Hakepfff

Tudo começou na 3.ª-feira. Estava muito sossegado no meu quarto, quando oiço

– Hakepfff.

e pensei logo: caneco, minha mãe de férias, e eu aqui sozinho com o raio da gata constipada. Tentei ignorar a ocorrência e voltar à leitura do n.º de Dezembro da UNCUT quando, meia-hora depois, ouço mais um

– Hakepfff.

Levantei-me da cama e dirigi-me à sala onde encontrei a Ziggy a olhar para mim com um ar entre o perplexo e o assustado. Estabeleci de imediato um daqueles diálogos muito parvos que todos os donos de gatos têm com os seus bichanos:

– Então minha linda, tás constipada, é?
– (silêncio)
– Pois é, andas ao frio e agora tás doentinha, não é?
– (silêncio)
– Anda aqui a mim, tadinha da bichinha que anda praí a espirrar e tá cheio de medo…
– (silêncio)
– Bichinha linda blá blá blá…
– (silêncio)


Durante a noite, ouvi várias vezes

– Hakepfff.

e, no outro dia de manhã, ao lavar os dentes, bastou-me ouvir mais um

– Hakepfff.

para decidir ir com ela ao veterinário. O senhor lá auscultou a gata e detectou uns ruídos nos pulmões, enfim, coisa pouca, mas o suficiente para eu gastar 30 EUROS na consulta e mais uns 10 com os medicamentos. Os dias foram passando e à noite, que é quando estou mais em casa, lá ouvia mais um irritante

– Hakepfff.

quase sempre seguido pela correria desenfreada da gata, assustada com os seus próprios espirros. Ontem, ao sentir que estava no limiar de um ataque de nervos, resolvi ir novamente com a gata à clínica e disse ao veterinário que não podia ser, que o raio da gata continuava a espirrar que nem uma desalmada. O chulo mudou os medicamentos, mas manteve o tombo (30 + 10) e lá vim eu embora, não sem antes passar pelo supermercado para comprar mais umas latinhas de Sheeba, a ambrósia dos felinos, cujo cheiro apenas chega às sensíveis narinas da minha gata em ocasiões muito, mas muito, especias (mais 5 EUROS).

Nesta história toda, o que me intrigava mais era o facto da gata não me parecer doente. Ela tinha um ar perfeitamente saudável, continuava a atingir nirvanas junto do aquecedor e o seu apetite dava para despachar, na boa, duas latinhas de Sheeba por dia. Apenas havia a chatice dos insuportáveis

– Hakepfff.

que me apanhavam sempre desprevenidos e me perturbavam o sono. Há cerca de duas horas, e após mais um irritante

– Hakepfff.

levantei-me em desespero da minha secretária e fui para a sala em busca da gata. Demorei uns bons vinte minutos para encontrá-la cheia de medo atrás do frigorífico e uns outros cinco para pegar nela ao colo em segurança. Sentei-me no sofá e comecei a olhar para ela em busca de um qualquer sintoma para além de um espirro, quando

– Hakepfff.

e, acto contínuo, a gata salta em terror e foge novamente para a cozinha. Foi só então que reparei que nunca a tinha visto espirrar e que, mais grave ainda, não tinha sido ela a responsável por aquela última onomotopeia. Olhei então para o lado, de onde me parecia ter surgido o ruído, e vi, no cimo do armário, um objecto estranho que (acabo de sabê-lo há alguns minutos ao telefone) a minha mãe tinha comprado na véspera de ter rumado para terras de França.

Moral da história: se forem donos de gatos, decorem este nome: Air Wick Freshmatic Automatic Spray. Vão por mim: se não o fizerem, a brincadeira pode vos sair bem cara.

airwickgato.jpg

30 comentários a “Hakepfff”

  1. João Pedro Costa,

    Imagina tu que alguns rapazes politicamente escorreitos ainda se admiram da dificuldade que as pessoas têm em saber a que bichanos e outros animalejos pertencem as dezenas de sons onomatopaicos (causados por tosses, espirros, dentadas politicas e engolidelas em seco, etc.) que saiem diariamente e com força de rabanadas anémicas pelas janelas da Assembleia da República. Já me têm dito que fora do edifício, enquanto se comem umas castanhitas assadas a uma distância de 50 metros enqunato se pensa no futuro de Portugal, os sons mais fáceis de identificar com precisão são os do bocejo do perú e do arroto da víbora, se não houver interferências. As ondas provenientes do bater de tenazes dum protesto ou discurso de lacrau, essas então são mesmo muito difícies de detectar. Só com equipamento especial.
    Mas, sendo como relatas, não vou dar a ninguem o teu número de telefone para ajudares, dado o fracasso da tua experiência com o Air Wick eliminador automático dos odores de pargo mulato assado. Aqui entre nós, esta “aspirinazita” B não foi mesmo nada inflamatória, tens de concordar, apesar do inegável talento que demonstras para nos divertir com “faits divers” extremamente domésticos. Contudo não esmoreço e fico à espera das tuas palavras piréticas, como prometido aí no cabeçalho, para ver se me esqueço depressa do grande desgosto com a passagem do BdE à História e à espera também que o Luís e o Valupi me mantenham sempre informado do estado de saude dos seus “pets” . Não digo nada do ZM. Deve estar todo partido, coitado. Olha para os postos dele, só a marcar presença.
    E desculpa-me esta de te tratar por tu. Coisas de comunismo abusador. Nunca mais perco o hábito.

  2. JPC,
    Sheeba? Já reparaste que aquilo custa mais, ao quilo, que o nosso filet mignon? Safa! Pensava que só as velhinhas em solidão terminal é que compravam aquilo!
    :-)

    Bomba,
    Que sejas bem-vindo! E comça a aquecer o teclado para contribuires para a disseminação das inflamações!

  3. Lol, Rogério, ele é assim repetitivo, é?
    A Mi tem razão: Hakepfff, que parece o nome de um doce alemão (pra mim, claro, que não pesco nada da língua), mas é uma onomatopeia muito mais perfeita do que o atchim – para os espirros de gato, pelo menos.

  4. Rogério… olha que não é piada nenhuma saber que andam por aí muitas pessoas tão sós e tão dependentes dos bichanos que gastam com eles o que não podem gastar consigo. Comida de gato a mais de 12 euros o quilo (o caso das latas pequenas de Sheeba no Continente)? Obsceno.

  5. Santinho!!!
    Mas antes assim. Só gostei foi do veterinário a tentar descobrir o que é que o bicho tinha. :)))
    O que ele se deve ter esforçado. Acho que levou pouco para o esforço que teve. Pobre do dr. veterinário…
    Pelo que me dizem há latinhas de várias qualidades umas mais nobres do que outras. A Isabel que herdou um gatinho de uma “tia da linha” pensou que o bicho vinha mal habituado por vir dessas áreas, mas afinal está disseminado por Portugal inteiro. Vá lá, uma vez para comemorar o fim dos espirros, ainda vái. Temos de ter tolerência, Luís. Não é todos os dias que o nosso gato espirra.

  6. Obsceno é tu não aparares a barba. Isso é que é obsceno.

    “olha que não é piada nenhuma saber que andam por aí muitas pessoas tão sós e tão dependentes dos bichanos que gastam com eles o que não podem gastar consigo.”

    Pois fica sabendo que isso é falso. Eu e a Mia comemos da mesma latinha.

    Vai-te catar, velho. ’tás cada vez mais rezingão, porra! Eu bem digo que este blogue é armado ao pingarelho. Mas não é pelos outros, é mesmo por ti. Cromo acintoso!

    http://afixe.weblog.com.pt/arquivo/2005/11/dos_amigos_e_in

    (nem os trackbacks sabes activar)

  7. Tudo isto é muito lindo e coisa e tal, mas a verdade é que à custa dos

    – Hakepfff

    fiquei sem uma centena de EUROS.

    O Sheeba tem um preço absolutamente proibitivo, Luís, tens toda a razão. É preciso mesmo ser maluco para comprar uma cena daquelas.

    (Um abraço morno ao Rogério.)

  8. Bomba: quanta honra ter-te aqui e, para mais, a tratar-me por tu. Só um problema – não sei o que quer dizer pirético, daí não ser muito provável veres por aí palavras minhas a fazerem jus a tamanho epíteto (também não sei o que quer dizer epíteto, mas uso na boa).

  9. Ali o bomba tem alguma coisa a ver com a bomba inteligente do JG? Estilos parecidos.

    E escreve sem parágrafos, o fulano. E, se não me engano, a meio, o gajo achou piada ao que estava a dizer. Não sei como acabou porque desisti.

  10. É verdade, meu bom Luis, desde que passei uma semana de férias na tua proximidade, a dormir no quarto ao lado do teu, a banhar-me no mesmo oceano que tu, sabe-se lá o que posso ter apanhado. E a Mia, claro, não tem culpa das companhias que escolho.

  11. Olha que os meus micróbios são selectivos: em gajo com menos de 6 apelidos, não põem o pseudópode…
    O mais que te arriscavas a apanhar por estar perto de mim era um pouco de maneiras.

    :-)

  12. Ó Rogério,

    Não venhas práqui contar as moedas só porque tens um tio que é contínuo dum banco. Este “Bomba” não tem nada ver com os outros bombas que conheces, a menos que haja tartufice envolvida. Portanto não canses os neurónios e continua com essa escritinha de borboleta enamorada que já contribuiu com um quarto das reacções que não disseram absolutamente nada a este post do João.
    Quanto aos parágrafos, acostuma-te, meu anjo, porque em mim irás, se persistires no vir beber água a esta fonte, ver defeitos ainda maiores em matéria de estilos que tanto parecem incomodar-te. Queres um conselho? Concentra-te no ataque a ideias, chama nomes, denuncia como má ou justifica como inevitável e desejável a fascização da democracia, ou interroga-te sobre o teu papel irrisório neste mundo cheio de ludovinas contentes. Se o fizeres, terás em mim um interlocutor que poderá dar-te uma mão amiga ou um pontapé no rabiosque, dependendo do estado da ciática e da atitude que tomares. Mas nada disto eliminará a nossa inalienável condição de seres humanos com tendência para mostrarem os dentes. O Ludos, como diz o Valupi.
    E este parágrafo é só para te dizer que não me incomoda absolutamente nada que continues com as banalidades do costume. Normalmente não ligo a essas coisas, porque prefiro viajar de autocarro. Mas, por favor, não uses o meu nome para enfeitar o ramalhete se não tiveres uma boa razão para isso. Eu aprendi isso no BdE, quando um dia perguntei ao ZM se as meninas já tinham acabado de coçar os grelos. Levei logo um raspanete e serviu-me de emenda.

  13. Alguém diga a este Bomba armado aos cágados, de verbo feio e inchado, com uma verborreia de tripa solta, pai do céu dos RIAPA, que “meu anjo” é a puta que o pariu!

    E que até a galinha da minha vizinha com as patas sujas de tinta é capaz de garatujar melhor que ele.

  14. Peidinho de carnaval, tivesses tu rastilho de gente e acendia-to. Como não tens, já que presumo que Bomba não seja mais que a alcunha que os teus camaradas fuzileiros te deram por causa dos teus problemas intestinais, dou a conversa por terminada. Ficas, portanto, a ganir sozinho.

  15. JP,
    não te espantes com a sequência de comentários meus no mesmo dia, mas só hoje é que deu para passar por aqui e ler os teus posts.
    E foi bom passar por aqui, dado que descobri que tu (nos posts) e o Rogério (nos comentários) continuam em forma… ;-)

  16. Bendito Alentejo!

    Também eu fui à vterinária, para a minha gata saber se estava tudo bem comigo. A grande diferença é que nesta bendita terra, além de não me cobrarem ainda me informaram que estava a gastar demasiado em comida, tendo em conta o peso da bichana.
    No próximo Hakepfff aconselho-te a vir passar uns dias aqui, tens ar puro e vet mais barato.

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