Retardantes

De modo que resolveram organizar um simpósio. Não digo internacional, seria exagerado. Uma coisa assim transfronteiriça, para ser mais rigoroso. Custeada a fundos de coesão.
Vieram alcaldes espanhóis, bombeiros dum lado e doutro, delegados da protecção civil, e autarcas raianos ou nem tanto. Estava um representante do centro distrital de operações de socorro e alguns futricas avulsos. A mim, por lhes constar que entendo de palavras, que é uma coisa que não vem nos catálogos, encarregaram-me de resumir as actas.
Alugaram a sala de conferências do hotel Continental, e iniciaram a sessão com um atraso maçador.

– Frequência e dimensão dos fogos florestais na paisagem moderna
– Causas e consequências
– Papel fundamental dos retardadores de fogo no combate à catástrofe

Antes da ordem do dia, o moderador introduz um ponto prévio. Quer saber dos ilustres presentes quem não é membro do corpo social de entidade devotada ao mercado de retardantes do fogo. E fosse ele o imprevisto da pergunta, o intrincado da formulação, ou distração momentânea, o caso é que ninguém se pronunciou. E entrou-se finalmente na agenda dos trabalhos.
Durante o dia inteiro discutiram argumentos, cruzaram fórmulas químicas, compararam resultados. E lamentaram todos não poder fazer milagres.
Eu deixei-os falar e fui tirando notas. E antes de encerrarem os trabalhos já tinha pronta a acta. Eram todos, menos um, industriais do ramo.
Foi ali um pandemónio. Porque afinal eu não passo de iletrado.

Jorge Carvalheira

One thought on “Retardantes”

  1. Este “seu” simpósium quase me faz lembrar as “reuniões em família” (corrijam-me se não se chamavam assim, já lá vão tantos anos) promovidas pelo Marcelo Caetano.
    Com ordem de trabalhos e tudo.
    Notas e promessas, muitas. Resultados nenhuns.
    É lamentável, Carvalheira, mas é verdadeiro o caos em que se tornou a tentativa de resolução de qualquer problema que possa envolver vários ministérios. O mais insólito é que até se consegue realizar actas, respectivas assinaturas, das presenças que foram mais que muitas, mas tudo isso seguido de jantar e copos, finalizando com palmadinhas nas costas e a consciência do dever cumprido. Brr..
    Entendo o seu esforço, principalmente o literário, a dar brilho onde ele já não pode existir por força das circunstâncias.

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