Uns tiram, outros põem

Em 2015, a universidade jesuíta americana de Saint Louis retirou uma estátua que tinha no seu exterior, representando o grande jesuíta Pierre-Jean De Smet empunhando uma cruz junto a dois índios, e colocou-a no interior do seu museu. De Smet foi um amigo dos índios americanos, como se sabe. A estátua tinha sido considerada por várias entidades e pelos alunos da universidade, que são de todos os credos e não apenas católicos, como um alegado símbolo colonialista e supremacista branco. Os jesuítas cederam e tiraram-na da vista pública, apesar dos remoques de gente conservadora.

Em Julho de 2017, em Lisboa, o provedor da Santa Casa, Santana Lopes, com o apoio do presidente socialista da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, colocou no Largo Trindade Coelho uma estátua de outro grande jesuíta, António Vieira, empunhando uma cruz junto a três crianças índias. Vieira foi um amigo dos índios, como se sabe. Houve recentemente uma manifestação contra a estátua, por alegadamente glorificar o colonialismo e o “escravagismo selectivo”, e logo uma contramanifestação de nacionalistas de extrema-direita. Não houve porrada, mas podia ter havido.

A estátua da Universidade de Saint Louis antes de ser retirada.

 

Medina na inauguração da estátua de Vieira em Lisboa

 

Não gosto da estátua de Vieira, completamente ultrapassada esteticamente e espiritualmente, mas nunca me passaria pela cabeça que ela glorifique o racismo, o colonialismo ou o escravagismo. Menos gosto de quem teve a ideia de a lá colocar, Santana Lopes, nem do motivo por que o fez – autopromoção em vésperas de regresso à política. Menos ainda de quem foi lá fazer a tal contramanifestação. Em suma, não há nada nesta história nem neste monumento que me agrade, excepto que posso concordar teoricamente com uma homenagem da cidade de Lisboa a António Vieira, que foi um grande lisboeta, um grande português e um grande cidadão do mundo, também perseguido pela Inquisição e grande mestre da nossa língua. Quero pensar que foi esse o motivo do apoio de Medina, e não o pensamento nas eleições autárquicas de Outubro, mas muito provavelmente estou a ser ingénuo.

Culturalmente, Lisboa está, de facto, a anos-luz da América (apesar do Trump) e de Nova Iorque, onde em 2017 se inaugurou uma fantástica estátua no coração de Manhattan, a Rapariga sem Medo, desafiante do popular Touro Enraivecido que já lá estava. É uma moderna, inteligente e bonita homenagem à mulher americana. Aqui fica, como contraponto.

12 comentários a “Uns tiram, outros põem”

  1. Ó inteligente e lúcido senhor Júlio, interprete-me por favor, a mulher americana enfrentando o touro, não podia ter o cabelo encarapinhado?
    Ou ela foi na véspera ao cabeleireiro?
    São complexos meus, sabe?
    É que as pessoas estão um tanto ou quanto loucas

  2. É muito triste, do ponto de vista cultural, que aqueles homens que, sim numa época colonial, tenham defendido e intervindo na defesa dos povos autóctones, contrariado o pensamento dominante à época de que eram atrasados e incapazes servindo apenas como bestas de carga, sejam hoje achincalhados e considerados símbolos do colonialismo. Chegámos mesmo ao ponto de chamar conservadoras as mentes que não aderem a esta nova moda. Em lugar disso, verdadeiros símbolos da opressão dos povos, permanecem altaneiros por ruas e praças, com os seus nomes recordados e celebrados por nobres façanhas.
    Quem assim fala, não leu as obras de Vieira, não leu as suas prédicas, nem as suas missivas. Limita-se a meros julgamentos superficiais e carentes de profundidade analítica.
    Pobres daqueles padres negros de azeviche, cujo douto conhecimento foi dito por Vieira serem de fazer vergonha a muitos seminários da Europa. Pobres daqueles índios que Vieira tanto clamou pela sua liberdade.
    Àqueles a quem a mão nos foi estendida reservamos apenas desconsideração e desprezo, louvando e glorificando todos quantos pelas suas obras nos foram apoucando e desmerecendo.

  3. Ola,

    Eu li (e traduzi alguns) os textos do Pe Antonio Vieira sobre os Indios e também dediquei algum tempo ao estudo da questão. E’ insofismavel que a ideia do Padre “amigo dos Indios” é uma imagem poética que não tem plena correspondência com a realidade (tratava-se mais de converter do que de outra coisa e os Indios eram considerados por ele como menores incapazes, crianças que deviam ser doutrinadas e ensinadas para o seu bem, ou seja sobretudo para a sua salvação). A posição de Vieira não pode portanto ser apresentada como “anti-escravagista” no sentido que hoje damos à expressão e eu percebo que seja associada a uma forma de paternalismo/colonialismo. Esta associação é legitima. Para além disso, na altura, mesmo dentro das ordens, posições claramente mais “corajosas” e proximas da nossa maneira de ver as coisas hoje em dia. Sejamos claros, a Igreja não fez nada de significativo contra a escravatura, que so desapareceu quando as potências industriais e comerciais do século XIX consideraram que era contra-producente. Houve vozes isoladas e corajosas (à luz da nossa maneira de ver as coisas de hoje), mais nada. E é bastante discutivel que Vieira tenha sido uma delas.

    Agora é obvio que isto não deve servir de pretexto para polémicas de meia tigela, puro mimetismo em relação ao que vemos nos EUA, nem levar a menosprezar a figura de Vieira ou a sua obra. Portanto leiam-no, quanto mais não seja para o criticar (ja agora, também é discutivel que dom Sebastão volte no ano de 1666…). E se quiserem, leiam também a infinita literatura sobre a questão dos Indios da América e da escravatura. So vos pode fazer bem.

    Quanto ao resto, apaguem a televisão e se estiverem mesmo preocupados com o racismo em Portugal, como também estou, considerem que ha mais coisas a fazer, mesmo simbolicamente, do que esse tipo de palhaçada.

    Boas

    Apaguem a televisão e leiam Vieira. E se quiserem, leiam também os autores que, na altura

  4. O Padre António Vieira foi um português que mais que qualquer outro, trabalhou para não estarmos no estado dos catalães, e o brasil não fosse repartido por holandeses e outros.

    Isto foi mau? foi bom?

    Para os brasileiros talvez não tenha sido bom, porque lhe deixamos muitos indios, aqueles chatos, vivos e ainda não acabaram com todos.

    Falta pouco.

    Colonizamos…mas pouco!

  5. “Fearless Girl was commissioned by investment firm State Street Global Advisors (SSgA) to advertise for an index fund which comprises gender-diverse companies that have a higher percentage of women among their senior leadership. The plaque below the statue states, “Know the power of women in leadership. SHE makes a difference,” with “SHE” being both a descriptive pronoun and the fund’s NASDAQ ticker symbol.”

    e assim, pelo simbolismo, espero bem que no futuro próximo retirem essa estátua!

  6. Excelente post que ainda vi ontem, e ainda mais excelente é o assunto.

    Notas, várias. Em primeiro lugar li algures excertos do post do Mamadou Ba publicado no FB (?) sobre a “justiça” e a bondade da convocatória, e fiquei arrepiado; vi depois um tweet sobre a manif dos tipos que não se importam de exibir as bandeiras do PNR em público enquanto ocultam as tatuagens e as suásticas no seu corpo e confesso que, ainda hoje, não sei se algum porta-voz da hierarquia da Igreja católica portuguesa imediatamente se demarcou da tentativa de apropriação da figura do padre António Vieira por aquela pandilha de marginais; mas, mais importante e por fim, fiquei embasbacado sobre o teor do discurso de Fernando Medina aquando da inauguração do monumento (o qual terá sido fielmente reproduzido pelo Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra).

    Recapitulo, pois: fiquei arrepiado com o post dos Descolonizandos (é assim?), não sei se algum porta-voz do episcopado ou alguma das muitas cabeças brilhantes que pululam pela revista Brotéria (a dos jesuítas, se é necessário explicar para alguém) se demarcou da tentativa de apropriação simbólica feita pela guarda-pretoriana dos neo-nazis portugueses e, pior!, abominei o cheiro a ranço, a pobreza intelectual e a ausência de uma vírgula que fosse sobre a problematização do assunto por obra e graça do candidato a presidente da CML. Destaco este ponto, aliás: em cada palavra sua há uma insustentável leveza sobre o que é o espaço público e, exactamente à luz da História e dos dias de hoje, sobre o que dele deve ser mantido e retirado mesmo se devidamente contextualizado (e estes são alguns dos sinais de uma cidade vivida por todos os que sabem problematizar estas questões, cosmopolita e modernamente). Mais: que tendo sido retirado algo possa sê-lo, mais ou menos, respeitosamente e que as peças entrem num museu, ou nas reservas de um qualquer sótão de uma instituição pública (com os bronzes das figuras do Estado Novo assim aconteceu, e não por acaso porque se corria o risco de se transformarem num altar). Mais, e ainda: que sejam asseguradas pelas instituições democráticas o acesso dos interessados a todas elas, mas que seja contextualizada a sua produção. Fazer isto é o mínimo, acho.

    Agora uma coisa diferente é a CM de Lisboa passar a exibir uns pastihes foleiros, umas “ronaldices” ou umas coisas anacrónicas (se gostos não se discutem, a recente iniciativa merecerá pois ser confrontada!), e fazê-lo descabeladamente à vista de todos. Ora, se calhar por isso, as citadas passagens do discurso do Fernando Medina são herdeiras da década de 1940, onde nem as sotainas faltaram.

    […]

    A Câmara Municipal de Lisboa assume desta forma “a sua obrigação com a História”, sublinha o edil, que faz questão em afirmar que um Estado laico não deve desvalorizar ou separar a religião “enquanto fenómeno colectivo”. É, diz, “aquele que a entende, incorpora, valoriza e apoia enquanto sinal da expressão colectiva, principalmente numa cidade.”

    O presidente da autarquia considera tratar-se de “uma obra particularmente bonita, que honra muito” o Largo Trindade Coelho e a memória do padre António Vieira. “Que seja o primeiro de vários seguimentos públicos de recuperação e elevação dessa extraordinária figura portuguesa”, sublinha.

    Aqui, a fonte: http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/article/estatua-padre-antonio-vieira-homenagem-merecida-a-um-grande-homem .

  7. eu quero uma estátua da mulher portuguesa, braços à cintura e avental com chumaços de lágrimas, picho e tez tão cansada como morena. :-)

  8. Ainda sobre o tema, isto chegou-me ontem ao mail (e concordo o bastante).

    _______

    ESCLARECIMENTO PÚBLICO

    1. No passado dia 5 de outubro, propusemo-nos depositar flores junto à estátua de Padre António Vieira (PAV), sita no Largo Trindade Coelho em Lisboa, e recitar excertos do Sermão XIV do Rosário, um de trinta sermões incluídos na série Maria Rosa Mística, que foi proferido pelo jesuíta português num engenho da Bahia em 1633. Apesar de termos autorização legal para tal, vimo-nos impedidos de o fazer por elementos de extrema-direita que decidiram concentrar-se ao redor da estátua. Desde então, não obstante as várias reações públicas, optámos por não nos pronunciar. Durante este período, lemos as opiniões e comentários produzidos e reflectimos. Este é o tempo da nossa resposta.

    2. Somos um grupo de cidadãos apartidário, constituído por vários investigadores, professores e artistas de diferentes nacionalidades. O que poderia ter acontecido no Largo Trindade Coelho foi pensado e organizado por este coletivo e não por outra associação. Como tal, assumimos as nossas responsabilidades enquanto Coletivo Descolonizando, entrando em diálogo com gestos que têm vindo a tomar forma globalmente (#decolonizethisplace). Nunca pretendemos que as nossas motivações fossem enquadradas numa agenda político-partidária. A nossa ação foi e é pautada pela defesa intransigente de valores que queremos ver defendidos e respeitados em Portugal. Naturalmente, não rejeitamos outras organizações e indivíduos que apoiem as nossas ações quando as linhas de pensamento convergem.

    3. Nunca pretendemos copiar ações que questionam a manutenção de outros monumentos, conforme veiculado pelos meios de comunicação social. Quando afirmamos que não queremos esta estátua, nunca esteve nos nossos horizontes destruí-la. A nossa ação enquadrava-se nos limites da lei. Para isso, seguimos todos os procedimentos legais que autorizaram a nossa manifestação. Levávamos flores, poesia e excertos de um Sermão de PAV. Deste modo, a necessidade de “proteger” a estátua surpreendeu-nos pelo seu despropósito.

    4. Não pretendemos manifestar-nos contra a figura de PAV. O que está em causa é a forma como Vieira é representado e discutido no espaço público. Este monumento é ética e esteticamente questionável, não fazendo justiça ao melhor do legado de PAV (aliás, uma homenagem a Vieira bem mais interessante, conciliadora e verdadeiramente universalista já existe desde 2008 na Calçada do Correio Velho, em Lisboa). E porque a forma é o conteúdo e o conteúdo forma, esta estátua emerge como uma fantasmagoria colonial no espaço público, correspondendo a uma visão lusotropicalista da história que, por sua vez, apresenta o colonialismo português como um projeto benevolente. Tal visão obscurece a complexidade da figura histórica de PAV, que defendeu a escravatura sistemática de africanos e a conversão forçada de indígenas sul-americanos. Neste sentido, esta representação idealizada também contribui para obliterar do espaço público os legados da escravatura e do colonialismo na sociedade contemporânea.

    5. Defendemos, por isso, uma iniciativa pública que promova a leitura crítica da obra de PAV nos vários graus de ensino. Uma leitura que não se restrinja ao Sermão de Santo António aos Peixes, pregado no Maranhão a 13 de junho de 1654. Tendo em conta o simplismo da visão anti-esclavagista de Vieira que ainda hoje impera na esfera pública em Portugal, torna-se urgente expor os atuais e futuros cidadãos deste país à complexidade da escrita vieirina e confrontá-los com a apologia da escravização massiva de africanos que o pregador jesuíta propugnou como solução para o projeto colonial português no Brasil no período posterior à Restauração (a título de exemplo leia-se este excerto do Sermão XIV do Rosário: “Oh se a gente preta tirada das brenhas da sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus, e a Sua Santíssima Mãe por este que pode parecer desterro, cativeiro, e desgraça, e não é senão milagre, e grande milagre!”). E se é verdade que, no âmbito do projeto evangelizador que a sua ordem defendeu para as populações indígenas do Brasil, Vieira frequentemente tomou partido contra os colonos brasílicos que as submetiam à escravidão – o que é assinalável – em 2017 não nos podemos permitir a ingenuidade de considerar que as ações do jesuíta português foram empreendidas em prol dessas populações. Fazê-lo, seria negligente do ponto de vista histórico, historiográfico e analítico. E, porventura de forma mais assinalável, constituiria um terrível exercício de omissão ética, política e de justiça social. Tais ações de evangelização de populações indígenas resultaram na aculturação massiva e paternalista dessas populações, contribuindo para o extermínio cultural que se verifica ainda nos dias de hoje. Mesmo que aceitemos que opor-se aos interesses individuais de colonos no séc. XVII implicou coragem e até risco de vida, não deixa de ser profundamente anacrónico celebrar em 2017 uma visão teológica e eurocêntrica do mundo, a mesma que Vieira foi tão eloquente a difundir.

    6. Defendemos também o estudo e o questionamento do passado histórico português, assim como os seus protagonistas, sem o maniqueísmo redutor que tende a limitar personalidades como Vieira ao papel de meros heróis de uma suposta portugalidade. Inversamente, o nosso projeto pretende assentar no reconhecimento da complexidade humana, situacional e contextual da vida e obra de personalidades como PAV. Estas triangulações não são fáceis, mas têm de ser feitas. Urge também explicar nas escolas que o colonialismo português, nas suas múltiplas encarnações, se materializou no extermínio, no desenraizamento generalizado, e no genocídio cultural das populações colonizadas. Do mesmo modo, o colonialismo sujeitou os próprios portugueses a diversas formas de violência, nomeadamente as guerras coloniais do século XX. O conhecimento que temos da história obriga-nos a um exercício de racionalização que deve assistir à decisão de comemorar acontecimentos ou figuras da história à luz dos valores que defendemos no tempo em que nos permitimos recordar a história. Este exercício pretende tão-somente reconhecer que não só os acontecimentos históricos produziram consequências que se fazem sentir no presente – consequências que devemos desassombradamente reconhecer – mas também que a forma como as narrativas históricas são estruturadas, assim como os protagonistas que nelas incluímos, constituem opções feitas no presente acerca da história que queremos contar. Alargar o campo dos agentes históricos constitui, por isso, um imperativo ético, cívico e de justiça social. Por outro lado, é também necessário promover o estudo comparativo do colonialismo português, não para que, com isso, se encontrem evidências de impérios melhores ou piores, mas para que se alargue o nosso entendimento dos processos subjacentes ao domínio e exercício do poder colonial.

    7. Posto isto, esta estátua faz jus a Padre António Vieira enquanto figura ilustre da literatura portuguesa e brasileira? A resposta é não. Ao escolher representar o jesuíta rodeado de três crianças indígenas sem qualquer contextualização étnico-cultural, promove-se no espaço público uma narrativa mítica, que cristaliza a visão paternalista que o “Estado Novo” veiculou sobre Vieira, mas que não sobrevive a um escrutínio mais demorado dos seus textos, nem dos contextos em que foram produzidos. Trata-se de uma visão que celebra um suposto vanguardismo vieirino na luta pelo que viríamos a denominar direitos humanos, mas que convenientemente esquece o quanto a sua pregação contribuiu para racionalizar, pela teologia, a escravização e deportação massiva das populações do continente africano. Neste aspecto, curiosamente, não se denuncia o problema do anacronismo. Ou seja, parece passar ao lado que a ideia com que se atribui a Vieira um vanguardismo humanista, “à frente do seu tempo”, não padece, ela própria, do problema de celebrar ações e valores tidos no passado com a lupa de uma teleologia do presente. Valores, que convém lembrar, sempre foram mais reais do ponto de vista discursivo, do que de um ponto de vista efectivo e político.

    8. Entendemos que esta estátua de PAV é – ela sim – duplamente anacrónica: representa um entendimento da figura de Vieira presa a interpretações historiográficas antiquadas e, por outro lado, representa um conjunto de ideias desadequado aos valores defendidos na Constituição da República e pelas organizações internacionais de que Portugal faz parte. Assim, pese embora este monumento evocar o estado da arte que alguma historiografia nacional tem lutado por manter, o seu surgimento em 2017, situa-a para além do domínio da análise histórica. Ou seja, como objeto da nossa contemporaneidade, a estátua de PAV não se oferece ao trabalho de contextualização histórica aplicado a várias outras marcas do império espalhadas um pouco por todo o país. Antes, por ser nossa contemporânea (não o sendo), é uma oportunidade para encetar na sociedade civil portuguesa um debate amplo acerca dos legados do império e do colonialismo.

    9. Como qualquer outro povo, somos livres de celebrar a nossa história desde que ela funcione como manancial de aprendizagem, mas abusamos da nossa posição no tempo sempre que voluntariamente contribuímos para a reprodução cega dos seus erros no presente. Hoje esta estátua é inaceitável, tal como é inaceitável celebrar narrativas de um império que em nada foi brando e que em 1974 foram rejeitadas em bloco pelo povo português. É um imperativo democrático discutir estas narrativas, como é o de trabalhar para interromper a violência que elas e as suas sobrevivências propugnam.

    10. Face ao exposto, facilmente se poderá concluir que o nosso foco não se restringe à estátua de PAV – nem sequer a estátuas apenas! Seja como for, muito agradecemos a todos os que se nos opuseram até agora, inclusive aqueles que se mostraram menos preocupados com a usurpação ilegal do espaço público por neo-nazis (com a conivência das autoridades policiais) do que com o direito de manifestação dos que lá iam – legal e democraticamente – depositar flores e recitar poesia. Essa ocupação contribuiu para um incremento da visibilidade das nossas ações, mas também reforçou a necessidade de se descolonizar a história, a memória e a imaginação. E porque a descolonização é uma praxis (e não uma metáfora), prosseguimos!

  9. Obrigado Eric. Confesso que não li o pastel até ao fim. Julgo que posso compreender as razões aduzidas e concordo até com muito do que é dito.

    Mas o problema não esta ai. Tratou-se de uma manifestação publica, não da defesa de uma tese de doutoramento. O minimo que se exige – e que o proprio Vieira exiriria, ele que era precisamente um mestre do pulpito – é que a acção seja compreensivel, legivel.

    Ora, vão-me desculpar, mas fazer uma demonstração a proposito duma porcaria duma estatua que faz pouco mais do que reproduzir a iconografia tradicional acerca do PVA é mais ou menos tão “inteligente”, e mediaticamente eficaz, como fazer um protesto junto da estatua de Fernando Pessoa em nome das vitimas do tabagismo, ou uma manifestação à volta da estatua do Eça para alertar contra o assédio sexual.

    So isso…

    Boas

  10. … eu o disse que é o bastante para concordar, e aquele artigo (o “o”, portanto) deve ser bem entendido. Aquilo que para mim é substancial está aqui nos pontos 6, 7 e 8.

    […]

    6. Defendemos também o estudo e o questionamento do passado histórico português, assim como os seus protagonistas, sem o maniqueísmo redutor que tende a limitar personalidades como Vieira ao papel de meros heróis de uma suposta portugalidade. Inversamente, o nosso projeto pretende assentar no reconhecimento da complexidade humana, situacional e contextual da vida e obra de personalidades como PAV. Estas triangulações não são fáceis, mas têm de ser feitas. Urge também explicar nas escolas que o colonialismo português, nas suas múltiplas encarnações, se materializou no extermínio, no desenraizamento generalizado, e no genocídio cultural das populações colonizadas. Do mesmo modo, o colonialismo sujeitou os próprios portugueses a diversas formas de violência, nomeadamente as guerras coloniais do século XX. O conhecimento que temos da história obriga-nos a um exercício de racionalização que deve assistir à decisão de comemorar acontecimentos ou figuras da história à luz dos valores que defendemos no tempo em que nos permitimos recordar a história. Este exercício pretende tão-somente reconhecer que não só os acontecimentos históricos produziram consequências que se fazem sentir no presente – consequências que devemos desassombradamente reconhecer – mas também que a forma como as narrativas históricas são estruturadas, assim como os protagonistas que nelas incluímos, constituem opções feitas no presente acerca da história que queremos contar. Alargar o campo dos agentes históricos constitui, por isso, um imperativo ético, cívico e de justiça social. Por outro lado, é também necessário promover o estudo comparativo do colonialismo português, não para que, com isso, se encontrem evidências de impérios melhores ou piores, mas para que se alargue o nosso entendimento dos processos subjacentes ao domínio e exercício do poder colonial.

    7. Posto isto, esta estátua faz jus a Padre António Vieira enquanto figura ilustre da literatura portuguesa e brasileira? A resposta é não. Ao escolher representar o jesuíta rodeado de três crianças indígenas sem qualquer contextualização étnico-cultural, promove-se no espaço público uma narrativa mítica, que cristaliza a visão paternalista que o “Estado Novo” veiculou sobre Vieira, mas que não sobrevive a um escrutínio mais demorado dos seus textos, nem dos contextos em que foram produzidos. Trata-se de uma visão que celebra um suposto vanguardismo vieirino na luta pelo que viríamos a denominar direitos humanos, mas que convenientemente esquece o quanto a sua pregação contribuiu para racionalizar, pela teologia, a escravização e deportação massiva das populações do continente africano. Neste aspecto, curiosamente, não se denuncia o problema do anacronismo. Ou seja, parece passar ao lado que a ideia com que se atribui a Vieira um vanguardismo humanista, “à frente do seu tempo”, não padece, ela própria, do problema de celebrar ações e valores tidos no passado com a lupa de uma teleologia do presente. Valores, que convém lembrar, sempre foram mais reais do ponto de vista discursivo, do que de um ponto de vista efectivo e político.

    8. Entendemos que esta estátua de PAV é – ela sim – duplamente anacrónica: representa um entendimento da figura de Vieira presa a interpretações historiográficas antiquadas e, por outro lado, representa um conjunto de ideias desadequado aos valores defendidos na Constituição da República e pelas organizações internacionais de que Portugal faz parte. Assim, pese embora este monumento evocar o estado da arte que alguma historiografia nacional tem lutado por manter, o seu surgimento em 2017, situa-a para além do domínio da análise histórica. Ou seja, como objeto da nossa contemporaneidade, a estátua de PAV não se oferece ao trabalho de contextualização histórica aplicado a várias outras marcas do império espalhadas um pouco por todo o país. Antes, por ser nossa contemporânea (não o sendo), é uma oportunidade para encetar na sociedade civil portuguesa um debate amplo acerca dos legados do império e do colonialismo.

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    Como não tinha presente, a evocação azulejar de 2008 é esta:
    https://www.facebook.com/permalink.php?id=1603931023197025&story_fbid=1620874678169326

    E a Fernanda Câncio no DN de hoje escreve a propósito.
    Aqui: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/fernanda-cancio/interior/a-desonra-de-padre-antonio-vieira-8845805.html

  11. OK, Eric. So para dizer que li e agradeço o complemento (incluindo o artigo da F. Câncio). Continuo com algumas reservas, porque temo que afinal de contas o efeito principal tenha sido o de dar visibilidade ao grupo de extremo-parvalhões, em vez de favorecer uma reflexão sobre a iconologia simplista criada à volta do PAV. Mas percebo a argumentação. Alias, tradutor do PAV para francês, tive ocasião de publicar em 1998 um pequeno estudo (traduzido para português na altura) que vai na mesma direcção.

    Boas

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