na ordem Neto de Moura, um juiz cujos fundamentos para atenuar uma pena por violência sobre uma mulher causaram justo escândalo – a decisão e os fundamentos.

Que têm estes três artigos em comum? A temática das decisões judiciais e dos direitos dos arguidos e das vítimas de crime, para começar. E o Chico Mota e o jornal Público, para acabar ou recomeçar. Ficamos a saber que há juízes que não podem mijar fora do penico calhando a matéria envolver mulheres como vítimas de homens. Algo que não oferece dificuldade de maior para perceber e aceitar. Todavia, se um juiz apanhar certos arguidos envolvidos em suspeitas de corrupção, então não só pode fazer o que lhe der na gana como até deverá facilitar práticas criminosas que facilitem a condenação na opinião pública do arguido, haja ou não haja condenação em tribunal. O Chico não identifica qual seja a origem na sua pessoa da vigência do duplo critério, mas desconfio que não valha o gasto de calorias para dela tomar conhecimento.

O seu caso é apenas um de uma enorme maioria na imprensa dita de referência. Em colunas e espaços de opinião, de forma festiva, e nas linhas editoriais, de forma tácita, celebra-se o triunfo da imediata condenação de Sócrates num auto-de-fé jubilatório. Os abusos e crimes da Justiça, de que Sócrates é factual vítima, são silenciados, ou justificados ou aplaudidos. E até o espectáculo de vermos um juiz de instrução a dar uma entrevista onde goza com um arguido, sobre o qual tinha já tomado decisões judicias e outras mais teria de tomar, foi desfrutado com prazer infinito pela turba do linchamento. Carlos Alexandre, na entrevista à SIC, esforçou-se – ao ponto de repetir as alusões – em publicitar a sua convicção da culpabilidade de um cidadão na altura sem sequer ter acusação formada. Pelos vistos, e tal como os seus pares e demais decisores deliberaram, tal não chegou para pôr em causa as suas condições para ser “imparcial”, para “fazer justiça”. Uma justiça, portanto, feita pelas próprias mãos. Umas mãos isentas, limpas, probas, nascidas para apanhar a malandragem dos políticos e ricalhaços corruptos, como teve demorados minutos a explicar com detalhe biográfico ao povo.

A violência do Chico Mota ao usar o seu palco na comunicação social, e o seu estatuto de jurista, para se substituir à Justiça não é menor do que aquela que marido e amante exerceram com uma moca de pregos sobre uma mulher a partir da entusiasmada e extasiante convicção de culpabilidade desses dois valentes.

Imposto Passos Coelho

Desde o início de 2013 que os jogos sociais são taxados com um imposto de selo de 20% quando os montantes a distribuir forem iguais ou superiores a 5000 euros. Na altura, esta medida foi justificada com o estado de extrema carência em que as finanças públicas se encontravam. Era preciso ir ao bolso de todos, inclusive daqueles que já contribuíam para o Estado e, principalmente, para a Misericórdia ao comprarem o jogo na esperança de receberem as migalhas redistribuídas. Este saque pode não ter qualquer importância política, no sentido de nenhum partido se ter lembrado ainda de prometer acabar com ele, nem social, podendo não gerar sequer conversas de protesto. Todavia, a sua criação e a sua manutenção revelam algo acerca dos abusos do Estado, da incúria dos políticos e da passividade dos cidadãos.

Apesar de termos visto a Troika a bazar envolta em perfume de santidade, e de termos um novo Governo que prometeu e cumpriu inverter a lógica predadora da austeridade, esta aberração tem ficado. Provavelmente (mas corrijam-me se estiver enganado), o próximo Orçamento não irá dar-lhe o chuto que merece. Se for o caso, e se a ideia for a de manter o estúpido e mesquinho abuso para sempre, proponho que se passe a identificá-la como o “Imposto Passos Coelho”.

Seria uma bonita homenagem ao seu principal responsável e um justo monumento de evocação a esse tempo onde valeu tudo para castigar os piegas.

O Trump não faria pior

Os cientistas alertam há anos para o facto de a Península Ibérica ser, na Europa, a região onde os efeitos das alterações climáticas se farão sentir em primeiro lugar e com maior intensidade. Ora perante a situação que o País atravessa, em termos climatéricos, seria de esperar que se iniciasse um debate sério sobre esta problemática. Mas não, parece que o que está a acontecer ainda não é suficiente. É verdade que ninguém nega as alterações climáticas, mas são frequentemente desvalorizadas. Se o assunto em discussão for o da seca prolongada que afecta todo o País, relaciona-se o fenómeno com as alterações climáticas, mas se o tema for o da tragédia dos incêndios, consequência directa da seca, aí é quase proibido fazer essa relação e quem o fizer corre o risco de ser acusado de estar simplesmente a desvalorizar a incompetência do Governo. Aliás, só falta vir um Hugo Soares qualquer garantir que a culpa da seca e das sucessivas ondas de calor é dos malvados dos socialistas, em conluio com os comunistas e bloquistas, que com a sua lendária sede de poder sugam a humidade do ar e impedem a chuva de cair.

O que vale é que temos um Presidente da República cujo nome não é Trump, nunca ninguém o ouviu negar as alterações climáticas. Mas quantas vezes o ouvimos alertar para o problema? E se esta não é uma boa altura para chamar a atenção para um dos desafios mais complicados que o País terá de enfrentar, não sei qual será. Parece que o compromisso que tem com os portugueses tem limitações e a prioridade é vigiar o Governo e não largar as zonas afectadas pelos incêndios. Mas e as vítimas que estão à espera de o serem? Pode Marcelo garantir que com a fiscalização que fará à actuação do Governo a tragédia não se repetirá? E se as previsões de mais um Inverno seco se confirmarem, quantas aldeias correm o risco de serem as próximas a arder? E que tal parar em algumas dessas aldeias e usar a sua popularidade, poder e vontade de mandar para chamar a atenção para este problema, apontar o que está mal e alertar as populações para o que também têm de fazer sob pena de nada servirem as medidas do Governo, deste ou de outro? Isso é que era! E no fim até podia prometer voltar para os cobrir de beijos e abraços.

Marcelo imitador de Cavaco

Marcelo, nos sermões dominicais e ao longo de anos, foi repetindo com exuberante gozo que Sócrates nada podia contra Cavaco porque um primeiro-ministro está condenado a perder quando ataca o Presidente da República. E assim foi, tendo Cavaco sido reeleito apesar de ter lançado, explorado e defendido uma golpada mediática a partir da Casa Civil para tentar influenciar as eleições legislativas de 2009. Não há registo de que Marcelo tenha criticado Cavaco nesse episódio, nem aí nem nas restantes ocasiões em que desse vergonhoso Presidente da República veio um concertado esforço para fragilizar o Governo e o PS, favorecendo às escâncaras o PSD de Ferreira Leite, primeiro, e o de Passos, por fim, num processo que afundou Portugal no resgate em 2011 e em 4 anos de uma violenta e eleitoralmente ilegítima tentativa de reengenharia social a coberto da Troika. A visão de Marcelo sobre Cavaco foi tecnicamente maquiavélica, vendo na sua acção aquilo que devia ser feito precisamente porque a sua posição na hierarquia do Estado lhe dava impunidade para tal. A Constituição, a moral republicana e o respeito institucional? Balelas para agitar em frente ao Zé Povinho, ensinava Marcelo com o seu riso sardónico. O príncipe que tente ser bonzinho, e jogue ao poder respeitando as regras a que os ingénuos dão valor, será cuspido pela janela do palácio enquanto o Diabo esfrega a pestana.

O que Cavaco fez a Sócrates foi não só muito diferente como de outra ordem por comparação com o que Soares fez a Cavaco. Soares Presidente fez oposição a Cavaco primeiro-ministro também às claras, só que mantendo a dignidade do cargo, sendo decente na luta política e não tendo violado a Constituição. Por aí, a arquitectura do regime funcionou perfeitamente num sistema que permite ao Chefe de Estado reequilibrar a representatividade política calhando o Chefe de Governo estar a ultrapassar certos limites sociológicos. A “Presidência Aberta” de Soares consistiu na utilização do seu capital divulgador para introduzir no espaço público e na arena política uma realidade social que estava escondida pela maioria parlamentar e pelo Executivo laranja. Nesse sentido, foi um confronto leal e de acordo com o interesse da comunidade. Já Cavaco Presidente optou pela via conspiracionista e golpista para liderar a oposição a Sócrates. A estratégia do “Falar verdade ao portugueses” e da “Política de Verdade”, um tandem entre Belém e o PSD de Ferreira Leite, alimentava-se e promovia as campanhas negras que tentavam assassinar o carácter de Sócrates e de qualquer outro dos seus próximos, fossem políticos ou familiares. Falhando esse plano, e apesar do golpismo judicial-mediático do processo “Face Oculta” e da “Inventona de Belém”, Cavaco ofereceu o poder a Passos logo depois de garantida a sua reeleição. Fê-lo escavacando o interesse nacional que o PEC IV salvaguardava e partindo para um mandato onde foi cúmplice activo dos abusos constitucionais e da fúria castigadora de Passos e Portas. Cavaco é recordista dos índices mais baixos de popularidade para um Presidente da República em democracia. Abandonou as funções consumido pelo rancor e mergulhado numa hipocrisia sem fundo conhecido.

Marcelo teve no seu primeiro ano e meio de mandato a supina oportunidade para se demarcar do legado do seu antecessor. Se bem o pensou, melhor o fez. O seu longo treino na televisão, onde ascendeu rapidamente ao estatuto de super-estrela pelos seus dotes comunicacionais e relevância do seu pensamento, aliado à sua personalidade extrovertida e calorosa, foram um contraste chocante face à imagem de ressabiamento e fixação anal espalhada por Cavaco. Para além das diferenças de estilo, as diferenças de sentido de Estado e visão política foram igual ou ainda mais chocantes, revelando-se intransigente na defesa do interesse nacional ao lado do Governo; para crescente desespero da actual direita decadente que apenas pretendia ter um líder sectário na Presidência. Choques positivos, construtivos, fontes de confiança nas instituições e de reconciliação com a classe política – e parte inerente do sucesso registado até agora na economia nacional e na mudança de paradigma no trato dos portugueses e dos serviços públicos que os servem. Símbolo trivial desta nova cultura política nascida da mudança de actores no topo do Estado, há 10 meses Marcelo elegeu o termo “descrispação” como palavra do ano. E daqui saltamos para o seu número de 17 de Outubro.

Hoje sabemos que Marcelo traiu o Governo e foi oportunista, cínico e manipulador como nunca antes tínhamos visto na política nacional dada a sofisticação e eficácia da sua performance tendo duas devastadoras tragédias a comporem o cenário. Transformou sem a menor hesitação os mortos em arma de arremesso político, exactamente como se fez no PSD, CDS e comunicação social desde Pedrógão. Todos os que o aplaudiram, vendo nas suas palavras o exercício da função presidencial elevada ao mais brilhante sentido de missão unificadora, têm agora de questionar o seu próprio discernimento. Porque aquele ataque ao Governo, ao primeiro-ministro e à pessoa de Constança Urbano de Sousa não teve qualquer outra finalidade que não fosse a de encenar uma liturgia onde podia fazer as pazes com a direita e agregar a comoção nacional no culto da sua pessoa. Não era necessário para nada de útil que tivesse relação com os fogos e sua devastação, foi um ataque escolhido para maximizar as circunstâncias de fragilidade – ou tipologia – comunicacional de Costa. Situação agravada pela crispação que Marcelo se encarregou de alimentar pessoalmente ao começar a responder às notícias da demorada reacção defensiva do Governo e do PS, e dando carta branca para que a sua Casa Civil igualmente lançasse mais gasolina no fogaréu da crispação com declarações provocatórias e soberbas. E isto leva-nos de volta a Cavaco.

Marcelo continua convencido de que poderá desequilibrar o regime a sua favor, tanto pela configuração do mesmo como pela sua habilidade popular, mas igualmente poderá estar desatento em relação ao seguinte fenómeno: com Cavaco, a figura de Presidente da República ficou conspurcada e perdeu o prestígio que tivera antes do Aníbal ter ido para Belém perverter o combate político. A profundidade desta perda de autoridade, a qual não carecia de actores e seus espectáculos para existir (Eanes e Sampaio foram a antítese da política-espectáculo, e Soares era um animal político sem carência de artifícios), poderá reservar a Marcelo uma das maiores surpresas da sua vida política caso Costa e o PS tenham a coragem, e a inteligência, de levarem a luta política contra a direita para o mais inesperado dos terrenos. Esse mesmo onde Marcelo se imagina num castelo inexpugnável com o povo em romaria à espera do beijinho, do abracinho e da palavrinha.

Sócrates – uma sugestão ousada, proveitosa para todos e boa para a indústria cinematográfica

Depois de ler mais um (longo) artigo do Observador em que se explana mais uma tese do Ministério Público sobre grandes crimes cometidos pelo ex-primeiro-ministro (as teses saem agora regularmente na imprensa), apetece-me dizer como o autor do blogue “Ouriquense” – o «Eremita», que li há dias – “O homem que fuja e o Estado que o deixe fugir” (formulação livre, minha).

Eis o original:

Com o povo e a imprensa de referência convencidos da culpa de Sócrates, se no fim não houver condenação não será apenas a reputação da Justiça a ficar comprometida, mas também a da imprensa e de toda a sociedade. Se Sócrates se safa e for o último a rir, a vergonha colectiva paralisará o país como nem no sonho mais húmido de Arménio Carlos. Como nos podemos precaver deste desfecho? Não podemos. Mas Sócrates pode ajudar-nos. Como? Fugindo do país. A fuga de Sócrates é o cenário que minimiza as perdas. A Justiça seria reabilitada, pela confissão implícita de culpa, e a aparente falta de competência do foro policial para impedir a fuga de Sócrates seria muito mais tolerada do que a eventual incapacidade do Ministério Público em fazer prova. Os jornais seriam poupados à humilhação que seria Sócrates sair em liberdade, depois de tudo o que se andou a escrever. E o povo veria engrandecida a dimensão romanesca de Sócrates, logo imortalizada num biopic popular e esquemático realizado por Leonel Vieira, sem um final ambíguo – para grande frustração dos indefectíveis de Sócrates – em que a hipótese de perseguição política não seria definitivamente descartada. Sócrates deve fugir e o Estado, sem nunca o admitir, deve facilitar a sua fuga. Não há desfecho mais vantajoso para Portugal e os portugueses.

Fim de citação.

De facto, se são os argumentos que tenho lido os que dão corpo às diversas acusações, para o MP não passar pela vergonha de os ver ridicularizados, mais valia ter a boa sorte de não julgar o acusado. A tese da “obsessão pelo controlo da comunicação social”, tema da peça do Observador, obsessão que alegadamente começa a manifestar-se na “Gazeta do Interior”, é ocasião para boas gargalhadas. Pela inépcia do “criminoso” e dos seus desajeitados cúmplices face a tão gigantesco objectivo e pela seriedade com que a dita tese se leva a si mesma. São fascículos cómicos, que leio com prazer.

Ai Marcelo

“Entrevista de Costa vista em Belém como mais uma oportunidade perdida”

(Público)

Não me espantaria se o jornal Público se dedicasse por estes dias a acirrar os ânimos entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Havendo um fundamento sério no mal-estar entre os dois, noticiado pelo jornal há uns dias (e as razões estão muito longe de ser todas favoráveis a Marcelo), é também evidente que ao jornal e aos interesses que representa convém explorar este desentendimento – porque aumenta as vendas e “morde” nos socialistas por razões bem conhecidas – e dar com isso uma mãozinha a uma direita que entrou em desespero pela não chegada do diabo nem vislumbre do mesmo. Com a situação económica do país a melhorar a olhos vistos e a Geringonça a não dar sinais de quebrar no essencial, os incêndios e Marcelo oferecem subitamente uma boa tábua de salvação a quem se vê a afundar e sem maneira de chegar ao poder. O David Dinis pode estar numa de ajudar. É que estas notícias, por muito verdadeiras e objectivas que sejam, associadas a uma tragédia nacional, transformam-se, na restante comunicação social, esmagadoramente controlada pela direita, numa guerra do Bem contra o Mal, num contraponto entre “os afectos” de Marcelo e “a frieza” de Costa. Num populismo sem pudor.

É fácil omitir que a função de um não é a função do outro. Que o que se espera de um não é o que se espera do outro. Que as responsabilidades de um não são as do outro. Que Marcelo não foi eleito para governar. Que para isso teria que ter sido eleito para a chefia do PSD, coisa que não foi nem quis. Omitir tudo isto é fácil.

Ora, interesses político-jornaleiros à parte, acontece que Marcelo dá mostras de não se estar a importar nada de participar neste jogo/brincadeira irresponsável e calculista. Mais: não é de excluir que tenha sido o próprio a começá-lo. Num pequeno vídeo passado no sábado no Eixo do Mal (em que se vê Marcelo a discursar na entrega de um prémio a Wim Wenders), Marcelo mostra-se claramente desagradado com a Geringonça pelo facto de a mesma obrigar a negociações constantes com partidos anti-europeus, cujas consequências não são, a seu ver, as melhores para o país. É um escolho, de facto. Mas daí até o Presidente pôr em prática um plano de ataque a Costa e de desestabilização política deveria ir um passo muito grande. E maduramente ponderado. E no entanto, o que vemos é a presidência da República a alegar e a aproveitar as diferenças na exteriorização da “compaixão” pelas vítimas para reforçar a aura de «comandante do povo» de Marcelo e a ideia de incompetência do Governo. Muito mau. Mau de mesquinho. O que é que fez o Costa? Não chorou? Mas, mas, mas … o que é isto? O socorro está a chegar às populações como previsto! Os habitantes locais não atribuem ao Governo nenhuma das culpas que o Presidente deixa subentendidas. Nenhuma.

Convém, pois, lembrar ao actual Presidente que 1) é preciso muito mais do que beijinhos, abraços e selfies para resolver os problemas das pessoas atingidas por uma catástrofe – tarefa exigente e criteriosa que não incumbe ao Presidente; 2) nem toda a gente tem feitio para “santo” curandeiro, neste caso de “feridas psicológicas”, como Marcelo parece querer ser; 3) Marcelo não tem o direito de expor a sua personalidade (que crê impecável, mas que muitos vêem como calculista) por contraponto à de outros, que não andam aos beijos e eventualmente encaram as suas funções de forma diferente, colocando o objectivo de eficácia a outro nível.

Esta afirmação (referente à entrevista a António Costa, ontem, na TVI), se verdadeira, vinda de Marcelo, é inaceitável : “Primeiro-ministro falhou a reconstrução da sua imagem junto dos portugueses“. (vd. link acima) O que queria o Presidente? Que Costa se ajoelhasse, lhe pedisse perdão, pedisse perdão aos portugueses e chorasse?

A que ponto de irracionalidade estamos a chegar?

Um presidente simpático poderia ter mais juízo. A sério que é a visão de Santana Lopes no poder que o move?? Se é, é ridículo.

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Daydreaming is good: It means you’re smart
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Perguntas simples

Quanta e quão fria racionalidade é necessário ter para conseguir explorar politicamente mortos, feridos e bens perdidos tragicamente – num dos mais sofisticados exercícios de manipulação emocional e afectiva que alguma vez vimos um Presidente da República a fazer?

Quando percebemos o que “sem emoção” quer dizer

Já se desconfiava que o Presidente Marcelo regressara à sua faceta de golpista espertalhão ou mesmo maquiavélico, que vigorou durante mais de metade da sua vida política, ao “desancar” publicamente no Governo para vir de imediato (enquanto a vítima recupera do choque) colher os louros das medidas por este tomadas – alegadamente por pressão sua – e que afinal o Presidente já conhecia, inclusive o seu calendário. O mesmo se pode dizer da sua alegada pressão para que a ministra da Administração Interna fosse demitida. A ministra seria demitida independentemente da vontade do Presidente e a decisão de substituição não só já estava tomada, como também já fora comunicada ao Presidente. Desconfiava-se. Ora bem, tudo isto é hoje confirmado nesta notícia. E não acredito que seja spin do Governo. É apenas anedótico que Marcelo pense que nada se iria saber.

Em suma, o Presidente atraiçoa o Governo, ou “passa-lhe a perna”, se preferirem, aproveitando os crimes dos incendiários e fenómenos atmosféricos raros em situação de seca extrema, deixa o Governo estupefacto (mas, não obstante, diligente e profissional no seu programa de medidas e com uma comunicação ao país do primeiro-ministro), vai para o terreno distribuir abraços e beijinhos, deixando espalhar a ideia da frieza dos outros e, quando está para ser conhecido o que verdadeiramente se passou, ruma aos Açores, como se nada fosse, a distribuir “afectos” enquanto elogia, a uma distância de segurança, o Governo.

Como classificar esta porcaria?

Exactissimamente

«[...]

Mal refeitos do trauma dos incêndios, uma sentença de um tribunal superior confronta-nos com outro setor desprezado pelos políticos, entregue a uma autogestão à margem de qualquer escrutínio e à mercê de preconceitos que se sobrepõem ao império da lei. Dirão alguns que dois juízes não representam a Justiça e um acórdão não faz jurisprudência. Está enganado quem assim pensa.

O sistema de justiça não dá confiança aos cidadãos e às empresas, como está comprovado por todos os estudos conhecidos que recolhem e avaliam as opiniões dos cidadãos.

E o problema não está nas leis, está numa organização que funciona em autarcia, fechada sobre si própria, em regime de irresponsabilidade. Quando o órgão competente para a "nomeação, colocação, transferência e promoção dos Juízes (...) e o exercício da ação disciplinar" (artigo 217.º da Constituição da República Portuguesa) se declara impotente para agir perante decisões de juízes que citam a Bíblia para desculpar ou atenuar a culpa de agressores de mulheres, sob o pretexto de salvaguardar a sacrossanta independência dos magistrados, estamos, aqui também, perante o falhanço do Estado em proteger pessoas indefesas. Com a agravante de que, neste caso, o poder político diz que nos temas da justiça não se mete! Ou seja, não temos defesa perante os abusos de um dos mais poderosos poderes (passe o pleonasmo) do Estado.

Como sou advogado, com uma carreira já muito longa, acrescento que conheci e conheço muitos juízes e juízas que não se reveem nestes comportamentos, que são pessoas inteligentes, competentes e sensatas. Mas custa-me não ouvir uma única voz, nem dos sindicatos que os representam, a criticar comportamentos que deveriam envergonhar-nos a todos.»


Daniel Proença de Carvalho

As notícias da revolução Cristas talvez tenham sido um bocadinho exageradas

Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho chegaram de lugares muito diferentes à campanha eleitoral autárquica e saíram dela em direcções opostas. Assunção quis usar Lisboa como trampolim no seu processo de afirmação na chefia do CDS, dispondo de recursos financeiros para fazer brilharetes mediáticos. Teresa aceitou ser a última e desesperada escolha de Passos, tendo como missão marcar presença e despachar a coisa gastando apenas uns tostões. A primeira teve um sucesso estrondoso, saindo aclamada pela comunicação social e elevada ao título de líder provisória da oposição dada a demissão do Pedro. A segunda teve uma derrota estrondosa, saindo esmagada por um resultado histórico pelas piores razões para a sua imagem como candidata e para o destino político de Passos. Todavia, partilhavam três características: serem mulheres, serem de direita e terem personalidades públicas marcadas pela projecção de assertividade belicosa.

Aquilo que as fazia equivalentes foi também, em parte decisiva ou relevante, o que acabou por causar o surpreendente lugar e a castigadora distância a que ficaram. Para um eleitorado à direita que não queria a vitória de nenhuma, e que esperava com agrado a vitória de Medina, a motivação para escolherem entre as duas esvaziou-se de apelo ideológico e interesse prático. Transformou-se num concurso de simpatia. E aí a fotogenia, entusiasmo e material de campanha de Cristas eram muitíssimo superiores aos de Leal Coelho. Também não ajudou a estratégia de Passos (isto é, a falta de estratégia do PSD), obsessivamente ocupado no exercício de baixa política.

Os comentadores comentam. O comentário político é feito a quente e destina-se a ser esquecido no minuto seguinte. Há uma constante necessidade de inventar assunto e apostar; sendo que os comentadores profissionais apenas apostam nas suas próprias previsões, são poupadinhos. Então, no rescaldo das eleições autárquicas, vários começaram a apostar em Cristas. Raios, a mulher até tinha eclipsado Portas num escrutínio idêntico, não estaríamos em vias de assistir à primeira revolução partidária na direita portuguesa? Ora, a presidente do CDS tem qualidades, mérito e potencial genéricos, como se reconhece desde que se filiou no CDS em 2007. Mas basta recordar como entrou na campanha eleitoral autárquica a prometer 20 novas estações de Metro – algo que, se tivesse aparecido antes na boca de algum socialista, a teria levado imediatamente a disparar os canhões contra alvo tão fácil de atingir – para darmos de caras com uma sua crucial fraqueza: quer imitar os rapazes, e, para piorar, está a tentar imitar os rapazes maus.

Os rapazes maus são aqueles que apenas querem o poder pelo poder. Têm um discurso para cada ocasião, sendo no fundo o mesmo: os outros não prestam. Apostam no esquecimento, na voragem mediática e nas paixões políticas para se protegerem de serem apanhados como os inveterados medíocres e hipócritas que são. Não será um mercado nadinha de nada fácil para Assunção Cristas, como o próximo líder do PSD lhe irá mostrar nas primeiras 24 horas da sua presidência.

Receita eficaz

 

Há 28 anos, uma aldeia transmontana, Veiga do Lila, resistiu heroicamente à tentativa da Soporcel de substituir 200 hectares de olival por eucaliptos. Não queriam lá essa árvore que lhes sugava a água e trazia incêndios. A empresa de celulose, que utilizava fundos europeus, era apoiada pelo governo de Cavaco e pelo ministro da Agricultura, Álvaro Barreto, que antes e depois foi presidente da Soporcel. O governo enviou para o local soldados armados da GNR, que carregaram sobre a população e efectuaram prisões. Em vão: a população arrancou 180 hectares de eucaliptos já plantados e a Soporcel acabou por desistir.

Hoje aquela zona é terra de nogueiras, amendoeiras e oliveiras. E em 28 anos nem um incêndio houve.

Uma história exemplar, bem contada e bem ilustrada aqui.