Famas largas

Depois disso o viajante recolheu à pousada e foi ler os seus roteiros. Logo soube estar em terra de famas muito largas, nem todas neutras, como esta do padre Costa. Parece hoje uma lenda de almanaque, e está na torre do tombo. Mas as terras antigas são assim, guardam histórias que nos não cabem na cabeça.
O padre Costa tinha sessenta e dois anos e era prior desta terra em 1487, quando se viu degredado das ordens sacramentais. E em vistas de ser arrastado nos rabos dos cavalos, esquartejado o corpo e postos os seus quartos em diferentes distritos, cumprindo-se a sentença que da pena do juiz lhe veio cair em cima. Dando hoje de barato a barbárie dos tempos, tão diversa da brandura com que se vêem tratados diferentes malfeitores, é de crer que houvesse no caso maroscas de relevo. Fiquemo-nos nós pelos quesitos provados, que o caso espanta, se não arrepiar.
O padre Costa dormiu com vinte e nove afilhadas, e fez nelas noventa e sete fêmeas e trinta e sete varões. Em cinco irmãs engendrou dezoito meninas. De nove comadres teve dezoito raparigas e trinta e oito rapazes. Sete amas conceberam dele, e deram-lhe cinco filhas e vinte e nove filhos. Duas escravas, que também alcançaram, pariram sete fêmeas e machos vinte e um. Falando biblicamente conheceu Ana da Cunha, uma tia de quem teve três meninas. E nem a própria mãe se viu desobrigada, que dele acabou a conceber dois varões.
Ser pai dos próprios irmãos era exagero que nenhum cânone tornava obrigatório. Do virtuoso preceito constava apenas ser pai na generosidade, e irmão no sofrimento. Porém em separado. Mas o padre Costa não entendia assim. E o viajante, metendo o nariz onde não é chamado, acha cruenta a sentença mas acaba a concordar com o tribunal. Muito melhor decidiu el-rei João II, que tinha um reino inteiro a governar e poder para o fazer. Perdoou a morte ao padre Costa e mandou-o libertar, por tanto se esforçar a povoar a região das altas beiras, tão ermadas ao tempo como agora voltam a estar.
É caso para dizer que um forte rei fortalece a fraca gente. E não faltarão cobiças por aí, de tais cometimentos. Não é o caso deste viajante, que finalmente adormeceu tranquilo.

Jorge Carvalheira

3 comentários a “Famas largas”

  1. Será, caro Jorge Carvalheira, que nos tempos d’hoje se não consegue um novo padre Costa, custeando o Governo a distribuição do seu sémen por terras do Alentejo, Beiras e Trás-os-Montes?
    Tudo isto, claro, com a benção da Santa Madre Igreja!
    Ajudados os rebentos com o abono de família e alguns dinheiritos das paróquias, quem sabe poderíamos voltar a ver um Portugal replantado!

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