A conspiração da pedra

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Fosse eu apaniguado de teorias da conspiração, ia jurar que os arquitectos andam feitos com a indústria da pedra. A pedra tem nobreza, quem o nega, mas nisto de brasões é como em tudo. Quando é demais, engrossa a linfa nas veias.
Passe um homem pela Guarda, é um supor, vai-se a ver o D. Sancho, a ver a sé. E se tiver caído geada de manhã, o que é comum em tempo, por força acaba a patinar, até à sacristia em S. Vicente.
Ache-se alguém em Trancoso, vai ver as Portas de El-Rei. Se se esqueceu do andarilho em casa, pode contar com um tornozelo estorcegado, com uma bacia partida. Nem a Dona Isabel vinha lá de Aragão para se casar ali, estou eu em crer.
– Isso é lá nos cus de Judas, onde nem Cristo andou!
Pois vão ali à Praça dos Cavalinhos, no coração do Porto. Já verão o que é uma eira de secar milho, sem o idílio campestre das irmãs mais antigas. Ou cheguem aos Aliados, que os arquitectos mexeram ultimamente. Deixaram lá um descampado pífio, deslavado, para não dizer deprimente. Há-de ser um bom lugar para grevistas da fome. Senta-se um homem naquelas cadeiras roubadas do campismo, e acaba a morrer de inanição. Os pombos, à cautela, desertaram.
Eu vou-me ali às Caldas de Vidago, antes que seja tarde. Ouvi dizer que já rondam paisagistas. Lá se vai o último romântico, o último salgueiro. Logo ali, onde um rei se ressarcia da piolheira corrente.

Jorge Carvalheira

Foto, Avenida dos Aliados, Porto
fonte A Cidade Surpreendente
Observe-se a situação «antes» e «depois»
fv

9 comentários a “A conspiração da pedra”

  1. isto já foi visto e revisto num blogue do Porto.
    óh Jorge Carvalheira, vc com o talento que tem para escrever, se porventura abandonasse os lugares comuns, não acha que poderia ir mais longe?

  2. Os dois comentários anteriores foram – por razões técnicas, aleatórias no atinente aos comentadores – retidos pelo sistema. Devem ser entendidos separadamente.

  3. em todo o lado onde os arquitectos puseram as patas temos a mesma situação!
    não há pavimento ou fachada que não leve calhau…que por acaso, e por estranho que pareça, é importado…
    os senhores arquitectos não são importadores…tem testas de ferro…
    os senhores arquitectos que plantam bosta rochosa pelo rectângulo são, coincidência, sempre as vacas sagradas da arquitectura!

  4. xatoo, vamos por partes:
    Admito que o talento de que fala não seja apenas uma sua invenção generosa. E agradeço a nota.
    De que eu possa ir mais longe não estou assim tão certo. A inflação costuma ir-me ao bolso, mas ainda me não chegou ao ego. E o mundo já anda aí cheio de lixo.
    Quando todos aceitarmos que uma calamidade é já lugar comum, é sinal de que abatemos a bandeira e arrumámos as botas.
    E se o assunto já foi visto e revisto, tê-lo-á sido por si, que é certamente um bom navegador. Eu, nas tripas do Google, não passo dum marinheiro de água doce.
    Mas não deixarei o comentário cair em saco roto.

  5. A “Praça dos Cavalinhos”?!…

    Muito pouca gente chamará “Praça dos Cavalinhos” à “Praça de D. João I”… Dos cavalinhos???

  6. Eu gosto mais destes novos Aliados, sem aqueles jardins pirosos e pequenitos, sem estilo nenhum. Os Aliados alargaram-se e estão mais urbanos. Nos bancos é que me parece que não foram muito felizes.

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