A ilusão literária

A obra do poeta José do Carmo Francisco (também jornalista, com actividade cívica no centro de Lisboa) foi estudada pelo crítico Ruy Ventura em «José do Carmo Francisco – uma aproximação», com a chancela da Mastigadores do Mundo. O próprio estudado mantém na «Gazeta das Caldas» uma crónica quinzenal. Duma delas extrai-se o que aqui segue.

Tudo começou com as histórias do meu avô em Santa Catarina ao lume nas noites frias de Inverno. O meu fascínio pela literatura começou, assim, pela literatura oral. O meu avô punha um púcaro com vinho ao lado do borralho e, com vinho quente e açúcar, não há frio que resista. Só comecei a interessar-me pela literatura enquanto tal no chamado Ciclo Preparatório com o livro de leituras «Mar Alto». Foi aí que descobri a poesia de Cesário Verde e os contos de José Loureiro Botas. Dito de outra maneira: os calceteiros lisboetas de Cesário e os pescadores vieirenses de José Loureiro Botas.

Ora acontece que, por mero acaso, descobri num livro de Vitorino Nemésio («Jornal do Observador») uma frase muito certeira que vem mesmo a calhar para esta ocasião. Repare-se na exactidão e na profundidade do juízo crítico: «A glória literária é uma ilusão. Pensar que se dura mais do que o comum dos mortais, só porque se deixou palmo e meio de livros da própria lavra na estante, é uma puerilidade, senão uma presunção! Enquanto durar a nossa língua! Pois sim…» Mais à frente e reflectindo já mais em concreto sobre a obra poética, Vitorino Nemésio adverte: «A mensagem poética é como a carta de prego levada pelo navio de que, logo à saída do porto, tivesse morrido o capitão. Meia hora depois morria o imediato… Poesia, de certo grau ou nível semiótico para cima, é comunicação estanque, código para meia dúzia de decifradores generosos».

Este texto de Vitorino Nemésio não o leio como um murro no estômago, mas como um alerta de quem já viveu muito tempo e já mastigou muito mundo. Aqui há tempos publiquei uma crónica com o título de ‘Eu comovido a Oeste’ na qual reflectia com alguma tristeza nostálgica e com alguma ironia à mistura, o facto de em tempos terem dito que eu não tinha nome para escritor, tal como já o tinham feito antes com o José Loureiro Botas e com o Tomás Ribeiro Colaço. Colocado num «blog», o texto da minha crónica mereceu um «post» de Nicolau Saião nestes termos: «Para me congratular e irmanar com JCF felicitando-o por este texto, abandono por um minuto o meu exílio voluntário e deixo aqui este apontamento referente a gentes que não querem que ele tenha nome de escritor (estatura tem-na ele e grande): considerável tempo atrás houve um fulano escrevedor que, posto perante a minha alta estima por ele, me disse esta coisa nefanda: ‘Não ponha esse indivíduo tão alto… ele nem é licenciado!’ O nome não o deixo agora por uma questão de piedade. A JCF e Ruy Ventura a estima e o apreço sempre renovados por parte de alguém que também não tem nome de escritor e mesmo assim anda contente na existência!».

Já agora, para quem tiver curiosidade em ler mais em pormenor, o nome do «blog» é Alicerces1. Vitorino Nemésio diz que a glória literária é uma ilusão. Eu ao menos, e pelo menos, tenho uma vantagem: nunca tive ilusões…

José do Carmo Francisco

6 comentários a “A ilusão literária”

  1. O post coloca problemas ingentes, que pedem tempo e agitam os neurónios. E ainda por cima abre a porta aos Júlios deste mundo, que não aprenderam a gramática mas são especialistas em literatura.

  2. TV britânica transmite maratona de masturbação colectiva

    O Centro para o Sexo e Cultura do Reino Unido organizou o primeiro concurso de masturbação colectiva, destinada a angariar fundos para organizações dedicadas à educação sexual, segundo confirmaram os seus organizadores.
    O evento será transmitido pela cadeia de televisão britânica Channel 4 a partir das 23:00 horas e é inspirado numa competição semelhante que se realiza de cinco em cinco anos na cidade norte-americana de São Francisco.
    «A cada cinco anos centenas de pessoas reúnem-se no mesmo local para se masturbarem» e angariar donativos, explicou a produtora do programa, Zig Zag.
    Os participantes serão apadrinhados por familiares, amigos, vizinhos ou colegas de trabalho que se comprometem a doar dinheiro para fins de caridade se os concorrentes alcançarem os objectivos.
    «É um acontecimento que permite recolher milhões de dólares a favor de grupos de educação sexual», afirmou a produtora.
    O concurso consistirá em bater o recorde mundial registado nos EUA de oito horas e 30 minutos de onanismo. Ou seja, conseguir o recorde britânico, explicou o Centro para o Sexo e Cultura do Reino Unido.
    Todavia, está ainda por definir como é que se ganha o concurso e se está aberto a homens e mulheres indistintamente.

  3. Não sei o que “o julio” que deixa comentário em cima considera “escritor piroso” Quanto ao J. F. do Carmo tem muito valor e é tudo menos piroso. Gostava de ter o contacto dele, se alguem o tiver e mo deixar agradeço.

  4. Considerar Cesário Verde e José Loureiro Botas ou Vitorino Nemésio como «pirosos» só mesmo de um «júlio». No meu tempo de miúdo era sinónimo de «chulo» e usava-se como forma de algumm pudor. E se fosse lamber sabão não era melhor?

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